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Enorme explosão provocada por um ataque israelita perto de Al-Mansouri, no sul do Líbano. (AFP)
O essencial da semana
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Por LevantTime .
Publicado em set 6, 2026 - 23:27
Enquanto os Estados Unidos pareciam ter optado apenas pela guerra econômica contra o Irã, o exército americano lançou abruptamente na terça-feira ataques contra o território iraniano, em retaliação a ataques contra petroleiros, desencadeando uma espiral de violência ao longo da semana. No Líbano, Israel libertou vários civis detidos em suas prisões, enquanto suas forças armadas ocupavam a colina estratégica de Ali el-Taher e prosseguiam com seus bombardeios massivos na zona que controla no sul do país. A semana de 31 de agosto a 6 de setembro foi marcada por uma nítida aceleração dos acontecimentos no Oriente Médio, depois de uma semana anterior que parecia mergulhada na estagnação. Na frente iraniana, já na noite de terça-feira, o exército americano realizou ataques direcionados em território iraniano, os primeiros em quase um mês. Esta captura de tela, feita em 6 de setembro de 2026 a partir de imagens de vídeo sem data divulgadas no mesmo dia pelo Comando Central dos EUA, mostra o que o Centcom apresenta como um dos petroleiros iranianos que destruiu em retaliação a tentativas de ataques com mísseis contra navios militares. (Centcom via AFP) No entanto, o ritmo relativamente contido desses ataques dá a impressão de que o governo americano optou por uma escalada controlada, mantendo ao mesmo tempo o bloqueio e as pressões econômicas contra Teerã. Ainda assim, a tensão não parou de crescer ao longo da semana. Explosões foram ouvidas no sábado na ilha altamente estratégica de Kharg, por onde passa a maior parte do petróleo iraniano. O presidente americano Donald Trump, por sua vez, ameaçou atacar o complexo nuclear de Kuh-e Kolang — “montanha da picareta” em persa, ou Pickaxe Mountain —, uma instalação fortemente protegida e enterrada a grande profundidade, não muito longe de Natanz, o principal centro de enriquecimento de urânio do Irã. Mais cedo na semana, ele havia formulado a equação do “petroleiro por petroleiro”, prometendo atingir um navio iraniano cada vez que os Guardiões da Revolução atacassem um petroleiro no Estreito de Ormuz. Foi exatamente isso que o exército americano fez no sábado, incendiando dois navios iranianos. No plano político, Donald Trump endureceu ainda mais o tom em relação a Teerã. Depois de afirmar em uma entrevista que as negociações estavam definitivamente congeladas “porque um acordo com eles não vale o papel em que está escrito”, ele declarou no sábado que o “conflito” com o Irã não era uma “guerra”, mas “algo corriqueiro” para os Estados Unidos. Uma forma de mexer com os nervos dos iranianos ao mesmo tempo em que tranquiliza sua opinião pública às vésperas das eleições de meio de mandato. Um porto, além de instalações de armazenamento e depósitos, foi danificado após um ataque militar americano realizado na província iraniana de Hormozgan, no sul do país, que faz fronteira com o estreito de mesmo nome, em 6 de setembro de 2026. (AFP) Ao mesmo tempo, a mídia americana Axios publicou no sábado uma reportagem sugerindo que os Estados Unidos já estão pensando além deste conflito, iniciado em 28 de fevereiro. O site afirma, citando autoridades americanas e outras fontes informadas, que o governo Trump está elaborando uma estratégia mais ampla para o Oriente Médio do pós-guerra. Ela se basearia na construção de um alinhamento regional destinado a conter o Irã, encerrar as repercussões regionais dos ataques de 7 de outubro de 2023 realizados pelo Hamas em Gaza e ampliar o círculo de normalização entre Israel e os países da região. A ameaça contra Kuh-e Kolang, que marca o ressurgimento da questão nuclear iraniana, ecoa um anúncio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que lamentou, em 1º de setembro, o fato de o Irã não ter reaberto seus sites aos inspetores após os ataques de maio de 2025. Vale lembrar que, apesar da magnitude da ofensiva israelo-americana contra os sites iranianos, é quase certo que o estoque de urânio enriquecido permaneça intacto e tenha sido colocado em local seguro pelas autoridades iranianas, que continuam apegadas ao que consideram ser seu direito de desenvolver um programa nuclear. Após o anúncio da AIEA, os Estados Unidos, mas também a França, a Grã-Bretanha e a Alemanha, manifestaram a intenção de apresentar uma resolução ao Conselho de Segurança da ONU condenando o descumprimento pelo Irã de seus compromissos em matéria de não proliferação nuclear. Uma unidade visível que contrasta com o clima frio entre Washington e seus aliados europeus desde o início do conflito. Já os iranianos parecem continuar a reagir às turbulências da mesma maneira: atacando vários países vizinhos, como o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos e a Jordânia, sem no entanto atacar diretamente Israel. Ataques maciços no sul do Líbano Na frente libanesa, Israel intensifica suas operações de destruição nas aldeias do sul, chegando a usar, em alguns casos, barris de explosivos. O presidente libanês Joseph Aoun pediu a Washington e à comunidade internacional que “façam cessar” os ataques israelenses no território libanês, que deixaram sete mortos no domingo em meio a uma trégua frágil. Os bombardeios atingiram diferentes localidades da região de Nabatiye. Vinte pessoas também ficaram feridas, entre elas crianças, segundo o Ministério da Saúde. Um ataque destruiu ainda o antigo hospital Ghandour, fora de funcionamento há anos. Libertação de detidos e tomada de Ali al-Taher Mas o evento mais importante da semana no sul foi a tomada, pelos israelenses, da colina estratégica de Ali al-Taher, na região de Nabatiye. O local era um importante quartel-general do Hezbollah, formado por um vasto emaranhado de túneis, de onde operavam combatentes do partido xiita, mas também, segundo algumas informações, combatentes iranianos. Na noite de quinta-feira, os israelenses anunciaram ter assumido o controle do complexo. No domingo, o ministro israelense da Defesa, Israel Katz, declarou que ainda restavam túneis a serem dinamitados. Esse “sucesso” militar talvez não tenha sido uma surpresa após semanas de bombardeios, mas a reação do Hezbollah foi, sim, surpreendente. Depois de garantir por muito tempo que se recusaria a ceder essa colina estratégica — assim como os iranianos, que também haviam ameaçado intervir —, o partido xiita acabou minimizando o impacto desse desenvolvimento por meio de seus veículos de mídia e porta-vozes, sem, no entanto, confirmar oficialmente a perda do local, que havia se recusado a preservar entregando-o ao exército libanês. A outra grande surpresa da semana foi a libertação, por Israel, de cinco civis libaneses e sírios detidos em suas prisões. Essa medida ocorreu após uma visita a Tel Aviv do embaixador dos Estados Unidos no Líbano, Michel Issa. