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Enorme explosão provocada por um ataque israelita perto de Al-Mansouri, no sul do Líbano. (AFP)
O essencial da semana
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Por LevantTime .
Publicado em set 6, 2026 - 23:27
Enquanto os Estados Unidos pareciam ter optado apenas pela guerra econômica contra o Irã, o exército americano lançou abruptamente na terça-feira ataques contra o território iraniano, em retaliação a ataques contra petroleiros, desencadeando uma espiral de violência ao longo da semana. No Líbano, Israel libertou vários civis detidos em suas prisões, enquanto suas forças armadas ocupavam a colina estratégica de Ali el-Taher e prosseguiam com seus bombardeios massivos na zona que controla no sul do país. A semana de 31 de agosto a 6 de setembro foi marcada por uma nítida aceleração dos acontecimentos no Oriente Médio, depois de uma semana anterior que parecia mergulhada na estagnação. Na frente iraniana, já na noite de terça-feira, o exército americano realizou ataques direcionados em território iraniano, os primeiros em quase um mês. Esta captura de tela, feita em 6 de setembro de 2026 a partir de imagens de vídeo sem data divulgadas no mesmo dia pelo Comando Central dos EUA, mostra o que o Centcom apresenta como um dos petroleiros iranianos que destruiu em retaliação a tentativas de ataques com mísseis contra navios militares. (Centcom via AFP) No entanto, o ritmo relativamente contido desses ataques dá a impressão de que o governo americano optou por uma escalada controlada, mantendo ao mesmo tempo o bloqueio e as pressões econômicas contra Teerã. Ainda assim, a tensão não parou de crescer ao longo da semana. Explosões foram ouvidas no sábado na ilha altamente estratégica de Kharg, por onde passa a maior parte do petróleo iraniano. O presidente americano Donald Trump, por sua vez, ameaçou atacar o complexo nuclear de Kuh-e Kolang — “montanha da picareta” em persa, ou Pickaxe Mountain —, uma instalação fortemente protegida e enterrada a grande profundidade, não muito longe de Natanz, o principal centro de enriquecimento de urânio do Irã. Mais cedo na semana, ele havia formulado a equação do “petroleiro por petroleiro”, prometendo atingir um navio iraniano cada vez que os Guardiões da Revolução atacassem um petroleiro no Estreito de Ormuz. Foi exatamente isso que o exército americano fez no sábado, incendiando dois navios iranianos. No plano político, Donald Trump endureceu ainda mais o tom em relação a Teerã. Depois de afirmar em uma entrevista que as negociações estavam definitivamente congeladas “porque um acordo com eles não vale o papel em que está escrito”, ele declarou no sábado que o “conflito” com o Irã não era uma “guerra”, mas “algo corriqueiro” para os Estados Unidos. Uma forma de mexer com os nervos dos iranianos ao mesmo tempo em que tranquiliza sua opinião pública às vésperas das eleições de meio de mandato. Um porto, além de instalações de armazenamento e depósitos, foi danificado após um ataque militar americano realizado na província iraniana de Hormozgan, no sul do país, que faz fronteira com o estreito de mesmo nome, em 6 de setembro de 2026. (AFP) Ao mesmo tempo, a mídia americana Axios publicou no sábado uma reportagem sugerindo que os Estados Unidos já estão pensando além deste conflito, iniciado em 28 de fevereiro. O site afirma, citando autoridades americanas e outras fontes informadas, que o governo Trump está elaborando uma estratégia mais ampla para o Oriente Médio do pós-guerra. Ela se basearia na construção de um alinhamento regional destinado a conter o Irã, encerrar as repercussões regionais dos ataques de 7 de outubro de 2023 realizados pelo Hamas em Gaza e ampliar o círculo de normalização entre Israel e os países da região. A ameaça contra Kuh-e Kolang, que marca o ressurgimento da questão nuclear iraniana, ecoa um anúncio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que lamentou, em 1º de setembro, o fato de o Irã não ter reaberto seus sites aos inspetores após os ataques de maio de 2025. Vale lembrar que, apesar da magnitude da ofensiva israelo-americana contra os sites iranianos, é quase certo que o estoque de urânio enriquecido permaneça intacto e tenha sido colocado em local seguro pelas autoridades iranianas, que continuam apegadas ao que consideram ser seu direito de desenvolver um programa nuclear. Após o anúncio da AIEA, os Estados Unidos, mas também a França, a Grã-Bretanha e a Alemanha, manifestaram a intenção de apresentar uma resolução ao Conselho de Segurança da ONU condenando o descumprimento pelo Irã de seus compromissos em matéria de não proliferação nuclear. Uma unidade visível que contrasta com o clima frio entre Washington e seus aliados europeus desde o início do conflito. Já os iranianos parecem continuar a reagir às turbulências da mesma maneira: atacando vários países vizinhos, como o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos e a Jordânia, sem no entanto atacar diretamente Israel. Ataques maciços no sul do Líbano Na frente libanesa, Israel intensifica suas operações de destruição nas aldeias do sul, chegando a usar, em alguns casos, barris de explosivos. O presidente libanês Joseph Aoun pediu a Washington e à comunidade internacional que “façam cessar” os ataques israelenses no território libanês, que deixaram sete mortos no domingo em meio a uma trégua frágil. Os bombardeios atingiram diferentes localidades da região de Nabatiye. Vinte pessoas também ficaram feridas, entre elas crianças, segundo o Ministério da Saúde. Um ataque destruiu ainda o antigo hospital Ghandour, fora de funcionamento há anos. Libertação de detidos e tomada de Ali al-Taher Mas o evento mais importante da semana no sul foi a tomada, pelos israelenses, da colina estratégica de Ali al-Taher, na região de Nabatiye. O local era um importante quartel-general do Hezbollah, formado por um vasto emaranhado de túneis, de onde operavam combatentes do partido xiita, mas também, segundo algumas informações, combatentes iranianos. Na noite de quinta-feira, os israelenses anunciaram ter assumido o controle do complexo. No domingo, o ministro israelense da Defesa, Israel Katz, declarou que ainda restavam túneis a serem dinamitados. Esse “sucesso” militar talvez não tenha sido uma surpresa após semanas de bombardeios, mas a reação do Hezbollah foi, sim, surpreendente. Depois de garantir por muito tempo que se recusaria a ceder essa colina estratégica — assim como os iranianos, que também haviam ameaçado intervir —, o partido xiita acabou minimizando o impacto desse desenvolvimento por meio de seus veículos de mídia e porta-vozes, sem, no entanto, confirmar oficialmente a perda do local, que havia se recusado a preservar entregando-o ao exército libanês. A outra grande surpresa da semana foi a libertação, por Israel, de cinco civis libaneses e sírios detidos em suas prisões. Essa medida ocorreu após uma visita a Tel Aviv do embaixador dos Estados Unidos no Líbano, Michel Issa. