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Enorme explosão provocada por um ataque israelita perto de Al-Mansouri, no sul do Líbano. (AFP)
O essencial da semana
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Por LevantTime .
Publicado em set 6, 2026 - 23:27
Enquanto os Estados Unidos pareciam ter optado apenas pela guerra econômica contra o Irã, o exército americano lançou abruptamente na terça-feira ataques contra o território iraniano, em retaliação a ataques contra petroleiros, desencadeando uma espiral de violência ao longo da semana. No Líbano, Israel libertou vários civis detidos em suas prisões, enquanto suas forças armadas ocupavam a colina estratégica de Ali el-Taher e prosseguiam com seus bombardeios massivos na zona que controla no sul do país. A semana de 31 de agosto a 6 de setembro foi marcada por uma nítida aceleração dos acontecimentos no Oriente Médio, depois de uma semana anterior que parecia mergulhada na estagnação. Na frente iraniana, já na noite de terça-feira, o exército americano realizou ataques direcionados em território iraniano, os primeiros em quase um mês. Esta captura de tela, feita em 6 de setembro de 2026 a partir de imagens de vídeo sem data divulgadas no mesmo dia pelo Comando Central dos EUA, mostra o que o Centcom apresenta como um dos petroleiros iranianos que destruiu em retaliação a tentativas de ataques com mísseis contra navios militares. (Centcom via AFP) No entanto, o ritmo relativamente contido desses ataques dá a impressão de que o governo americano optou por uma escalada controlada, mantendo ao mesmo tempo o bloqueio e as pressões econômicas contra Teerã. Ainda assim, a tensão não parou de crescer ao longo da semana. Explosões foram ouvidas no sábado na ilha altamente estratégica de Kharg, por onde passa a maior parte do petróleo iraniano. O presidente americano Donald Trump, por sua vez, ameaçou atacar o complexo nuclear de Kuh-e Kolang — “montanha da picareta” em persa, ou Pickaxe Mountain —, uma instalação fortemente protegida e enterrada a grande profundidade, não muito longe de Natanz, o principal centro de enriquecimento de urânio do Irã. Mais cedo na semana, ele havia formulado a equação do “petroleiro por petroleiro”, prometendo atingir um navio iraniano cada vez que os Guardiões da Revolução atacassem um petroleiro no Estreito de Ormuz. Foi exatamente isso que o exército americano fez no sábado, incendiando dois navios iranianos. No plano político, Donald Trump endureceu ainda mais o tom em relação a Teerã. Depois de afirmar em uma entrevista que as negociações estavam definitivamente congeladas “porque um acordo com eles não vale o papel em que está escrito”, ele declarou no sábado que o “conflito” com o Irã não era uma “guerra”, mas “algo corriqueiro” para os Estados Unidos. Uma forma de mexer com os nervos dos iranianos ao mesmo tempo em que tranquiliza sua opinião pública às vésperas das eleições de meio de mandato. Um porto, além de instalações de armazenamento e depósitos, foi danificado após um ataque militar americano realizado na província iraniana de Hormozgan, no sul do país, que faz fronteira com o estreito de mesmo nome, em 6 de setembro de 2026. (AFP) Ao mesmo tempo, a mídia americana Axios publicou no sábado uma reportagem sugerindo que os Estados Unidos já estão pensando além deste conflito, iniciado em 28 de fevereiro. O site afirma, citando autoridades americanas e outras fontes informadas, que o governo Trump está elaborando uma estratégia mais ampla para o Oriente Médio do pós-guerra. Ela se basearia na construção de um alinhamento regional destinado a conter o Irã, encerrar as repercussões regionais dos ataques de 7 de outubro de 2023 realizados pelo Hamas em Gaza e ampliar o círculo de normalização entre Israel e os países da região. A ameaça contra Kuh-e Kolang, que marca o ressurgimento da questão nuclear iraniana, ecoa um anúncio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que lamentou, em 1º de setembro, o fato de o Irã não ter reaberto seus sites aos inspetores após os ataques de maio de 2025. Vale lembrar que, apesar da magnitude da ofensiva israelo-americana contra os sites iranianos, é quase certo que o estoque de urânio enriquecido permaneça intacto e tenha sido colocado em local seguro pelas autoridades iranianas, que continuam apegadas ao que consideram ser seu direito de desenvolver um programa nuclear. Após o anúncio da AIEA, os Estados Unidos, mas também a França, a Grã-Bretanha e a Alemanha, manifestaram a intenção de apresentar uma resolução ao Conselho de Segurança da ONU condenando o descumprimento pelo Irã de seus compromissos em matéria de não proliferação nuclear. Uma unidade visível que contrasta com o clima frio entre Washington e seus aliados europeus desde o início do conflito. Já os iranianos parecem continuar a reagir às turbulências da mesma maneira: atacando vários países vizinhos, como o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos e a Jordânia, sem no entanto atacar diretamente Israel. Ataques maciços no sul do Líbano Na frente libanesa, Israel intensifica suas operações de destruição nas aldeias do sul, chegando a usar, em alguns casos, barris de explosivos. O presidente libanês Joseph Aoun pediu a Washington e à comunidade internacional que “façam cessar” os ataques israelenses no território libanês, que deixaram sete mortos no domingo em meio a uma trégua frágil. Os bombardeios atingiram diferentes localidades da região de Nabatiye. Vinte pessoas também ficaram feridas, entre elas crianças, segundo o Ministério da Saúde. Um ataque destruiu ainda o antigo hospital Ghandour, fora de funcionamento há anos. Libertação de detidos e tomada de Ali al-Taher Mas o evento mais importante da semana no sul foi a tomada, pelos israelenses, da colina estratégica de Ali al-Taher, na região de Nabatiye. O local era um importante quartel-general do Hezbollah, formado por um vasto emaranhado de túneis, de onde operavam combatentes do partido xiita, mas também, segundo algumas informações, combatentes iranianos. Na noite de quinta-feira, os israelenses anunciaram ter assumido o controle do complexo. No domingo, o ministro israelense da Defesa, Israel Katz, declarou que ainda restavam túneis a serem dinamitados. Esse “sucesso” militar talvez não tenha sido uma surpresa após semanas de bombardeios, mas a reação do Hezbollah foi, sim, surpreendente. Depois de garantir por muito tempo que se recusaria a ceder essa colina estratégica — assim como os iranianos, que também haviam ameaçado intervir —, o partido xiita acabou minimizando o impacto desse desenvolvimento por meio de seus veículos de mídia e porta-vozes, sem, no entanto, confirmar oficialmente a perda do local, que havia se recusado a preservar entregando-o ao exército libanês. A outra grande surpresa da semana foi a libertação, por Israel, de cinco civis libaneses e sírios detidos em suas prisões. Essa medida ocorreu após uma visita a Tel Aviv do embaixador dos Estados Unidos no Líbano, Michel Issa. