
Reportagem realizada por Fabienne Touma
Num momento em que os conflitos fragilizam os equilíbrios culturais e ameaçam diretamente os tesouros do passado, certas exposições ultrapassam o simples âmbito artístico para se tornarem verdadeiros atos de resistência cultural. É precisamente o caso da exposição “Biblos, cidade milenar do Líbano”, apresentada até 23 de agosto de 2026 no Instituto do Mundo Árabe (IMA) de Paris. Através de cerca de 400 objetos, ela reconstitui a história antiga de Biblos, um dos portos mais antigos do mundo, ao mesmo tempo que se ancora concretamente na atualidade e no conflito que afeta hoje o Líbano e o Médio Oriente. Pois a exposição é também, apesar de si mesma, moldada pela guerra.
Qual foi o impacto da guerra neste projeto, tanto na sua organização como na sua cenografia? Esta última incluía um elemento particularmente marcante: a inscrição “Obra bloqueada pela guerra”. Por que essa escolha? Trata-se de uma vontade deliberada de suscitar emoção no público? De um ato de resistência face à atualidade? Ou de outra coisa? Além disso, o que descobrimos de novo sobre a cidade milenar? Essas descobertas puseram em questão algumas hipóteses históricas sobre a cidade antiga? O que resta ainda por descobrir nesse contexto?
São questões que abordámos com Agnès Carayon, responsável por exposições no Instituto do Mundo Árabe(ver a entrevista no vídeo em anexo).
Assumir a ausência de certas obras bloqueadas
Inicialmente prevista para 2024, a exposição “Biblos, cidade milenar do Líbano” teve de ser adiada devido ao conflito na região do Levante, que impediu o transporte de numerosas obras provenientes do Líbano. Dois anos depois, apesar de uma situação ainda instável, ela é relançada, mas algumas peças continuam bloqueadas no local. Esta realidade não é dissimulada pelos promotores da exposição: eles assumem-na plenamente. As obras ausentes são assim assinaladas no percurso com a menção “obras bloqueadas pela guerra”, tornando visíveis os efeitos diretos do conflito na circulação do património e conferindo um valor inestimável tanto às obras expostas como às ausentes.
Ao assumir essas ausências, a exposição adquire uma dimensão completamente diferente e apresenta uma narrativa dupla: a de uma memória milenar e a de um património fragilizado e bloqueado pelas realidades contemporâneas.
Manter uma tal exposição nestas condições ultrapassa o âmbito próprio do museu. Trata-se de afirmar que a cultura pode subsistir apesar da guerra, continuar a circular e a transmitir conhecimento. “Biblos, cidade milenar do Líbano” assume assim a forma de um gesto de resistência cultural, lembrando que preservar o património é hoje, mais do que nunca, um desafio essencial.
Uma imersão em 9 000 anos de história
A exposição mergulha o visitante numa cidade habitada há cerca de 9000 anos, cruzamento maior das civilizações mediterrânicas e primeiro grande porto marítimo internacional. Biblos manteve laços estreitos com o Egito, a Mesopotâmia e o mundo egeu, desempenhando um papel fundamental na difusão do alfabeto fenício. Tesouros reais, adornos em ouro, objetos de aparato e descobertas arqueológicas recentes testemunham a riqueza e o esplendor desta civilização.
Esta exploração é prolongada por uma programação cultural que inclui conferências, projeções e encontros, permitindo aprofundar os desafios históricos e contemporâneos ligados ao Líbano e ao seu património. Em eco da exposição, a ARTE transmite nomeadamente o documentário Líbano, os segredos do reino de Biblos de Philippe Aractingi, disponível até 9 de outubro de 2026 em arte.tv, prolongando assim a descoberta para além das salas do museu.
A exposição pode ser visitada até 23 de agosto de 2026. Para mais informações, aceda a:
https://www.imarabe.org/fr/agenda/expositions-musee/byblos-cite-millenaire-du-liban