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira “ocorre em seguimento aos esforços empreendidos por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os corpos dos líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano” entre 1984 e 1986. Mais uma vez, a reação do Hezbollah chama a atenção. Embora considere a medida positiva, mas insuficiente, o partido voltou a atacar as autoridades libanesas, acusando-as de “submissão ao inimigo” e responsabilizando-as pelo desastre no sul. Chegou até a alertá-las contra “os conflitos internos”. Será que os reveses militares do partido poderiam levá-lo a se voltar ainda mais contra o cenário interno? Por fim, o exército israelense fez no domingo uma declaração importante, anunciando que está considerando reduzir sua zona de ocupação no Sul do Líbano, passando da atual "zona amarela" para uma "zona cinza". Segundo essa interpretação, tal mudança refletiria uma diminuição da ameaça representada pelo Hezbollah. A medida, no entanto, ainda não foi aprovada pela liderança política israelense. Iêmen e Palestina A semana também foi particularmente tensa no Iêmen, onde os confrontos entre os rebeldes houthis e as forças governamentais não pararam de se intensificar, culminando em um sábado especialmente sangrento, com mais de 60 mortos em um único dia, elevando para cerca de 200 o número de vítimas desde quinta-feira. A ofensiva dos houthis busca sobretudo tomar o controle de certas áreas ao redor da passagem de Bab al-Mandab, o que daria a esse aliado do Irã uma vantagem adicional sobre outro ponto estratégico crucial, depois do estreito de Ormuz. Na Palestina, declarações particularmente preocupantes de Israel Katz sobre Gaza marcaram a semana. Ele afirmou, sem apresentar provas, que a maioria dos habitantes da faixa desejava deixá-la, ressaltando que Israel estava "pronto para essa evacuação em massa". Isso deixa entender que o calvário dos habitantes de Gaza está longe de terminar. Por fim, vale destacar que a AIEA anunciou, em 1º de setembro, que infraestruturas descobertas em Deir ez-Zor, na Síria, indicam que o antigo regime de Bashar al-Assad preparava secretamente um programa nuclear avançado, capaz de resultar na fabricação de uma arma atômica com a ajuda de especialistas norte-coreanos.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado em set 6, 2026 - 13:31
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O jogador argentino, que encerrou sua carreira internacional em 31 de agosto de 2026, não era nada menos que um prestidigitador dos estádios. Sua trajetória, feita de prodígios, quedas e redenção, talvez diga algo sobre nossa necessidade intacta de encantamento em um mundo que, no entanto, pretende ter se livrado dele. Anunciada poucas semanas depois da final da Copa do Mundo de 2026 perdida para a Espanha, a aposentadoria internacional de Lionel Messi não deixou de provocar uma emoção para a qual é difícil encontrar muitos equivalentes na história recente do futebol. Provavelmente seria preciso remontar a Maradona, ou ainda a Cruyff ou Pelé, para reencontrar essa sensação de que, com a retirada de um jogador, desaparece algo que ultrapassa em muito o próprio esporte, como se certa maneira de habitar o futebol, ou até mesmo de acreditar nele, também chegasse ao fim. Longe dos glacis da razão Chega das estatísticas intermináveis e das insuportáveis querelas, tediosas e estéreis, em torno de “quem é o melhor de todos os tempos». O autor destas linhas nunca foi um fanático pela bola, nem por classificações verticais ou por uma hierarquia do mérito em geral e, portanto, aprecia o talento de cada jogador com o mesmo olhar maravilhado de uma criança de 11 anos. De resto, essa obsessão particularmente contemporânea pelos números estraga todo o prazer do espetáculo. E com razão: o procedimento que consiste em somar gols, assistências, Bolas de Ouro, Ligas dos Campeões, Copas América, Copas do Mundo… só pode ser redutor. Em outro registro, ele não deixa de evocar a crítica desenvolvida pelo filósofo germano-americano Eric Voegelin à tentação gnóstica moderna: a de um saber convencido de que pode encerrar a realidade em um sistema e abolir aquilo que lhe resiste. Os recordes são provavelmente um indicador do gênio de Lionel Messi. Mas tantos outros grandes jogadores que fizeram vibrar os estádios e os corações, sem realizar sequer metade dos feitos de Messi, permanecem, ainda assim, eternos na memória. Aquilo que os tornou verdadeiramente singulares encontra-se em outro lugar, longe dos glacis da razão. Algo mais se jogou em torno deles. Algo que pertence a certo sentido profundo da transcendência, que o entendimento jamais poderia apreender plenamente. Esse é o caso de Lionel Messi há mais de vinte anos, desde o dia em que, sob o olhar do “ícone”Diego Maradona, fez sua primeira entrada, em junho de 2006, na arena da Copa do Mundo com as cores da Albiceleste contra Sérvia e Montenegro. Ora, esse elemento indizível que constitui o gênio de Messi, como o de outros, talvez toque em um dos paradoxos mais curiosos da modernidade: a persistência da magia em um mundo que se construiu precisamente contra ela. O mundo desencantado Max Weber falava do desencantamento do mundo para designar esse lento processo pelo qual a modernidade ocidental submeteu progressivamente a existência à racionalização, ao cálculo, à previsibilidade e à explicação causal. O mundo já não deveria ser atravessado por forças obscuras, sinais, intervenções sobrenaturais ou vontades invisíveis; deveria, ao menos em princípio, tornar-se inteligível. Infelizmente, o esporte moderno, e mais amplamente o mundo moderno herdado da globalização, insere-se perfeitamente nessa dinâmica. O futebol de hoje, e não apenas o futebol, é provavelmente um dos objetos mais quantificados que existem. O menor gesto é medido, e tudo é cuidadosamente calculado e modelado. Da matemática à inteligência artificial, o talento bruto depende agora mais da ciência do que do encantamento. É aquilo que há de humano, em sua relação espontânea, até selvagem, com o invisível que nasce do coração, que desaparece diante de nossos olhos em benefício da quadratura do VAR. É, de certo modo, o assassinato do esporte em nome de mais rigor e equidade… ainda que a eutanásia dessa parcela de espontaneidade sublime acabe provocando, ela própria, injustiças flagrantes. Basta, para constatá-lo, voltar a algumas das decisões controversas da Copa do Mundo de 2026. Paradoxo dos paradoxos, o próprio Lionel Messi foi, desde a origem, filho dessa modernidade técnica, da qual certamente deve parte de sua carreira excepcional. Seu corpo, pequeno demais para os padrões esperados, foi corrigido por meio de tratamento hormonal. Identificado muito cedo, seu talento foi assumido por uma instituição que organizou sua formação, alimentação, desenvolvimento físico e integração em uma máquina esportiva já globalizada. Nada, em aparência, poderia estar mais distante do velho relato heroico. À primeira vista, a história se parece mais com distopias do tipo Gattaca do que com mitos e narrativas messiânicas. E, no entanto, esse velho relato de fato retornou, e até com uma insistência quase constrangedora. Desde o início de sua carreira, Lionel Messi foi colocado sob o microscópio. Mas quanto mais se esforçavam para explicá-lo e desmistificá-lo, menos conseguiam dissipar inteiramente a impressão produzida por alguns de seus gestos. O homem simplesmente não consegue ser circunscrito nem reduzido a um acúmulo de dados. Na idade em que a maioria dos grandes jogadores volta para as sombras, ele continua surpreendendo. Estupefazendo, até, ao trazer ao esporte essa parcela de insensatez que escapa à hipersistematização quase robótica do mundo. É provavelmente aí que se deve procurar esse outro lugar que caracteriza Messi. Numa sobrevivência da magia num momento em que até os espaços que permitiam a expressão positiva de uma humanidade feita de carne e sangue se veem progressivamente “disciplinados”por essa atração hipnótica por uma nova gnose puritana em nome da modernidade. O Messias fabricado pela máquina Embora oriundo, de certo modo, da máquina matricial, Lionel Messi constitui, por si só, um questionamento desse modelo de prêt-à-porter. Uma espécie de alter ego do Neo de Matrix, lançado numa simulação governada por parâmetros que pretendem calcular tudo. O destino do argentino adquiriu progressivamente, quase contra sua vontade, a forma de uma narrativa messiânica. O trocadilho com seu nome seria fácil demais se sua própria história não o tivesse constantemente relançado: a da criança frágil, cujo corpo parecia querer negar a realização à qual seu talento a destinava. Depois, a do exílio ainda muito jovem para Barcelona, da adoção por uma cidade estrangeira, da ascensão quase irreal, do reconhecimento mundial e, em seguida, dessa estranha dificuldade de ser reconhecido pelos seus… Durante muito tempo, a Argentina manteve com seu filho pródigo uma relação de hainamoration. Pouco