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira “ocorre em seguimento aos esforços empreendidos por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os corpos dos líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano” entre 1984 e 1986. Mais uma vez, a reação do Hezbollah chama a atenção. Embora considere a medida positiva, mas insuficiente, o partido voltou a atacar as autoridades libanesas, acusando-as de “submissão ao inimigo” e responsabilizando-as pelo desastre no sul. Chegou até a alertá-las contra “os conflitos internos”. Será que os reveses militares do partido poderiam levá-lo a se voltar ainda mais contra o cenário interno? Por fim, o exército israelense fez no domingo uma declaração importante, anunciando que está considerando reduzir sua zona de ocupação no Sul do Líbano, passando da atual "zona amarela" para uma "zona cinza". Segundo essa interpretação, tal mudança refletiria uma diminuição da ameaça representada pelo Hezbollah. A medida, no entanto, ainda não foi aprovada pela liderança política israelense. Iêmen e Palestina A semana também foi particularmente tensa no Iêmen, onde os confrontos entre os rebeldes houthis e as forças governamentais não pararam de se intensificar, culminando em um sábado especialmente sangrento, com mais de 60 mortos em um único dia, elevando para cerca de 200 o número de vítimas desde quinta-feira. A ofensiva dos houthis busca sobretudo tomar o controle de certas áreas ao redor da passagem de Bab al-Mandab, o que daria a esse aliado do Irã uma vantagem adicional sobre outro ponto estratégico crucial, depois do estreito de Ormuz. Na Palestina, declarações particularmente preocupantes de Israel Katz sobre Gaza marcaram a semana. Ele afirmou, sem apresentar provas, que a maioria dos habitantes da faixa desejava deixá-la, ressaltando que Israel estava "pronto para essa evacuação em massa". Isso deixa entender que o calvário dos habitantes de Gaza está longe de terminar. Por fim, vale destacar que a AIEA anunciou, em 1º de setembro, que infraestruturas descobertas em Deir ez-Zor, na Síria, indicam que o antigo regime de Bashar al-Assad preparava secretamente um programa nuclear avançado, capaz de resultar na fabricação de uma arma atômica com a ajuda de especialistas norte-coreanos.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado em set 6, 2026 - 13:31
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O jogador argentino, que encerrou sua carreira internacional em 31 de agosto de 2026, não era nada menos que um prestidigitador dos estádios. Sua trajetória, feita de prodígios, quedas e redenção, talvez diga algo sobre nossa necessidade intacta de encantamento em um mundo que, no entanto, pretende ter se livrado dele. Anunciada poucas semanas depois da final da Copa do Mundo de 2026 perdida para a Espanha, a aposentadoria internacional de Lionel Messi não deixou de provocar uma emoção para a qual é difícil encontrar muitos equivalentes na história recente do futebol. Provavelmente seria preciso remontar a Maradona, ou ainda a Cruyff ou Pelé, para reencontrar essa sensação de que, com a retirada de um jogador, desaparece algo que ultrapassa em muito o próprio esporte, como se certa maneira de habitar o futebol, ou até mesmo de acreditar nele, também chegasse ao fim. Longe dos glacis da razão Chega das estatísticas intermináveis e das insuportáveis querelas, tediosas e estéreis, em torno de “quem é o melhor de todos os tempos». O autor destas linhas nunca foi um fanático pela bola, nem por classificações verticais ou por uma hierarquia do mérito em geral e, portanto, aprecia o talento de cada jogador com o mesmo olhar maravilhado de uma criança de 11 anos. De resto, essa obsessão particularmente contemporânea pelos números estraga todo o prazer do espetáculo. E com razão: o procedimento que consiste em somar gols, assistências, Bolas de Ouro, Ligas dos Campeões, Copas América, Copas do Mundo… só pode ser redutor. Em outro registro, ele não deixa de evocar a crítica desenvolvida pelo filósofo germano-americano Eric Voegelin à tentação gnóstica moderna: a de um saber convencido de que pode encerrar a realidade em um sistema e abolir aquilo que lhe resiste. Os recordes são provavelmente um indicador do gênio de Lionel Messi. Mas tantos outros grandes jogadores que fizeram vibrar os estádios e os corações, sem realizar sequer metade dos feitos de Messi, permanecem, ainda assim, eternos na memória. Aquilo que os tornou verdadeiramente singulares encontra-se em outro lugar, longe dos glacis da razão. Algo mais se jogou em torno deles. Algo que pertence a certo sentido profundo da transcendência, que o entendimento jamais poderia apreender plenamente. Esse é o caso de Lionel Messi há mais de vinte anos, desde o dia em que, sob o olhar do “ícone”Diego Maradona, fez sua primeira entrada, em junho de 2006, na arena da Copa do Mundo com as cores da Albiceleste contra Sérvia e Montenegro. Ora, esse elemento indizível que constitui o gênio de Messi, como o de outros, talvez toque em um dos paradoxos mais curiosos da modernidade: a persistência da magia em um mundo que se construiu precisamente contra ela. O mundo desencantado Max Weber falava do desencantamento do mundo para designar esse lento processo pelo qual a modernidade ocidental submeteu progressivamente a existência à racionalização, ao cálculo, à previsibilidade e à explicação causal. O mundo já não deveria ser atravessado por forças obscuras, sinais, intervenções sobrenaturais ou vontades invisíveis; deveria, ao menos em princípio, tornar-se inteligível. Infelizmente, o esporte moderno, e mais amplamente o mundo moderno herdado da globalização, insere-se perfeitamente nessa dinâmica. O futebol de hoje, e não apenas o futebol, é provavelmente um dos objetos mais quantificados que existem. O menor gesto é medido, e tudo é cuidadosamente calculado e modelado. Da matemática à inteligência artificial, o talento bruto depende agora mais da ciência do que do encantamento. É aquilo que há de humano, em sua relação espontânea, até selvagem, com o invisível que nasce do coração, que desaparece diante de nossos olhos em benefício da quadratura do VAR. É, de certo modo, o assassinato do esporte em nome de mais rigor e equidade… ainda que a eutanásia dessa parcela de espontaneidade sublime acabe provocando, ela própria, injustiças flagrantes. Basta, para constatá-lo, voltar a algumas das decisões controversas da Copa do Mundo de 2026. Paradoxo dos paradoxos, o próprio Lionel Messi foi, desde a origem, filho dessa modernidade técnica, da qual certamente deve parte de sua carreira excepcional. Seu corpo, pequeno demais para os padrões esperados, foi corrigido por meio de tratamento hormonal. Identificado muito cedo, seu talento foi assumido por uma instituição que organizou sua formação, alimentação, desenvolvimento físico e integração em uma máquina esportiva já globalizada. Nada, em aparência, poderia estar mais distante do velho relato heroico. À primeira vista, a história se parece mais com distopias do tipo Gattaca do que com mitos e narrativas messiânicas. E, no entanto, esse velho relato de fato retornou, e até com uma insistência quase constrangedora. Desde o início de sua carreira, Lionel Messi foi colocado sob o microscópio. Mas quanto mais se esforçavam para explicá-lo e desmistificá-lo, menos conseguiam dissipar inteiramente a impressão produzida por alguns de seus gestos. O homem simplesmente não consegue ser circunscrito nem reduzido a um acúmulo de dados. Na idade em que a maioria dos grandes jogadores volta para as sombras, ele continua surpreendendo. Estupefazendo, até, ao trazer ao esporte essa parcela de insensatez que escapa à hipersistematização quase robótica do mundo. É provavelmente aí que se deve procurar esse outro lugar que caracteriza Messi. Numa sobrevivência da magia num momento em que até os espaços que permitiam a expressão positiva de uma humanidade feita de carne e sangue se veem progressivamente “disciplinados”por essa atração hipnótica por uma nova gnose puritana em nome da modernidade. O Messias fabricado pela máquina Embora oriundo, de certo modo, da máquina matricial, Lionel Messi constitui, por si só, um questionamento desse modelo de prêt-à-porter. Uma espécie de alter ego do Neo de Matrix, lançado numa simulação governada por parâmetros que pretendem calcular tudo. O destino do argentino adquiriu progressivamente, quase contra sua vontade, a forma de uma narrativa messiânica. O trocadilho com seu nome seria fácil demais se sua própria história não o tivesse constantemente relançado: a da criança frágil, cujo corpo parecia querer negar a realização à qual seu talento a destinava. Depois, a do exílio ainda muito jovem para Barcelona, da adoção por uma cidade estrangeira, da ascensão quase irreal, do reconhecimento mundial e, em seguida, dessa estranha dificuldade de ser reconhecido pelos seus… Durante muito tempo, a Argentina manteve com seu filho pródigo uma relação de hainamoration. Pouco