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira “ocorre em seguimento aos esforços empreendidos por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os corpos dos líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano” entre 1984 e 1986. Mais uma vez, a reação do Hezbollah chama a atenção. Embora considere a medida positiva, mas insuficiente, o partido voltou a atacar as autoridades libanesas, acusando-as de “submissão ao inimigo” e responsabilizando-as pelo desastre no sul. Chegou até a alertá-las contra “os conflitos internos”. Será que os reveses militares do partido poderiam levá-lo a se voltar ainda mais contra o cenário interno? Por fim, o exército israelense fez no domingo uma declaração importante, anunciando que está considerando reduzir sua zona de ocupação no Sul do Líbano, passando da atual "zona amarela" para uma "zona cinza". Segundo essa interpretação, tal mudança refletiria uma diminuição da ameaça representada pelo Hezbollah. A medida, no entanto, ainda não foi aprovada pela liderança política israelense. Iêmen e Palestina A semana também foi particularmente tensa no Iêmen, onde os confrontos entre os rebeldes houthis e as forças governamentais não pararam de se intensificar, culminando em um sábado especialmente sangrento, com mais de 60 mortos em um único dia, elevando para cerca de 200 o número de vítimas desde quinta-feira. A ofensiva dos houthis busca sobretudo tomar o controle de certas áreas ao redor da passagem de Bab al-Mandab, o que daria a esse aliado do Irã uma vantagem adicional sobre outro ponto estratégico crucial, depois do estreito de Ormuz. Na Palestina, declarações particularmente preocupantes de Israel Katz sobre Gaza marcaram a semana. Ele afirmou, sem apresentar provas, que a maioria dos habitantes da faixa desejava deixá-la, ressaltando que Israel estava "pronto para essa evacuação em massa". Isso deixa entender que o calvário dos habitantes de Gaza está longe de terminar. Por fim, vale destacar que a AIEA anunciou, em 1º de setembro, que infraestruturas descobertas em Deir ez-Zor, na Síria, indicam que o antigo regime de Bashar al-Assad preparava secretamente um programa nuclear avançado, capaz de resultar na fabricação de uma arma atômica com a ajuda de especialistas norte-coreanos.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado em set 6, 2026 - 13:31
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O jogador argentino, que encerrou sua carreira internacional em 31 de agosto de 2026, não era nada menos que um prestidigitador dos estádios. Sua trajetória, feita de prodígios, quedas e redenção, talvez diga algo sobre nossa necessidade intacta de encantamento em um mundo que, no entanto, pretende ter se livrado dele. Anunciada poucas semanas depois da final da Copa do Mundo de 2026 perdida para a Espanha, a aposentadoria internacional de Lionel Messi não deixou de provocar uma emoção para a qual é difícil encontrar muitos equivalentes na história recente do futebol. Provavelmente seria preciso remontar a Maradona, ou ainda a Cruyff ou Pelé, para reencontrar essa sensação de que, com a retirada de um jogador, desaparece algo que ultrapassa em muito o próprio esporte, como se certa maneira de habitar o futebol, ou até mesmo de acreditar nele, também chegasse ao fim. Longe dos glacis da razão Chega das estatísticas intermináveis e das insuportáveis querelas, tediosas e estéreis, em torno de “quem é o melhor de todos os tempos». O autor destas linhas nunca foi um fanático pela bola, nem por classificações verticais ou por uma hierarquia do mérito em geral e, portanto, aprecia o talento de cada jogador com o mesmo olhar maravilhado de uma criança de 11 anos. De resto, essa obsessão particularmente contemporânea pelos números estraga todo o prazer do espetáculo. E com razão: o procedimento que consiste em somar gols, assistências, Bolas de Ouro, Ligas dos Campeões, Copas América, Copas do Mundo… só pode ser redutor. Em outro registro, ele não deixa de evocar a crítica desenvolvida pelo filósofo germano-americano Eric Voegelin à tentação gnóstica moderna: a de um saber convencido de que pode encerrar a realidade em um sistema e abolir aquilo que lhe resiste. Os recordes são provavelmente um indicador do gênio de Lionel Messi. Mas tantos outros grandes jogadores que fizeram vibrar os estádios e os corações, sem realizar sequer metade dos feitos de Messi, permanecem, ainda assim, eternos na memória. Aquilo que os tornou verdadeiramente singulares encontra-se em outro lugar, longe dos glacis da razão. Algo mais se jogou em torno deles. Algo que pertence a certo sentido profundo da transcendência, que o entendimento jamais poderia apreender plenamente. Esse é o caso de Lionel Messi há mais de vinte anos, desde o dia em que, sob o olhar do “ícone”Diego Maradona, fez sua primeira entrada, em junho de 2006, na arena da Copa do Mundo com as cores da Albiceleste contra Sérvia e Montenegro. Ora, esse elemento indizível que constitui o gênio de Messi, como o de outros, talvez toque em um dos paradoxos mais curiosos da modernidade: a persistência da magia em um mundo que se construiu precisamente contra ela. O mundo desencantado Max Weber falava do desencantamento do mundo para designar esse lento processo pelo qual a modernidade ocidental submeteu progressivamente a existência à racionalização, ao cálculo, à previsibilidade e à explicação causal. O mundo já não deveria ser atravessado por forças obscuras, sinais, intervenções sobrenaturais ou vontades invisíveis; deveria, ao menos em princípio, tornar-se inteligível. Infelizmente, o esporte moderno, e mais amplamente o mundo moderno herdado da globalização, insere-se perfeitamente nessa dinâmica. O futebol de hoje, e não apenas o futebol, é provavelmente um dos objetos mais quantificados que existem. O menor gesto é medido, e tudo é cuidadosamente calculado e modelado. Da matemática à inteligência artificial, o talento bruto depende agora mais da ciência do que do encantamento. É aquilo que há de humano, em sua relação espontânea, até selvagem, com o invisível que nasce do coração, que desaparece diante de nossos olhos em benefício da quadratura do VAR. É, de certo modo, o assassinato do esporte em nome de mais rigor e equidade… ainda que a eutanásia dessa parcela de espontaneidade sublime acabe provocando, ela própria, injustiças flagrantes. Basta, para constatá-lo, voltar a algumas das decisões controversas da Copa do Mundo de 2026. Paradoxo dos paradoxos, o próprio Lionel Messi foi, desde a origem, filho dessa modernidade técnica, da qual certamente deve parte de sua carreira excepcional. Seu corpo, pequeno demais para os padrões esperados, foi corrigido por meio de tratamento hormonal. Identificado muito cedo, seu talento foi assumido por uma instituição que organizou sua formação, alimentação, desenvolvimento físico e integração em uma máquina esportiva já globalizada. Nada, em aparência, poderia estar mais distante do velho relato heroico. À primeira vista, a história se parece mais com distopias do tipo Gattaca do que com mitos e narrativas messiânicas. E, no entanto, esse velho relato de fato retornou, e até com uma insistência quase constrangedora. Desde o início de sua carreira, Lionel Messi foi colocado sob o microscópio. Mas quanto mais se esforçavam para explicá-lo e desmistificá-lo, menos conseguiam dissipar inteiramente a impressão produzida por alguns de seus gestos. O homem simplesmente não consegue ser circunscrito nem reduzido a um acúmulo de dados. Na idade em que a maioria dos grandes jogadores volta para as sombras, ele continua surpreendendo. Estupefazendo, até, ao trazer ao esporte essa parcela de insensatez que escapa à hipersistematização quase robótica do mundo. É provavelmente aí que se deve procurar esse outro lugar que caracteriza Messi. Numa sobrevivência da magia num momento em que até os espaços que permitiam a expressão positiva de uma humanidade feita de carne e sangue se veem progressivamente “disciplinados”por essa atração hipnótica por uma nova gnose puritana em nome da modernidade. O Messias fabricado pela máquina Embora oriundo, de certo modo, da máquina matricial, Lionel Messi constitui, por si só, um questionamento desse modelo de prêt-à-porter. Uma espécie de alter ego do Neo de Matrix, lançado numa simulação governada por parâmetros que pretendem calcular tudo. O destino do argentino adquiriu progressivamente, quase contra sua vontade, a forma de uma narrativa messiânica. O trocadilho com seu nome seria fácil demais se sua própria história não o tivesse constantemente relançado: a da criança frágil, cujo corpo parecia querer negar a realização à qual seu talento a destinava. Depois, a do exílio ainda muito jovem para Barcelona, da adoção por uma cidade estrangeira, da ascensão quase irreal, do reconhecimento mundial e, em seguida, dessa estranha dificuldade de ser reconhecido pelos seus… Durante muito tempo, a Argentina manteve com seu filho pródigo uma relação de hainamoration. Pouco