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Enorme explosão provocada por um ataque israelita perto de Al-Mansouri, no sul do Líbano. (AFP)
O essencial da semana
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Por LevantTime .
Publicado em set 6, 2026 - 23:27
Enquanto os Estados Unidos pareciam ter optado apenas pela guerra econômica contra o Irã, o exército americano lançou abruptamente na terça-feira ataques contra o território iraniano, em retaliação a ataques contra petroleiros, desencadeando uma espiral de violência ao longo da semana. No Líbano, Israel libertou vários civis detidos em suas prisões, enquanto suas forças armadas ocupavam a colina estratégica de Ali el-Taher e prosseguiam com seus bombardeios massivos na zona que controla no sul do país. A semana de 31 de agosto a 6 de setembro foi marcada por uma nítida aceleração dos acontecimentos no Oriente Médio, depois de uma semana anterior que parecia mergulhada na estagnação. Na frente iraniana, já na noite de terça-feira, o exército americano realizou ataques direcionados em território iraniano, os primeiros em quase um mês. Esta captura de tela, feita em 6 de setembro de 2026 a partir de imagens de vídeo sem data divulgadas no mesmo dia pelo Comando Central dos EUA, mostra o que o Centcom apresenta como um dos petroleiros iranianos que destruiu em retaliação a tentativas de ataques com mísseis contra navios militares. (Centcom via AFP) No entanto, o ritmo relativamente contido desses ataques dá a impressão de que o governo americano optou por uma escalada controlada, mantendo ao mesmo tempo o bloqueio e as pressões econômicas contra Teerã. Ainda assim, a tensão não parou de crescer ao longo da semana. Explosões foram ouvidas no sábado na ilha altamente estratégica de Kharg, por onde passa a maior parte do petróleo iraniano. O presidente americano Donald Trump, por sua vez, ameaçou atacar o complexo nuclear de Kuh-e Kolang — “montanha da picareta” em persa, ou Pickaxe Mountain —, uma instalação fortemente protegida e enterrada a grande profundidade, não muito longe de Natanz, o principal centro de enriquecimento de urânio do Irã. Mais cedo na semana, ele havia formulado a equação do “petroleiro por petroleiro”, prometendo atingir um navio iraniano cada vez que os Guardiões da Revolução atacassem um petroleiro no Estreito de Ormuz. Foi exatamente isso que o exército americano fez no sábado, incendiando dois navios iranianos. No plano político, Donald Trump endureceu ainda mais o tom em relação a Teerã. Depois de afirmar em uma entrevista que as negociações estavam definitivamente congeladas “porque um acordo com eles não vale o papel em que está escrito”, ele declarou no sábado que o “conflito” com o Irã não era uma “guerra”, mas “algo corriqueiro” para os Estados Unidos. Uma forma de mexer com os nervos dos iranianos ao mesmo tempo em que tranquiliza sua opinião pública às vésperas das eleições de meio de mandato. Um porto, além de instalações de armazenamento e depósitos, foi danificado após um ataque militar americano realizado na província iraniana de Hormozgan, no sul do país, que faz fronteira com o estreito de mesmo nome, em 6 de setembro de 2026. (AFP) Ao mesmo tempo, a mídia americana Axios publicou no sábado uma reportagem sugerindo que os Estados Unidos já estão pensando além deste conflito, iniciado em 28 de fevereiro. O site afirma, citando autoridades americanas e outras fontes informadas, que o governo Trump está elaborando uma estratégia mais ampla para o Oriente Médio do pós-guerra. Ela se basearia na construção de um alinhamento regional destinado a conter o Irã, encerrar as repercussões regionais dos ataques de 7 de outubro de 2023 realizados pelo Hamas em Gaza e ampliar o círculo de normalização entre Israel e os países da região. A ameaça contra Kuh-e Kolang, que marca o ressurgimento da questão nuclear iraniana, ecoa um anúncio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que lamentou, em 1º de setembro, o fato de o Irã não ter reaberto seus sites aos inspetores após os ataques de maio de 2025. Vale lembrar que, apesar da magnitude da ofensiva israelo-americana contra os sites iranianos, é quase certo que o estoque de urânio enriquecido permaneça intacto e tenha sido colocado em local seguro pelas autoridades iranianas, que continuam apegadas ao que consideram ser seu direito de desenvolver um programa nuclear. Após o anúncio da AIEA, os Estados Unidos, mas também a França, a Grã-Bretanha e a Alemanha, manifestaram a intenção de apresentar uma resolução ao Conselho de Segurança da ONU condenando o descumprimento pelo Irã de seus compromissos em matéria de não proliferação nuclear. Uma unidade visível que contrasta com o clima frio entre Washington e seus aliados europeus desde o início do conflito. Já os iranianos parecem continuar a reagir às turbulências da mesma maneira: atacando vários países vizinhos, como o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos e a Jordânia, sem no entanto atacar diretamente Israel. Ataques maciços no sul do Líbano Na frente libanesa, Israel intensifica suas operações de destruição nas aldeias do sul, chegando a usar, em alguns casos, barris de explosivos. O presidente libanês Joseph Aoun pediu a Washington e à comunidade internacional que “façam cessar” os ataques israelenses no território libanês, que deixaram sete mortos no domingo em meio a uma trégua frágil. Os bombardeios atingiram diferentes localidades da região de Nabatiye. Vinte pessoas também ficaram feridas, entre elas crianças, segundo o Ministério da Saúde. Um ataque destruiu ainda o antigo hospital Ghandour, fora de funcionamento há anos. Libertação de detidos e tomada de Ali al-Taher Mas o evento mais importante da semana no sul foi a tomada, pelos israelenses, da colina estratégica de Ali al-Taher, na região de Nabatiye. O local era um importante quartel-general do Hezbollah, formado por um vasto emaranhado de túneis, de onde operavam combatentes do partido xiita, mas também, segundo algumas informações, combatentes iranianos. Na noite de quinta-feira, os israelenses anunciaram ter assumido o controle do complexo. No domingo, o ministro israelense da Defesa, Israel Katz, declarou que ainda restavam túneis a serem dinamitados. Esse “sucesso” militar talvez não tenha sido uma surpresa após semanas de bombardeios, mas a reação do Hezbollah foi, sim, surpreendente. Depois de garantir por muito tempo que se recusaria a ceder essa colina estratégica — assim como os iranianos, que também haviam ameaçado intervir —, o partido xiita acabou minimizando o impacto desse desenvolvimento por meio de seus veículos de mídia e porta-vozes, sem, no entanto, confirmar oficialmente a perda do local, que havia se recusado a preservar entregando-o ao exército libanês. A outra grande surpresa da semana foi a libertação, por Israel, de cinco civis libaneses e sírios detidos em suas prisões. Essa medida ocorreu após uma visita a Tel Aviv do embaixador dos Estados Unidos no Líbano, Michel Issa. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira “ocorre em seguimento aos esforços empreendidos por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os corpos dos líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano” entre 1984 e 1986. Mais uma vez, a reação do Hezbollah chama a atenção. Embora considere a medida positiva, mas insuficiente, o partido voltou a atacar as autoridades libanesas, acusando-as de “submissão ao inimigo” e responsabilizando-as pelo desastre no sul. Chegou até a alertá-las contra “os conflitos internos”. Será que os reveses militares do partido poderiam levá-lo a se voltar ainda mais contra o cenário interno? Por fim, o exército israelense fez no domingo uma declaração importante, anunciando que está considerando reduzir sua zona de ocupação no Sul do Líbano, passando da atual "zona amarela" para uma "zona cinza". Segundo essa interpretação, tal mudança refletiria uma diminuição da ameaça representada pelo Hezbollah. A medida, no entanto, ainda não foi aprovada pela liderança política israelense. Iêmen e Palestina A semana também foi particularmente tensa no Iêmen, onde os confrontos entre os rebeldes houthis e as forças governamentais não pararam de se intensificar, culminando em um sábado especialmente sangrento, com mais de 60 mortos em um único dia, elevando para cerca de 200 o número de vítimas desde quinta-feira. A ofensiva dos houthis busca sobretudo tomar o controle de certas áreas ao redor da passagem de Bab al-Mandab, o que daria a esse aliado do Irã uma vantagem adicional sobre outro ponto estratégico crucial, depois do estreito de Ormuz. Na Palestina, declarações particularmente preocupantes de Israel Katz sobre Gaza marcaram a semana. Ele afirmou, sem apresentar provas, que a maioria dos habitantes da faixa desejava deixá-la, ressaltando que Israel estava "pronto para essa evacuação em massa". Isso deixa entender que o calvário dos habitantes de Gaza está longe de terminar. Por fim, vale destacar que a AIEA anunciou, em 1º de setembro, que infraestruturas descobertas em Deir ez-Zor, na Síria, indicam que o antigo regime de Bashar al-Assad preparava secretamente um programa nuclear avançado, capaz de resultar na fabricação de uma arma atômica com a ajuda de especialistas norte-coreanos.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado em set 6, 2026 - 13:31