importavam seus resultados, seu talento, seu brilho… ele precisava responder a uma única pergunta, impiedosa: por que não era Maradona? A comparação era certamente inevitável, mas também profundamente injusta. Tudo separava os dois homens em sua maneira de estar no mundo. Maradona carregava a Argentina com tudo o que ela podia ter de passional, contraditório, excessivo e teatral. Falava, provocava, brigava, caía, voltava, misturava ao futebol sua vida privada, suas cóleras, seus compromissos políticos… até sua própria destruição. Seu próprio corpo parecia transformar-se em um dos lugares onde se encenavam as contradições de seu país. Maradona era a própria encarnação daquilo que o mundo esperava do futebol: uma alma rebelde, levando por vezes o jogo até a imoralidade, mas dentro de uma espécie de gigantomaquia futebolística. Maradona era épico. E, sobretudo, havia colocado seu país no firmamento do futebol em 1986. Messi, por sua vez, não oferecia nada disso. Era silencioso, às vezes quase ausente da narrativa que os outros construíam ao seu redor, ausência que durante muito tempo foi interpretada como defeito. Quase apagado, sem personalidade. Era justamente isso que os dois gigantes, Maradona e Pelé, lhe censuravam: falta de liderança, ser liso demais. Uma espécie de bebê de proveta milagroso dos estádios. Também se censurava ao menino de Rosario não cantar suficientemente o hino, não ser argentino o bastante, ter sido “fabricado”por Barcelona e, naturalmente, não vencer com a seleção aquilo que ganhava quase continuamente com seu clube. A profecia inacabada A final da Copa do Mundo de 2014, perdida de maneira dramática para a Alemanha, seguida pelas finais da Copa América de 2015 e 2016, havia transformado progressivamente essa suspeita em acusação. Quando perdeu seu pênalti contra o Chile em 2016 e anunciou depois que deixava a seleção, ele já era, no entanto, um dos maiores jogadores da história do futebol. Mas sua narrativa permanecia estranhamente inacabada. O sentimento de incompletude pouco dizia respeito ao seu currículo. Tratava-se antes daquela necessidade quase arcaica continuamente imposta aos heróis modernos: concluir seu percurso iniciático. Com as cores argentinas, Messi brilhava e depois caía pesadamente. Mas não se levantava. Não cumpria a profecia. E, aos olhos de seu povo, isso reforçava o sentimento de hainamoration: um deus caído continua sendo um deus, apesar de tudo. Mas acrescido daquilo que, aos olhos de seus adoradores, constitui um substrato de humanidade insuportável e, portanto, perfeitamente detestável: suas taras, suas fraquezas. Os argentinos amavam Maradona apesar de sua decadência espetacular e de sua humanidade falível. Mas isso porque ele havia “merecido”essa decadência, porque ela se tornara, de algum modo, aceitável depois do México de 1986. Messi, por sua vez, ainda não tinha o direito de cair, porque ainda não havia chegado ao topo. Não, a profecia não estava cumprida. Começava até a virar caricatura. Messi voltou, portanto. Mas ainda teve de esperar por sua redenção. Foi preciso a Copa América de 2021, no Maracanã, para que essa relação feita de suspeita, expectativa e decepção com seu público e seu povo começasse verdadeiramente a mudar. E foi preciso, sobretudo, a Copa do Mundo de 2022 para que a história adquirisse aquela forma quase perfeita demais que ninguém teria ousado escrever sem parecer ceder a uma facilidade de roteirista. Fato estranho, Maradona havia morrido em 2020. Era como se uma espécie de maldição nacional opressiva tivesse sido levantada. Ao mesmo tempo, o povo argentino precisava de uma figura paterna substituta, e a pressão não fazia senão redobrar. Mas talvez misturada, dessa vez, com um pouco de ternura? O que aconteceu no Catar em 2022 é ainda mais interessante porque o próprio Messi aparece ligeiramente diferente. Protesta mais, responde às provocações, irrita-se, fala com uma violência de que poucos o julgavam capaz e deixa até escapar aquele “¿Qué mirás, bobo?”diante dos neerlandeses, para diversão da Argentina. Buenos Aires finalmente descobre, com atraso, aquilo que sempre esperou dele. Um pouco de Maradona dentro de muito Messi. Mas Messi não se transforma, por isso, em Maradona. E talvez seja precisamente aí que ocorra a verdadeira reconciliação: a Argentina deixa de lhe pedir que seja Maradona. A partir de 2022, Messi já não precisa encarnar outro modelo do gênio nacional. Finalmente pode tornar-se, também para seu país, aquilo que já havia sido em todos os outros lugares: Messi. Simplesmente. O ato final da profecia É verdade que o triunfo de 2022 poderia ter constituído um final perfeito. Mas, como no caso de Maradona, o ato final da profecia heroica é a queda. Ninguém esperava realmente algo excepcional de Messi em 2026. Aos 39 anos, considerava-se amplamente que ele já fazia parte dos “heróis cansados». A queda do Capitólio havia ocorrido com o episódio amargo de sua saída do FC Barcelona e sua desventura no PSG. Já não atuava senão na liga americana, com as cores de Miami… na periferia do mundo do futebol, nas terras distantes do soccer. E a nova geração já estava ali, pronta para mandar os ancestrais a Bicêtre. No entanto, aquela Copa do Mundo de 2026, que parecia destinada a não passar de um epílogo, transformou-se num último golpe de brilho sensacional. A Argentina chegou novamente à final, com Messi, aos 39 anos, ainda como seu “líder histórico”e seu recurso nos momentos decisivos, realizando algo que não deixava de lembrar o que Roberto Baggio fizera pela Itália em 1994, aos… 27 anos: um deus ex machina permanente. Baggio fracassou às portas do triunfo contra o Brasil depois de praticamente carregar a Itália até Pasadena. Seu pênalti enviado por cima do travessão deixaria uma das imagens mais cruéis da história das Copas do Mundo: a de um homem imóvel, de cabeça baixa, mãos na cintura, enquanto o Brasil celebrava a vitória. Aquele que havia “morrido de pé». O duende italiano jamais conheceu a apoteose. Mas essa morte simbólica, longe de apagar seu Mundial, acabou também entrando para sua lenda. A história foi mais clemente com Messi, apesar de uma campanha de ódio contra ele, misturada a acusações de trapaça e favoritismo, num pano de fundo de decisões arbitrais controversas e atos antidesportivos de sua equipe, como havia sido outrora com Maradona. Ainda mais, até. Uma final em sua sexta Copa do Mundo, às portas da aposentadoria, com uma atuação individual extraordinária? É precisamente aí que reside aquilo que há de mágico no fenômeno Messi e que desafia a razão e sua avalanche de estatísticas. O gênio não pode ser encerrado numa soma de parâmetros e variáveis. Sua condição física, mesmo ótima, não pode explicar por si só aquilo de que o mundo inteiro foi testemunha. E pouco importa que sua história nos lembre que o herói, por mais mítico que seja, não pode abolir a sinistra influência de Saturno. O reencantamento do mundo Pois, para além da profecia cumprida, da ascensão à queda, com sua parcela de alegrias e desventuras, o argentino ofereceu ao mundo uma última volta que pertence à arte, quando não a uma forma de poesia homérica. Com a retirada de Lionel Messi da cena internacional, desaparece um pouco da magia do mundo… até que outro herói providencial volte a encantar os estádios. Durante mais de vinte anos, Messi terá encarnado a coexistência de dois mundos que julgávamos incompatíveis: o da racionalização extrema do esporte moderno e aquele, muito mais antigo, do herói, do sinal, da espera e do encantamento. Quando Messi parte, algo dessa contradição aparece de repente. Outros prodígios já surgiram, mas talvez descubramos, justamente no momento em que um de seus últimos grandes representantes deixa a cena, o quanto continuamos precisando de transcendência. O mundo moderno provavelmente não suprimiu o encantamento. Apenas o deslocou. Durante noventa minutos, esse homem chamado Lionel Messi, que o encarnou nos gramados, parte depois de ter realizado tudo. E até mais.