importavam seus resultados, seu talento, seu brilho… ele precisava responder a uma única pergunta, impiedosa: por que não era Maradona? A comparação era certamente inevitável, mas também profundamente injusta. Tudo separava os dois homens em sua maneira de estar no mundo. Maradona carregava a Argentina com tudo o que ela podia ter de passional, contraditório, excessivo e teatral. Falava, provocava, brigava, caía, voltava, misturava ao futebol sua vida privada, suas cóleras, seus compromissos políticos… até sua própria destruição. Seu próprio corpo parecia transformar-se em um dos lugares onde se encenavam as contradições de seu país. Maradona era a própria encarnação daquilo que o mundo esperava do futebol: uma alma rebelde, levando por vezes o jogo até a imoralidade, mas dentro de uma espécie de gigantomaquia futebolística. Maradona era épico. E, sobretudo, havia colocado seu país no firmamento do futebol em 1986. Messi, por sua vez, não oferecia nada disso. Era silencioso, às vezes quase ausente da narrativa que os outros construíam ao seu redor, ausência que durante muito tempo foi interpretada como defeito. Quase apagado, sem personalidade. Era justamente isso que os dois gigantes, Maradona e Pelé, lhe censuravam: falta de liderança, ser liso demais. Uma espécie de bebê de proveta milagroso dos estádios. Também se censurava ao menino de Rosario não cantar suficientemente o hino, não ser argentino o bastante, ter sido “fabricado”por Barcelona e, naturalmente, não vencer com a seleção aquilo que ganhava quase continuamente com seu clube. A profecia inacabada A final da Copa do Mundo de 2014, perdida de maneira dramática para a Alemanha, seguida pelas finais da Copa América de 2015 e 2016, havia transformado progressivamente essa suspeita em acusação. Quando perdeu seu pênalti contra o Chile em 2016 e anunciou depois que deixava a seleção, ele já era, no entanto, um dos maiores jogadores da história do futebol. Mas sua narrativa permanecia estranhamente inacabada. O sentimento de incompletude pouco dizia respeito ao seu currículo. Tratava-se antes daquela necessidade quase arcaica continuamente imposta aos heróis modernos: concluir seu percurso iniciático. Com as cores argentinas, Messi brilhava e depois caía pesadamente. Mas não se levantava. Não cumpria a profecia. E, aos olhos de seu povo, isso reforçava o sentimento de hainamoration: um deus caído continua sendo um deus, apesar de tudo. Mas acrescido daquilo que, aos olhos de seus adoradores, constitui um substrato de humanidade insuportável e, portanto, perfeitamente detestável: suas taras, suas fraquezas. Os argentinos amavam Maradona apesar de sua decadência espetacular e de sua humanidade falível. Mas isso porque ele havia “merecido”essa decadência, porque ela se tornara, de algum modo, aceitável depois do México de 1986. Messi, por sua vez, ainda não tinha o direito de cair, porque ainda não havia chegado ao topo. Não, a profecia não estava cumprida. Começava até a virar caricatura. Messi voltou, portanto. Mas ainda teve de esperar por sua redenção. Foi preciso a Copa América de 2021, no Maracanã, para que essa relação feita de suspeita, expectativa e decepção com seu público e seu povo começasse verdadeiramente a mudar. E foi preciso, sobretudo, a Copa do Mundo de 2022 para que a história adquirisse aquela forma quase perfeita demais que ninguém teria ousado escrever sem parecer ceder a uma facilidade de roteirista. Fato estranho, Maradona havia morrido em 2020. Era como se uma espécie de maldição nacional opressiva tivesse sido levantada. Ao mesmo tempo, o povo argentino precisava de uma figura paterna substituta, e a pressão não fazia senão redobrar. Mas talvez misturada, dessa vez, com um pouco de ternura? O que aconteceu no Catar em 2022 é ainda mais interessante porque o próprio Messi aparece ligeiramente diferente. Protesta mais, responde às provocações, irrita-se, fala com uma violência de que poucos o julgavam capaz e deixa até escapar aquele “¿Qué mirás, bobo?”diante dos neerlandeses, para diversão da Argentina. Buenos Aires finalmente descobre, com atraso, aquilo que sempre esperou dele. Um pouco de Maradona dentro de muito Messi. Mas Messi não se transforma, por isso, em Maradona. E talvez seja precisamente aí que ocorra a verdadeira reconciliação: a Argentina deixa de lhe pedir que seja Maradona. A partir de 2022, Messi já não precisa encarnar outro modelo do gênio nacional. Finalmente pode tornar-se, também para seu país, aquilo que já havia sido em todos os outros lugares: Messi. Simplesmente. O ato final da profecia É verdade que o triunfo de 2022 poderia ter constituído um final perfeito. Mas, como no caso de Maradona, o ato final da profecia heroica é a queda. Ninguém esperava realmente algo excepcional de Messi em 2026. Aos 39 anos, considerava-se amplamente que ele já fazia parte dos “heróis cansados». A queda do Capitólio havia ocorrido com o episódio amargo de sua saída do FC Barcelona e sua desventura no PSG. Já não atuava senão na liga americana, com as cores de Miami… na periferia do mundo do futebol, nas terras distantes do soccer. E a nova geração já estava ali, pronta para mandar os ancestrais a Bicêtre. No entanto, aquela Copa do Mundo de 2026, que parecia destinada a não passar de um epílogo, transformou-se num último golpe de brilho sensacional. A Argentina chegou novamente à final, com Messi, aos 39 anos, ainda como seu “líder histórico”e seu recurso nos momentos decisivos, realizando algo que não deixava de lembrar o que Roberto Baggio fizera pela Itália em 1994, aos… 27 anos: um deus ex machina permanente. Baggio fracassou às portas do triunfo contra o Brasil depois de praticamente carregar a Itália até Pasadena. Seu pênalti enviado por cima do travessão deixaria uma das imagens mais cruéis da história das Copas do Mundo: a de um homem imóvel, de cabeça baixa, mãos na cintura, enquanto o Brasil celebrava a vitória. Aquele que havia “morrido de pé». O duende italiano jamais conheceu a apoteose. Mas essa morte simbólica, longe de apagar seu Mundial, acabou também entrando para sua lenda. A história foi mais clemente com Messi, apesar de uma campanha de ódio contra ele, misturada a acusações de trapaça e favoritismo, num pano de fundo de decisões arbitrais controversas e atos antidesportivos de sua equipe, como havia sido outrora com Maradona. Ainda mais, até. Uma final em sua sexta Copa do Mundo, às portas da aposentadoria, com uma atuação individual extraordinária? É precisamente aí que reside aquilo que há de mágico no fenômeno Messi e que desafia a razão e sua avalanche de estatísticas. O gênio não pode ser encerrado numa soma de parâmetros e variáveis. Sua condição física, mesmo ótima, não pode explicar por si só aquilo de que o mundo inteiro foi testemunha. E pouco importa que sua história nos lembre que o herói, por mais mítico que seja, não pode abolir a sinistra influência de Saturno. O reencantamento do mundo Pois, para além da profecia cumprida, da ascensão à queda, com sua parcela de alegrias e desventuras, o argentino ofereceu ao mundo uma última volta que pertence à arte, quando não a uma forma de poesia homérica. Com a retirada de Lionel Messi da cena internacional, desaparece um pouco da magia do mundo… até que outro herói providencial volte a encantar os estádios. Durante mais de vinte anos, Messi terá encarnado a coexistência de dois mundos que julgávamos incompatíveis: o da racionalização extrema do esporte moderno e aquele, muito mais antigo, do herói, do sinal, da espera e do encantamento. Quando Messi parte, algo dessa contradição aparece de repente. Outros prodígios já surgiram, mas talvez descubramos, justamente no momento em que um de seus últimos grandes representantes deixa a cena, o quanto continuamos precisando de transcendência. O mundo moderno provavelmente não suprimiu o encantamento. Apenas o deslocou. Durante noventa minutos, esse homem chamado Lionel Messi, que o encarnou nos gramados, parte depois de ter realizado tudo. E até mais.
