


O jogo de Mohammed Chia al-Soudani no Iraque não foi uma simples manobra política hábil ou um erro de julgamento, mas uma conspiração política meticulosamente planeada, orquestrada de dentro de um sistema corrupto, para reproduzir o poder, provocando o fracasso e tirando proveito dele. Soudani não está fora do sistema que destruiu o Estado, nem acima dele, mas bem no seu coração, beneficiando dos seus mecanismos e dominando os seus métodos. O que o distingue dos outros não é a integridade, mas a sua capacidade de gerir a corrupção discretamente e sem alarido.
O regresso de Nouri al-Maliki ao primeiro plano do poder não foi uma coincidência nem um compromisso forçado. Foi uma manobra cuidadosamente calculada. Maliki, com a sua pesada herança, os seus dossiers não resolvidos e a sua generalizada rejeição popular, era o candidato ideal para carregar o fardo do iminente colapso. Não foi chamado para ter sucesso, mas para perecer. Não foi recordado para liderar, mas para servir de bode expiatório, para assumir a responsabilidade pelos fracassos, preparando assim o terreno para a sua queda e para o desmantelamento de todo o dispositivo de coordenação.
No entanto, oculta-se deliberadamente o facto de que aquele que orquestrou este jogo, o deixou piorar e dele tirou proveito, não é um observador imparcial nem um opositor da corrupção, mas sim um cúmplice de pleno direito. Al-Soudani conhece intimamente o sistema de onde veio: domina os fluxos financeiros, as redes de influência, os conflitos de interesses e sabe como a corrupção é gerida sem escândalo. Consequentemente, a corrupção durante o seu mandato não foi um incidente isolado, mas uma política deliberada: uma corrupção menos flagrante, mas mais profunda, mais generalizada e mais duradoura.
Se permitiu que al-Maliki e o seu séquito se envolvessem em negócios e escândalos, não foi por rejeição da corrupção, mas porque queria usá-la como uma arma política. Deixou o sistema de coordenação desintegrar-se por dentro, não por desejo de reforma, mas como preâmbulo à sua perda de legitimidade popular e à sua transformação em desvantagem política. Nesta lógica, al-Maliki não era o único alvo, mas o sistema inteiro, preparando assim o terreno para o regresso de al-Soudani, apresentado como o «mal menor».
É aqui que reside a grande farsa: apresentar a situação como uma luta entre indivíduos corruptos e um salvador, quando na realidade se trata de um conflito dentro do próprio establishment corrupto, entre aqueles que corrompem abertamente e aqueles que corrompem em silêncio. Al-Soudani não representa uma rutura com al-Maliki, mas sim uma evolução mais fria no seu estilo e mais perigosa nas suas consequências. Ele não combate a corrupção porque faz parte dela, mas porque entende que a corrupção é um instrumento de governação, e, portanto, redistribui-a em vez de a desmantelar.
Al-Soudani não abriu um verdadeiro dossiê de corrupção que atingisse os corações do poder. Não abordou a economia subterrânea, nem as redes dos grandes contratos, nem o sistema de quotas que alimenta o colapso. Contentou-se em gerir o calendário: quem é sacrificado agora, quem é poupado mais tarde, e quem é eliminado, se necessário. Uma retórica reformista destinada ao consumo público, sem qualquer ação concreta.
Neste contexto, o próprio colapso torna-se uma ferramenta política. Quanto maior a devastação, maior a necessidade de um «salvador». E quanto mais vítimas, mais al-Soudani parece aceitável. É um jogo sórdido que se joga sobre as ruínas do Estado, onde o fracasso é deliberadamente orquestrado e a solução proposta é oriunda do próprio problema.
A verdadeira questão hoje já não é: quem cairá? Maliki ou o regime? Mas sim: os iraquianos aceitarão mais uma vez a farsa de um «salvador» fabricado dentro da própria corrupção, ou exigirão uma verdadeira alternativa, nascida de fora?
A resposta a esta questão determinará se o Iraque permanece prisioneiro de um ciclo de colapso, ou se finalmente tem uma chance de se libertar.