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O jogador argentino, que encerrou sua carreira internacional em 31 de agosto de 2026, não era nada menos que um prestidigitador dos estádios. Sua trajetória, feita de prodígios, quedas e redenção, talvez diga algo sobre nossa necessidade intacta de encantamento em um mundo que, no entanto, pretende ter se livrado dele. Anunciada poucas semanas depois da final da Copa do Mundo de 2026 perdida para a Espanha, a aposentadoria internacional de Lionel Messi não deixou de provocar uma emoção para a qual é difícil encontrar muitos equivalentes na história recente do futebol. Provavelmente seria preciso remontar a Maradona, ou ainda a Cruyff ou Pelé, para reencontrar essa sensação de que, com a retirada de um jogador, desaparece algo que ultrapassa em muito o próprio esporte, como se certa maneira de habitar o futebol, ou até mesmo de acreditar nele, também chegasse ao fim. Longe dos glacis da razão Chega das estatísticas intermináveis e das insuportáveis querelas, tediosas e estéreis, em torno de “quem é o melhor de todos os tempos». O autor destas linhas nunca foi um fanático pela bola, nem por classificações verticais ou por uma hierarquia do mérito em geral e, portanto, aprecia o talento de cada jogador com o mesmo olhar maravilhado de uma criança de 11 anos. De resto, essa obsessão particularmente contemporânea pelos números estraga todo o prazer do espetáculo. E com razão: o procedimento que consiste em somar gols, assistências, Bolas de Ouro, Ligas dos Campeões, Copas América, Copas do Mundo… só pode ser redutor. Em outro registro, ele não deixa de evocar a crítica desenvolvida pelo filósofo germano-americano Eric Voegelin à tentação gnóstica moderna: a de um saber convencido de que pode encerrar a realidade em um sistema e abolir aquilo que lhe resiste. Os recordes são provavelmente um indicador do gênio de Lionel Messi. Mas tantos outros grandes jogadores que fizeram vibrar os estádios e os corações, sem realizar sequer metade dos feitos de Messi, permanecem, ainda assim, eternos na memória. Aquilo que os tornou verdadeiramente singulares encontra-se em outro lugar, longe dos glacis da razão. Algo mais se jogou em torno deles. Algo que pertence a certo sentido profundo da transcendência, que o entendimento jamais poderia apreender plenamente. Esse é o caso de Lionel Messi há mais de vinte anos, desde o dia em que, sob o olhar do “ícone”Diego Maradona, fez sua primeira entrada, em junho de 2006, na arena da Copa do Mundo com as cores da Albiceleste contra Sérvia e Montenegro. Ora, esse elemento indizível que constitui o gênio de Messi, como o de outros, talvez toque em um dos paradoxos mais curiosos da modernidade: a persistência da magia em um mundo que se construiu precisamente contra ela. O mundo desencantado Max Weber falava do desencantamento do mundo para designar esse lento processo pelo qual a modernidade ocidental submeteu progressivamente a existência à racionalização, ao cálculo, à previsibilidade e à explicação causal. O mundo já não deveria ser atravessado por forças obscuras, sinais, intervenções sobrenaturais ou vontades invisíveis; deveria, ao menos em princípio, tornar-se inteligível. Infelizmente, o esporte moderno, e mais amplamente o mundo moderno herdado da globalização, insere-se perfeitamente nessa dinâmica. O futebol de hoje, e não apenas o futebol, é provavelmente um dos objetos mais quantificados que existem. O menor gesto é medido, e tudo é cuidadosamente calculado e modelado. Da matemática à inteligência artificial, o talento bruto depende agora mais da ciência do que do encantamento. É aquilo que há de humano, em sua relação espontânea, até selvagem, com o invisível que nasce do coração, que desaparece diante de nossos olhos em benefício da quadratura do VAR. É, de certo modo, o assassinato do esporte em nome de mais rigor e equidade… ainda que a eutanásia dessa parcela de espontaneidade sublime acabe provocando, ela própria, injustiças flagrantes. Basta, para constatá-lo, voltar a algumas das decisões controversas da Copa do Mundo de 2026. Paradoxo dos paradoxos, o próprio Lionel Messi foi, desde a origem, filho dessa modernidade técnica, da qual certamente deve parte de sua carreira excepcional. Seu corpo, pequeno demais para os padrões esperados, foi corrigido por meio de tratamento hormonal. Identificado muito cedo, seu talento foi assumido por uma instituição que organizou sua formação, alimentação, desenvolvimento físico e integração em uma máquina esportiva já globalizada. Nada, em aparência, poderia estar mais distante do velho relato heroico. À primeira vista, a história se parece mais com distopias do tipo Gattaca do que com mitos e narrativas messiânicas. E, no entanto, esse velho relato de fato retornou, e até com uma insistência quase constrangedora. Desde o início de sua carreira, Lionel Messi foi colocado sob o microscópio. Mas quanto mais se esforçavam para explicá-lo e desmistificá-lo, menos conseguiam dissipar inteiramente a impressão produzida por alguns de seus gestos. O homem simplesmente não consegue ser circunscrito nem reduzido a um acúmulo de dados. Na idade em que a maioria dos grandes jogadores volta para as sombras, ele continua surpreendendo. Estupefazendo, até, ao trazer ao esporte essa parcela de insensatez que escapa à hipersistematização quase robótica do mundo. É provavelmente aí que se deve procurar esse outro lugar que caracteriza Messi. Numa sobrevivência da magia num momento em que até os espaços que permitiam a expressão positiva de uma humanidade feita de carne e sangue se veem progressivamente “disciplinados”por essa atração hipnótica por uma nova gnose puritana em nome da modernidade. O Messias fabricado pela máquina Embora oriundo, de certo modo, da máquina matricial, Lionel Messi constitui, por si só, um questionamento desse modelo de prêt-à-porter. Uma espécie de alter ego do Neo de Matrix, lançado numa simulação governada por parâmetros que pretendem calcular tudo. O destino do argentino adquiriu progressivamente, quase contra sua vontade, a forma de uma narrativa messiânica. O trocadilho com seu nome seria fácil demais se sua própria história não o tivesse constantemente relançado: a da criança frágil, cujo corpo parecia querer negar a realização à qual seu talento a destinava. Depois, a do exílio ainda muito jovem para Barcelona, da adoção por uma cidade estrangeira, da ascensão quase irreal, do reconhecimento mundial e, em seguida, dessa estranha dificuldade de ser reconhecido pelos seus… Durante muito tempo, a Argentina manteve com seu filho pródigo uma relação de hainamoration. Pouco importavam seus resultados, seu talento, seu brilho… ele precisava responder a uma única pergunta, impiedosa: por que não era Maradona? A comparação era certamente inevitável, mas também profundamente injusta. Tudo separava os dois homens em sua maneira de estar no mundo. Maradona carregava a Argentina com tudo o que ela podia ter de passional, contraditório, excessivo e teatral. Falava, provocava, brigava, caía, voltava, misturava ao futebol sua vida privada, suas cóleras, seus compromissos políticos… até sua própria destruição. Seu próprio corpo parecia transformar-se em um dos lugares onde se encenavam as contradições de seu país. Maradona era a própria encarnação daquilo que o mundo esperava do futebol: uma alma rebelde, levando por vezes o jogo até a imoralidade, mas dentro de uma espécie de gigantomaquia futebolística. Maradona era épico. E, sobretudo, havia colocado seu país no firmamento do futebol em 1986. Messi, por sua vez, não oferecia nada disso. Era silencioso, às vezes quase ausente da narrativa que os outros construíam ao seu redor, ausência que durante muito tempo foi interpretada como defeito. Quase apagado, sem personalidade. Era justamente isso que os dois gigantes, Maradona e Pelé, lhe censuravam: falta de liderança, ser liso demais. Uma espécie de bebê de proveta milagroso dos estádios. Também se censurava ao menino de Rosario não cantar suficientemente o hino, não ser argentino o bastante, ter sido “fabricado”por Barcelona e, naturalmente, não vencer com a seleção aquilo que ganhava quase continuamente com seu clube. A profecia inacabada A final da Copa do Mundo de 2014, perdida de maneira dramática para a Alemanha, seguida pelas finais da Copa América de 2015 e 2016, havia transformado progressivamente essa suspeita em acusação. Quando perdeu seu pênalti contra o Chile em 2016 e anunciou depois que deixava a seleção, ele já era, no entanto, um dos maiores jogadores da história do futebol. Mas sua narrativa permanecia estranhamente inacabada. O sentimento de incompletude pouco dizia respeito ao seu currículo. Tratava-se antes daquela necessidade quase arcaica continuamente imposta aos heróis modernos: concluir seu percurso iniciático. Com as cores argentinas, Messi brilhava e depois caía pesadamente. Mas não se levantava. Não cumpria a profecia. E, aos olhos de seu povo, isso reforçava o sentimento de hainamoration: um deus caído continua sendo um deus, apesar de tudo. Mas