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Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad - Publicado em set 5, 2026 - 20:01
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A pergunta “O mundo ficou mais burro?”reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta “Ficamos mais burros?”não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de “reprodução serial”. Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é “preservado”, mas “reproduzido”. É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de “cadeia do guaxinim”, que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do “guaxinim”não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A “cultura do guaxinim”, portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: “O meio é a mensagem”. O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de “ilusão cognitiva”: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de “semiletrados”: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando “Abaixo a Declaração Balfour!”. A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em “Que alguém caia lá de cima!”, uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um “colapso da inteligência”, mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta “Ficamos mais burros?”torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do “ambiente do conhecimento”: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
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Nassib Lahoud, o « perdedor magnífico »
Por
Michel Hajji Georgiou
Publicado

Há catorze anos, em 1º de fevereiro de 2012, desaparecia o ex-deputado e ex-ministro Nassib Lahoud. Em tempos em que o populismo devasta o mundo, e o Líbano parece ter sido, mais uma vez, precursor da vaga atual, é saudável evocar a memória de um homem que, ao longo das últimas três décadas, transmitiu e defendeu outra visão, outra prática do político. E isso em solo libanês, onde as paixões gregárias impulsionam naturalmente um modelo muito definido de chefe histórico exaltado ou de raposa utilitarista desencantada vestida com os andrajos do sectarismo, em vez de homens de Estado serenos, dotados de ideias modernas e de uma visão profunda e estratégica da coisa pública. Em toda parte, no Velho Mundo como no Novo, um certo tipo de liderança tradicional, fundada no medo, no fechamento e num etnocentrismo identitário, passou a prevalecer sobre o discurso de abertura, moderação e adesão aos valores que estiveram na origem da finalidade da pessoa humana e da ideia de uma comunidade internacional habitada pelo ideal de uma ordem que não se funde na força bruta, mas na solidariedade, na justiça, no direito e na paz. Como tudo isso parece utópico hoje! No país do Cedro, a regressão é ainda mais sensacional, dadas as formas de lealdade pré-estatal, do clã e do feudalismo ao milicianismo teocrático, tudo temperado com a dose necessária de comunitarismo para acalmar as angústias ontológicas de uns e de outros. A duplicidade domina em toda parte, inclusive entre os predadores narcisistas que se reivindicam, angelicamente, modernos e progressistas, quando não fazem senão reproduzir, sob seus pseudodiscursos reformistas, os esquemas habituais de um tradicionalismo engessado na esclerose do nepotismo, com seu lote ancestral de corrupção, vícios e mentiras. O hábito não faz o monge; menos ainda o homem de Estado, e o balbucio político ainda tem muitos dias pela frente. Nesta longa, longuíssima noite do político, longe de se dissipar entre os fantasmas da memória, uma figura como a de Nassib Lahoud, com sua calma, lucidez, medida, rigor, senso das instituições, seu brio, sua elegância e sua nobreza, continua a brilhar intensamente e a mostrar o caminho. Porque Nassib Lahoud não era um responsável político como os outros. Ele fazia parte desses raríssimos que representavam um modelo, um projeto de futuro. Uma verdadeira aposta num país que prefere render-se a um realismo político cínico, desacreditando como irreais todos aqueles que não confundem política com astúcia, poder com brutalidade e Estado com seu simulacro. E, no entanto, Nassib Lahoud não era um sonhador. Não mais do que Raymond Eddé, Albert Moukheiber, Fouad Boutros, Samir Frangié, Hassan Rifai ou Michel Khoury, para citar apenas alguns. Seu defeito fundamental? Ele escapava às “normas políticas” herdadas da desagregação do Estado libanês, da guerra e de uma servidão voluntária ao mais forte ou ao mais pagador. Assim, ele não precisava de arroubos espetaculares nem de ocupar sonoramente o espaço público, nem de hordas de apoiadores ávidos de se entregar de corpo e alma para preencher uma necessidade patológica de poder e reconhecimento. Nassib Lahoud era uma presença densa, jamais invasiva; uma autoridade que não buscava impor-se porque não tinha nada a provar. Seus valores falavam por ele. Sua percepção do ser humano, sua ambição de restaurar o Estado, de comandar servindo os cidadãos em vez de dominá-los, faziam dele um líder natural. Ele não precisava fundar sua legitimidade em feitos de guerra, em gloriolas insípidas maculadas de sangue, e é bom lembrá-lo num momento em que o passado e seus demônios continuam a envenenar o discurso político libanês, como se não houvesse meio de estabelecer uma autoridade que não se apoiasse em memórias fragmentadas e disjuntas. Sim, Nassib Lahoud fazia parte dessa espécie rara de homens para os quais a política não era um teatro, mas uma disciplina interior. Uma postura. Uma contenção, até. Na contramão da virilidade barulhenta e das poses marciais, ele assumia o caminho que traçara: a medida como força, a lentidão como virtude, a precisão como moral. Cada palavra pesada o era por senso de gravidade e responsabilidade. No fundo, Nassib Lahoud respeitava o espaço do político porque respeitava os outros. E respeitava seu país: suas fragilidades, seus equilíbrios instáveis, seu pluralismo irredutível, sua soberania, suas liberdades. A experiência da guerra lhe ensinara, muito cedo, que o Líbano não sobreviveria a homens apressados, nem a homens embriagados de certezas, nem a vende patria vis e corruptíveis; menos ainda a homens convencidos de encarnar o destino. O Líbano, para se manter, precisava de árbitros mais do que de chefes, de guardiões mais do que de conquistadores. Precisava de um Estado capaz de dizer não, inclusive aos seus, e de uma presidência agregadora, capaz de governar e arbitrar com a força da Constituição, sem manifestações apopléticas, sem disputas de poder. É nisso que Nassib Lahoud era um homem de Estado no sentido pleno, quase clássico do termo. Ele fazia parte de uma minoria no Líbano que pensava a soberania sem histeria, a reforma sem ressentimento e a identidade sem crispação. Seu libanismo não era uma incantação nem um fetiche: repousava sobre um equilíbrio de ourives entre liberdade e regra, diversidade e unidade, abertura árabe e autonomia nacional. Uma libanesidade adulta, libertada