importavam seus resultados, seu talento, seu brilho… ele precisava responder a uma única pergunta, impiedosa: por que não era Maradona? A comparação era certamente inevitável, mas também profundamente injusta. Tudo separava os dois homens em sua maneira de estar no mundo. Maradona carregava a Argentina com tudo o que ela podia ter de passional, contraditório, excessivo e teatral. Falava, provocava, brigava, caía, voltava, misturava ao futebol sua vida privada, suas cóleras, seus compromissos políticos… até sua própria destruição. Seu próprio corpo parecia transformar-se em um dos lugares onde se encenavam as contradições de seu país. Maradona era a própria encarnação daquilo que o mundo esperava do futebol: uma alma rebelde, levando por vezes o jogo até a imoralidade, mas dentro de uma espécie de gigantomaquia futebolística. Maradona era épico. E, sobretudo, havia colocado seu país no firmamento do futebol em 1986. Messi, por sua vez, não oferecia nada disso. Era silencioso, às vezes quase ausente da narrativa que os outros construíam ao seu redor, ausência que durante muito tempo foi interpretada como defeito. Quase apagado, sem personalidade. Era justamente isso que os dois gigantes, Maradona e Pelé, lhe censuravam: falta de liderança, ser liso demais. Uma espécie de bebê de proveta milagroso dos estádios. Também se censurava ao menino de Rosario não cantar suficientemente o hino, não ser argentino o bastante, ter sido “fabricado”por Barcelona e, naturalmente, não vencer com a seleção aquilo que ganhava quase continuamente com seu clube. A profecia inacabada A final da Copa do Mundo de 2014, perdida de maneira dramática para a Alemanha, seguida pelas finais da Copa América de 2015 e 2016, havia transformado progressivamente essa suspeita em acusação. Quando perdeu seu pênalti contra o Chile em 2016 e anunciou depois que deixava a seleção, ele já era, no entanto, um dos maiores jogadores da história do futebol. Mas sua narrativa permanecia estranhamente inacabada. O sentimento de incompletude pouco dizia respeito ao seu currículo. Tratava-se antes daquela necessidade quase arcaica continuamente imposta aos heróis modernos: concluir seu percurso iniciático. Com as cores argentinas, Messi brilhava e depois caía pesadamente. Mas não se levantava. Não cumpria a profecia. E, aos olhos de seu povo, isso reforçava o sentimento de hainamoration: um deus caído continua sendo um deus, apesar de tudo. Mas acrescido daquilo que, aos olhos de seus adoradores, constitui um substrato de humanidade insuportável e, portanto, perfeitamente detestável: suas taras, suas fraquezas. Os argentinos amavam Maradona apesar de sua decadência espetacular e de sua humanidade falível. Mas isso porque ele havia “merecido”essa decadência, porque ela se tornara, de algum modo, aceitável depois do México de 1986. Messi, por sua vez, ainda não tinha o direito de cair, porque ainda não havia chegado ao topo. Não, a profecia não estava cumprida. Começava até a virar caricatura. Messi voltou, portanto. Mas ainda teve de esperar por sua redenção. Foi preciso a Copa América de 2021, no Maracanã, para que essa relação feita de suspeita, expectativa e decepção com seu público e seu povo começasse verdadeiramente a mudar. E foi preciso, sobretudo, a Copa do Mundo de 2022 para que a história adquirisse aquela forma quase perfeita demais que ninguém teria ousado escrever sem parecer ceder a uma facilidade de roteirista. Fato estranho, Maradona havia morrido em 2020. Era como se uma espécie de maldição nacional opressiva tivesse sido levantada. Ao mesmo tempo, o povo argentino precisava de uma figura paterna substituta, e a pressão não fazia senão redobrar. Mas talvez misturada, dessa vez, com um pouco de ternura? O que aconteceu no Catar em 2022 é ainda mais interessante porque o próprio Messi aparece ligeiramente diferente. Protesta mais, responde às provocações, irrita-se, fala com uma violência de que poucos o julgavam capaz e deixa até escapar aquele “¿Qué mirás, bobo?”diante dos neerlandeses, para diversão da Argentina. Buenos Aires finalmente descobre, com atraso, aquilo que sempre esperou dele. Um pouco de Maradona dentro de muito Messi. Mas Messi não se transforma, por isso, em Maradona. E talvez seja precisamente aí que ocorra a verdadeira reconciliação: a Argentina deixa de lhe pedir que seja Maradona. A partir de 2022, Messi já não precisa encarnar outro modelo do gênio nacional. Finalmente pode tornar-se, também para seu país, aquilo que já havia sido em todos os outros lugares: Messi. Simplesmente. O ato final da profecia É verdade que o triunfo de 2022 poderia ter constituído um final perfeito. Mas, como no caso de Maradona, o ato final da profecia heroica é a queda. Ninguém esperava realmente algo excepcional de Messi em 2026. Aos 39 anos, considerava-se amplamente que ele já fazia parte dos “heróis cansados». A queda do Capitólio havia ocorrido com o episódio amargo de sua saída do FC Barcelona e sua desventura no PSG. Já não atuava senão na liga americana, com as cores de Miami… na periferia do mundo do futebol, nas terras distantes do soccer. E a nova geração já estava ali, pronta para mandar os ancestrais a Bicêtre. No entanto, aquela Copa do Mundo de 2026, que parecia destinada a não passar de um epílogo, transformou-se num último golpe de brilho sensacional. A Argentina chegou novamente à final, com Messi, aos 39 anos, ainda como seu “líder histórico”e seu recurso nos momentos decisivos, realizando algo que não deixava de lembrar o que Roberto Baggio fizera pela Itália em 1994, aos… 27 anos: um deus ex machina permanente. Baggio fracassou às portas do triunfo contra o Brasil depois de praticamente carregar a Itália até Pasadena. Seu pênalti enviado por cima do travessão deixaria uma das imagens mais cruéis da história das Copas do Mundo: a de um homem imóvel, de cabeça baixa, mãos na cintura, enquanto o Brasil celebrava a vitória. Aquele que havia “morrido de pé». O duende italiano jamais conheceu a apoteose. Mas essa morte simbólica, longe de apagar seu Mundial, acabou também entrando para sua lenda. A história foi mais clemente com Messi, apesar de uma campanha de ódio contra ele, misturada a acusações de trapaça e favoritismo, num pano de fundo de decisões arbitrais controversas e atos antidesportivos de sua equipe, como havia sido outrora com Maradona. Ainda mais, até. Uma final em sua sexta Copa do Mundo, às portas da aposentadoria, com uma atuação individual extraordinária? É precisamente aí que reside aquilo que há de mágico no fenômeno Messi e que desafia a razão e sua avalanche de estatísticas. O gênio não pode ser encerrado numa soma de parâmetros e variáveis. Sua condição física, mesmo ótima, não pode explicar por si só aquilo de que o mundo inteiro foi testemunha. E pouco importa que sua história nos lembre que o herói, por mais mítico que seja, não pode abolir a sinistra influência de Saturno. O reencantamento do mundo Pois, para além da profecia cumprida, da ascensão à queda, com sua parcela de alegrias e desventuras, o argentino ofereceu ao mundo uma última volta que pertence à arte, quando não a uma forma de poesia homérica. Com a retirada de Lionel Messi da cena internacional, desaparece um pouco da magia do mundo… até que outro herói providencial volte a encantar os estádios. Durante mais de vinte anos, Messi terá encarnado a coexistência de dois mundos que julgávamos incompatíveis: o da racionalização extrema do esporte moderno e aquele, muito mais antigo, do herói, do sinal, da espera e do encantamento. Quando Messi parte, algo dessa contradição aparece de repente. Outros prodígios já surgiram, mas talvez descubramos, justamente no momento em que um de seus últimos grandes representantes deixa a cena, o quanto continuamos precisando de transcendência. O mundo moderno provavelmente não suprimiu o encantamento. Apenas o deslocou. Durante noventa minutos, esse homem chamado Lionel Messi, que o encarnou nos gramados, parte depois de ter realizado tudo. E até mais.