acrescido daquilo que, aos olhos de seus adoradores, constitui um substrato de humanidade insuportável e, portanto, perfeitamente detestável: suas taras, suas fraquezas. Os argentinos amavam Maradona apesar de sua decadência espetacular e de sua humanidade falível. Mas isso porque ele havia “merecido”essa decadência, porque ela se tornara, de algum modo, aceitável depois do México de 1986. Messi, por sua vez, ainda não tinha o direito de cair, porque ainda não havia chegado ao topo. Não, a profecia não estava cumprida. Começava até a virar caricatura. Messi voltou, portanto. Mas ainda teve de esperar por sua redenção. Foi preciso a Copa América de 2021, no Maracanã, para que essa relação feita de suspeita, expectativa e decepção com seu público e seu povo começasse verdadeiramente a mudar. E foi preciso, sobretudo, a Copa do Mundo de 2022 para que a história adquirisse aquela forma quase perfeita demais que ninguém teria ousado escrever sem parecer ceder a uma facilidade de roteirista. Fato estranho, Maradona havia morrido em 2020. Era como se uma espécie de maldição nacional opressiva tivesse sido levantada. Ao mesmo tempo, o povo argentino precisava de uma figura paterna substituta, e a pressão não fazia senão redobrar. Mas talvez misturada, dessa vez, com um pouco de ternura? O que aconteceu no Catar em 2022 é ainda mais interessante porque o próprio Messi aparece ligeiramente diferente. Protesta mais, responde às provocações, irrita-se, fala com uma violência de que poucos o julgavam capaz e deixa até escapar aquele “¿Qué mirás, bobo?”diante dos neerlandeses, para diversão da Argentina. Buenos Aires finalmente descobre, com atraso, aquilo que sempre esperou dele. Um pouco de Maradona dentro de muito Messi. Mas Messi não se transforma, por isso, em Maradona. E talvez seja precisamente aí que ocorra a verdadeira reconciliação: a Argentina deixa de lhe pedir que seja Maradona. A partir de 2022, Messi já não precisa encarnar outro modelo do gênio nacional. Finalmente pode tornar-se, também para seu país, aquilo que já havia sido em todos os outros lugares: Messi. Simplesmente. O ato final da profecia É verdade que o triunfo de 2022 poderia ter constituído um final perfeito. Mas, como no caso de Maradona, o ato final da profecia heroica é a queda. Ninguém esperava realmente algo excepcional de Messi em 2026. Aos 39 anos, considerava-se amplamente que ele já fazia parte dos “heróis cansados». A queda do Capitólio havia ocorrido com o episódio amargo de sua saída do FC Barcelona e sua desventura no PSG. Já não atuava senão na liga americana, com as cores de Miami… na periferia do mundo do futebol, nas terras distantes do soccer. E a nova geração já estava ali, pronta para mandar os ancestrais a Bicêtre. No entanto, aquela Copa do Mundo de 2026, que parecia destinada a não passar de um epílogo, transformou-se num último golpe de brilho sensacional. A Argentina chegou novamente à final, com Messi, aos 39 anos, ainda como seu “líder histórico”e seu recurso nos momentos decisivos, realizando algo que não deixava de lembrar o que Roberto Baggio fizera pela Itália em 1994, aos… 27 anos: um deus ex machina permanente. Baggio fracassou às portas do triunfo contra o Brasil depois de praticamente carregar a Itália até Pasadena. Seu pênalti enviado por cima do travessão deixaria uma das imagens mais cruéis da história das Copas do Mundo: a de um homem imóvel, de cabeça baixa, mãos na cintura, enquanto o Brasil celebrava a vitória. Aquele que havia “morrido de pé». O duende italiano jamais conheceu a apoteose. Mas essa morte simbólica, longe de apagar seu Mundial, acabou também entrando para sua lenda. A história foi mais clemente com Messi, apesar de uma campanha de ódio contra ele, misturada a acusações de trapaça e favoritismo, num pano de fundo de decisões arbitrais controversas e atos antidesportivos de sua equipe, como havia sido outrora com Maradona. Ainda mais, até. Uma final em sua sexta Copa do Mundo, às portas da aposentadoria, com uma atuação individual extraordinária? É precisamente aí que reside aquilo que há de mágico no fenômeno Messi e que desafia a razão e sua avalanche de estatísticas. O gênio não pode ser encerrado numa soma de parâmetros e variáveis. Sua condição física, mesmo ótima, não pode explicar por si só aquilo de que o mundo inteiro foi testemunha. E pouco importa que sua história nos lembre que o herói, por mais mítico que seja, não pode abolir a sinistra influência de Saturno. O reencantamento do mundo Pois, para além da profecia cumprida, da ascensão à queda, com sua parcela de alegrias e desventuras, o argentino ofereceu ao mundo uma última volta que pertence à arte, quando não a uma forma de poesia homérica. Com a retirada de Lionel Messi da cena internacional, desaparece um pouco da magia do mundo… até que outro herói providencial volte a encantar os estádios. Durante mais de vinte anos, Messi terá encarnado a coexistência de dois mundos que julgávamos incompatíveis: o da racionalização extrema do esporte moderno e aquele, muito mais antigo, do herói, do sinal, da espera e do encantamento. Quando Messi parte, algo dessa contradição aparece de repente. Outros prodígios já surgiram, mas talvez descubramos, justamente no momento em que um de seus últimos grandes representantes deixa a cena, o quanto continuamos precisando de transcendência. O mundo moderno provavelmente não suprimiu o encantamento. Apenas o deslocou. Durante noventa minutos, esse homem chamado Lionel Messi, que o encarnou nos gramados, parte depois de ter realizado tudo. E até mais.
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Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad - Publicado em set 5, 2026 - 20:01
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A pergunta “O mundo ficou mais burro?”reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta “Ficamos mais burros?”não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de “reprodução serial”. Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é “preservado”, mas “reproduzido”. É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de “cadeia do guaxinim”, que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do “guaxinim”não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A “cultura do guaxinim”, portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: “O meio é a mensagem”. O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de “ilusão cognitiva”: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de “semiletrados”: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando “Abaixo a Declaração Balfour!”. A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em “Que alguém caia lá de cima!”, uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um “colapso da inteligência”, mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta “Ficamos mais burros?”torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do “ambiente do conhecimento”: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
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Colapso do Bitcoin: o fim da esfera cripto? (1/2)
Por
Jacques Mechelany
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Do seu recorde histórico de US$ 126 mil até o fechamento de ontem, próximo de US$ 69 mil, o Bitcoin, símbolo máximo das criptomoedas, perdeu cerca de 45% do seu valor, apagando aproximadamente US$ 1,1 trilhão em riqueza nominal dos investidores. A queda mais recente do Bitcoin não é apenas mais um episódio de volatilidade. Trata-se de um teste de estresse de toda a arquitetura cripto: a crença de que os ETFs criaram uma demanda institucional permanente, a suposição de que stablecoins são “equivalentes a caixa”, a expansão da alavancagem corporativa disfarçada de convicção de longo prazo e a realidade cada vez mais evidente de que os Estados, com a China à frente e outros seguindo o mesmo caminho, pretendem dominar o futuro do dinheiro digital. O que pode estar ruindo não é o cripto em si, mas as ilusões que sustentaram sua fase mais eufórica. O Bitcoin nasceu à sombra da crise financeira de 2008, um período em que a confiança nos bancos, nos bancos centrais e nas elites políticas foi profundamente abalada. Sua promessa fundadora era tão radical quanto elegante: uma rede monetária descentralizada, governada por código e não por instituições, capaz de funcionar sem uma autoridade central. Uma forma de dinheiro fora do alcance dos governos. Um sistema que não exige permissão. Antes de avançar, porém, duas realidades fundamentais sobre as chamadas “criptomoedas” precisam ser ditas com clareza, porque a má compreensão delas quase sempre leva a erros de análise. Primeiro: a maioria das criptomoedas é, por desenho, código digital com oferta estritamente limitada e demanda potencialmente ilimitada. Essa assimetria, por si só, explica seu comportamento extremo de preços. Quando o sentimento coletivo se torna otimista, os preços podem subir a níveis extraordinários, sem qualquer lógica de ancoragem além do desequilíbrio entre oferta fixa e demanda crescente. Quando o sentimento se inverte, o processo ocorre no sentido oposto, com a mesma intensidade. Os ciclos de alta e baixa do cripto não são anomalias; são características