de complexos e fantasmas, livre das febres que corroeram o ser nacional durante décadas, até a destruição, a submissão, a vergonha… quase até o desaparecimento. Nesse sentido, o seu “fracasso” político, se é que é preciso chamá-lo assim, não é apenas o de um homem. Foi o do “sistema” que, a cada bifurcação decisiva, escolheu escutar as sereias em vez do bom senso. Como poderia ser diferente num país em que a mobilização afetiva é inevitavelmente privilegiada sobre a construção institucional e em que a força, misturada à hipocrisia, sempre foi o meio para cada comunidade e, por trás dela, para cada indivíduo, existir diante de um outro real ou virtual? Nassib Lahoud não foi afastado por falta de clarividência. Simplesmente, ele tinha clarividência demais para uma classe política já engajada em sua própria abdicação moral. À distância, sua figura pode parecer quase anacrônica. E, no entanto, ela é de uma atualidade ardente. Em tempos de colapso generalizado, de desagregação do Estado, de devoração das instituições por lógicas infraestatais ou predatórias, Nassib Lahoud nos faz falta justamente porque não oferecia soluções milagrosas, mas uma bússola: uma ética da decisão, uma ideia exigente da função pública como serviço. Referências. O Líbano de hoje sofre de um déficit de caráter e de valores. Eis o mal endêmico. E Nassib Lahoud pertencia justamente a essa linhagem rara para a qual a política é, precisamente, uma questão de caráter, no sentido quase antigo do termo: uma coerência entre aquilo que se pensa, aquilo que se diz e aquilo que se faz. Em outras palavras, uma fidelidade a si mesmo que não é narcisista nem patológica, mas estruturante. Diz-se frequentemente, depois de sua morte, que ele foi o “presidente que o Líbano não teve”. É verdade. Mas é ainda mais grave do que isso. Ele era o tipo de presidente que aterrorizava todo mundo: a ralé, os senhores da guerra, os adeptos da politiquice de sarjeta e os grandes padrinhos “realistas” que, por conveniência, preferem plebiscitar a mediocridade. E talvez seja aí, no fundo, que reside nossa responsabilidade coletiva mais pesada. Seja como for, fica de Nassib Lahoud essa lição silenciosa, quase severa: a lição de um homem que preferiu perder a trair a ideia que fazia do Estado. Num país onde se ganha demasiadas vezes renegando a si mesmo, essa lição, a mais bela, a do “perdedor magnífico”, continua a incomodar. E ainda bem.

O Louvre Abu Dhabi, uma ponte entre civilizações (2/2)

O Louvre Abu Dhabi está no centro de uma estratégia deliberada para consolidar o emirado como um polo cultural internacional. O museu materializa a ambição de Abu Dhabi de se posicionar como uma ponte entre civilizações, buscando superar a imagem de uma sociedade emiradense vista como “puramente movida pelo petróleo” e afirmar uma identidade claramente voltada para a cultura global. Trata-se de uma grande instituição artística, concebida como um museu universal, que destaca as interações da criatividade humana entre culturas, civilizações, religiões, épocas e preconceitos. Disposição e cenografia No Louvre Abu Dhabi, as obras são apresentadas segundo uma abordagem curatorial singular, que privilegia narrativas universais, como criação, religião, poder e troca, em vez de divisões geográficas rígidas. Trata-se de uma proposta pouco comum no universo museológico. As galerias são organizadas em capítulos temáticos e cronológicos, permitindo que obras do Oriente e do Ocidente sejam exibidas lado a lado, promovendo um diálogo intercultural fundamentado tanto na visão de abertura de Abu Dhabi quanto na expertise museológica francesa. Como o primeiro museu universal do mundo árabe, oferece uma leitura global e comparativa da história da arte, em vez de uma narrativa estritamente nacional ou ocidental. As coleções O museu abriga uma coleção em constante expansão, com mais de 600 obras e artefatos excepcionais, que abrangem a história da humanidade em todas as categorias. Parte dessas peças é emprestada pelo Louvre de Paris e por mais de treze outras instituições francesas. As exposições são rotacionadas regularmente para manter o interesse do público, tornando o museu um espaço dinâmico e especialmente atrativo. O Louvre Abu Dhabi opera a partir de uma parceria de longo prazo entre o governo de Abu Dhabi e o Louvre de Paris. Essa colaboração inclui empréstimos de obras, intercâmbio de conhecimento científico e apoio à programação, além da organização de exposições temporárias complexas, curadas em conjunto com diversos museus europeus. Empréstimos icônicos Cerca de 300 obras de grande relevância foram emprestadas por treze instituições francesas nos primeiros anos do museu. Entre elas estão La Belle Ferronnière , de Leonardo da Vinci; Napoleão atravessando o passo do Grande São Bernardo , obra-prima de Jacques-Louis David; A Gare Saint-Lazare , de Claude Monet; um autorretrato de Van Gogh; além de trabalhos de Manet, Kandinsky, Matisse, Rothko, Andy Warhol, Dürer e Ticiano, entre outros nomes consagrados. A coleção também inclui objetos históricos, como uma taça de ouro do Império Aquemênida e uma caravela. Em 2025, o acervo foi ampliado com novas aquisições e empréstimos internacionais, incluindo sarcófagos cristãos e pinturas modernas. Obras adquiridas pelo museu Entre 2023 e 2025, o museu reforçou sua credibilidade acadêmica com novas aquisições permanentes. Entre elas, destacam-se uma estátua de duas cabeças proveniente de Ain Ghazal, com cerca de 8.000 anos, e um busto colossal de Ramsés II, da era faraônica. O museu também incorporou uma joia do barroco, A menina com o braseiro , de Georges de La Tour, além de diversas esculturas de Rodin e obras de Kandinsky, Giacometti e pinturas de Picasso. Serviços educativos, formação e parcerias acadêmicas Mais do que um espaço de visitação cultural, o museu atua como um centro pedagógico e oferece formação continuada para escolas em todos os Emirados. São desenvolvidos diversos programas educativos e cursos de capacitação para professores, incentivando o uso do museu como complemento ao currículo escolar e promovendo o desenvolvimento do pensamento crítico entre os estudantes. O Louvre Abu Dhabi também estabeleceu parcerias universitárias, incluindo um memorando de entendimento com a NYU Abu Dhabi, além de uma colaboração com a Sorbonne Abu Dhabi e a École du Louvre para oferecer um mestrado profissional em “Profissões de Museu”, o primeiro programa desse tipo na região do Golfo. Vale ainda destacar a missão inclusiva da instituição que, por meio do programa “Louvre Abu Dhabi para Todos”, promove apresentações e atividades acessíveis a pessoas com necessidades especiais. Em síntese, o Louvre Abu Dhabi se afirma como um museu satélite de relevância global, que articula cultura, educação, pesquisa acadêmica e soft power. O espaço ocupa um papel central como instituição patrimonial, polo educacional e vitrine internacional dos Emirados Árabes Unidos.