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Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad - Publicado em set 5, 2026 - 20:01
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A pergunta «O mundo ficou mais burro?» reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta «Ficamos mais burros?» não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de «reprodução serial». Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é «preservado», mas «reproduzido». É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de «cadeia do guaxinim», que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do «guaxinim» não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A «cultura do guaxinim», portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: «O meio é a mensagem». O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de «ilusão cognitiva»: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de «semiletrados»: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando «Abaixo a Declaração Balfour!». A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em «Que alguém caia lá de cima!», uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um «colapso da inteligência», mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta «Ficamos mais burros?» torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do «ambiente do conhecimento»: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
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Youssef Mouawad
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Do que se extasiar diante do arsenal de instrumentos de tortura figurando no cardápio das prisões sírias! É que as oficinas dos diversos serviços de moukhabarat não ficaram ociosas durante mais de cinquenta anos de ditadura prolongada. Então, para exercer seus talentos perversos, arrancar confissões de suas vítimas e especialmente intimidar a população, os torturadores do Baas tinham a escolher entre o «doulab», o «'abd al-aswad» e o «bisat al-rih». Difícil de definir qual suplício era pior, mas o segundo da lista era de uma perversidade tal que a Anistia Internacional não deixou de descrevê-lo em seu Relatório de 1984 nesses termos: «A vítima, amarrada, está sentada em um aparelho que, quando acionado, introduz uma lâmina de metal aquecida no ânus». Note bem a data acima e diga-se a si mesmo quem estava no poder em Damasco. E com razão, há quem no Líbano sinta nostalgia do regime de Hafez el-Assad e que, para realçar o prestígio desse autocrata, vá até o ponto de denegrir o desempenho de seu filho Bashar que não teria estado, conforme eles, à altura da missão que lhe foi confiada por seu genitor. A Stasi da Alemanha Oriental como treinadora! Uma constatação preliminar: os diversos ramos do moukhabarat, pilares do poder instaurado em Damasco, foram enquadrados, se não formados, pela Stasi da Alemanha Oriental, de reputação sinistra. E isso desde os anos 1960 até a queda do Muro de Berlim! Mas aí entrou em jogo a diferença de cultura entre os dois serviços de inteligência e repressão (1). De fato, os agentes da Stasi achavam que seus homólogos sírios tinham optado por um modelo de tortura espetacular e sistemática e que seu modus operandi se caracterizava por uma brutalidade desenfreada e uma «violência sádica imediata». Enquanto eles, como artistas refinados das margens do Spree e do Elba, privilegiavam «a destruição psicológica, a vigilância e a chantagem». Isso quer dizer que mesmo pelos padrões da Alemanha Oriental, os procedimentos do clã Assad eram de uma ferocidade excessiva, gratuita e inútil. A esse respeito, os arquivos da polícia política da Alemanha dita democrática e popular, tendo sido consultados por pesquisadores e acadêmicos, deixam entrever o quanto a «práxis síria» era comandada por lógicas vindicativas, clânicas e confessionais que não tinham lugar atrás da cortina de ferro (2). A tortura, marca de identidade do regime Não apenas os detidos estavam à beira do colapso, mas também todo um povo, um povo no qual era preciso abafar pelo terror e pela intimidação toda forma de oposição e toda intenção de dissidência. Em janeiro de 2025, baseando-se em mais de 2.000 testemunhos, a Comissão de Investigação das Nações Unidas sobre a Síria publicou um relatório, «The Web of Agony», denunciando a prática sistemática da tortura pelo poder em exercício. Ao dar vazão a seus instintos, eis o que se dedicavam os executores das obras sujas: «Espancamentos, choques elétricos, queimaduras, arrancamento de unhas, estupros e outras violências sexuais, negação de cuidados médicos e torturas psicológicas». E isso sem falar em detenções arbitrárias e liquidações em massa. Os julgamentos de Damasco ou a hora do julgamento Uma página foi virada! Os sobreviventes do regime penitenciário sírio agora se expressam livremente nas redes sociais. Em breve, as audiências dos tribunais tomarão o lugar dos podcasts para nos detalhar os horrores cometidos nos centros de detenção. Do partido Baas na Síria como no Iraque, só se reterá a opressão, o pavor e os crimes. Não foi na época de Saddam nem na dos Assad que as liberdades tiveram a oportunidade de florescer! E assim como não se pode imaginar Hitler sem Auschwitz-Birkenau, nem Stalin sem o gulag, dificilmente se pode evocar Hafez ou Bashar sem a infame tortura! 1-John O. Koehler, "Stasi: A história não contada da polícia secreta alemã oriental", Basic Book, 1999. 2- Sophia Hoffmann, "Intelligence fields: As relações entre a Stasi alemã oriental e a Mukhabarat síria" (1960-1990), Publications du Leibniz-Zentrum Moderner Orient, Berlin.

Força diplomática: as missões se multiplicam no Irã

Na sexta-feira, o Irã ainda não havia atendido às condições americanas para retomar as negociações com Washington, que demonstra um otimismo cauteloso quanto a um possível desbloqueio. Os mercados de ações mundiais evoluíam em alta durante o dia, impulsionados pela esperança mantida pelo esforço diplomático para chegar a uma declaração de intenções que servisse de base para retomar as negociações irano-americanas. O chefe do exército paquistanês, Asim Munir, é esperado em Teerã para conversas com altos funcionários, de acordo com a agência oficial iraniana IRNA. A Reuters reportou a presença de uma delegação catariana no Irã, como parte de uma missão conduzida em coordenação com Washington, enquanto o site Axios indica que a Arábia Saudita, Egito e Turquia também estão envolvidos nos esforços diplomáticos em andamento. Mas por enquanto, Teerã, que espera desgastar os Estados Unidos para arrancar-lhes o máximo de concessões, continua desafiando Donald Trump. Os Guardiões da Revolução anunciaram assim pela manhã o número de cargueiros e petroleiros que atravessaram o Estreito de Ormuz com base nas novas regras de pedágio impostas pela República Islâmica. Estas são «contrárias ao direito internacional», lembrou a União Europeia. Bruxelas decidiu, na sexta-feira, estender as sanções impostas ao Irã às «pessoas e entidades envolvidas em ações que ameaçam a liberdade de navegação no Oriente Médio». Entre os países prejudicados e incomodados pelas medidas iranianas em Ormuz, os Emirados Árabes Unidos, que convocaram o Irã, pela voz do assessor sênior do presidente emiratense, Anwar Gargash, a «não superestimar suas cartas» nas próximas negociações com Washington. Para ele, as chances de um acordo Irã-Estados Unidos que permita desbloquear esse estreito são «50-50». Além disso, Gargash alertou contra um cessar-fogo «sem saída, que semearia as sementes de um novo conflito no futuro». «O programa nuclear iraniano, que era nossa segunda ou terceira preocupação, agora é nossa primeira preocupação», destacou. «Percebemos que o Irã é capaz de usar qualquer arma que possua». O choque das sanções americanas No Líbano, por sua vez, ainda se está em choque com as sanções impostas por Washington a um grupo de deputados e, pela primeira vez, a responsáveis de segurança considerados próximos do Hezbollah e do movimento Amal do presidente da Câmara, Nabih Berry. Trata-se, especificamente, do chefe do departamento de segurança nacional da Segurança Geral, general Khattar Nassereddine, e do chefe do escritório de Inteligência do exército no subúrbio sul de Beirute, coronel Samir Hamadé. Os dois são acusados pelo Tesouro americano de terem «compartilhado informações importantes com o Hezbollah durante o conflito em andamento». As outras pessoas visadas são os deputados do Hezbollah Hassan Fadlallah, Ibrahim Moussaoui, Hussein Hajj Hassan, bem como o ex-ministro Mohammad Fneich, membro do conselho executivo da formação pró-iraniana e ex-deputado, o embaixador acreditado por Teerã em Beirute, Mohammad Reza Chibani, além de Ahmad Assaad Baalbacki e Ali Ahmad Safaoui, ambos responsáveis de segurança de Amal. O exército libanês rejeitou indiretamente as acusações feitas por Washington contra seu oficial, acusado de ajudar o Hezbollah, enfatizando em comunicado que a lealdade de seus soldados vai «unicamente à instituição». Todos os oficiais e soldados «cumprem suas missões nacionais (...) em conformidade com as decisões do comando do exército», segundo comunicado das Forças que disse não ter sido informada das sanções «pelos canais de comunicação habituais» com Washington. O Irã denunciou as sanções contra seu embaixador, qualificando-as como «ilegais». No terreno, no Líbano, um ataque israelense deixou seis mortos, incluindo dois socorristas e uma menina, na aldeia de Deir Qanoune al-Nahr, na região de Tiro. Durante a noite de quinta para sexta-feira, quatro socorristas filiados ao Hezbollah foram mortos em um raid em Hanaouay, perto de Tiro. A Otan e Trump Por outro lado, reunidos na Suécia, os ministros das Relações Exteriores dos países europeus da Otan esperavam obter esclarecimentos dos Estados Unidos na sexta-feira sobre sua presença militar na Europa, especialmente após o anúncio feito por Donald Trump de deslocar 5 mil soldados americanos para a Polônia, quando ele considerava reduzir a presença militar americana no Velho Continente. Durante essa reunião, o chefe da diplomacia americana Marco Rubio disse aos seus aliados da Otan que as decisões americanas sobre os desdobramentos de tropas na Europa anunciadas nas últimas semanas por Donald Trump não tinham nada de "punitivas". "É simplesmente um processo contínuo que existia antes", afirmou, acrescentando que será preciso "responder" às "preocupações" de Trump sobre o Oriente Médio. Em Washington, a chefe de inteligência americana Tulsi Gabbard anunciou sua renúncia. Aquela que parecia estar em desacordo com o presidente Donald Trump sobre a guerra no Irã dirige a Agência Nacional de Inteligência (DNI), o órgão que supervisiona todas as agências de inteligência, desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Tulsi Gabbard era considerada como suscetível de sair pela mídia americana, parecendo estar em conflito com Donald Trump. Ela havia notadamente se recusado durante uma audiência parlamentar em março a confirmar as afirmações do republicano de que o Irã representava uma "ameaça iminente" antes dos ataques americano-israelenses que desencadearam a guerra no Oriente Médio. Ela é a quarta mulher a sair do governo Trump em três meses, após a ministra da Justiça Pam Bondi, a ministra de Segurança Interna Kristi Noem e a ministra do Trabalho Lori Chavez-DeRemer. Em 3 de abril passado, em plena guerra no Irã, o Pentágono anunciou a saída do chefe de estado-maior do exército, o general Randy George, uma demissão que aumenta a lista de altos oficiais afastados pela administração Trump.