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Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad - Publicado em set 5, 2026 - 20:01
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A pergunta “O mundo ficou mais burro?”reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta “Ficamos mais burros?”não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de “reprodução serial”. Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é “preservado”, mas “reproduzido”. É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de “cadeia do guaxinim”, que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do “guaxinim”não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A “cultura do guaxinim”, portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: “O meio é a mensagem”. O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de “ilusão cognitiva”: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de “semiletrados”: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando “Abaixo a Declaração Balfour!”. A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em “Que alguém caia lá de cima!”, uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um “colapso da inteligência”, mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta “Ficamos mais burros?”torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do “ambiente do conhecimento”: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
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A arrogância iraniana ou a síndrome Saddam
Por
Khairallah Khairallah
Publicado

A cada dia que passa torna-se mais evidente que o regime iraniano, com quarenta e sete anos de existência, enfrenta atualmente apenas duas opções, sem terceira alternativa possível: submeter-se às condições impostas pelos Estados Unidos, que pouco diferem das exigências israelenses, ou enfrentar uma guerra contra Washington da qual o Irã não sairia ileso. Está a “República Islâmica” disposta a reconhecer que não há como evitar lidar com a nova realidade regional, em vez de persistir na arrogância ao estilo de Saddam Hussein? No início de 1991, o governante iraquiano acreditou que poderia negociar de igual para igual com os Estados Unidos, apesar de a posição da administração de George Bush pai ser absolutamente clara. Havia apenas duas escolhas: retirada incondicional do Kuwait ou uma guerra que levaria o Iraque de volta à Idade da Pedra. O então líder iraquiano não compreendeu nem a região, nem o mundo, nem o significado do equilíbrio de forças. Os Estados Unidos não costumam mobilizar uma força militar da dimensão daquela que deslocaram para o Oriente Médio e o Golfo apenas para uma demonstração simbólica. Uma potência do porte dos Estados Unidos não movimenta tal aparato militar sem objetivos definidos. Esses objetivos consistem em alcançar um acordo com a “República Islâmica” que inclua, no mínimo, o fim do programa nuclear iraniano, a eliminação dos mísseis balísticos e de suas plataformas de lançamento. Os mísseis são importantes, mas as plataformas são tão importantes quanto eles, se não mais. Permanece ainda uma terceira condição relacionada aos braços regionais do Irã. O mais destacado é o Hezbollah no Líbano, que continua demonstrando obstinação, ignorando que perdeu a chamada “guerra de apoio a Gaza” e que suas armas jamais foram senão instrumentos a serviço de Israel e de tudo o que contribui para a destruição do Líbano. O exemplo mais marcante disso foi o assassinato de Rafic Hariri, nestes mesmos dias de 2005. O partido, que não passa de uma brigada da Guarda Revolucionária iraniana, eliminou Hariri para impedir uma tentativa séria de recolocar o país no mapa regional e pôr fim à sua utilização como peça na promoção do projeto expansionista iraniano rumo ao Mediterrâneo. Um segundo porta-aviões americano, o Gerald Ford , chegará à região para juntar-se ao Abraham Lincoln , já presente no Golfo. Existem intenções americanas que não podem ser ignoradas. O Irã terá de ceder, de forma pacífica ou pela força. Não se pode ignorar que a “República Islâmica” perdeu todas as guerras travadas na periferia do conflito iniciado em 7 de outubro de 2023. A joia do projeto expansionista iraniano, isto é, o Hezbollah, já não é o que era. Resta-lhe apenas a carta de ameaçar os libaneses com uma guerra civil na tentativa de preservar suas armas, cuja inutilidade diante de Israel ficou comprovada. Além disso, o partido se recusa a admitir que a Síria já não se encontra sob hegemonia iraniana. No início de 1991 realizou-se no hotel Intercontinental, em Genebra, um encontro entre o secretário de Estado americano James Baker e o ministro das Relações Exteriores iraquiano Tariq Aziz. Baker explicou a Aziz e à delegação que o acompanhava que não havia margem para negociações e que o Iraque deveria retirar-se do Kuwait. O ministro iraquiano leu a carta entregue por Baker e depois a deixou sobre a mesa de negociações, alegando que a linguagem empregada o impedia de transmiti-la a Saddam Hussein. A carta permaneceu ali. Eu mesmo a vi sobre a mesa na sala onde ocorreu o encontro. Posteriormente soube que o documento, de grande importância histórica, continua guardado no cofre do hotel. O Irã compreendeu, à luz das negociações realizadas em Mascate entre seu ministro das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, e a delegação americana composta por Steve Witkoff e Jared Kushner, que não há espaço para apostar em divergências entre Estados Unidos e Israel? Entendeu que o dossiê dos mísseis balísticos e de suas plataformas é tão importante quanto o programa nuclear e quanto os braços vinculados à Guarda Revolucionária nos diversos países árabes? O regime iraniano não tem alternativa senão aprender com a experiência de Saddam Hussein, cuja miopia política o impediu de compreender o significado do envio de forças militares americanas ao Golfo logo após a ocupação do Kuwait pelo exército iraquiano. Saddam acreditou que os Estados Unidos estavam blefando e que seu exército poderia resistir no Kuwait. Jamais compreendeu o equilíbrio de forças. O que assusta em 2026 é que o Irã parece disposto a repetir o mesmo erro cometido por Saddam em 1991 e reiterado em 2003, quando George Bush filho e seus assessores decidiram removê-lo do poder. A situação interna no Irã torna o cenário ainda mais complexo. O fracasso externo soma-se a um fracasso interno em todos os níveis, especialmente no campo econômico. Não é verdade que exista uma maioria iraniana que abrace os slogans do regime. Há, sim, uma maioria que prefere a cultura da vida à cultura da morte. Se não fosse assim, o povo iraniano não estaria em revolta em diferentes partes do país desde o início do ano. Não há dúvida de que os serviços americanos estão plenamente informados sobre o que ocorre no Irã, assim como Israel, que já em 1979 percebeu que o regime do Xá havia chegado ao fim e convocou os judeus iranianos a deixarem o país. A maioria partiu naquela ocasião, seguindo as orientações da embaixada israelense, então chefiada por Ori Lubrani. Em poucas semanas saberemos se o regime iraniano escolherá seguir o caminho de Saddam Hussein ou o da prudência, que implica reconhecer que há um preço inevitável a pagar após a perda de guerras, tal como fizeram Alemanha e Japão ao término da Segunda Guerra Mundial.

Alerta, perigo: uma « bomba nuclear » entre Achrafieh e o Metn?

No coração de uma das regiões mais densamente povoadas do Líbano, milhares de metros cúbicos de hidrocarbonetos estão hoje armazenados. De Antélias a Quarantaine, fileiras de reservatórios confrontam um subúrbio vertical que se eleva até 900 metros de altitude, mas permanece, em linha reta, perigosamente próximo. É uma promiscuidade insustentável entre uma indústria altamente inflamável e bairros residenciais superlotados. Vista aérea de 2017. Vista aérea de 2024 mostrando a extensão do projeto. Proximidade das instalações da Coral e Unigaz com a cidade. Duas das cinco cisternas de gás da Coral, comparáveis às da Unigaz, localizadas um pouco mais adiante. O incêndio dos reservatórios de combustível de Dora em 1989, já qualificado na época como «explosão nuclear», que escureceu o céu da capital por vários dias, bem como a explosão do porto de Beirute, que devastou a cidade em 4 de agosto de 2020, não parecem ter sido uma lição suficiente para os responsáveis libaneses. Mais uma vez, o país apresenta a imagem de um Estado fantasma: um governo ausente, meios de comunicação parciais, líderes políticos evasivos e estudos científicos cuidadosamente elaborados para diluir a verdade em uma névoa técnica desanimadora. Coral Oil Co., Total Lebanon e Medco Petroleum para combustíveis, Unigaz, Natgaz, Gaz Orient e Phoenicia para gás, espalham o litoral de Metn com reservatórios e cisternas a perder de vista. Desde que, em 2013, um plano diretor prevê o desmantelamento de todas essas