Diante da imponente armada dos EUA, o Irã aposta na tergiversação

Após a implantação da impressionante armada americana perto da costa iraniana, várias opções militares surgem se a Casa Branca decidir intervir. Por enquanto, o braço de ferro com o regime dos aiatolás permanece essencialmente verbal: comunicados, avisos e demonstrações de força ritmam a escalada. A cada endurecimento do tom de Donald Trump, Teerã responde com ameaças de represálias massivas. Do lado americano, uma certeza parece impor-se: nenhuma intervenção terrestre está prevista. Vários observadores, contudo, estimam que o presidente americano procurará primeiro uma solução diplomática antes de recorrer à força. Do lado iraniano, a incerteza permanece total: até onde o regime pode resistir a novas exigências americanas? Em que momento poderia ceder? Exigências americanas endurecidas, recusa iraniana confirmada Na noite de quinta-feira, o presidente americano declarou que “espera não ter de usar essa força” militar implantada, depois de ter apelado no dia anterior para se concluir um “acordo justo e equitativo – sem armas nucleares”. Mas desde os ataques de junho de 2025 contra instalações nucleares iranianas, “o preço pedido ao Irã por um acordo aumentou consideravelmente”, estima Farzan Sabet, especialista em Irã no Geneva Graduate Institute, entrevistado pela AFP. Washington exige agora a proibição total do enriquecimento de urânio, a limitação das capacidades balísticas iranianas, bem como o “desmantelamento ou severas restrições impostas ao seu ‘Eixo da Resistência’”, que inclui os Houthis no Iêmen e o Hezbollah libanês”, explica ele. Para Teerã, tal oferta equivaleria a “uma forma de capitulação”, sublinha David Khalfa, cofundador do Atlantic Middle East Forum (AMEF). Segundo ele, Donald Trump “optará pela opção militar”, nomeadamente para demonstrar a sua capacidade de fazer respeitar as suas linhas vermelhas. Os meios militares americanos implantados Afirmando seguir sua “própria moralidade” como única bússola, Donald Trump alertou na semana passada que uma “enorme armada” estava a caminho do Golfo. Este anúncio ocorreu após seu apoio declarado aos manifestantes iranianos, cujo movimento foi violentamente reprimido, resultando em dezenas de milhares de mortos, segundo ONGs. Esta força inclui o porta-aviões Abraham Lincoln , seus 80 aviões, bem como uma escolta de três destróieres equipados com capacidades antimísseis e mísseis de cruzeiro Tomahawk. O grupo aeronaval é geralmente acompanhado por um submarino de ataque, também capaz de atingir alvos terrestres. A opção de ataques limitados Donald Trump poderia visar os navios que exportam petróleo iraniano, como fez contra a Venezuela, a fim de asfixiar a economia do país e obter um “acordo”, indica Farzan Sabet. Ele poderia também conduzir “ataques pontuais, ou uma guerra limitada a objetivos restritos, permitindo-lhe dizer que fez respeitar sua linha vermelha sem se envolver em uma nova guerra no Oriente Médio, e poderia declarar vitória”, explica ele. Estas operações visariam prioritariamente os sistemas de defesa antiaérea, as rampas de lançamento de mísseis e de drones, à imagem dos ataques israelenses de junho. Segundo Eva Koulouriotis, analista independente do Oriente Médio, esses ataques poderiam visar os Guardiões da Revolução e as milícias Bassidj envolvidas na repressão. “Os serviços de inteligência americanos, com o apoio do Mossad israelense, têm uma visão clara dessas forças”, precisa ela. A hipótese de ataques massivos Um cenário mais radical consistiria em ataques de decapitação visando “todos os pilares do regime iraniano, começando pelo topo da pirâmide, o guia supremo Ali Khamenei”, depois as forças armadas, a liderança dos Guardiões da Revolução e os altos funcionários políticos, segundo Eva Koulouriotis. “Isso incluiria também a neutralização das principais bases militares, do programa de mísseis e do que resta do programa nuclear”, acrescenta ela. “O objetivo americano é fazer o regime vacilar. Há, portanto, uma estratégia para paralisá-lo e desorganizar a cadeia de comando”, explica David Khalfa. Essa abordagem “passa pela eliminação de Khamenei, de seus conselheiros próximos e dos líderes do comando dos Pasdaran”. Ele ressalta, no entanto: “O regime é relativamente sólido e resiliente, não será uma tarefa fácil”, ainda mais porque “os Guardiões anteciparam esse cenário”. Nessa lógica, “a hipótese implícita de Washington é que as ‘boots on the ground’ seriam fornecidas pela própria sociedade iraniana”, acrescenta ele. Farzan Sabet ressalta, no entanto, que nada indica, nesta fase, que Washington privilegie explicitamente uma mudança de regime. As capacidades de retaliação iranianas Embora largamente afetadas pelos ataques do outono de 2024 e de junho de 2025, as capacidades de resposta iranianas subsistem. Teerã ainda disporia de 1.500 a 2.000 mísseis balísticos de médio alcance capazes de atingir Israel, segundo Farzan Sabet. O Irã possui também mísseis balísticos de menor alcance, “muito mais precisos”, bem como mísseis de cruzeiro e antinavio suscetíveis de perturbar gravemente a navegação no Golfo, sem contar suas lanchas rápidas lança-mísseis. O chefe do exército iraniano anunciou, além disso, que os regimentos de combate foram equipados com “1.000 drones estratégicos”. Para Eva Koulouriotis, a decisão de Teerã de retaliar ou não “dependerá da natureza e da amplitude do ataque americano”. O papel chave das bases militares americanas Ao grupo aeronaval do Abraham Lincoln somam-se importantes dispositivos militares americanos na região. Em resposta às ameaças americanas, o Irã lembrou que muitas bases dos EUA estão ao alcance de seus mísseis. No Bahrein encontra-se a Atividade de Apoio Naval, que abriga a Quinta Frota Americana e o quartel-general das Forças Navais Centrais dos Estados Unidos. O Kuwait abriga várias instalações importantes, incluindo o Campo Arifjan, sede do quartel-general avançado do componente terrestre do CENTCOM . O emirado também abriga estoques de material pré-posicionado, bem como a base aérea de Ali al-Salem, onde está estacionada a 386ª Esquadra Expedicionária Aérea. Drones, incluindo MQ-9 Reapers, também estão lá implantados. A base aérea de Al-Udeid, no Catar , reúne os componentes avançados do CENTCOM, suas forças aéreas e suas forças especiais. Abriga a 379ª Esquadra Expedicionária Aérea e constitui a maior base americana da região, com mais de 40.000 militares americanos, britânicos e franceses. Finalmente, a base de Al-Dhafra, nos Emirados Árabes Unidos, abriga a 380ª Esquadra Expedicionária Aérea americana, composta por dez esquadrões e que também integra drones MQ-9 Reapers.