estruturais. Segundo, e mais importante: criptomoedas não são moedas no sentido jurídico, econômico ou político do termo. Moedas são emitidas por Estados soberanos. Elas são, essencialmente, um passivo do país emissor, sustentadas por seu poder de tributação, garantidas por lei e inseridas em um monopólio de emissão. A autoridade para emitir moeda deriva diretamente do monopólio estatal da tributação. O dinheiro, portanto, não é apenas um instrumento econômico; é uma expressão de soberania. As criptomoedas não são nada disso. Não são emitidas por Estados. Não são passivo de nenhuma soberania ou instituição. Não são sustentadas por poder de tributação capaz de estabilizar a demanda em momentos de estresse. São códigos escassos por desenho, mas sem respaldo soberano. Essa distinção não é filosófica; é estrutural. E se torna decisiva quando a volatilidade explode. Durante muitos anos, o Bitcoin e os criptoativos permaneceram como um experimento de nicho. Uma curiosidade. Uma subcultura debatida quase teologicamente por tecnólogos e primeiros adotantes, enquanto as finanças tradicionais os descartavam como brinquedo, na melhor das hipóteses, ou fraude, na pior. Figuras como Jamie Dimon e Warren Buffett alertavam, de forma recorrente, que o cripto terminaria mal para os investidores. Então veio o ponto de inflexão: o mundo pós-2020. Política monetária ultrafrouxa, juros próximos de zero e uma enxurrada global de liquidez fizeram com o cripto o mesmo que fizeram com tantas outras classes de ativos. Transformaram uma ideia em trade, e depois o trade em indústria. O Bitcoin virou referência, o Ethereum virou ecossistema, e os tokens se multiplicaram. Exchanges explodiram. A alavancagem se normalizou. Derivativos prosperaram. O capital de risco inundou o “web3”. A especulação de varejo se globalizou. E, com isso, veio o companheiro inevitável de toda mania especulativa: excesso, fraude, colapso e contágio. Hoje, mais uma vez, o mercado assiste a outro crash. Outra onda de liquidações forçadas. Outro coro de manchetes anunciando que “o Bitcoin morreu”, pela centésima vez. Mas desta vez algo parece diferente. Essa queda ocorre depois do que foi amplamente apresentado como a maior legitimação institucional da história do cripto. A adoção institucional do Bitcoin e a aprovação de ETFs deveriam criar um piso estrutural. A regulação das stablecoins deveria amadurecer o ecossistema. Os tesouros corporativos deveriam validar o papel estratégico do Bitcoin no longo prazo. E, ainda assim, os preços colapsaram. A questão, portanto, já não é apenas por que o Bitcoin está caindo. A verdadeira pergunta é se a esfera cripto vive mais um ciclo de baixa ou se está entrando em um ajuste estrutural muito mais profundo. O mito do “ouro digital” volta a ser testado A narrativa mais bem-sucedida do Bitcoin também é a mais frágil: o “ouro digital”. A analogia é sedutora. Como o ouro, o Bitcoin é escasso. Como o ouro, não é passivo de nenhum governo. Como o ouro, promete proteção contra a desvalorização monetária e a disfunção política. Em teoria, deveria prosperar quando a confiança nas moedas fiduciárias enfraquece. Na prática, porém, o Bitcoin tem se comportado menos como ouro e mais como um ativo de risco de alta volatilidade, frequentemente negociado como um proxy alavancado do apetite global por risco. Quando os mercados estão calmos e a liquidez é abundante, o Bitcoin tende a subir. Quando as condições apertam, a volatilidade aumenta e o sistema global se desalavanca, o Bitcoin tende a cair, muitas vezes de forma violenta. Isso não é ideologia; é comportamento de preço observável. Isso importa porque a tese do “ouro digital” não é apenas marketing. Ela sustenta a lógica de alocação institucional. Se o Bitcoin é proteção, pertence ao lado do ouro. Se é ativo de risco, pertence ao lado de ações de tecnologia e apostas especulativas. As implicações de portfólio são estruturais, não marginais. O crash recente reforça uma realidade dura: o destino do Bitcoin continua profundamente atrelado às condições globais de liquidez. Em um mundo de liquidez cada vez mais escassa, isso é um problema. A ilusão da adoção institucional: por que o “piso dos ETFs” não é um piso Uma das crenças mais persistentes dos últimos anos foi esta: o Bitcoin agora é institucionalizado, portanto tem um piso. A aprovação dos ETFs de Bitcoin à vista foi celebrada como um marco histórico. Acesso mainstream. Estruturas reguladas. Legitimidade em Wall Street. Um canal direto entre contas de corretoras, gestores de patrimônio e portfólios institucionais para exposição ao Bitcoin. A narrativa era simples: os ETFs trariam demanda permanente. Um “muro de dinheiro”. Um bid estrutural sustentando o mercado. Mas o crash revelou algo que grande parte do debate público ignora ou não compreende: nem todos os fluxos de ETFs são iguais. Uma parcela relevante do capital que entrou nos ETFs não entrou por acreditar na tese de longo prazo do Bitcoin. Entrou porque estava sendo paga para entrar. Em outras palavras, arbitragem. Quando o mercado cria uma anomalia de preço, como um spread lucrativo entre exposição à vista (via ETF) e futuros, determinados agentes institucionais exploram essa diferença. Hedge funds e mesas proprietárias não precisam de fé; precisam de spread. Quando ele existe, alocam capital. Quando desaparece, saem. Isso não é adoção. É liquidez alugada. E liquidez alugada se comporta de forma muito diferente do capital por convicção. Capital por convicção é resiliente, absorve volatilidade, compra no medo. Capital de arbitragem é transacional, sai sem emoção, vende porque a matemática mudou. Por isso, a ideia de um “piso institucional” é perigosamente enganosa. A estrutura dos ETFs pode fazer os fluxos parecerem demanda de longo prazo quando, na prática, parte dessa demanda está mecanicamente hedgeada em outros mercados. As mesmas instituições que aparecem como compradoras nos dados de fluxo podem surgir como vendedoras nos futuros. A exposição econômica líquida pode ser próxima de zero. Em termos simples: parte do capital celebrado como compra institucional nunca foi, de fato, uma aposta no futuro do Bitcoin. Quando os rendimentos desaparecem, essas estruturas são desmontadas. E, quando são desmontadas, geram pressão real de venda, porque ETFs não são abstrações. Resgates se traduzem em pressão direta no mercado à vista. É assim que um crash pode ocorrer mesmo em um cenário de “institucionalização”. Institucionalização não é adoção. Pode ser, em parte, apenas uma operação sofisticada de liquidez. O que o mercado aprendeu, de forma dolorosa, é que o famoso “muro de dinheiro” nunca foi um muro. Era mais parecido com um contrato de aluguel. O paradoxo do corte de juros O senso comum diz: cortes de juros são positivos para ativos de risco, logo são positivos para o Bitcoin. Em muitos contextos, isso é verdade. Juros mais baixos aumentam a liquidez, enfraquecem o dólar e estimulam o apetite por risco. Por muito tempo, o mercado cripto tratou qualquer sinal dovish como gatilho para a próxima alta. Mas a estrutura atual do mercado cria um mecanismo contraintuitivo. Quando grande parte da exposição institucional está ligada a operações de spread e estruturas hedgeadas, mudanças na política monetária podem ter efeito inverso. A alteração nas expectativas de juros pode comprimir spreads, reduzir a atratividade do carry e levar gestores de risco a desmontar posições. Ao mesmo tempo, sinais dovish geralmente surgem quando o cenário macro se deteriora: desaceleração do crescimento, aumento do risco de recessão, estresse financeiro. Isso reduz o apetite especulativo, aumenta a aversão ao risco e gera um impulso generalizado de desalavancagem. Em outras palavras, o mesmo sinal dovish que pode sustentar ações em um cenário de “pouso suave” pode, simultaneamente, acelerar as vendas no cripto se ativar o desmonte de estruturas institucionais construídas sobre rendimento e alavancagem. É por isso que o modelo simplista “Fed corta juros = Bitcoin sobe” está cada vez menos confiável. O Bitcoin já não é apenas um ativo narrativo. Tornou-se um ativo estruturado, inserido na engrenagem do mercado moderno: ETFs, futuros, opções, financiamento e posições alavancadas. Nesse contexto, o preço passa a ser menos guiado por ideologia e mais por mecânica. Próximo artigo: Queda do Bitcoin: será o fim do mundo das criptomoedas? Do excesso especulativo à desilusão institucional

Apoio ao Exército: Ajuda, Capacidades e Desafios Estratégicos (2/3)