instalações, que se tornaram perigosas em um ambiente agora urbanizado, essas empresas só podem proceder à manutenção da infraestrutura existente, mas sem a menor extensão. Novas instalações Surpreendentemente, porém, entre Achrafieh e Metn, na margem direita da foz do rio Beirute, a Coral Oil está a erguer vinte novos reservatórios de hidrocarbonetos líquidos e, acima de tudo, cinco cisternas de gás de 8 metros de diâmetro e 50 metros de comprimento cada. Os documentos legais apresentados resumem-se a uma licença de construção aprovada pela municipalidade de Bourj Hammoud, uma licença de 1931 para armazenamento de combustível, um documento do Ministério da Energia e Água, bem como relatórios de institutos privados que atestam a conformidade com as normas em vigor. É uma pletora de argumentos administrativos e técnicos que tentam legitimar a implementação deste projeto manifestamente problemático neste ambiente. Segundo algumas fontes, a Coral disporia de uma licença de categoria A1, válida para hidrocarbonetos. Contudo, de acordo com as informações mais recentes recolhidas junto das autoridades competentes, a empresa teria obtido do Ministério da Energia e Água uma licença de categoria A2, aplicável unicamente a óleos e detergentes. O Ministério da Indústria, por sua vez, nunca lhe teria concedido uma licença A1, que é, no entanto, obrigatória. É precisamente para colmatar esta lacuna que são invocadas a antiga licença de 1931 e o decreto do Conselho de Ministros n.º 9949/2013. Este decreto, embora proíba qualquer nova instalação de armazenamento de materiais inflamáveis nesta zona, seria interpretado como autorizando a renovação das instalações existentes. Um risco maior A questão, portanto, permanece: a adição de cerca de vinte novos reservatórios de combustível e cinco cisternas de gás é realmente uma renovação? E uma licença de 1931, emitida numa época em que a área era agrícola, ainda pode ser válida na atual realidade urbana e demográfica? E, acima de tudo, enquanto o combustível queima, como em 1989, o gás explode, à imagem do que aconteceu em 4 de agosto de 2020; um risco maior sublinhado pelo ex-ministro da Indústria, Vreij Sabounjian. Para as comissões de peritos mandatadas pela Coral, o projeto teria em conta todas as margens de segurança exigidas. Resta, no entanto, compreender por que razão o risco terrorista não foi integrado nestas avaliações, embora este fator pareça ter estado na origem da dupla explosão de 4 de agosto de 2020. Convém, além disso, recordar que várias das maiores catástrofes mundiais ocorreram em instalações perfeitamente conformes às normas de segurança. Trata-se aqui da adição de cerca de 20 novos reservatórios de hidrocarbonetos líquidos, representando aproximadamente 180 000 toneladas adicionais, bem como 5 novas cisternas de gás para uma capacidade total estimada em 12 000 m³, ou seja, cerca de 8 000 toneladas de gás. Quanto às distâncias de segurança exigidas, elas são calculadas em quilómetros, segundo um estudo independente realizado pela Socotec para instalações de gás comparáveis e igualmente perigosas, exploradas pela vizinha Unigaz. As regulamentações Estas distâncias são manifestamente incompatíveis com o tecido urbano dos bairros de Dora-Bourj Hammoud. Foi precisamente por esta razão que o decreto n.º 9949/2013 foi adotado, proibindo qualquer nova instalação ou extensão de gás ou petróleo neste setor. Além disso, com base no decreto n.º 8633/2012, o Ministério do Ambiente exige explicitamente a realização de um Estudo de Impacto Ambiental (EIA) que ainda não foi efetuado. O decreto n.º 5509/1994 habilita, é verdade, o Ministério da Energia a autorizar trabalhos de extensão sem a intervenção do Ministério da Indústria, desde que a exploração se mantenha no âmbito inicialmente aprovado. Ora, na prática, este decreto autoriza a modernização das instalações existentes, não a sua extensão. As imagens aéreas que comparam as instalações anteriores a 2017 com as posteriores a essa data são, a este respeito, elucidativas. Elas revelam uma expansão considerável das infraestruturas. Uma necessária tomada de consciência Fundada no Reino Unido em 1925, e estabelecida no Líbano desde 1926, a empresa Shell, agora Coral Oil Company, é um dos intervenientes mais fiáveis do setor energético nacional, e deverá continuar a sê-lo. Face à nebulosa de inconsistências e ambiguidades que rodeia este dossiê sensível, provavelmente politizado, uma certeza impõe-se: cada um de nós, seja apoiante ou opositor do projeto, beneficiário ou lesado, empenhado ou indiferente, poderá um dia arrepender-se amargamente da sua atitude ou inação, se uma tragédia vier a ocorrer, levando consigo um ente querido. Este inquérito não pretende condenar nem estigmatizar. Dirige-se à Coral, às outras companhias de hidrocarbonetos e às autoridades competentes para que exerçam plenamente as suas responsabilidades, na mais total transparência, a fim de evitar um novo cataclismo entre Achrafieh e Metn. Mais vale prevenir do que ter de reviver as dores insuportáveis de 4 de agosto de 2020.

Política da corda bamba e dos deixados para trás

De que adiantaria um ataque ordenado por Trump? Acreditaríamos que isso acabaria com a repressão que se abate sobre os manifestantes iranianos? Na verdade, ninguém é capaz de interromper essas represálias que os Guardiões da Revolução infligem a seus concidadãos. E mesmo que um acordo fosse concluído em Omã para evitar uma operação militar americana, nada indica que a paz civil se instauraria de imediato. Em um caso como no outro, quer os aiatolás cheguem ou não a um acordo de última hora com os Estados Unidos, o movimento de protesto iraniano será entregue à ferocidade de uma “pacificação” que atira com balas reais e à queima-roupa contra manifestantes e outros opositores. « Brinkmanship » e « misreading » Em Omã, e a partir de sexta-feira, 6 de fevereiro, reuniram-se os representantes de Donald Trump e os de Massoud Pezechkian, dois mestres da fanfarronice e do fingimento: o primeiro que se gaba e hesita em executar suas ameaças e o segundo que, adotando posições maximalistas, exigiu a transferência da Turquia para Omã do local da conferência que decidirá o destino do Golfo Pérsico. Se o presidente dos Estados Unidos não surpreende mais ninguém com sua conduta errática, o que dizer do regime dos aiatolás que, reduzido à última extremidade, continua, no entanto, a ostentar? Seu programa nuclear foi “eviscerado”, como diz Patrick Wintour no Guardian , e trinta de seus comandantes de alto escalão foram liquidados após 160 ataques massivos, e com isso, os iranianos acreditam poder impor aos emissários americanos os parâmetros das trocas e a agenda da negociação? Esta brinkmanship que eles praticam com maestria é uma estratégia à beira do abismo que consiste em prosseguir uma ação perigosa para fazer o adversário recuar e obter vantagens. Se eles a utilizam, é porque estão diabolicamente convencidos de que Trump nunca agirá. Esta convicção enraizada corre o risco de levá-los à perdição, e é ainda mais perigoso jogar tudo ou nada, já que os navios da frota dos EUA convergem para o estreito de Ormuz, este ponto de estrangulamento do trânsito de petróleo. Os aiatolás, certos de seu bom direito e acostumados a negociações árduas, deveriam temer acima de tudo o misreading , ou seja, uma grave má avaliação dos dados e dos interesses em jogo. Responsáveis em um nível muito alto, eles não estariam longe de cair vítimas de sua própria presunção, pois acreditam que Trump é um blefador que rapidamente se desinfla. O resultado incerto O inquilino da Casa Branca faria melhor em desenganar seus antagonistas, ele que começa a impacientar-se! Porque, segundo os círculos dirigentes de Israel, como relata o Haaretz , a República Islâmica vai torpedear as ditas negociações, visto que as iniciou apenas para ganhar tempo e conceder uma moratória ao seu programa nuclear. Ora, desmantelar este último ou então “diluir” o urânio altamente enriquecido equivaleria para os aiatolás a dar um tiro no próprio pé. Em resumo, as sessões de negociação que acontecem em Omã podem se arrastar, assim como podem ser interrompidas para depois serem retomadas. O assunto promete ser longo e terminará em nada ou, na melhor das hipóteses, com um bloqueio marítimo. A menos que haja um golpe surpresa israelense! Væ victis Mas os grandes esquecidos e os grandes vencidos das conciliações de Omã continuarão a ser os dissidentes, seu destino não figurando na ordem do dia. Falou-se em 30000 vítimas. Paz às suas almas, mas que destino seria reservado aos 50000 detidos que apodrecem nas prisões? Para Gholamhossein Mohseni Ejei, que está à frente do poder judiciário, as pessoas envolvidas nas manifestações não devem esperar « nenhuma indulgência » .

Rafic Hariri, 21 anos depois: como o Líbano mudou?… e se ele ainda estivesse entre nós?

