

Prosseguimos com este sexto artigo da série “Israel-Hezbollah”, que busca compreender melhor a situação atual à luz do passado, longe dos discursos passionais, ideológicos ou românticos, que ignoram as realidades. Cabe ao leitor tirar as conclusões que se impõem. Os artigos anteriores relembraram a ascensão do Hezbollah desde o acordo de Taif, suas duas primeiras guerras com Israel, assim como a retirada do exército do Estado hebreu do Líbano em maio de 2000.
Após a retirada israelense do Líbano, em 24 de maio de 2000, e por insistência do primeiro-ministro israelense Ehud Barak, a ONU certificou oficialmente, em 16 de junho de 2000, que essa retirada era total e estava em conformidade com a resolução 425 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, considerada desde então como aplicada. Posteriormente, a Finul traçou uma linha de retirada israelense chamada “Linha Azul”, com 13 pontos de disputa entre os dois países, em uma área inferior a 1 km². Essa linha praticamente coincide com a linha Paulet-Newcombe, traçada em 1923 como fronteira que delimitava o Líbano e a Palestina sob os mandatos francês e britânico.
Em vez de aproveitar a retirada israelense de 24 de maio de 2000 para restaurar a soberania do Estado, especialmente no sul do Líbano, o presidente da República Émile Lahoud e o governo libanês, subordinados à Síria, adotaram uma posição de apoio institucional e político ao Hezbollah sob o rótulo da “resistência”. Essa narrativa da “resistência” corria o risco de ser seriamente enfraquecida pela constatação oficial da ONU de que a retirada israelense havia sido total.
A posição de Lahoud atendia perfeitamente aos interesses sírios e iranianos, preocupados em não privar o Hezbollah de seu slogan de “luta armada”. Damasco queria preservar sua ferramenta de pressão sobre Israel, seja em futuras negociações de paz, seja em caso de conflito armado com o Estado hebreu, algo que convergia com o objetivo de Teerã de fortalecer a milícia xiita, seu instrumento no Líbano e na região. O aparato de segurança libanês-sírio da época, uma rede de oficiais de inteligência libaneses e sírios de alta patente que atuavam em conjunto, havia antecipado essa questão e encontrado o argumento que permitiria manter o sul do Líbano sob controle do Hezbollah, como plataforma de pressão militar sobre Israel. Esse pretexto não era outro senão os povoados de Chebaa, mais conhecidos como Fazendas de Chebaa.
O caso particular dos povoados de Chebaa
Em abril de 2000, poucas semanas antes da retirada israelense, o general Jamil el-Sayed, então diretor da Segurança Geral libanesa e aliado do presidente Émile Lahoud, voltou a colocar em pauta a reivindicação libanesa sobre os povoados de Chebaa, com o objetivo de justificar a continuidade da “resistência” conduzida pelo Hezbollah. Os registros fundiários libaneses comprovavam desde 1949 que essa área de 62 km² era libanesa, mas nos mapas ela aparecia em território sírio. A região foi ocupada por Israel em 1967, ao mesmo tempo que as Colinas de Golã. Essa mudança estratégica, coordenada com Damasco, especialmente por meio das relações do general Sayed com o general Ali Mamlouk, seu equivalente sírio, deu ao Líbano oficial um pretexto para rejeitar a certificação da ONU sobre a retirada israelense total.
Os povoados de Chebaa eram um tema de disputa fronteiriça entre o Líbano e a Síria desde o mandato francês. Esse conflito jamais foi resolvido de forma definitiva após a independência dos dois países. Durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967, Israel ocupou esses povoados, onde o exército regular sírio estava estacionado desde o início dos anos 1960, e ampliou ali seu dispositivo militar estabelecido nas Colinas de Golã. A polícia e a alfândega libanesas estiveram presentes na região desde a independência até a guerra civil de 1958, quando milícias sírias e libanesas pró-Síria, que participavam da rebelião contra o presidente Camille Chamoun, obrigaram policiais e agentes alfandegários libaneses a se retirarem e ocuparam o local para utilizá-lo como base militar contra o quartel do exército libanês em Marjeyoun.
Ao fim da guerra de 1958, essas milícias se retiraram para o território sírio, mas a polícia e a alfândega libanesas jamais retornaram. Mais tarde, o exército sírio passou a ocupar a área, e a Síria continua incluindo os povoados em seus mapas militares.
Lahoud, teórico da “complementaridade” entre o exército e a “resistência”
Após as guerras árabe-israelenses de 1967 e 1973 e até o ano 2000, o Líbano jamais reivindicou junto à ONU os povoados de Chebaa como territórios ocupados, aceitando de fato os mapas internacionais que os situavam na Síria. Essa reivindicação só apareceu oficialmente em 2000, com o objetivo evidente de contestar a totalidade da retirada israelense e, consequentemente, legitimar o discurso da “resistência” que veio em seguida.
Esse discurso foi amplamente reforçado pelo presidente Émile Lahoud, principal garantidor político do Hezbollah no topo do Estado. Já quando era comandante-chefe do exército, ele havia formulado a ideia da “complementaridade” entre a milícia xiita e o exército regular libanês. Lahoud considerava que o exército deveria assegurar a paz civil, o que na prática implicava a repressão de indivíduos e partidos soberanistas anti-Síria e anti-Hezbollah, enquanto a “resistência”, no caso o Hezbollah, teria a missão de proteger o país contra Israel.
Lahoud havia efetivamente facilitado, desde o período em que comandava o exército, a passagem de armas iranianas da Síria para posições do Hezbollah no Vale do Bekaa e no sul do Líbano. Apesar das pressões da ONU, ele se recusou sistematicamente a deslocar o exército libanês para a área evacuada por Israel, argumentando que isso equivaleria a transformar o exército em uma “guarda de fronteira” a serviço do Estado hebreu. Por sua vez, o presidente do Parlamento, Nabih Berri, atuava de forma complementar a Lahoud, como eixo legislativo e diplomático do Hezbollah, garantindo que as declarações ministeriais de todos os governos sucessivos desde a retirada israelense incluíssem explicitamente o “direito do Líbano à resistência para libertar seu território”, legitimando assim as armas do Hezbollah.
Para consolidar o argumento dos povoados de Chebaa como território ocupado que deveria ser libertado e impor novas regras de engajamento militar, em 7 de outubro de 2000, quatro meses após a retirada das Forças de Defesa de Israel, o Hezbollah realizou uma operação transfronteiriça no setor dos povoados, “capturando” três soldados israelenses, que na realidade já estavam mortos naquele momento. O ataque, marcado pelo uso de veículos com as cores da ONU pelo Hezbollah, desencadeou uma crise diplomática entre a Finul e Israel. Em janeiro de 2004, um acordo mediado pela Alemanha levou a uma troca de prisioneiros: o Hezbollah devolveu os corpos dos três soldados e libertou um refém civil; Israel, por sua vez, libertou 435 detidos e devolveu 59 corpos de combatentes da milícia xiita. (continua)
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