Entre Trump, Putin, Xi e o Irã: uma nova geopolítica se anuncia (2/2)

Em pleno contexto de guerra tarifária e restrições comerciais entre Pequim e Washington, com confrontos sobre questões de Taiwan e do Mar da China Meridional, Trump e Xi Jinping tiveram seu primeiro encontro em 30 de outubro de 2025, no aeroporto de Busan, na Coreia do Sul, à margem da cúpula do Fórum de Cooperação Econômica para a Ásia-Pacífico. Essa reunião, tornada necessária pelos problemas econômicos urgentes enfrentados pelos dois países, resultou na conclusão de uma trégua comercial de um ano entre as duas partes. Essa trégua envolveu uma redução imediata das tarifas aduaneiras americanas sobre mercadorias chinesas, que ultrapassavam 100% em alguns casos. Essas tarifas foram reduzidas para uma média de 47%. Além disso, o presidente Trump havia suspendido a inscrição nas listas negras de filiais em que 50% ou mais das ações pertenciam a grupos chineses sancionados. Havia também promitido eliminar as restrições à exportação para a China de microchips relacionados à Inteligência Artificial. Em contrapartida, a China se comprometeu a intensificar o combate ao tráfico para a América de matérias-primas usadas na fabricação de narcóticos. Também havia suspendido suas restrições drásticas à exportação de metais raros indispensáveis às indústrias tecnológicas e de defesa americanas, das quais 90% do abastecimento desses metais vem da China. Além disso, Xi se comprometeu a retomar suas importações massivas de soja americana, no valor de 11 bilhões de dólares por ano, e a comprar aviões Boeing sem especificar a quantidade. Por fim, os dois países congelaram as taxas portuárias recíprocas sobre seus navios mercantes e prometeram discutir posteriormente questões estruturais mais importantes. Isso indica uma necessidade de colaboração e o início de uma nova era geopolítica com repercussões mundiais. A prova disso é a viagem de Putin a Pequim, que seguiu a de Trump. Encontro Trump-Xi de 14 e 15 de maio de 2026 A importância histórica desse encontro foi minimizada pela mídia, que se esforçou para demonstrar que poucos progressos foram alcançados, enfatizando principalmente a insistência de Xi Jinping em reintegrar Taiwan à China. Na realidade, essa cúpula consolidou, ampliou e estendeu a frágil trégua comercial assinada em Busan sete meses antes, e será seguida por outras cúpulas. Em seu discurso, Xi afirmou sua vontade de entendimento estratégico com os Estados Unidos, baseado em "coexistência pacífica e cooperação mutuamente benéfica". Ressaltou que as relações sino-americanas afetam o bem-estar de mais de 1,7 bilhão de pessoas nos dois países e têm impacto nos interesses de mais de 8 bilhões de habitantes do planeta". Isso é totalmente novo no discurso político chinês. Consolidação da trégua comercial O presidente Trump foi acompanhado a essa cúpula por 17 chefes de empresas americanas cuja soma de capitais chega a 15 trilhões de dólares, equivalentes à metade do PIB americano e a três vezes o PIB da França. Essa soma supera os PIBs do Japão, Alemanha e Índia reunidos. Entre os chefes de empresas que acompanharam o chefe da Casa Branca figuravam Tim Cook, presidente da Apple, Elon Musk, presidente da Tesla e embaixador informal de Washington, responsável pela ponte natural para o comércio entre os Estados Unidos e a China, Jensen Huang, presidente da Nvidia, e Kelly Ortberg, presidente da Boeing. A Apple monta na China cerca de 80 a 90% de seus iPhones e iMacs. Após a cúpula, conseguiu proteger essa produção mantendo as tarifas aduaneiras bilaterais reduzidas por um período de três anos. Além disso, a Apple tem uma receita na China de 80 bilhões de dólares (20% de suas vendas mundiais), que procura aumentar. Tesla, Tesla et ambassadeur officieux de Washington, responsable de la passerelle naturelle pour le commerce entre les Etats-Unis et la Chine , Jensen Huang, patron de Nvidia, et Kelly Ortberg patronne de Boeing . Apple assemble en Chine près de 80 à 90% de ses iPhones et iMacs . Suite au sommet, elle a réussi à protéger cette production en gardant les droits de douane bilatéraux abaissés pour une période de trois ans. En outre, Apple a un chiffre d’affaires en Chine de 80 milliards de dollars (20% de ses ventes mondiales), qu’elle cherche à augmenter. Tesla, que fabrica na China carros elétricos e equipamentos para energia solar, conseguiu consolidar a proteção de sua fábrica em Xangai contra as barreiras alfandegárias bilaterais, sabendo que ela produz mais da metade da produção mundial de Tesla . Uma das conquistas deste cúpula foi a autorização oficial concedida por Trump à Nvidia para as vendas de seu chip de inteligência artificial H200 (o mais cobiçado do mercado) para grandes grupos tecnológicos chineses. A China representava até 25% das receitas da Nvidia ; esse percentual caiu para cerca de 11% devido às restrições, que agora foram removidas. O grande vencedor da cúpula foi a Boeing , que assinou um acordo para entregar 200 aviões comerciais a Pequim, o que é um sucesso total para sua presidente Kelly Ortberg, e representa uma injeção de oxigênio financeiro para recuperar a companhia. A Boeing estima que a China precisará de mais de 8.500 novos aviões comerciais até 2043 e espera, em decorrência deste contrato, conseguir outros nos próximos anos, com o número de aviões podendo chegar a 750. A questão de Taiwan A cúpula congelou um status quo sobre a questão de Taiwan. O presidente Trump é claro em sua recusa da independência formal da ilha, que ele julga perigosa, sob todos os aspectos. O mega-contrato de armamentos com Taipé de 14 bilhões de dólares foi congelado e constitui uma alavanca poderosa de negociação com Pequim. Por sua vez, o Kuomintang (KMT), partido de oposição taiwanês de direita nacionalista, defende o diálogo com Pequim e mantém sua posição a favor de uma única China. Aliás, sua presidente, Cheng Li-wun, fez uma visita histórica a Pequim de 7 a 12 de abril passado. Ela se encontrou com Xi Jinping para retomar o diálogo. Ao contrário do KMT, o Partido Democrático Progressista (DPP) no poder defende com firmeza a identidade nacional taiwanesa. No entanto, ele defende a manutenção do status quo diante das reivindicações da China continental para evitar conflito armado. Em resumo, enquanto a classe política taiwanesa busca preservar sua democracia sem provocar conflito, Donald Trump abordou a questão sob um ângulo estritamente pragmático. A crise do Irã e do Estreito de Ormuz A crise nuclear iraniana e a paralisia do Estreito de Ormuz continuam sem solução, embora esses assuntos tenham sido certamente debatidos nas semanas que antecederam o encontro em Pequim. O presidente Trump afirmou que Xi concordou com a proibição absoluta para Teerã possuir armas nucleares, ao mesmo tempo em que se comprometeu a bloquear qualquer entrega de armas convencionais chinesas ao Irã. O chefe da Casa Branca também argumentou que Pequim rejeitava o princípio do pedágio marítimo imposto pela República Islâmica no estreito. Por sua vez, o Ministério das Relações Exteriores chinês pediu um cessar-fogo global, mantendo a ambiguidade diplomática. Em troca, relatos indicam que Pequim paga discretamente a Teerã direitos de trânsito para seus petroleiros que atravessam Ormuz, sob a cobertura de "taxas ambientais". A China tem todo interesse em obter a abertura do estreito, pois importa mais de 50% de seu petróleo não apenas do Irã, mas também dos países do Golfo. Finalmente, a parceria estratégica entre Pequim e Teerã, assinada em 2021, previa investimentos de 400 bilhões de dólares no Irã. No entanto, até essa data, eles não ultrapassam alguns bilhões, o que indica que Xi Jinping, há muito tempo, não quer arriscar desagradar Washington e os países do Golfo. Uma nova ordem geopolítica A cúpula de Pequim faz parte de um processo que conduz a uma nova ordem mundial que substituirá aquela que prevaleceu após a Segunda Guerra Mundial. A geopolítica impõe… É claro que Xi Jinping, Trump e Putin colocam suas prioridades internas acima de tudo, o que exige uma normalização dos laços econômicos e tecnológicos entre seus respectivos países. Putin, aliás, já sinalizou abertura em todas as direções, particularmente em relação a Trump e Xi Jinping, a quem se apressou em visitar após o presidente americano, bem como em relação à Europa. Isso não favorece Teerã de forma alguma, que corre um grande risco de arcar com os custos dessa nova realidade geopolítica.