Em 14 de fevereiro de 2005, não foi apenas um homem que foi assassinado, mas todo um equilíbrio que foi abalado. O assassinato de Rafic Hariri marcou um ponto de virada na história moderna do Líbano: o momento em que o país passou de uma tutela direta para um conflito interno aberto a todas as eventualidades. Vinte e um anos depois, a questão parece ir além da simples lembrança: o que mudou? Onde está o Líbano hoje? E se Hariri ainda estivesse entre nós, como ele teria lidado com essa reviravolta? Do terremoto à divisão O assassinato levou centenas de milhares de pessoas às ruas, as forças sírias se retiraram e uma profunda divisão surgiu entre os campos de 14 de Março e 8 de Março. Mas a libertação da tutela não gerou estabilidade, mas sim um longo período de polarização em torno da soberania, das armas do Hezbollah e do papel regional do Líbano. Desde então, cada questão interna tem estado ligada aos equilíbrios externos, desde a eleição presidencial até à formação dos governos. A economia: da reconstrução ao colapso Hariri era o símbolo da reconstrução pós-guerra civil: ele reconstruiu o centro de Beirute, reconectou o Líbano ao mundo e baseou sua reputação em uma economia de mercado e serviços públicos. Mas após seu assassinato, esse mesmo modelo persistiu, privado da rede de segurança política que ele oferecia. A dívida se acumulou, as reformas foram adiadas e a economia permaneceu frágil, dependendo de uma renda. Com a guerra na Síria e, em seguida, a revolta de 2019, o sistema financeiro entrou em colapso. A moeda desvalorizou, os depósitos volatilizaram e a classe média foi erodida. O Líbano não colapsou repentinamente em 2020; ele estava em plena desordem há anos, sem que uma figura capaz de impor um acordo para deter seu declínio se manifestasse. O Líbano face às transformações regionais Nos últimos anos, a região tem testemunhado transformações radicais: a ascensão do Irã, a mudança nas prioridades do Golfo e a transformação da Síria em campo de batalha. Os laços do Líbano com o eixo liderado por Teerã sob Ali Khamenei se fortaleceram, e seu envolvimento em conflitos regionais aumentou através do Hezbollah. Paralelamente, o «legado político de Hariri» desvaneceu-se, especialmente com a retirada de Saad Hariri da cena política. O equilíbrio nacional foi perturbado e o Líbano mostrou-se menos apto a desempenhar um papel de mediador e mais enredado nos conflitos alheios. Justiça e memória O Tribunal Especial para o Líbano foi criado e um veredito foi emitido condenando um dos acusados à revelia. No entanto, o sentimento geral de injustiça persiste. O assassinato de Hariri não foi um crime isolado, mas sim o início de uma fase de violência política. Entre aqueles que o veem como um símbolo de esperança e abertura e aqueles que criticam seu modelo econômico, seu assassinato permanece um momento crucial que é impossível ignorar. Se ele ainda estivesse vivo hoje… o que faria? A questão é hipotética, mas pode ser interpretada à luz da sua abordagem. No plano econômico: Ele teria rapidamente concluído um acordo claro com o Fundo Monetário Internacional e empreendido uma verdadeira reestruturação dos bancos e da dívida pública. Ele não teria sido partidário de gerenciar a crise pela negação, mas sim de encontrar um compromisso importante: apoio internacional em troca de reformas profundas no setor elétrico e na governança. Nas relações árabes: Ele teria trabalhado para reconectar o Líbano aos seus parceiros do Golfo e à cena internacional, aproveitando qualquer reaproximação irano-árabe para atenuar as tensões internas. Sua força residia em sua rede de relacionamentos e sua capacidade de reconciliar as partes adversas. Sobre a questão dos armamentos: Ele provavelmente não teria optado por um confronto direto com o Hezbollah, mas sim por um diálogo progressivo sobre uma estratégia de defesa, ao mesmo tempo em que fortalecia as instituições estatais nos planos econômico e de segurança para reduzir a dependência de armas estrangeiras. Para restabelecer a confiança: Ele sabia que a política precisa de esperança. Poderia ter lançado projetos de grande escala que teriam mostrado ao povo que o Estado ainda não estava morto. Entre o homem e a época: Teria ele tido sucesso? Ninguém pode afirmar com certeza. A região é hoje muito mais complexa, e o apoio externo está condicionado a reformas rigorosas. Mas ele teria muito provavelmente tentado impor um acordo importante antes de chegar a esse colapso profundo. Vinte e um anos depois, a questão permanece: o problema residia na ausência de Rafik Hariri, ou na incapacidade dos libaneses de concretizar o projeto de construção estatal que ele havia empreendido? O Líbano mudou consideravelmente desde 2005: a moeda desvalorizou, as alianças evoluíram e a confiança no Estado foi erodida. Mas a necessidade permanece a mesma: um Estado soberano e justo, capaz de proteger sua economia e seus cidadãos. Este aniversário não é apenas uma simples comemoração, é uma provação. O assassinato de Hariri marcou um ponto de virada. Salvar o Líbano hoje exige uma decisão igualmente corajosa.

Conferência de Paris: o exército enfrenta escolhas difíceis (3/3)

A poucas semanas da Conferência Internacional de Paris, prevista para março de 2026, cujo objetivo é mobilizar o apoio internacional ao exército libanês, o comandante-chefe do exército encontra-se num ponto de viragem estratégico crítico. Num Líbano atravessado por incertezas políticas e regionais, cada decisão tomada no terreno ou no seio do estado-maior pode ter repercussões muito além das fronteiras e influenciar não só a sobrevivência da instituição militar, mas também a percepção internacional do seu papel estabilizador a nível nacional. Segundo o General Maroun Hitti, o exército não enfrenta apenas ameaças externas e internas: está sujeito a uma pressão cumulativa, onde múltiplos mandatos, decisões políticas ambíguas e expectativas populares se conjugam para testar a sua resistência, coesão e credibilidade. O desafio é duplo: manter a sua credibilidade num contexto interno volátil e convencer a comunidade internacional de que o exército continua a ser um pilar indispensável da estabilidade do Líbano. Estiramento estratégico e múltiplas frentes O General Maroun Hitti destaca o «estiramento estratégico e operacional» do exército. Este é hoje chamado a vigiar os setores do sul do Líbano, controlar as fronteiras, garantir a segurança interna, combater o terrorismo e limitar – implícita ou explicitamente – as ações do Hezbollah, ao mesmo tempo que antecipa um eventual confronto com as forças sírias hostis ao partido xiita. Este «estiramento» traduz uma tensão profunda: ter de gerir atores com estratégias contraditórias sem um mandato político claro e unânime nem meios adaptados. A consequência, se este risco não for controlado, poderá ser a diluição das missões, o esgotamento da força e o enfraquecimento da imagem do exército; um cenário que comprometeria a credibilidade da tropa aos olhos dos doadores internacionais chamados a reunir-se em Paris. Para o General Hitti, a solução passa por três eixos: um mandato claro e unânime do Conselho de Ministros, a determinação de uma prioridade estrita a nível das missões e um alinhamento do apoio internacional com as prioridades essenciais. Quando o exército se torna substituto O exército também enfrenta o risco de instrumentalização política. Demasiadas vezes, foi utilizado como substituto de decisões não tomadas relativas à soberania nacional, à gestão de armas fora do controlo do Estado ou à política de defesa. Este papel ambíguo ameaça diretamente a neutralidade institucional, fragiliza a coesão interna e pode corroer a confiança do público. No contexto da Conferência de Paris, este risco assume uma dimensão adicional: a instituição deve mostrar aos parceiros internacionais que a sua ação é profissional, neutra e eficaz, e não o reflexo de questões políticas internas. Uma comunicação estratégica clara torna-se, então, um imperativo para evitar qualquer interpretação errónea do seu papel. Escolhas impossíveis Os riscos externos permanecem presentes. Ataques israelitas limitados poderiam degenerar num confronto aberto, obrigando o exército a reagir precipitadamente. O cenário temido é aquele em que o exército se torna um bode expiatório se o exército israelita falhar em obter resultados rápidos contra o Hezbollah. O exemplo de 2006 permanece vivo na memória: 43 soldados mortos por uma guerra que não era desejada pelo povo libanês. Mas, para além das ameaças diretas, o exército deve enfrentar uma degradação invisível, mas temível, alimentada pela pressão regional e internacional. A escalada envolvendo o Hezbollah e o Irão constitui um fator potencialmente explosivo. Qualquer conflito regional poderia transbordar e arrastar o Hezbollah para um confronto existencial, desestabilizando o equilíbrio político interno e forçando o exército a escolhas impossíveis: permanecer neutro enquanto protege o território, ou intervir num cenário onde a sua legitimidade e segurança seriam comprometidas. Esta escalada não é apenas militar: é política e psicológica, com o risco de fragmentar a instituição se as decisões estratégicas carecerem de clareza. Paralelamente, o exército deve lidar com um eventual cansaço dos doadores internacionais, que ameaçaria diretamente as suas capacidades operacionais. Uma redução ou suspensão do apoio poderia afetar a