Em um contexto regional e interno particularmente sensível, qualquer avaliação das Forças Armadas Libanesas (LAF) precisa ir além de um simples inventário da ajuda recebida e dos equipamentos necessários. A questão central está em examinar os fundamentos políticos, doutrinários e estratégicos da própria instituição militar. O problema não é tanto o que o Exército possui, mas o que o Estado espera dele ou se recusa a assumir como responsabilidade. Desde o final dos anos 2000, o Exército libanês tem se beneficiado de apoio internacional contínuo, sobretudo dos Estados Unidos, Reino Unido, França e outros parceiros europeus. Esse apoio não se limitou à entrega de equipamentos e à construção de infraestrutura, mas incluiu, sobretudo, a introdução de uma abordagem estruturada de desenvolvimento de capacidades. A criação de uma visão conjunta de capacidades com os Estados Unidos marcou um ponto de inflexão, priorizando a otimização dos meios existentes em vez da criação de capacidades totalmente novas. Esse modelo levou à elaboração de um Plano de Desenvolvimento de Capacidades, baseado em uma distinção fundamental. O general de brigada (reformado) Maroun Hitti observa que uma Estratégia Militar Nacional define o que o Exército deve ser capaz de realizar a partir de um mandato estabelecido pelo Estado, enquanto o Plano de Desenvolvimento de Capacidades se concentra em tornar mais eficazes as capacidades já existentes. Essa nuance ajuda a explicar tanto os avanços obtidos quanto as limitações persistentes, especialmente em áreas estruturais estratégicas como a introdução de drones, inteligência artificial e, sobretudo, a defesa aérea, que permanece inexistente. Uma pergunta deliberadamente evitada: apoiar o Exército, para quê? No centro do debate em torno desse plano está uma questão aparentemente simples, mas politicamente explosiva: qual é, exatamente, a missão atribuída ao Exército libanês? Desde sua criação, e especialmente nas últimas duas décadas, a assistência internacional, principalmente dos Estados Unidos, Reino Unido e França, além de diversos outros países aliados, evitou uma série de colapsos institucionais. No entanto, esse apoio jamais foi ancorado em uma política nacional de segurança e defesa claramente formulada e consensualmente adotada pelo Líbano. Oficialmente, as missões repetidas à exaustão são conhecidas: preservar a estabilidade, combater o terrorismo, controlar e defender as fronteiras e garantir a segurança interna. Extraoficialmente, porém, a ambiguidade persiste, em razão da existência de uma força armada paralela, o Hezbollah, que continua a contar com proteção política interna. Nesse contexto, fortalecer o Exército sem esclarecer seu mandato equivale a reforçar a instituição enquanto se neutraliza sua capacidade real de ação. Mais grave ainda são as tentativas de subordinar o Exército ao Hezbollah, o que equivale a esvaziar sua essência e sua razão de existir. Quantas vezes se ouviram discursos pretensamente “estratégicos” que confinam o Exército a funções de policiamento interno, geralmente contra a oposição, enquanto a defesa territorial é delegada ao Hezbollah? Após os recentes reveses do grupo, uma nova missão passou a ser atribuída ao Exército: garantir o monopólio estatal do uso da força, ou seja, desarmar o Hezbollah. O desafio central está justamente na execução prática dessa missão, tema que deverá ser enfrentado pela conferência prevista para março de 2026, em Paris, que precisará antecipar o cenário de recusa ao desarmamento por parte do grupo. O papel do Legislativo é central nesse processo. O adiamento sistemático dos debates sobre defesa nacional, seu aprisionamento em comissões e a invocação permanente de um consenso indefinido revelam menos inércia e mais uma escolha política deliberada. Assim, a ajuda internacional corre o risco de se transformar em um exercício de equilíbrio instável: sustentar uma instituição considerada legítima, mas sem lhe garantir a cobertura política indispensável para o cumprimento pleno de sua missão. Este é um dos principais dilemas que cercam o Exército às vésperas da conferência de apoio em Paris. A suspensão de uma modernização estratégica decisiva Essa ambiguidade política produziu efeitos concretos. A iniciativa saudita lançada em 2013, com um aporte de US$ 3 bilhões, oferecia bases sólidas para uma verdadeira construção de capacidades, incluindo meios navais e um sistema de defesa aérea de dois níveis, com artilharia e MANPADS, capazes de interceptar drones até 6 km de altitude. Essa assistência representaria um salto qualitativo na segurança estratégica do Líbano, com foco na proteção dos centros de decisão política, estratégica e operacional do Estado. A interrupção abrupta do projeto, após a intervenção política e midiática de Hassan Nasrallah, evidenciou a fragilidade de qualquer planejamento militar diante das dinâmicas de poder internas e regionais. O resultado foi deixar o Estado e o Exército expostos a novas ameaças, especialmente o uso de drones, sem meios adequados de proteção. A transformação da guerra e o desafio tecnológico Os conflitos recentes transformaram profundamente a natureza da guerra. Inteligência, superioridade tecnológica e integração de capacidades por meio da inteligência artificial tornaram-se fatores decisivos. A experiência regional mostra que atores com déficit tecnológico estrutural permanecem em desvantagem duradoura. A guerra recuperou, assim, sua capacidade de surpreender. Nesse cenário, a questão não é apenas conter atores armados não estatais, mas permitir que o Exército libanês alcance um nível tecnológico e doutrinário capaz de garantir credibilidade operacional e iniciativa estratégica. Um fator central permanece: o tempo necessário para transformar recursos financeiros em capacidades reais. Esse “fator tempo” é medido em anos. Para desarmar o Hezbollah hoje, seria necessário ter iniciado os preparativos em 2015, sem depender de Israel ou de qualquer outro país para cumprir essa tarefa. A pergunta, portanto, é que tipo de Exército o Líbano deseja ter em 2035. Capacidades, recursos humanos e ilusões estratégicas Reduzir o debate a uma lista de equipamentos é um erro grave. Um Exército se constrói com capacidades coerentes, pessoal qualificado, doutrina clara, cadeia de comando funcional e apoio político contínuo. Os esforços de desenvolvimento de capacidades ajudaram a preservar estruturas existentes, mas muitas delas já estão defasadas frente às transformações aceleradas da guerra moderna. Controle de fronteiras, vigilância da zona econômica exclusiva e presença permanente no território exigem efetivos treinados, remunerados e sustentados no longo prazo. Missões ambiciosas, como o desarmamento de uma organização fortemente armada, exigem recursos e vontade política proporcionais. Isso implica compromisso orçamentário claro do Estado, inclusive com a destinação de uma parcela definida do PIB à defesa e à segurança. Missões estratégicas claramente definidas Em um ambiente dominado pela Inteligência, cinco missões se destacam como centrais para o futuro das LAF: coleta e análise de informações, defesa e controle de fronteiras, capacidade de operações ofensivas internas com alta probabilidade de sucesso, dissuasão e interoperabilidade com forças aliadas. Executadas de forma eficaz, essas missões sustentam a credibilidade, a eficácia e a sustentabilidade institucional do Exército. Cobertura política e responsabilidade do Estado No núcleo do problema está a responsabilidade política. O Estado frequentemente exige do Exército missões para as quais não há decisões claras nem responsabilidade assumida. Há sinais de evolução gradual e positiva, com questionamento de certas proteções políticas implícitas, mas o custo político e securitário desse processo permanece indefinido. A análise das bases de poder do Hezbollah, sua base social, profundidade estratégica, proteção política interna, recursos financeiros e comunicação estratégica, mostra que apenas uma decisão estatal plenamente assumida, sustentada por coerência governamental e diálogo interno estruturado, pode criar as condições para uma ação militar eficaz que afirme a supremacia do Estado. De equipamentos a capacidade operacional sustentável Equipamentos, por si só, não constituem capacidade. Manter uma presença marítima permanente, por exemplo, exige organização clara das zonas marítimas, meios navais, pessoal especializado, treinamento contínuo, manutenção operacional e infraestrutura de alto custo anual. A defesa é cara, mas vital. A prioridade deve ser consolidar plenamente as capacidades existentes antes de adquirir novas. O custo é administrável se distribuído ao longo do tempo, desde que haja uma lei que destine uma porcentagem definida do PIB à defesa. Isso reforça, novamente, o papel central do Legislativo. Efetividade militar e coerência política A análise da ajuda, das capacidades e dos desafios do Exército libanês revela uma constante: a eficácia militar é inseparável da coerência política. Sem mandato claro, cobertura política e financeira responsável e uma estratégia nacional de defesa explícita, investimentos em equipamentos e pessoal tendem à esterilidade. Segundo o general Maroun Hitti, o trabalho estruturante desenvolvido nas últimas duas décadas pelo Estado-Maior merece reconhecimento. Sua abordagem rigorosa preservou a coerência profissional e operacional da instituição sob condições políticas e financeiras extremamente restritivas. No entanto, o tempo joga contra: a guerra evolui mais rápido do que a capacidade de adaptação do Exército, e a assistência internacional precisa levar isso em conta. Nada disso, porém, exime o Estado de sua responsabilidade primária. Cabe exclusivamente a ele transformar esforços técnicos em uma verdadeira estratégia nacional de defesa e fornecer às Forças Armadas Libanesas diretrizes claras e opções estratégicas bem definidas para o futuro próximo.

