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Stratégia

Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (11)

A aplicação gravemente deficiente da resolução 1701

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Da esquerda para a direita: o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros Abbas Araghchi, o ex-presidente Émile Lahoud, o presidente do Parlamento iraniano Mohammad Bagher Ghalibaf e o presidente do Parlamento libanês Nabih Berri, durante o funeral do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, em fevereiro de 2025. Lahoud havia desempenhado um papel central na proteção do arsenal do Hezbollah, o que lhe valeu a alienação de grande parte da população. (AFP)
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Por Khalil Helou
Publicado jul 5, 2026 - 01:56

Esta série de artigos tem como objetivo compreender melhor a atual situação no cenário libanês à luz do passado, distante de discursos apaixonados, ideológicos ou românticos que ignoram a realidade, deixando ao leitor a tarefa de tirar as conclusões que se impõem.

As dez partes anteriores abordaram uma releitura dos acontecimentos relacionados ao fortalecimento do Hezbollah desde o Acordo de Taif, passando pela retirada do Exército israelense do Líbano, em maio de 2000, até a guerra de 2006 e seus desdobramentos.

O envio do Exército libanês ao sul do Líbano, conhecido internacionalmente como Forças Armadas Libanesas (FAL), então comandado pelo general Michel Sleiman, foi determinado pelo governo de Fouad Siniora em 16 de agosto de 2006. Esse desdobramento, o primeiro desde 1968, começou imediatamente na madrugada de 17 de agosto, com a travessia do rio Litani por meio de pontes metálicas militares e outras improvisadas, já que as pontes permanentes haviam sido destruídas pelos bombardeios israelenses.

Embora as FAL estivessem muito menos equipadas do que hoje e contassem com um efetivo significativamente menor, essa rápida mobilização marcou um momento histórico ao restabelecer, pela primeira vez desde 1968, a presença militar do Estado ao sul do Litani, área controlada pelo Hezbollah desde 2000. A operação, aprovada pelo Conselho de Ministros em 7 de agosto e enquadrada na Resolução 1701, previa um contingente máximo de 15 mil soldados apoiados pela Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL), que também foi reforçada, ampliando seu efetivo de 4 mil para 15 mil militares.

Detalhes da mobilização

As FAL deslocaram rapidamente um contingente inicial de 9500 militares para o sul do Litani nas primeiras semanas. Diante da falta de efetivos, 5 mil reservistas foram convocados para suprir a deficiência de pessoal.

As forças mobilizadas eram compostas por quatro brigadas de infantaria, especialmente as 6ª, 10ª, 11ª e 12ª Brigadas, reforçadas inicialmente pelo Regimento de Comandos, por regimentos indep

endentes e por destacamentos do Regimento de Engenharia.

A fase operacional que deu início ao desdobramento incluiu a segurança progressiva das principais rodovias e das cidades estratégicas, especialmente Marjayoun, Tiro, Nabatiyeh e Bint Jbeil, seguindo um cronograma rigoroso. A travessia do Litani e a ocupação das primeiras posições táticas ocorreram em 17 de agosto. Em seguida, o controle gradual dos principais entroncamentos viários prosseguiu até o fim daquele mês.

A mobilização foi oficialmente concluída em 1º de outubro de 2006, simultaneamente à retirada quase total das forças israelenses, com exceção da disputada região de Ghajar, que, na realidade, é uma aldeia síria localizada nas Colinas de Golã ocupadas. Seus habitantes são sírios ou apátridas sem documentos de identidade e expandiram ilegalmente a aldeia, desde 1975, para dentro do território libanês.

Essa foi a segunda retirada israelense, após a ocorrida no ano 2000. No plano estrutural, o Exército libanês criou um comando específico para a região ao sul do Litani, inexistente antes de agosto de 2006. Seu quartel-general foi instalado inicialmente em Tiro e posteriormente transferido para o quartel de Marjayoun, ficando responsável pelo planejamento tático, pela logística e pela cadeia local de comando.

A cooperação operacional ocorreu em estreita coordenação com a UNIFIL. O posicionamento das FAL em pontos específicos acontecia à medida que os capacetes azuis confirmavam a retirada israelense dessas áreas.

As missões logísticas e de segurança foram intensas. As unidades de engenharia instalaram pontes Bailey fornecidas pelo Reino Unido para atravessar o Litani, realizaram operações de desminagem das rodovias, neutralizaram munições não detonadas e protegeram os acessos. Ao mesmo tempo, dezenas de postos de controle fixos e móveis foram instalados em todas as rotas de acesso ao sul para fiscalizar a circulação de veículos e pessoas.