Ormuz, urânio enriquecido… o Irã endurece sua posição

O ballet diplomático destinado a pôr fim à guerra entre os Estados Unidos e o Irã prossegue com a visita a Teerã de um novo alto funcionário paquistanês, mediador das discussões. Entre as declarações do secretário de Estado americano Marco Rubio, que afirmou que "progressos tinham sido alcançados", e as do ministério iraniano das Relações Exteriores, segundo as quais "as negociações versam, nesta fase, sobre o fim da guerra em todas as frentes, incluindo no Líbano", um certo otimismo parecia emergir após uma série de mensagens explosivas trocadas de um lado e do outro. Mas uma informação publicada quinta-feira pela agência Reuters sobre o nuclear iraniano, além de um endurecimento da posição da Guarda Revolucionária sobre o estreito de Ormuz, vieram varrer essa trégua diplomática. Segundo a Reuters, o Líder Supremo iraniano, o aiatolá Mojtaba Khamenei, deu a diretiva de que o urânio iraniano enriquecido a um nível próximo ao necessário para a fabricação de uma arma nuclear não seja transferido para o exterior. "A diretiva do Líder Supremo, bem como o consenso no interior do establishment, é que o estoque de urânio enriquecido não deve deixar o país", indicou uma das duas fontes iranianas citadas pela Reuters, que se expressava sob anonimato. Segundo essas fontes mencionadas, os mais altos funcionários iranianos estimam que uma transferência dessa matéria para o exterior tornaria o país mais vulnerável a futuros ataques americanos ou israelenses. Os dois funcionários iranianos também afirmaram que uma profunda desconfiança reina em Teerã quanto à trégua atual, percebida como uma possível manobra tática de Washington destinada a criar uma falsa sensação de segurança antes de uma retomada dos bombardeios aéreos. Segundo as fontes, as duas partes começaram a reduzir certas divergências, mas desacordos maiores persistem quanto ao programa nuclear iraniano — notadamente o destino dos estoques de urânio enriquecido e a exigência de Teerã de ter reconhecido seu direito ao enriquecimento. Uma das fontes, porém, afirmou que existiam "fórmulas viáveis" para resolver essa divergência. "Existem soluções, como a diluição do estoque sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica", indicou um dos funcionários iranianos, citado pela agência londrina. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) estima que o Irã possuía 440,9 quilogramas de urânio enriquecido a 60% quando Israel e os Estados Unidos bombardearam instalações nucleares iranianas em junho de 2025. A quantidade de material que sobreviveu a esses bombardeios permanece desconhecida. Essa decisão enrijece a posição de Teerã sobre uma das principais exigências americanas no âmbito das conversas de paz. A ordem do aiatolá Khamenei poderia acentuar as tensões com o presidente americano Donald Trump e complicar ainda mais as discussões visando pôr fim à guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irã. Donald Trump afirmou quinta-feira que os Estados Unidos não permitirão que o Irã mantenha seu estoque de urânio altamente enriquecido. "Vamos recuperá-lo. Não precisamos dele, não o queremos. Provavelmente o destruiremos uma vez em nosso poder, mas não os deixaremos guardá-lo", declarou Trump a jornalistas na Casa Branca. Ormuz: o Irã amplia suas reivindicações Sobre um segundo ponto sensível das negociações com os Estados Unidos, o novo organismo iraniano de gestão do estreito de Ormuz reivindicou quinta-feira uma zona de controle estendendo-se até as águas situadas ao sul do porto emiradense de Fujairah, atraindo a ira de seu vizinho do Golfo. Teerã controla a navegação nessa via marítima estratégica para o comércio mundial de hidrocarbonetos, desde o início da guerra no Oriente Médio. Se um cessar-fogo entrou em vigor em 8 de abril, as autoridades exigem que embarcações em trânsito pelo estreito obtenham autorizações das forças armadas iranianas. A recém-criada "Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico", que agora possui uma conta oficial no X, publicou na quarta-feira uma mensagem acompanhada de um mapa, dizendo ter delimitado "a zona de competência regulatória para a gestão" do estreito. A autoridade escreve que essa zona se estende "de Kuh-e Mubarak no Irã até o sul de Fujairah nos Emirados Árabes Unidos" no que diz respeito à entrada leste do estreito, e do lado oeste "da ilha de Qeshm a Umm Al-Quwain", um dos sete emirados que formam os EAU. "O trânsito nessa zona com o objetivo de atravessar o Estreito de Ormuz requer coordenação com a Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico e sua autorização", é o que especifica. O que é suficiente para irritar Abu Dhabi, quando o porto de Fujairah está no coração de sua estratégia para contornar o bloqueio do estreito. "O regime (iraniano) tenta impor uma nova realidade (...), mas as tentativas de controlar o Estreito de Ormuz ou prejudicar a soberania marítima dos Emirados não passam de quimera", reagiu no X o conselheiro do presidente emirati, Anwar Gargash. Sanções dos EUA contra Amal e Hezbollah Em outro âmbito, Washington anunciou na quinta-feira colocar em sua lista de sanções nove indivíduos acusados de serem próximos ou membros da liderança do Hezbollah e de "obstruir a paz e o desarmamento" do grupo libanês pró-iraniano. Entre os alvos das sanções do departamento do Tesouro americano estão o embaixador designado do Irã no Líbano, Mohammad Reza Raouf Sheibani, funcionários dos serviços de inteligência libaneses, aliados políticos do Hezbollah e quatro membros do grupo. Um deles é o deputado do Hezbollah Hassan Fadlallah, que também dirigiu a rádio (Al-Nour) e a televisão (Al-Manar) do movimento. O governo libanês recusou em meados de março as credenciais do embaixador iraniano e ordenou sua saída do país, mas Sheibani recusou-se a deixar Beirute. As medidas tomadas pelo departamento do Tesouro também visam Ahmad Baalbeki e Ali Safawi, dois membros da liderança do movimento Amal, presidido pelo presidente do Parlamento Nabih Berri. Em seu comunicado, o secretário do Tesouro Scott Bessent declarou que "o Hezbollah é uma organização terrorista que deve ser totalmente desarmada. O departamento do Tesouro continuará atacando os responsáveis que infiltraram o governo libanês e permitiram que o Hezbollah conduzisse sua campanha de violência sem objetivo contra o povo libanês e obstruísse a paz". As sanções implicam o congelamento de todos os ativos detidos direta ou indiretamente pelas pessoas visadas, assim como a proibição para cidadãos e empresas americanas de realizar transações com elas. Essa proibição também se aplica a empresas estrangeiras se elas possuem operações nos Estados Unidos ou realizam parte de suas transações em dólares. No terreno, um hospital no sul do Líbano foi danificado na quinta-feira por um ataque aéreo israelense, segundo o ministério da Saúde, com o exército israelense prosseguindo seus ataques apesar de uma frágil trégua com o Hezbollah pró-iraniano. "Dois ataques aéreos israelenses atingiram a localidade de Tebnine, próximo ao hospital governamental", na região de Bint Jbeil, informou a Agência Nacional de Informação. O ministério também precisou que o ataque causou "nove feridos, entre eles sete membros do pessoal do hospital, sendo cinco mulheres". O ministério havia informado na quarta-feira que três hospitais no sul foram fechados e 16 outros danificados desde o início da guerra entre Israel e o Hezbollah pró-iraniano em 2 de março.