manutenção dos equipamentos em condição operacional, as infraestruturas e as formações, gerando falhas críticas em matéria de proteção e mobilidade, e contribuindo para uma degradação moral no seio das tropas. Neste contexto, a realização da conferência de Paris constitui um fator-chave: não é apenas uma oportunidade para reforçar o apoio material, mas também representa um teste de confiança política e estratégica. Um exército sob pressão interna Além destas ameaças externas, o exército enfrenta outras pressões herdadas desde a sua criação: A centralização excessiva do comando, que retarda a tomada de decisão em situação de crise. A sobrecarga de responsabilidades na segurança interna, em particular face a tensões sociais e económicas. As insuficiências de inteligência e equipamentos, que limitam a reatividade e a segurança das forças. A perda de controlo sobre a narrativa pública, que expõe a instituição a críticas internas e internacionais. Todas estas pressões cumulativas podem ser mais perigosas do que uma derrota militar clássica, pois corroem a coesão, a disciplina e a credibilidade do exército antes mesmo que um conflito surja. Preservar o exército antes de combater Para o General Hitti, a sobrevivência do exército depende menos hoje de uma vitória no campo de batalha do que da capacidade de resistir ao desgaste institucional e político. O comandante-chefe deve antecipar as crises, proteger a coesão das suas tropas, manter o moral e a credibilidade da instituição, ao mesmo tempo que recusa mandatos não financiados ou politicamente ambíguos. Cada decisão, plano ou comunicação torna-se assim uma alavanca estratégica, crucial para convencer os parceiros internacionais da eficácia e fiabilidade da instituição. Entre 2026 e 2030, o desafio para o exército libanês não será apenas vencer um adversário, mas preservar a própria instituição. Três condições são essenciais: 1. Uma clareza política total com um mandato decidido por unanimidade, condição sine qua non para agir. 2. Uma definição das prioridades a nível das missões para evitar o «estiramento» estratégico e operacional. 3. Uma comunicação estratégica bem definida para dominar a retórica tanto a nível interno como externo. Sem estas condições, o exército corre o risco de perder o seu papel de estabilizador nacional e de ver a sua unidade e credibilidade erodidas sob o peso do desgaste institucional e da ambiguidade política — um risco que a conferência de Paris 2026 deverá ter em consideração. Um desafio existencial Resulta assim do que precede que a análise dos dilemas do comandante do exército evidencia uma realidade essencial: a ameaça mais séria não é uma derrota militar, mas a erosão progressiva da instituição. Cada conflito, cada incidente ou pressão política agem como um pequeno «sismo», revelando as fissuras profundas que ameaçam a coesão e a credibilidade da instituição militar. Entre missões estendidas sem mandato claro, instrumentalização política, riscos de escalada regional e cansaço dos doadores internacionais, o exército está condenado a uma ginástica estratégica permanente: manter a sua neutralidade enquanto permanece pronto, preservar a unidade enquanto antecipa as fraturas possíveis, convencer o público e os parceiros internacionais enquanto gere pressões internas. Esta complexidade supera em muito o quadro clássico da guerra convencional: é um desafio institucional e existencial. A conferência de Paris 2026 encarna um momento decisivo. É ao mesmo tempo uma oportunidade e um teste. A confiança internacional baseia-se na percepção de que a instituição pode dominar as suas missões sem se tornar o instrumento das fraturas políticas internas ou das manobras regionais. Este é um dos maiores desafios que o seu chefe terá de enfrentar. Para isso, será necessário dar-lhe todas as chances de sucesso. Entre 2026 e 2030, o exército libanês não terá apenas de defender o território nacional: terá de defender a sua própria razão de ser. A sua sobrevivência e o seu papel de estabilizador dependem de escolhas políticas claras, da disciplina institucional e de uma visão estratégica — parâmetros que apenas uma direção resoluta e um apoio unânime , interno como internacional, poderão garantir. Neste contexto, a conferência de Paris não será uma simples reunião diplomática, revelará a capacidade do Líbano de manter o seu último pilar de estabilidade face à incerteza e às crises multidimensionais.

Crash do Bitcoin: o fim da esfera cripto? (2/2)
Por
Jacques Mechelany
Publicado

Na primeira parte, vimos a evolução do Bitcoin desde a sua génese até ao seu colapso atual. Nesta parte, detalhamos as alternativas e o papel das autoridades públicas. As stablecoins: da conveniência de retalho ao risco sistémico Se o bitcoin é a nau capitânia das criptomoedas, as stablecoins são o seu sistema sanguíneo. Originalmente, as stablecoins foram concebidas como uma ferramenta prática: permitir aos investidores de retalho navegar entre as criptomoedas e o «dólar» sem sair do ecossistema. Prometiam estabilidade num universo volátil. Mas as stablecoins evoluíram. E hoje, constituem uma das vulnerabilidades sistémicas mais importantes – e mais subestimadas – das finanças digitais. Deixaram de ser meros instrumentos de retalho. Servem agora como: • camadas de liquidação centrais para a negociação de cripto, • ferramentas importantes para fluxos transfronteiriços, • suportes de gestão de liquidez para certos intervenientes institucionais, • e detentores significativos de reservas em instrumentos de dívida pública a curto prazo. Na prática, tornaram-se instrumentos monetários privados a operar na fronteira do sistema financeiro tradicional – uma forma de banca sombra, pouco ou mal regulada. Esta evolução revela uma contradição fundamental. A cripto prometia eliminar os intermediários e o risco de crédito. As stablecoins reintroduzem-nos. Uma stablecoin é «estável» apenas enquanto: • as suas reservas (geralmente títulos do Tesouro dos EUA) são reais, líquidas e corretamente segregadas, • a sua governação é sólida, • os seus mecanismos de resgate funcionam sob stress, • a confiança perdura. Quando a confiança se quebra, uma stablecoin pode sofrer o equivalente a uma corrida bancária – sem seguro de depósitos, sem prestamista de última instância e com uma transparência muitas vezes limitada em tempo real. Quando as stablecoins vacilam, o mercado de cripto não se limita a cair. Pode tornar-se disfuncional, porque o ativo de liquidação principal é ele próprio fragilizado. É por isso que as stablecoins não são um assunto periférico. Constituem um dos principais fatores de fragilidade do ecossistema. A próxima crise sistémica das cripto pode não ser um simples crash do bitcoin, mas um choque nas stablecoins que se propaga a todo o mercado. O caso Strategy/MicroStrategy: quando a convicção se torna alavanca Outra linha de fratura, menos visível mas potencialmente mais desestabilizadora, reside no endividamento das empresas expostas ao bitcoin. Algumas empresas, como a Strategy Inc. (Nasdaq: MSTR), transformaram-se em veículos de detenção alavancada de bitcoin. Pedem empréstimos, emitem ações, estruturam obrigações convertíveis e financiam aquisições massivas de bitcoins. Numa fase de alta, isso pode parecer visionário. Numa fase de baixa, torna-se perigoso. Esta estrutura gera vários riscos importantes. Primeiro, uma dependência dos preços. Se o modelo se baseia na subida contínua do bitcoin para financiar novas compras ou manter um prémio de mercado, uma queda prolongada inverte toda a dinâmica. Segundo, um risco de refinanciamento. A dívida tem um custo. Mesmo com prazos de vencimento escalonados, um ambiente de taxas elevadas ou uma valorização de mercado deprimida pode tornar as futuras angariações de capital excessivamente dispendiosas, ou mesmo impossíveis. Terceiro, efeitos de retroalimentação no mercado. Mesmo na ausência de liquidação forçada imediata, um período prolongado de stress pode transformar um detentor «sólido» num vendedor latente. O mercado antecipa este risco, o que deteriora ainda mais o sentimento. Em resumo, o que é frequentemente apresentado como uma convicção empresarial pode, sob stress, comportar-se como uma alavanca sistémica. Até à data, a Strategy Inc. detém cerca de 713 500 bitcoins, adquiridos a um custo médio próximo de 76 000 dólares por unidade. Isso torna-a um dos maiores detentores de bitcoins do mundo, com um valor de mercado de aproximadamente 54 mil milhões de dólares. A empresa apresenta hoje uma perda latente de cerca de 21%, ou quase 11,4 mil milhões de dólares, enquanto a sua capitalização de mercado ronda os 38 mil milhões de dólares. O problema é que a alavancagem transforma a volatilidade em contágio. O bitcoin pode sobreviver à volatilidade. O ecossistema cripto, por outro lado, resiste mal à alavancagem – especialmente quando ela é empilhada: alavancagem de retalho, alavancagem de derivados, estruturas de arbitragem institucionais e engenharia financeira empresarial. Um crash deixa então de ser uma simples correção de preço. Torna-se um desendividamento mecânico. As moedas digitais: o Estado não perde a guerra monetária, ele reorganiza-a A promessa ideológica das cripto era a liberdade monetária: uma moeda fora do Estado. Mas a história raramente termina onde os ideólogos a imaginam. O Estado não desaparece; ele adapta-se. O verdadeiro concorrente de longo prazo das criptomoedas