O objetivo político e operacional era claro: restaurar e afirmar a soberania do Estado libanês sobre a região, impedir qualquer autoridade paralela e, conforme o mandato estabelecido, apreender armas ilegais ou ostensivamente visíveis ao sul do Litani.

Essa missão despertava grande esperança, mas também indicava a possibilidade de tensões em relação ao status das armas do Hezbollah e à efetiva implementação do monopólio estatal sobre o uso da força.

O compromisso entre o Estado e o Hezbollah e o papel de Émile Lahoud

Desde a década de 1990, primeiro como comandante do Exército e depois como presidente da República em 2006, Émile Lahoud desempenhou um papel central na proteção do arsenal do Hezbollah, atuando como principal garantidor institucional, militar e jurídico da não desmobilização do movimento. Seu discurso apresentava o arsenal ilegal do grupo, sob todos os aspectos, como um complemento às supostamente limitadas capacidades das Forças Armadas Libanesas.

Já em 2004, quando o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 1559, exigindo o desarmamento de todas as milícias libanesas, incluindo a milícia pró-iraniana, Émile Lahoud criou uma barreira institucional contra qualquer aplicação da resolução que atingisse o Hezbollah.

Aproveitando seu mandato presidencial, prorrogado exclusivamente pela imposição do regime sírio, Lahoud, diante da impossibilidade de conferir um status jurídico ao Hezbollah, utilizou sua posição para afirmar que a resolução não se aplicava ao partido pró-iraniano. Em vez de classificá-lo como milícia, definiu-o como um “movimento de libertação nacional” e uma “resistência”, conferindo-lhe assim certa legitimidade.

Essa postura bloqueou as tentativas administrativas e militares de registrar ou apreender as armas do Hezbollah e impediu qualquer implementação coercitiva de seu desarmamento.

Durante a guerra de julho de 2006 e as deliberações governamentais sobre a Resolução 1701, Lahoud consolidou-se como o mais inflexível defensor dos interesses estratégicos do Hezbollah no mais alto nível do Estado, embora o governo da época tivesse caráter histórico. Era o primeiro formado após o fim de 30 anos de ocupação síria do Líbano e também o primeiro a reunir ministros do Hezbollah ao lado de ministros contrários à Síria, compondo um governo de união nacional.

O primeiro-ministro era Fouad Siniora, pertencente à coalizão soberanista 14 de Março, que detinha a maioria dos 24 ministérios. O governo também contava com cinco ministros da coalizão formada pelo Hezbollah e pelo Movimento Amal, de Nabih Berri, além de outros ministros próximos de Émile Lahoud.

Durante as tensas reuniões do Conselho de Ministros em agosto de 2006, enquanto a maioria governista buscava obter um mandato claro para que o Exército confiscasse armas ao sul do Litani, Lahoud estabeleceu uma linha vermelha intransponível.

Sob sua pressão, reforçada pelos ministros que lhe eram próximos e pelos cinco ministros da coalizão Hezbollah-Amal, o governo aprovou um compromisso operacional denominado “doutrina da invisibilidade”.

Segundo essa doutrina, o Exército poderia se deslocar para o sul, mas sem realizar buscas sistemáticas em propriedades privadas nem promover o desarmamento forçado enquanto as armas não estivessem visíveis em locais públicos.

Na prática, isso inviabilizou desde o início a aplicação da Resolução 1701, lançando as bases para o conflito que se seguiria.

Na condição de presidente da República e comandante supremo das Forças Armadas Libanesas, Lahoud garantiu que as ordens transmitidas ao comandante do Exército, general Michel Sleiman, não incluíssem qualquer missão de apreensão de depósitos de armas, assegurando assim que a infraestrutura militar do Hezbollah, frequentemente subterrânea ou ocultada, permanecesse intacta.

Respaldado pelo apoio sírio, que continuava significativo no Líbano mesmo após a retirada das tropas sírias do território libanês, Émile Lahoud ofereceu ao Hezbollah um verdadeiro “guarda-chuva estatal”, que incluía não apenas proteção política, mas também respaldo retórico.

Lahoud utilizava seu poder de bloqueio institucional para permitir que o partido pró-iraniano preservasse inicialmente seu arsenal e, ao longo da década seguinte, o consolidasse e ampliasse, sem receio de uma intervenção do aparato de segurança libanês.

Essa estratégia teve como consequência consolidar de forma duradoura o papel do Hezbollah, sob o discurso da defesa nacional e da preservação de seu arsenal ilegal, percebido como um componente aceito, quando não legitimado, da estrutura estratégica libanesa.

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