Colapso do Sudão: a guerra pela guerra (1/4)
Por
Michel Hajji Georgiou
Publicado

Foco analítico sobre a guerra no Sudão que, desde 2023, já resultou em dezenas de milhares de mortos e milhões de deslocados, com um custo humano particularmente avassalador em Darfur, onde a violência em massa, os cercos e os deslocamentos forçados assumiram uma dimensão que muitos atores internacionais agora qualificam como genocida. O Sudão não desmoronou de uma só vez. Desfez-se em camadas sucessivas, ao ritmo de uma guerra que não visa nem a tomada duradoura do poder nem a reconstrução de uma ordem política, mas o esgotamento progressivo do que ainda resta do Estado. Desde abril de 2023, a violência instala-se como um regime em si, transformando o país num espaço fragmentado onde o longo tempo do conflito conta mais do que qualquer vitória militar pontual. O confronto entre as Forças Armadas Sudanesas (FAS), lideradas pelo General Abdel Fattah al-Burhan, e as Forças de Apoio Rápido (RSF) de Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti, é apenas a superfície visível de um processo mais profundo, que eclodiu no vazio político deixado após a queda de Omar al-Bashir em abril de 2019, quando a aliança de circunstância entre o exército regular e as RSF se desfez sobre a questão do controlo do aparelho militar, da integração das milícias e da partilha real do poder num Estado já profundamente deslegitimado. É importante recordar, neste contexto, que as RSF têm a sua origem direta nos Janjaweed, as milícias árabes de sinistra memória, mobilizadas pelo regime de al-Bashir no início dos anos 2000 para esmagar as rebeliões em Darfur. O regime transformou a violência miliciana numa ferramenta de Estado, legitimando os Janjaweed como auxiliares da contrainsurreição, reestruturando-os, a partir de 2013, sob o nome de RSF, e integrando-os legalmente no aparelho de segurança sudanês, ao mesmo tempo que lhes concedia uma autonomia excecional. As RSF são, portanto, o produto de uma estratégia deliberada do regime de Bashir, visando delegar a violência extrema a forças periféricas, social e geograficamente desprendidas do centro, a fim de preservar o exército regular de uma exposição direta aos crimes em massa. Poder-se-ia dizer, sem rodeios, que se trata do último presente envenenado do ditador ao seu país. Sem projeto político estruturado Seria, no entanto, ilusório interpretar o confronto atual como um duelo mimético estritamente interno entre um outro «Tapioca» e um outro «Alcazar». Por trás do esquema clássico dos dois «generais loucos», cada um destes aparelhos armados só se mantém, perdura e se projeta porque se insere em configurações de apoios externos distintas, que condicionam tanto a condução da guerra quanto o seu atolamento. O conflito opõe assim um aparelho militar estatal apoiado principalmente pelo Egito e pela Arábia Saudita – com um apoio capacitário oportunista do Irão – a uma força paramilitar largamente dependente de redes financeiras, comerciais e logísticas atribuídas aos Emirados Árabes Unidos. O que, no entanto, favorece a leitura clássica do duelo mimético entre dois megalomaníacos fardados é que nenhum dos dois lados possui um projeto político estruturado. Mas não é essa a prerrogativa de toda a região? De um lado como do outro, não se trata de governar um Estado refundado, muito menos de reconstruir um contrato social. O desafio é outro. Trata-se de manter espaços exploráveis, assegurar fluxos, preservar capacidades de dano, ou ainda impedir que o outro transforme uma vantagem militar em dominação exclusiva. Nesse contexto, Cartum perdeu sua função de capital política. Sua conquista ou reconquista não modificou a lógica geral do conflito; simplesmente deslocou equilíbrios táticos sem tocar na arquitetura profunda da guerra. As RSF entenderam muito cedo que o reconhecimento internacional não era decisivo. Assim, a sua estratégia baseia-se antes na duração, na integração em circuitos regionais de armamento e financiamento, e no uso de uma violência extrema destinada a produzir efeitos irreversíveis. Darfur, e em particular a região de El Fasher, ilustra esta lógica. Os cercos prolongados, a destruição sistemática dos campos de deslocados, o impedimento organizado da ajuda humanitária, a violência sexual em massa decorrem menos de um caos incontrolado do que de um método que visa desmantelar duradouramente as sociedades locais, romper as solidariedades comunitárias e provocar deslocamentos populacionais dificilmente reversíveis. Uma guerra pensada para durar Convém salientar, neste contexto, que os relatórios das organizações internacionais mencionam centenas de violações cometidas contra crianças, mulheres e raparigas em contextos de ataques. Neste sentido, a violência exercida não é apenas punitiva, mas estruturante, na medida em que redesenha os equilíbrios humanos do território, modifica as relações de força locais e transforma a guerra numa ferramenta de engenharia demográfica. Darfur, a título de exemplo, não constitui uma periferia esquecida do conflito; é o seu coração sombrio, o lugar onde se experimentam as formas mais radicais de uma guerra pensada para durar. Consequentemente, perante tal dinâmica, não devemos iludir-nos: o exército sudanês está longe de encarnar um projeto de restauração estatal. Representa apenas a sobrevivência de um aparelho retraído para os seus bastiões tradicionais do norte e do leste e recentrado em Port Sudan, que se tornou capital de guerra e fachada indispensável para o reconhecimento internacional. A retoma parcial de Cartum em 2025 permitiu assim uma estabilização militar relativa, mas não restabeleceu a autoridade do Estado, nem inverteu a dinâmica de fragmentação do país. O que se observa, na realidade, é a transformação do Sudão num espaço administrado pela guerra, com a transformação do Estado em um rótulo disputado, em uma casca institucional esvaziada de toda capacidade de projeção soberana. A guerra não substituiu o Estado; simplesmente o desmaterializou. Neste contexto, a partição de facto progride sem nunca ser formalizada. A oeste, as RSF consolidam o seu domínio territorial, enquanto a leste e a norte, o exército se retrai para um Sudão costeiro e nilótico reduzido às suas funções mínimas. Entre os dois estende-se um espaço de violências difusas, de tráficos e de populações encurraladas, onde a pertença política não oferece qualquer proteção. O conflito sudanês ilustra assim uma mutação mais ampla das guerras contemporâneas: guerras sem horizonte político, sem vitória decisiva, onde o objetivo não é encerrar o conflito mas sim controlar as suas rendas. E enquanto esta economia de predação se mantiver rentável, a guerra está condenada a prolongar-se indefinidamente. Próximo artigo: Mar Vermelho, Golfo e Corno de África: a regionalização do conflito sudanês

O Louvre Abu Dhabi, no coração do «soft power» dos Emirados Árabes Unidos (1/2)