descentralizadas pode não ser a moeda fiduciária tal como a conhecemos, mas a moeda digital de Estado – mais rápida, mais eficiente e muito mais constrangedora. É aqui que a China desempenha um papel central – não porque seria «anti-cripto» por princípio moral, mas porque age com coerência estratégica. Pequim não se contentou em regular as criptomoedas. Neutralizou-as: • proibindo a negociação e a mineração, • reprimindo as plataformas de câmbio, • ao mesmo tempo que acelerava o desenvolvimento de alternativas estatais. A China também implementou: • infrastruturas de pagamento instantâneo, • sistemas financeiros digitais integrados, • e o yuan digital (e-CNY). A mensagem é clara: A moeda é uma infraestrutura soberana. Autorizar sistemas monetários privados paralelos suscetíveis de enfraquecer os controlos de capital, reduzir a supervisão ou erodir as ferramentas de política económica nunca foi uma opção. A abordagem chinesa revela uma verdade fundamental: o futuro pode ser digital, mas não será necessariamente descentralizado. Ora, a narrativa cripto pressupõe frequentemente uma trajetória linear: do fiduciário para o descentralizado. A realidade global pode ser bem diferente: uma bifurcação entre moedas digitais regulamentadas sob controlo estatal e criptomoedas permissionless relegadas para a periferia. À medida que os Estados constroem as suas próprias infraestruturas digitais, a cripto perde uma das suas principais vantagens: a eficiência transacional. Se os sistemas públicos oferecem liquidações instantâneas, custos baixos e uma integração generalizada, a utilidade da cripto reduz-se – deixando subsistir apenas a especulação e um uso ideológico de nicho. Basileia e os bancos: o teto de adoção pouco falado Grande parte do sonho cripto – nomeadamente nas suas projeções institucionais mais otimistas – baseia-se na ideia de que os bancos e o sistema financeiro regulado acabarão por alocar massivamente às criptomoedas. Mas as regras prudenciais constituem um travão poderoso a esta visão. Quando os reguladores impõem ponderações de risco muito elevadas, os bancos não podem aumentar a sua exposição sem imobilizar quantidades consideráveis de capital. Seja qual for a opinião pessoal de um dirigente bancário, a realidade do balanço é matemática. O cenário frequentemente evocado – «os bancos comprarão bitcoin e desencadearão um novo superciclo» – não é, portanto, uma questão de narrativa ou de sentimento. É uma questão de arquitetura regulatória. E essa arquitetura permanece, em muitas jurisdições, restritiva. Por outras palavras, os bancos podem propor produtos cripto aos seus clientes. Mas uma adoção massiva em balanço continua longe de estar garantida. Esta é outra razão pela qual o «muro de capitais institucionais» é frequentemente superestimado. Algumas instituições podem comprar; muitas são estruturalmente impedidas. Concentração da custódia: o risco do ponto de falha único A promessa original das cripto era a descentralização. Mas a institucionalização do setor frequentemente produziu o efeito inverso: a concentração. Os ETFs e produtos regulamentados necessitam de dispositivos de custódia. Ora, esta função tende a concentrar-se nas mãos de um número restrito de atores dominantes. Em período normal, esta concentração é eficaz e pouco dispendiosa. Em período de crise, torna-se uma fonte importante de fragilidade sistémica. Uma arquitetura de custódia concentrada cria um «ponto de falha único» – seja ele técnico, jurídico, regulatório ou político. Mesmo que a probabilidade de tal evento seja baixa, o seu impacto potencial é considerável. As finanças tradicionais aprenderam esta lição várias vezes. Quanto mais um sistema depende de nós críticos centralizados, mais vulnerável se torna não a choques ordinários, mas a eventos excecionais. Os mercados cripto permanecem extremamente sensíveis a estes riscos de cauda. A confiança não é apenas económica; é institucional. Se a confiança nas infraestruturas de custódia ou de liquidação se quebrar, o contágio pode ir muito além da simples evolução dos preços. O que está realmente a colapsar: a cripto ou as ilusões que a rodeiam? Torna-se, nesta fase, essencial distinguir o bitcoin da esfera cripto no seu conjunto. O bitcoin é um protocolo. Continua a funcionar independentemente do seu preço. É resistente à censura, operacional e tecnicamente robusto. A sua existência não está obrigatoriamente ameaçada por um crash. A esfera cripto, por outro lado – entendida como o ecossistema de tokens, de plataformas alavancadas, de estratégias de rendimento, de governanças opacas e de arquiteturas instáveis – é intrinsecamente mais frágil. Grande parte deste universo construiu-se na era do dinheiro gratuito e do excesso especulativo. Muitos projetos não têm viabilidade económica fora dos mercados em alta. Muitas criptomoedas secundárias perderam entre 70% e 90% do seu valor nos últimos meses, incluindo «meme-coins» políticas muito mediatizadas, como o «Trump Official Coin». O crash atual não é, portanto, necessariamente o fim do bitcoin. Poderia marcar o fim de uma fase de maturação – uma purga. As ilusões que se dissipam são múltiplas: • a ilusão de um piso institucional permanente, • a ilusão das stablecoins como tesouraria sem risco, • a ilusão de uma descentralização sem fragilidade, • a ilusão de um caminho direto entre ETF e adoção real, • a ilusão de que a tecnologia possa abolir a economia. O bitcoin permanece sensível à liquidez global e cada vez mais correlacionado aos regimes de risco. É por isso que o período atual se assemelha a muito mais do que um simples «fundo de mercado». Constitui um confronto com as realidades estruturais – e poderá marcar o fim do sonho cripto tal como foi inicialmente concebido. A lição chinesa Para a China, o futuro da moeda pode ser digital, mas permanecerá soberano. A proibição das criptomoedas na China é frequentemente interpretada no Ocidente como um desvio autoritário. Mas, seja aprovada ou criticada, a abordagem chinesa revela uma clareza estratégica que o Ocidente frequentemente negligenciou. A China considera a moeda como uma infraestrutura soberana. Não delega esta soberania a redes descentralizadas. Enquanto as comunidades cripto celebravam a descentralização como inevitável, Pequim construiu uma arquitetura concorrente: um ecossistema de pagamentos digitais instantâneo, integrado e controlado. A implicação é profunda. Se os Estados implementarem moedas digitais e sistemas de pagamento instantâneo em grande escala, a cripto terá de se justificar de outra forma que não como «o futuro dos pagamentos». Poderá tornar-se: • um ativo especulativo, • uma reserva de valor de nicho, • uma alternativa ideológica, • ou um sistema paralelo para aqueles que rejeitam o controlo estatal. Mas não se trata da adoção em massa imaginada pelos primeiros entusiastas. O futuro poderá ser o de uma moeda digital acompanhada de um controlo estatal reforçado – e não enfraquecido. Então… é o fim? O bitcoin foi declarado morto mais vezes do que qualquer ativo financeiro moderno. De cada vez, ele voltou – muitas vezes mais forte. Proclamar «o seu fim» seria, portanto, prematuro. Mas reduzir o crash atual a um simples ciclo seria igualmente errado. O que distingue este episódio dos anteriores reside na sua estrutura.  Os ciclos anteriores foram principalmente alimentados pela especulação de retalho e por uma adoção de nicho impulsionada por investidores tecnófilos e ideologicamente engajados.  O ciclo recente desenvolveu-se num contexto de participação institucional e de adoção global. Em consequência, o colapso atual poderá deixar marcas mais profundas e duradouras na psicologia dos investidores – pondo em causa a perceção das criptomoedas como ferramenta de diversificação de portefólio. O que observamos assemelha-se mais a uma fase de maturação. A primeira era cripto foi a da ideologia e da experimentação. A fase pós-2020 foi a da abundância de liquidez, do excesso especulativo e da financeirização alavancada. O ciclo iniciado em 2023 apresentou-se como o da adoção em massa e da institucionalização. Esta fase chega agora ao fim. O ecossistema cripto é forçado a amadurecer sob o efeito do aperto da liquidez, de uma regulamentação mais estrita, da ascensão das moedas digitais de Estado e da tomada de consciência de que a institucionalização não eliminou a natureza especulativa destes instrumentos. O que poderá desaparecer não são as criptomoedas em si, mas a camada de ilusões que as rodeava: • a ilusão de uma rede de segurança institucional permanente, • a ilusão das stablecoins como liquidez sem risco, • a ilusão de uma descentralização sem vulnerabilidade, • a ilusão de uma adoção linear garantida pelos ETFs, • a ilusão de que os ativos digitais possam escapar à macroeconomia, aos ciclos de liquidez, à alavancagem e à soberania dos Estados. As criptomoedas entram num mundo mais difícil – moldado pela fragmentação geopolítica, o aperto financeiro e a aceleração das infraestruturas digitais estatais. O bitcoin talvez sobreviva – e provavelmente sobreviverá. Saber se atingirá novos máximos históricos continua a ser uma questão em aberto. Mas a esfera cripto, tal como existe hoje, não sobreviverá. Para os investidores, a lição é simples e intemporal: Na cripto, como em qualquer sistema financeiro, o que parece um piso em período de euforia revela-se frequentemente uma armadilha quando o ciclo inverte.