De Cila a Caríbdis
Por
Karim Tabet
Publicado

O que se desenrolou diante de nós não foi uma tragédia grega em três atos, mas uma experiência vivida: crua, imediata, degradante e imperdoável. Em menos de duas semanas, assistimos, sucessivamente, nas telas, a uma comédia grotesca, uma situação surreal e uma catástrofe humana. Três episódios distintos, mas todos reveladores e condenatórios dos males cotidianos que continuam a corroer um Líbano esgotado e fragilizado. A Feira dos Tolos “O que esse homem pode ter em comum com o povo, esse burguês pretensioso e corpulento, um arrivista que frequenta bares sofisticados, e um homem que realmente trabalha? E não é a maior miséria do nosso tempo que seja justamente esse tipo de homem quem fale pelo povo, fale entre o povo e fale sobre o povo?” Essas palavras, escritas por Charles Péguy em seu ensaio L’Argent e dirigidas ao seu antigo mentor Jean Jaurès, aplicam-se perfeitamente à maioria dos chamados representantes do povo, que se aproveitam de qualquer oportunidade, sob qualquer pretexto, para defender os “interesses” de seus eleitores. Dizer a verdade, toda a verdade, nada além da verdade, ou mesmo apenas parte dela, por mais dura, incômoda ou difícil de engolir, não parece fazer parte de seu credo. Mas isso realmente surpreende alguém? Devemos esperar algo melhor? Durante três dias, assistimos a um espetáculo absolutamente ridículo, absurdo, grotesco e até vergonhoso, em certos momentos à beira de uma briga generalizada. Não se tratava de uma comédia à la Feydeau, mas dos debates parlamentares sobre o orçamento de 2026. Personagens despejaram banalidades, mentiras, imprecisões e meias-verdades; outros, seja para apaziguar a raiva legítima dos manifestantes nos portões do Parlamento, seja para conquistar alguns votos a mais na próxima eleição, propuseram, sem qualquer estudo prévio, o aumento dos salários dos militares aposentados. Houve também os moralistas, que ocuparam a tribuna para discursar absurdos, e aqueles que simplesmente aceitaram um orçamento mal elaborado, injusto e francamente absurdo, mesmo quando representantes de seus próprios governos se posicionaram contra. Um espetáculo lamentável. Tudo isso ocorreu em meio a um caos digno de um galinheiro, com galinhas cacarejando e brigando, enquanto o galo, empoleirado, parecia completamente perdido. Tanto que ordenou o corte imediato da transmissão televisiva, seja para poupar o “galinheiro” de mais humilhação aos olhos do mundo, seja para fazer passar decisões impopulares sem alarde. Em suma, uma verdadeira cacofonia: todos gritando, fingindo indignação, gesticulando e protestando em voz alta, enquanto o povo sofre, paga o preço e permanece, em grande parte, em silêncio. “Quando a verdade é cara, a mentira se torna eficaz”, dizia Platão ao falar da democracia. Nosso Parlamento da Vergonha é a prova mais clara e incontestável disso. Um Espetáculo Absurdo Deveríamos ter acreditado em Papai Noel quando o comandante do Exército chegou a Washington? Ou a missão que lhe foi confiada já estava condenada ao fracasso desde o início, destinada a naufragar às margens do Potomac? Foi falta de preparação, erro de avaliação psicológica ou ingenuidade? Ou tudo não passou de uma armadilha na qual Heykal caiu? O Estado-Maior do Exército está tão infiltrado pelo Hezbollah? Existe, de fato, alguma vontade real de enfrentar a milícia? Não há dúvida de que a resposta do comandante à pergunta do senador Graham será objeto de múltiplas interpretações e muitos comentários. Infelizmente, também pode abrir caminho para novos problemas e sérias complicações que o país não tem condições de suportar. Temos, portanto, o direito, se não o dever, de nos fazer essas perguntas, à luz não apenas das necessidades urgentes do Exército, da credibilidade e da autoridade do Estado, mas sobretudo da esperança que todo libanês sincero depositou no sucesso dessa missão, que espero não termine em decepção. “Quando alguém deseja a saúde, é preciso primeiro perguntar se está disposto a eliminar as causas da doença”, dizia Hipócrates. Ao buscar ajuda externa, não se pode ser seletivo nem tentar enganar os outros. Uma verdade elementar. Graham estaria, de fato, enviando uma mensagem clara ao Estado libanês por meio de seu representante? Teria sido fácil ao general responder com tato e habilidade. Havia várias respostas aceitáveis. Em vez disso, reagiu de forma reflexiva à pergunta armadilha do senador, cuja posição em relação a Israel é amplamente conhecida e nunca foi ocultada. Até Darin Lahoud, congressista de origem libanesa e profundamente ligado ao Líbano, foi muito claro em suas declarações sobre o Hezbollah. E, ainda assim, o desastre aconteceu. É evidente que, mais uma vez, perdemos uma oportunidade histórica de virar a página, afirmar nossa real vontade de assumir nosso próprio destino e abrir um novo capítulo mais promissor. Resta torcer para que esse espetáculo surreal não produza consequências graves para todos nós. O que está em jogo é o destino de um país onde reinam a corrupção e a desigualdade, e de uma população empobrecida, exausta, desesperançada e no limite. O ceticismo, portanto, segue sendo a regra, até segunda ordem. A Tragédia de Trípoli Em que tipo de selva estamos vivendo? Essa é uma pergunta cotidiana, mas o que ocorreu recentemente em Trípoli não é apenas uma catástrofe humana: é, acima de tudo, o resultado de negligência criminosa e corrupção endêmica em todos os níveis. Uma tragédia dessa magnitude teria derrubado muitos responsáveis em qualquer país que se respeitasse. Alguns ministros e altos funcionários deveriam ter renunciado; outros, sido presos. Uma cena dolorosa que reflete a degradação profunda do país, sua desintegração sistêmica e a injustiça estrutural. Cioran dizia, com ironia cortante, que “o que há de infeliz nas desgraças públicas é que todos se consideram competentes para comentá-las”. Os deputados da cidade são rápidos em ocupar os holofotes, aparecer nos meios de comunicação, inflar o peito e acusar o Estado de negligência. Mas onde estavam quando a tragédia começou a se desenhar, semanas atrás, na capital do Norte? O mesmo vale para o próprio Estado. Os milionários de Trípoli, que poderiam ter contribuído para a recuperação de prédios em risco, também estiveram ausentes. Apesar dos alertas e da ameaça iminente de desabamento de dezenas de casas, nenhuma ação séria foi tomada. Ninguém moveu um dedo. E, mais uma vez, a cidade foi atingida pela tragédia em 8 de fevereiro. Hoje, o número de mortos e feridos continua a aumentar, todos vítimas da irresponsabilidade e da indiferença de uma administração esclerosada e apodrecida. Com o risco de desagradar os apoiadores mais radicais do Hezbollah, não basta apaziguar os habitantes do Sul às custas do restante do país. Essa região, devastada pela irresponsabilidade da milícia armada, merece atenção do Estado, sem dúvida. Mas não à custa de outras regiões igualmente atingidas por desastres, que também necessitam urgentemente de recursos, assistência séria, proteção e cuidado governamental. Trípoli é apenas um exemplo. A urgência bate à porta, e os riscos de uma revolta popular, com consequências imprevisíveis, podem surpreender as autoridades a qualquer momento. A raiva cresce, e essa cidade, há muito abandonada e deliberadamente deixada à própria sorte, tem voz. Remendar rachaduras e recorrer a soluções improvisadas já não basta. Um estado de emergência e um plano sério de resgate são urgentemente necessários para evitar o pior. Voltaire dizia que “a política é a forma pela qual homens e mulheres sem princípios governam homens e mulheres sem memória”. Concordo com cautela com a primeira parte da frase, pois acredito que ainda existam pessoas íntegras e bem-intencionadas entre nós. Quanto ao restante, é difícil discordar. Nossa situação política atual é a ilustração perfeita: seguimos reciclando as mesmas figuras e recomeçando do zero. Estamos realmente tão subjugados, ou tão esquecidos? O desejo incessante de nossos bufões locais de brincar conosco ainda não revelou seus limites? Seu desempenho desastroso não merece reflexão? Estamos, então, condenados a cair eternamente de Cila em Caríbdis? Fica a reflexão.

