
Os quinze anos de manto de chumbo

Esta série de artigos tem como objetivo compreender melhor a situação atual no cenário libanês à luz do passado, longe de discursos apaixonados, ideológicos ou românticos que ignoram a realidade, deixando ao leitor a tarefa de tirar as conclusões que se impõem.
As onze partes anteriores propuseram uma releitura dos acontecimentos relacionados à ascensão do Hezbollah desde o Acordo de Taif até a aplicação gravemente incompleta da Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU, em 2006.
Desde a primeira retirada israelense, em maio de 2000, o presidente da República do Líbano, Émile Lahoud (1998-2007), e o secretário-geral do Hezbollah, Hassan Nasrallah, selaram um importante acordo conceitual: o Estado legitimava o Hezbollah e, em contrapartida, o movimento comprometia-se a respeitar formalmente as instituições nacionais e a não utilizar suas armas nas disputas políticas internas. Mais tarde, ficou evidente que essa promessa não apenas era frágil, como desmoronou em 7 de maio de 2008, quando o Hezbollah ocupou Beirute pela força das armas. Além disso, essas armas exerciam enorme influência sobre as decisões nacionais.
No plano militar, o entendimento entre Lahoud e Nasrallah traduziu-se em uma coordenação significativa entre o partido pró-Irã e os altos escalões do aparato de segurança libanês, onde homens de confiança de Lahoud e outros aprovados pelo Hezbollah e/ou por seu aliado, o movimento Amal, ocupavam os cargos estratégicos.
Controle do Exército
Após a invasão síria de 13 de outubro de 1990 e a ocupação do Palácio Presidencial e do Ministério da Defesa libanês pelas forças do regime Assad, o Exército libanês foi submetido a uma depuração metódica e a uma repressão conduzida pelo aparato de segurança sírio-libanês, com o objetivo de eliminar qualquer tentativa de resistência à ocupação síria dentro da instituição militar. Já no dia da invasão, mais de uma centena de soldados libaneses foram executados sumariamente, dezenas de outros foram humilhados e capturados, e cerca de vinte oficiais superiores foram transferidos para prisões sírias. Nos anos seguintes (1991-1992), o Exército passou por uma reestruturação forçada: oficiais e suboficiais suspeitos de hostilidade a Damasco ou de lealdade à oposição soberanista foram perseguidos, convocados pelos serviços de inteligência libaneses e sírios, aterrorizados, aposentados compulsoriamente ou levados ao Tribunal Militar sob a acusação de "atentar contra as relações com um Estado irmão".
Mantidos em detenção incomunicável no Ministério da Defesa, em Yarzé, ou em centros de detenção sírios no Líbano, como o de Anjar, muitos desses militares foram submetidos a torturas sistemáticas e acabaram integrando a lista das centenas de libaneses desaparecidos nas prisões sírias.
Desde sua nomeação como comandante do Exército libanês, em 1990, e posteriormente sua chegada à Presidência da República, em 1998, Émile Lahoud manteve uma influência decisiva sobre as Forças Armadas, onde contava com o apoio e a lealdade de oficiais superiores instalados em cargos-chave. Como presidente, detinha a assinatura dos decretos de promoção desses oficiais e continuava exercendo influência sobre suas transferências para essas funções.
Além dos oficiais leais a Lahoud, outros estavam sob a influência de Nabih Berri, líder do movimento Amal, presidente do Parlamento e aliado do Hezbollah, ou de outros políticos alinhados à Síria. Foi nesse contexto que a cultura soberanista do Exército, que o distinguia desde a independência, começou a se deteriorar e a ser substituída por outra que aceitava o compartilhamento da soberania com o Exército de ocupação sírio, então qualificado como um Exército "irmão", e com o Hezbollah. Essa cultura encontrou resistência dentro da tropa, mas prevaleceu por mais de duas décadas.