Espera, caminho errado…
Por
Michel Touma
Publicado

No atual conflito que provavelmente decidirá o destino da República Islâmica do Irã, torna-se mais vital do que nunca agir com transparência e dizer as coisas como realmente são, sem concessões nem subterfúgios: muitos altos responsáveis políticos, especialistas, acadêmicos e jornalistas estão equivocados em sua percepção do verdadeiro desafio desta crise existencial que abala toda a região e cujos efeitos repercutem, por conseguinte, no mercado internacional. O mais grave seria, no contexto presente, escolher a batalha errada. O adversário a combater hoje não é de forma alguma o presidente Donald Trump, quaisquer que sejam as críticas que se possam fazer a respeito de seu comportamento, sua atitude arrogante, seus deslizes verbais ou suas relações com líderes supostamente aliados. Será necessário lembrar, a este respeito, para ilustrar nosso argumento, que esses mesmos defeitos foram reprochados a Winston Churchill durante a Segunda Guerra Mundial, mas o general de Gaulle, em pleno conflito com o regime nazista, não havia, apesar disso, concentrado todo seu combate em seus atritos e desentendimentos com o antigo primeiro-ministro britânico… Se muitos responsáveis e especialistas políticos estão hoje equivocados em sua percepção do conflito iraniano, é essencialmente porque se recusam a admitir que os verdadeiros desafios deste conflito não se limitam apenas à livre circulação marítima no Estreito de Ormuz e à preservação da economia mundial. O desafio não diz respeito à parada da escalada e das operações militares para favorecer "a via diplomática" e a busca de uma "solução negociada aceitável pelas duas partes"… Tais objetivos teriam sido concebíveis e compreensíveis se estivéssemos diante de facções, ainda que rivais, que tivessem uma conduta em conformidade com as normas racionais costumeiras. Este está longe de ser o caso dos dirigentes da República Islâmica do Irã, mais precisamente de sua espinha dorsal, os Guardiões da Revolução. Os porta-estandartes da "via diplomática" e detratores do método muscular implementado pelo presidente Trump ocultam, por cálculo egocêntrico ou por angelismo deslocado, o que deveria ser o verdadeiro desafio deste conflito: a erradicação do regime iraniano, ou pelo menos de sua ala dura e belicosa, representada pelos Pasdaran. Trata-se de forma alguma de um simples jogo de poder ou da imposição de um qualquer equilíbrio de forças, mas de um desafio fundamentalmente existencial cuja dimensão ideológica seria perigoso negligenciar divina… É de fato chegada a hora de admitir uma realidade inegável, confirmada por fatos concretos: os Estados Unidos, a União Europeia, o mundo ocidental em geral, os Estados do Golfo, os países do Levante enfrentam há décadas os sofrimentos e agressões de um poder teocrático, ditatorial e sanguinário iraniano, que se acredita investido de uma missão messiânica e que se fixou uma conduta baseada em uma visão obscurantista e retrógrada do mundo, da sociedade, da vida e da morte, do lugar do Homem e da Mulher em seu ambiente… Este projeto de sociedade khomeynista (pois é necessário chamá-lo por seu nome) é construído sobre práticas, costumes, um modo de vida, regras sociais de outra era. É mantido de forma obstinada pela ala radical do regime de Teerã desde a chegada ao poder de Khomeini, em 1979. Logo de início, os Pasdaran adotaram o slogan da exportação da Revolução Islâmica e o puseram em prática implantando milícias vassalas no Líbano, no Iraque, no Iêmen, na Síria, em Gaza, e adotando uma política expansionista e desestabilizadora em numerosas zonas da região, particularmente em vários países do Golfo. Para preservar seu poder e o regime khomeinista como um todo, os «guardiões do templo» – a Guarda Revolucionária – não hesitam em nada e não se deixam embaraçar por considerações humanitárias. Exemplo mais recente: enforcamentos em massa de adolescentes, de jovens na flor da idade, de estudantes universitários, de altos executivos, acusados de ter participado em manifestações pacíficas (600 enforcamentos desde o início do ano e mais de 2100 em 2025, sem que os «intelectuais» e os «bem-pensantes» se perturbem demasiadamente). Como esquecer que durante as últimas manifestações em massa na maioria das regiões iranianas, o aparato repressivo do regime massacrou em dois dias, 8 e 9 de janeiro de 2026, mais de 40 000 civis! Será necessário recordar o levantamento de 2009 (o «Movimento Verde») provocado pela reeleição fraudulenta de Ahmadinejad e brutalmente reprimido pela Guarda Revolucionária, ou ainda o «Novembro Sangrento» de 2019 que deixou não menos de 300 mortos, e sobretudo o vasto protesto «Mulher, Vida, Liberdade» de 2022, desencadeado pela morte em detenção da jovem de origem curda Mahsa Amini e que foi reprimido com sangue por disparos de bala real, por milhares de detenções e casos inomináveis de tortura… Mas o auge da atrocidade foi atingido durante a guerra contra o Iraque, quando o regime enviou centenas de crianças para serem mortas em campos minados a fim de abrir caminho às forças regulares! Apesar desse sombrio passado, sobre o qual é possível se deter longamente expondo inúmeros detalhes sobre as repressões e malfeitos do regime, muitos países ocidentais e Estados árabes continuam a pregar o «diálogo» e uma solução «diplomática» para pôr fim ao conflito armado atual e encontrar uma saída para o problema do programa nuclear iraniano e do enriquecimento de urânio. Esses países fingem a esse respeito esquecer que já faz mais de … vinte anos (!), desde o início dos anos 2000, que esses dossiês do nuclear e do enriquecimento de urânio são discutidos, negociados, debatidos, examinados, escrutinados, renegociados múltiplas vezes ao longo dos anos, exaustivamente. Mais de vinte anos de discussões estéreis que permitiram ao regime dos mulás ganhar tempo para continuar desenvolvendo seu programa nuclear e acelerar o enriquecimento de seu urânio, até atingir a marca de 60 por cento e mais. O presidente Trump tocou na ferida recentemente ao destacar, com razão, o que outros líderes teimam em não reconhecer: «Há 47 anos (desde 1979), o regime iraniano nos engana; nos faz esperar, mata nossos homens por meio de artefatos explosivos improvisados plantados à beira da estrada, reprime brutalmente os levantamentos populares e recentemente ainda massacrou 42 mil manifestantes inocentes indefesos» (…). Diante desse quadro desolador e dessa realidade repugnante, o que ainda há para negociar com um regime assassino como esse, movido pelo culto do martírio, por uma ideologia divina retrógrada que não tem qualquer consideração pela pessoa humana, pelo indivíduo como valor absoluto? Teria sido concebível, a título de comparação, pregar o «diálogo» em 1944-1945 com Hitler para chegar a uma «solução diplomática» com o regime nazista?