O crime ambiental, uma arma de guerra da Antiguidade aos dias de hoje

A utilização pela aviação israelense, em 1º de fevereiro de 2026, de um potente herbicida, o Glifosato, sobre vastas áreas do território libanês reacendeu a questão dos danos infligidos deliberadamente aos recursos naturais em tempo de guerra. 1º de fevereiro de 2026: a aviação israelense é observada pulverizando uma substância aparentemente tóxica sobre amplas zonas do sul do Líbano, na região de Bint Jbeil. Três dias após o incidente, em 4 de fevereiro, na sequência de análises realizadas em amostras recolhidas pelo exército libanês e pela Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL), os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente anunciaram que a substância em questão era Glifosato, um potente herbicida. O comunicado ministerial indicou que o produto havia sido pulverizado “em concentração muito elevada”, denunciando uma “violação flagrante da soberania libanesa” e um “crime ecológico”. Do lado israelense, o canal I24 mencionou uma “pulverização agrícola de forma experimental nas fronteiras norte com o Líbano e a Síria”, reconhecendo que a disseminação dessas substâncias visa “matar a vegetação nas fronteiras, por receio de que combatentes ali se escondam”. A aviação israelense praticamente não deixou o espaço aéreo libanês desde outubro de 2023, data do início do conflito com o Hezbollah, apesar do cessar-fogo de novembro de 2024. Durante os meses de guerra aberta entre outubro de 2023 e novembro de 2024, Israel já havia utilizado materiais tóxicos e incendiários para queimar milhares de hectares no Líbano, em especial fósforo branco. A pulverização de um herbicida potente em alta concentração sobre áreas verdes constituiu, contudo, um novo patamar nesse tipo de violência. Após esse episódio, o Líbano prepara uma queixa por “crime ambiental” junto à ONU, e não é a primeira vez. Em 2006, durante o conflito de julho-agosto, a aviação israelense atingiu os depósitos de combustível da usina elétrica de Jiyeh (ao sul de Beirute), provocando um derramamento de petróleo que poluiu toda a extensão do litoral libanês ao norte dessa localidade e até a Síria. Nada menos que 15.000 toneladas de petróleo foram despejadas no mar. Esse derramamento foi objeto de uma queixa do governo libanês à ONU, resultando numa resolução não vinculativa da Assembleia Geral, em 20 de dezembro de 2014, aprovada por 170 votos contra 6, exigindo que Israel pagasse mais de 856 milhões de dólares em compensação ao Líbano, o que nunca ocorreu. A pulverização de Glifosato sobre o sul do Líbano, por mais escandalosa que seja, recorda que os crimes ambientais em plena guerra são, infelizmente, uma prática recorrente nos conflitos, remontando à Antiguidade e atravessando a história humana. Seguem-se alguns exemplos extraídos de uma lista que está longe de ser exaustiva. Na Antiguidade e ao longo da história As guerras, da Antiguidade ao período moderno, passando pela Idade Média, foram palco de numerosos casos de destruição de terras agrícolas, florestas e recursos de toda natureza, com o objetivo principal de privar o inimigo dos meios de resistência. Esses métodos incluíam a destruição de canais de irrigação, inundações artificiais e o escoamento de cursos ou pontos de água, a salinização deliberada dos solos, políticas de terra arrasada, a queima de colheitas e o corte de árvores frutíferas, o envenenamento da água com cadáveres, substâncias ou plantas tóxicas, bem como a devastação de territórios agrícolas, deixando os solos empobrecidos por décadas. Entre os casos célebres está a destruição da Ática por Esparta durante a Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.), caracterizada pelo aniquilamento de colheitas, olivais e fazendas com o objetivo de provocar fome e forçar a capitulação. Como exemplo de inundações deliberadas, podem citar-se aquelas utilizadas entre as cidades-Estado mesopotâmicas (III-II milênio a.C.), quando exércitos rompiam diques e desviavam canais de irrigação para inundar campos ou cidades inimigas, enfraquecendo a economia agrícola e reduzindo a resistência. As inundações deliberadas também foram empregadas para defesa, mas seus efeitos ambientais foram igualmente devastadores. Prova disso foi a abertura voluntária de diques pelos rebeldes neerlandeses durante a Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648) para retardar o exército espanhol, criando zonas pantanosas intransponíveis. Embora tenham assegurado a sobrevivência das então Províncias Unidas, os efeitos sobre a agricultura e o meio ambiente foram duradouros. O “homem do poço”, séculos depois Outra arma de guerra com consequências ambientais devastadoras é o envenenamento da água, uma tática comum na Idade Média, tanto biológica quanto psicológica. Utilizavam-se cadáveres de animais e substâncias tóxicas disponíveis. Esse método era frequentemente empregado durante cercos para forçar a rendição das localidades sitiadas. Entre os exemplos documentados destaca-se o episódio do “Well-Man” em Sverresborg, na Noruega, em 1197. Durante um ataque, partidários rivais teriam lançado um cadáver no poço de uma fortaleza para quebrar a resistência dos defensores. A prova surgiu séculos depois, com uma descoberta arqueológica em 1938, quando os restos desse “homem do poço” foram encontrados no local. Outros casos de envenenamento da água foram registrados ao longo dos séculos, inclusive em guerras modernas, como quando forças alemãs envenenaram poços na França durante a Primeira Guerra Mundial. Na Idade Média também era comum a destruição de campos e zonas rurais, tanto nas guerras feudais europeias quanto nas Cruzadas. Um dos exemplos mais notórios de poluição deliberada no século XX é o incêndio dos poços de petróleo kuwaitianos pelas forças iraquianas durante a Primeira Guerra do Golfo, em 1991, o que provocou grave poluição do ar, do solo e da água, além de extensas marés negras. O Iraque foi condenado pela ONU a pagar reparações ao Kuwait. Hoje, a Ucrânia acusa a Rússia de numerosos crimes de guerra desde o início da invasão russa há quatro anos. O exemplo mais notório é a destruição da barragem de Kakhovka em 2023, que provocou uma inundação devastadora de mais de 20 quilômetros quadrados. Estatuto jurídico Entre os crimes ecológicos históricos e os contemporâneos, especialmente dos séculos XX e XXI, há numerosas diferenças, apesar de algumas semelhanças. Historicamente, os danos eram mais localizados e regionais, enquanto hoje podem ter dimensão planetária, afetando ecossistemas compartilhados, como os oceanos ou a biodiversidade global. A globalização, os efeitos globais das mudanças climáticas e os meios militares modernos disponíveis aos beligerantes tendem a agravar as consequências desses ataques, com riscos globais como migrações em massa ou grandes crises alimentares. A escala e a duração potencial desses efeitos devastadores não são as únicas diferenças entre as guerras históricas e as atuais. A consciência jurídica evoluiu. Esses crimes passaram a ter nome e estatuto: ecocídio. O termo refere-se à gravidade, durabilidade e extensão dos danos ambientais resultantes de atividades humanas destrutivas, seja a exploração excessiva de recursos, poluição industrial e química ou, sobretudo, a guerra. O termo foi utilizado pela primeira vez em 1970 pelo biólogo Arthur Galston, a propósito do uso pelos Estados Unidos de potentes herbicidas, especialmente o Agente Laranja, para destruir florestas e culturas durante a Guerra do Vietnã (1961-1971), com consequências sanitárias e ecológicas duradouras. Efeitos sobre as mudanças climáticas Embora o termo ecocídio já conste na legislação de alguns países, ainda não é reconhecido como competência específica do Tribunal Penal Internacional. O debate permanece. No entanto, a ONU já adotou decisões para obrigar beligerantes a pagar reparações a países vítimas de ataques devastadores ao meio ambiente, como nos dois casos mencionados: Israel pelo derramamento de 2006 no Líbano e o Iraque pelos incêndios dos poços kuwaitianos em 1991. Por fim, a questão dos efeitos dos conflitos sobre as mudanças climáticas — em particular as emissões resultantes do uso massivo de munições e as consequências da destruição de florestas, verdadeiros sumidouros de carbono — é cada vez mais discutida no âmbito das cúpulas climáticas anuais organizadas pela ONU. O exemplo dos bombardeios israelenses massivos sobre Gaza desde 7 de outubro de 2023 foi citado nesse contexto. Contudo, o impacto dos conflitos sobre as mudanças climáticas ainda não foi plenamente integrado ao processo de negociações internacionais para combatê-las. Trata-se de um tema extremamente sensível sob diversos aspectos.