Decapitação e marginalização dos soberanistas (1990-2005)
A partir de 1990, os políticos soberanistas passaram a ser totalmente marginalizados tanto do processo político quanto das nomeações para as instituições do Estado. O sistema eleitoral implantado em 1992, ditado pelos sírios, somado às práticas de intimidação, obrigava-os a se submeter ou a se afastar da vida política. Paralelamente, após as eleições legislativas de 1992, o Hezbollah conquistou doze cadeiras no Parlamento, onde o campo soberanista estava completamente ausente.
Uma campanha de intimidação começou com o assassinato de Dany Chamoun, líder do Partido Nacional Liberal (PNL), poucos dias após a invasão síria de outubro de 1990, seguida pelo exílio forçado do general Michel Aoun, em 1991. Na época, Aoun era contrário à ocupação síria e às milícias ilegais, entre elas o Hezbollah, antes de se alinhar, quinze anos depois, à milícia pró-Irã. O ex-presidente Amine Gemayel (1982-1988) já havia se exilado voluntariamente na França desde o fim de seu mandato.
Entre 1990 e 2005, a tutela de segurança síria-libanesa sufocou sistematicamente a oposição antissíria por meio de sucessivas ondas de perseguição, durante os governos dos presidentes Élias Hraoui (1989-1998) e Émile Lahoud (1998-2007). Essa década de chumbo foi marcada por diversos acontecimentos importantes, entre eles o sequestro de Boutros Khawand, integrante do bureau político do partido Kataëb, em 15 de setembro de 1992, e o atentado jamais esclarecido contra a igreja Nossa Senhora da Libertação, em Zouk Mikael, em 27 de fevereiro de 1994, que deixou onze mortos. O ataque serviu de pretexto imediato para que o governo pró-sírio dissolvesse o partido das Forças Libanesas e prendesse seu líder, Samir Geagea, em 21 de abril de 1994. Condenado à prisão perpétua, Geagea permaneceria mais de onze anos encarcerado.
Poucos dias depois, em 27 de abril de 1994, o terrorismo atingiu a sede do bureau político do partido Kataëb, em Saifi, provocando a morte de um de seus dirigentes, Tony Baaklini. Além disso, os movimentos estudantis do Movimento Patriótico Livre (CPL, fundado por Michel Aoun), das Forças Libanesas, do Partido Nacional Liberal e do Kataëb sofreram sucessivas operações de repressão, que atingiram seu ponto máximo na quinta-feira, 7 de agosto de 2001, quando mais de 250 militantes soberanistas foram presos de forma brutal após a histórica reconciliação do Chouf entre o patriarca maronita Nasrallah Sfeir, símbolo da resistência antissíria da época, e Walid Joumblatt, líder do Partido Socialista Progressista (PSP). Essa estratégia de terror policial também se traduziu no fechamento forçado da emissora MTV, em 2002, e na perseguição a jornalistas como Gebran Tueni.
Assassinato de Rafic Hariri e retirada síria
Após o assassinato de Rafic Hariri, em 14 de fevereiro de 2005, e a Revolução dos Cedros que se seguiu, as tropas de Damasco se retiraram em 28 de abril de 2005. Isso permitiu o retorno do exílio de Michel Aoun quinze dias depois, em 7 de maio de 2005, bem como a libertação, por anistia, de Samir Geagea em julho de 2005. O ex-presidente Amine Gemayel, por sua vez, já havia retornado ao país no ano 2000.
Compartilhamento de soberania entre o Estado e o Hezbollah
Apesar da Revolução dos Cedros e da retirada síria de 2005, seguida pela segunda retirada israelense em 2006, em cumprimento à Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU, o presidente Lahoud continuou supervisionando o compartilhamento de informações de inteligência entre os serviços de segurança libaneses e a milícia pró-Irã. O principal objetivo era delimitar as zonas de operação do Exército libanês para deixar o caminho livre ao Hezbollah no sul do Líbano, nos subúrbios ao sul de Beirute e no norte do Vale do Bekaa, além de garantir a segurança das linhas logísticas do partido pró-Irã a partir da Síria. Essa coordenação também tinha como objetivo rastrear redes de espionagem israelenses.
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