Gibran Khalil Gibran: uma ponte de luz entre o Oriente e o Ocidente (3/3)

Como vimos anteriormente, Gibran Khalil Gibran é um artista multifacetado, simultaneamente poeta, pensador, escritor e pintor de grande talento. Embora seja principalmente conhecido no Ocidente por sua obra literária «O Profeta», publicada em inúmeras línguas, seu trabalho pictórico é igualmente notável e foi reconhecido ainda em vida. «A arte é a expressão do pensamento pelo pincel, pelo cinzel, pela pena ou pelo canto. É a centelha divina que arde em cada um de nós.» «Gostaria de pintar o que existe no mais profundo do coração humano.» Gibran demonstrou aptidão para o desenho desde a infância. Em 1904, seus primeiros desenhos foram expostos no estúdio de Fred Holland Day em Boston, graças a Mary Haskell, sua mentora. Em 1908, encorajado por ela, ingressou na Académie Julian e no atelier de Auguste Rodin em Paris, a fim de aperfeiçoar sua técnica pictórica. Este encontro com Rodin marca sua visão do corpo humano. Rodin até o compara a William Blake. Como Blake, Gibran ilustra seus próprios textos para criar uma obra «total» onde a palavra e a imagem se correspondem. Em Paris, foi também aluno do pintor Pierre Marcel-Béronneau, cujas qualidades e inspirações místicas o atraíam particularmente. Gibran, o pintor assim como Gibran o escritor, é uma síntese entre dois mundos: de um lado os Estados Unidos e sua formação acadêmica parisiense, e do outro suas raízes libanesas, mergulhadas na beleza e espiritualidade mística da montanha libanesa. «Meditação Interior, 1914». Óleo sobre tela. (Museu Gibran Khalil Gibran) Sua obra Gibran era essencialmente um autodidata. Produziu uma obra artística considerável. Desde seus primeiros trabalhos, suas criações foram expostas em galerias prestigiosas, particularmente na Montross Gallery e em M. Knoedler & Co, em Nova York. Seu estilo: o simbolismo místico «A arte não consiste em copiar a realidade, mas em capturar a emoção que essa realidade desperta em nós.» A obra pictórica de Gibran é uma extensão de sua filosofia. Suas obras não foram feitas para serem simplesmente olhadas, mas para serem meditadas. O estilo de Gibran pertence a um simbolismo romântico e espiritual, que não se inscreve nas correntes de sua época como o cubismo ou o fauvismo. Ele privilegia o corpo humano, que é para ele o templo da alma, «a beleza em seu estado puro». Através dos traços humanos, busca se aproximar de Deus e mostrar a unidade do universo. Suas personagens, frequentemente nuas, representam a humanidade em seu estado de pureza original, livre das convenções sociais. Os corpos com contornos difusos e etéreos parecem emergir de uma névoa ou de um sonho, sugerindo que o espírito está se libertando da matéria. Gibran frequentemente utiliza tons apagados, degradês de marrom, azul pálido e bege rosado. Suas aguadas são leves, quase transparentes. Excele no desenho a lápis, carvão e aquarela. Suas pinturas a óleo mantêm a mesma suavidade difusa, privilegiando menos o realismo do que a emoção. «A Mona Lisa Triste, 1914». Óleo sobre tela. (Museu Gibran Khalil Gibran) Onde ver suas obras? A maior coleção encontra-se no Museu Gibran em Bécharré, no Líbano. Também é possível ver suas obras nos principais museus americanos, nomeadamente no Metropolitan Museum of Art em Nova York, no Museum of Fine Arts de Boston, no Newark Museum, assim como no Mathaf, no Qatar. O Museu Gibran O museu está localizado em Bécharré, sua cidade natal, no vale de Qadisha, dentro do antigo mosteiro Mar Sarkis (São Sérgio), um sítio troglodita cujas origens remontam ao século VII. No final de sua vida, Gibran desejou adquirir este mosteiro para transformá-lo em seu refúgio e, eventualmente, em seu local de sepultamento. Após sua morte, sua irmã Miriana, com ajuda de Mary Haskell, recomprou o lugar a fim de realizar seu desejo. Son œuvre Gibran était essentiellement un autodidacte. Il a produit une œuvre artistique considérable. Dès ses débuts, ses travaux ont été exposés dans des galeries prestigieuses, notamment à la Montross Gallery et chez M. Knoedler & Co, à New York. Son style: le symbolisme mystique « L’art ne consiste pas à copier la réalité, mais à capturer l’émotion que cette réalité éveille en nous. » L’œuvre picturale de Gibran est une extension de sa philosophie. Ses œuvres ne sont pas faites pour être simplement regardées, mais pour être méditées. Le style de Gibran relève d’un symbolisme romantique et spirituel, qui ne s’inscrit pas dans les courants de son époque comme le cubisme ou le fauvisme. Il donne la primauté au corps humain, qui est pour lui le temple de l’âme, «la beauté à l’état pur». À travers les traits humains, il cherche à se rapprocher de Dieu et à montrer l’unité de l’univers. Ses personnages, souvent nus, représentent l’humanité dans son état de pureté originelle, débarrassée des conventions sociales. Les corps aux contours flous et éthérés semblent surgir d’un brouillard ou d’un rêve, suggérant que l’esprit est en train de se libérer de la matière. Gibran utilise souvent des tons sourds, des dégradés de brun, de bleu pâle et de beige rosé. Ses lavis sont légers, presque transparents. Il excelle dans le dessin à la mine de plomb, le fusain et l’aquarelle. Ses peintures à l’huile conservent la même douceur diffuse, privilégiant moins le réalisme que l’émotion. «La Joconde triste, 1914». Huile sur toile. (Musée Gibran Khalil Gibran) Où voir ses œuvres? La plus grande collection se trouve au Musée Gibran à Bécharré, au Liban. On peut également voir ses œuvres dans les plus grands musées américains, notamment le Metropolitan Museum of Art de New York, le Museum of Fine Arts de Boston, le Newark Museum, ainsi qu’au Mathaf, au Qatar. Le Musée Gibran Le musée est situé à Bécharré, sa ville natale, dans la vallée de la Qadisha, au sein de l’ancien monastère Mar Sarkis (Saint-Serge), un site troglodytique dont les origines remontent au VIIe siècle. À la fin de sa vie, Gibran a souhaité acquérir ce monastère pour en faire sa retraite et, éventuellement, son lieu de sépulture. Après sa mort, sa sœur Miriana, aidée par Mary Haskell, a racheté les lieux afin d’exaucer son vœu. O museu, que abriu oficialmente suas portas em 1975, estende-se por dezesseis salas e abriga o túmulo de Gibran, além de mais de 440 obras originais. Ali também se encontram seus objetos pessoais, sua biblioteca privada, seus móveis nova-iorquinos, seus manuscritos e, sobretudo, sua Bíblia. O local é gerenciado pelo Comitê Nacional Gibran, que zela rigorosamente pela preservação e transmissão de seu legado cultural. «O Exilado do Amor, 1914». Óleo sobre tela. (Museu Gibran Khalil Gibran) (Re)descobrir Gibran « Quando você tiver atingido o cume da montanha, é quando enfim começará a subir. » O único meio de (re)descobrir Gibran, o pintor, é visitar seu museu em Bécharré e se impregnar da atmosfera particular do lugar e da natureza ao redor, depois dedicar tempo para meditar diante de seus quadros. Quanto ao escritor, seria necessário adquirir suas obras completas e lê-las pouco a pouco em sua língua original, saboreando cada palavra como um néctar precioso. « Um pouco de tempo, um momento de repouso no vento, e outra mulher me dará à luz. » ( O Profeta ) Leia também: Gibran Khalil Gibran: uma ponte de luz entre Oriente e Ocidente (1/3) Gibran Khalil Gibran: uma ponte de luz entre Oriente e Ocidente (2/3)