A Argélia perante o ponto de viragem do Saara
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Khairallah Khairallah
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A reunião realizada recentemente na sede da Embaixada dos Estados Unidos em Madrid, dedicada à aplicação da Resolução 2797 adotada em 31 de outubro passado relativa ao Saara marroquino, está longe de constituir um acontecimento trivial. A presença da Argélia, representada pelo seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Ahmed Attaf, assume particular relevância por recolocar a questão na sua verdadeira dimensão: o diferendo em torno do Saara é, na sua essência, um conflito marroquino-argelino, sendo a Frente Polisário apenas um instrumento utilizado pelo regime argelino para legitimar uma guerra de desgaste conduzida contra Marrocos há quase meio século, desde que o Reino recuperou as suas províncias saaraui na sequência da retirada do colonizador espanhol em novembro de 1975. Marrocos esteve representado na reunião pelo seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Nasser Bourita, num encontro realizado sob os auspícios de Massad Boulos, enviado especial norte-americano para África. Estiveram igualmente presentes o ministro mauritano dos Negócios Estrangeiros, Mohamed Salem Ould Merzoug, um representante do Polisário e o enviado pessoal do secretário-geral das Nações Unidas, Staffan de Mistura. Não é a primeira vez que a Argélia participa numa reunião relacionada com o futuro do Saara. Contudo, é a primeira ocasião em que intervém num debate cujo fundamento explícito é a Resolução 2797, a qual consagra a iniciativa marroquina de autonomia como o único documento atualmente em negociação. Segundo fontes conhecedoras dos trabalhos, a Argélia procurou reintroduzir a questão do “direito à autodeterminação”, ignorando que a resolução do Conselho de Segurança sublinha claramente a autonomia “no quadro da soberania marroquina”. Mais ainda, o regime argelino não estaria disposto a participar em negociações relativas à autonomia não fosse a pressão exercida pelos Estados Unidos. Essa mesma pressão levou Marrocos a apresentar um documento detalhado de quarenta páginas que desenvolve a sua visão da autonomia. Recorde-se que a iniciativa original, apresentada pelo rei Mohammed VI em 2007 a partir de Laayoune, capital do Saara, limitava-se a três páginas e assentava na afirmação da soberania marroquina e numa ampla descentralização. O elemento decisivo reside hoje na dimensão política da participação argelina na reunião de Madrid. Argel não teria comparecido se não estivesse convencida de que não existe margem para melhorar as relações com Washington sem entrar em negociações sobre o futuro do Saara baseadas na proposta marroquina. Preferiria manter reservas quanto à Resolução 2797 e continuar a utilizar o Polisário como cobertura da sua posição. No entanto, a constatação de que tal estratégia comprometeria qualquer tentativa de reforçar os laços com os Estados Unidos — num contexto de deterioração das relações com a França e de divergências estratégicas com a Rússia relativamente ao Mali — conduziu a este ajustamento. Acresce o reconhecimento norte-americano, em 2020, da soberania marroquina sobre o Saara, reconhecimento posteriormente seguido por vários países europeus. Tal facto evidencia a inexistência de qualquer futuro para o projeto que visava transformar o território num satélite da órbita argelina. A estabilidade do Sahel surge cada vez mais associada à autoridade de Marrocos sobre as suas províncias saaraui, em vez de à liberdade de ação do Polisário numa região marcada por redes extremistas e por circuitos de contrabando de toda a natureza. A participação argelina na reunião de Madrid constitui, assim, um passo em direção ao realismo político — e talvez também à superação de um complexo histórico relativamente a Marrocos e à sua posição dominante no Norte de África. Não se trata, de modo algum, de um gesto menor. Trata-se de saber se a Argélia deseja finalmente libertar-se do peso do passado e da aspiração de alcançar o oceano Atlântico sem o consentimento explícito de Marrocos. O Saara marroquino dispõe de uma extensa fachada atlântica, e o porto de águas profundas de Dakhla tornou-se parte integrante das ambições africanas de acesso marítimo. A Argélia tem uma oportunidade real de estabelecer um corredor terrestre até ao oceano através do território marroquino. Tal exige cooperação com Rabat, em vez de manter a rutura diplomática, o encerramento das fronteiras desde 1994 e a proibição de sobrevoo do espaço aéreo argelino por aeronaves com destino a Marrocos. Em última análise, o reconhecimento da marroquinidade do Saara poderá abrir caminho a uma reorientação estratégica em Argel, afastando-a de apostas infrutíferas e de escaladas retóricas que chegaram ao ponto de apoiar o regime sírio liderado por Bashar Assad. Nada impediria permitir aos cidadãos argelinos visitar Marrocos e observar os progressos realizados em matéria de desenvolvimento e infraestruturas, apesar da ausência de recursos energéticos comparáveis. Tal passo traduziria uma vontade de pertencer ao futuro em vez de permanecer prisioneiro de slogans revolucionários ultrapassados. Quando reconhecerá a Argélia a marroquinidade do Saara, em vez de ver o seu ministro sair discretamente por uma porta lateral para evitar ser fotografado ao lado do seu homólogo marroquino?

Nassib Lahoud… o “presidente dos sonhos” permanece

No aniversário da morte de Nassib Lahoud, em um país acostumado a consumir seus presidentes antes de testá-los e a reduzir padrões antes de elevá-los, seu nome permanece fora desse jogo de consumo. Não porque tenha desaparecido da política, mas porque esteve presente de outra forma: como presença de uma ideia, não de um acordo; de um projeto, não de uma partilha de poder. Por isso, sempre que o Líbano entra em uma nova crise presidencial, o nome de Nassib Lahoud ressurge como o “presidente dos sonhos”; não como nostalgia romântica, mas como referência moral e política do que poderia ter sido. Nassib Lahoud não foi produto de um momento passageiro, nem um candidato circunstancial. Foi fruto de uma escola política clara: a escola do Estado. Um Estado de Constituição e instituições, não um Estado de compromissos feitos acima e abaixo da mesa. Desde que ingressou na vida pública, apresentou-se como um homem de visão, não de posição. Não buscou a presidência como um fim em si mesmo, mas como instrumento para reconstruir o Estado. Em um país onde a presidência havia se transformado em prêmio de consolação ou ferramenta de bloqueio, Lahoud a apresentou como um cargo soberano, com garantias constitucionais claras. Nassib Lahoud se destacou por três qualidades raras na política libanesa. A primeira foi a clareza. Não usava palavras vagas nem se escondia atrás de fórmulas ambíguas. Sobre soberania, era categórico: não há Estado com armas fora de seu controle, nem parceria legítima com um aparato de segurança usurpado. Sobre reformas, era direto: não há economia sem Judiciário independente, não há justiça social sem um sistema tributário justo, nem administração pública sem responsabilização. Essa clareza o tornou “inviável” em um mercado político que prefere a ambiguidade por ampliar as margens de manobra. A segunda qualidade foi a independência. Nassib Lahoud não estava vinculado a nenhum eixo, não era refém de nenhuma liderança nem submisso a qualquer potência estrangeira. Sua independência não era slogan, mas prática cotidiana, expressa em suas posições, discursos e alianças. Por isso, seu nome não foi construído em negociações de bastidores nem alçado por decisões regionais. Essa foi, ao mesmo tempo, sua força e sua fragilidade: força diante da população, fragilidade diante de um sistema que rejeita quem não pode ser controlado. A terceira característica foi a ética política. Em um país onde a política opera segundo a lógica da dominação ou da chantagem, Lahoud ofereceu outro modelo: respeito ao adversário, fidelidade à Constituição e prioridade ao interesse público sobre ganhos pessoais. Não ficou marcado por corrupção, acordos obscuros nem retórica inflamatória. Por isso, para muitos, parecia “idealista demais”. A verdadeira questão, porém, é outra: o problema era o idealismo de Lahoud ou a degradação da própria política? Quando seu nome foi seriamente considerado para a presidência em momentos críticos, o sistema libanês pareceu rejeitá-lo automaticamente. Não por falta de competência, mas por excesso dela para um sistema baseado no bloqueio mútuo. Um presidente como Nassib Lahoud teria significado o início de uma responsabilização real, uma redefinição da relação entre o Estado e as armas, entre o governo e o Judiciário, e entre a política interna e a externa. Teria também representado o fim da “zona cinzenta” da qual todo um sistema se alimenta. Hoje, após o colapso financeiro, a desintegração das instituições e a erosão da confiança interna e internacional, Nassib Lahoud parece mais atual do que nunca. Suas ideias sobre Estado, soberania e reforma tornaram-se evidentes para amplos setores da população libanesa, que pagaram o preço por tê-las ignorado. A ironia dolorosa é que o Líbano precisou do colapso para compreender que o “presidente dos sonhos” não era um luxo intelectual, mas uma necessidade existencial. Nassib Lahoud não era um santo nem infalível. Mas era um homem de princípios. E, na política, princípios importam mais do que táticas. Assim, quando se diz que Nassib Lahoud permanece como o presidente dos sonhos, a referência não é apenas à sua pessoa, mas ao modelo que representava: um presidente que não negocia o Estado, não o reduz a instrumento e não o explora. Um presidente que devolve sentido à presidência, prestígio ao Estado e dignidade ao cidadão. Até que o sistema amadureça o suficiente para escolher alguém como Nassib Lahoud, seu nome continuará como um espelho incômodo: todo presidente é medido por ele, e todo compromisso se revela quando comparado a ele. Talvez resida justamente nessa presença simbólica duradoura o seu significado mais profundo.