O Louvre Abu Dhabi é um museu de arte universal localizado na ilha de Saadiyat, cujo nome significa literalmente “Ilha da Felicidade”, e que pretende se consolidar como o novo polo cultural dos Emirados Árabes Unidos. Com exposições temporárias coorganizadas com grandes museus franceses e uma narrativa declaradamente “universal”, a instituição contribui para o soft power do país e para a redefinição do lugar do mundo árabe nos circuitos internacionais da arte e do patrimônio. Origens O Louvre Abu Dhabi é fruto de um acordo intergovernamental sem precedentes entre a França e os Emirados Árabes Unidos, que concedeu a este último o direito de utilizar o nome “Louvre” até 2047. Apelidado poeticamente de “Louvre das Areias”, o museu se propõe a contar a história da humanidade por meio de obras de diferentes civilizações, da pré-história à arte contemporânea. A ideia de licenciar o nome do museu mais famoso do mundo, no entanto, provocou forte reação na França. Foram necessários longos esforços e um investimento de cerca de um bilhão de euros para convencer os críticos mais céticos. Em troca dessa soma expressiva, o acordo prevê o uso do nome Louvre por 30 anos, o empréstimo de obras de diversos museus franceses, a realização de exposições temporárias e a cooperação na gestão do museu e na formação de seus profissionais. O museu foi oficialmente aberto ao público em 11 de novembro de 2017, após uma década de obras, com cerca de 600 peças expostas na inauguração. Arquitetura do museu O Louvre Abu Dhabi foi projetado por Jean Nouvel, um dos arquitetos mais renomados dos últimos cinquenta anos. Nesse projeto, Nouvel explorou o jogo entre sombra e luz para criar um espaço sereno e acolhedor, profundamente ancorado na história e na geografia dos Emirados. O arquiteto deixou claro que não pretendia construir um museu europeu transplantado para Abu Dhabi, mas sim uma instituição enraizada no contexto local, algo que não teria lugar em Paris, Londres ou Nova York. Inspirado na arquitetura e nas tradições dos Emirados, Nouvel concebeu um cenário singular para o Louvre Abu Dhabi, atendendo ao mesmo tempo às exigências técnicas de um museu moderno. Ele imaginou uma espécie de cidade-museu com cerca de 24 mil metros quadrados, dos quais 8 mil são galerias, dando a impressão de flutuar sobre a água. O conjunto é formado por edifícios baixos e brancos, característicos da região, organizados ao longo de caminhos para pedestres. Pensado como uma medina árabe acessível tanto por terra quanto pelo mar, o complexo abriga ainda atividades diversas, como passeios de caiaque, exibições de filmes e conferências, além das salas de exposição. A cúpula Uma imensa cúpula prateada de aço e alumínio, considerada uma obra-prima da arquitetura, coroa o conjunto de edifícios. Apesar da aparência leve, a estrutura pesa cerca de 7.500 toneladas, o equivalente ao peso da Torre Eiffel, e tem 180 metros de diâmetro. Inspirada nas cúpulas tradicionais da arquitetura árabe, a estrutura geométrica é composta por 7.850 estrelas de diferentes tamanhos, distribuídas em oito camadas sobrepostas. Esses padrões filtram a luz solar por meio de suas perfurações, criando no solo uma hipnotizante “chuva de luz” que se transforma ao longo do dia. A cúpula presta homenagem à natureza e às palmeiras-dátil de Abu Dhabi. Assim como as folhas das palmeiras filtram o sol do deserto, ela regula a luminosidade e a temperatura, criando um microclima visual e térmico. Sustentada por apenas quatro apoios invisíveis, a cúpula parece flutuar sobre a água. Um sistema natural de resfriamento O maior desafio técnico do Louvre Abu Dhabi está relacionado ao clima. Manter condições rigorosas de luz e temperatura é essencial para a preservação de obras de valor inestimável. Para além de sua beleza estética, a cúpula cria um microclima ambiental graças a técnicas de design passivo inspiradas na arquitetura tradicional da região. Suas perfurações permitem a entrada de luz natural sem acúmulo excessivo de calor ou circulação intensa de ar, enquanto os materiais utilizados nos pisos e paredes ajudam a conservar o ar fresco ao longo do dia. O museu também incorpora sistemas passivos de economia de água e energia, além de tecnologias avançadas de climatização e iluminação. Depois de explorar a arquitetura do edifício, passamos agora às suas galerias. Próximo artigo: O Louvre de Abu Dhabi, uma ponte entre as civilizações

Intervenção humanitária em Teerã e legítima defesa em Caracas!

Quem não se alegrou com a captura de Nicolás Maduro, o ditador que empurrou ao exílio oito milhões de seus compatriotas, ou seja, um quarto da população da Venezuela? Mas isso significa que o governo dos Estados Unidos estava no seu direito ao conduzir essa ousada operação nas imediações de Caracas? De acordo com a Carta das Nações Unidas de 1945, que consagra a soberania nacional e garante a paz entre as nações, um país só pode recorrer ao uso da força armada em dois casos: a legítima defesa e a adoção de uma resolução do Conselho de Segurança que o autorize. Um país pode, no entanto, intervir no território de outro para atender ao pedido expresso de seu governo legítimo. Não foi assim que os fuzileiros navais dos Estados Unidos desembarcaram em nossas costas em 1958, a pedido do presidente Camille Chamoun? A legítima defesa segundo o artigo 51 Outra interpretação veio de Bruno Retailleau, senador francês, que aprovou a operação de 3 de janeiro sob o argumento de que o presidente venezuelano teria se tornado cúmplice de narcotraficantes. Para ele, a captura de Maduro e de sua esposa pelos Estados Unidos não passou de uma operação de legítima defesa, conforme o artigo 51 da Carta das Nações Unidas. É difícil concordar com essa tese. O tráfico de drogas não constitui, aos olhos da jurisprudência internacional, um ato de “agressão armada” que justificaria tal legítima defesa. O líder dos Republicanos teria feito melhor ao invocar uma intervenção humanitária, como certamente faria Donald Trump, horrorizado com a repressão em curso no Irã. Existe uma obrigação de intervir por parte dos Estados? A intervenção humanitária viola abertamente os princípios de soberania e de integridade territorial de um Estado terceiro, como ocorreu na Bósnia-Herzegovina (1992-95) e no Kosovo (1999). Nessas situações, operações militares foram conduzidas não a pedido de um governo legítimo, como no Líbano em 1958, mas contra esse governo. A essa “guerra em nome da humanidade”, Jean-Baptiste Vilmer dá a seguinte definição: “O uso da força por um Estado com o objetivo de fazer cessar violações graves dos direitos humanos contra indivíduos que não são nacionais do Estado interveniente e sem o consentimento das autoridades locais”. Os defensores dessa doutrina a justificam em nome da urgência. E os Estados Unidos poderiam agir da mesma forma no Irã, apoiando-se na denúncia feita pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, em 23 de janeiro, da “repressão sem precedentes” exercida no país dos aiatolás. Naquela data, mais de 5 mil mortos e 25 mil prisões levaram o alto comissário Volker Türk a conclamar Teerã a rever sua posição e a pôr fim à sua “repressão brutal, em especial aos julgamentos sumários e às penas desproporcionais”. Desde então, o balanço se agravou e fala-se agora em mais de 30 mil mortos. Um “ataque humanitário” em nome da liberdade! A dimensão das violações aos direitos fundamentais pode justificar a ingerência humanitária da máquina de guerra americana? Em teoria, uma intervenção só se impõe diante de violações massivas e ininterruptas dos direitos humanos. Caso contrário, seria preciso abster-se de agir até que o horror alcance um determinado patamar, por exemplo, o de 50 mil vítimas? É certo que, se um “ataque humanitário” viesse a apoiar os manifestantes iranianos, ele estaria marcado por algumas infrações ao Estado de direito, infrações que juristas rigorosos não hesitariam em denunciar. Mas afinal, trata-se de libertação, e não se age com luvas de seda. Não se concede o benefício da dúvida àqueles que pisoteiam o direito, assim como não se concede liberdade aos inimigos da liberdade.