
Ancara emite um «mandado de prisão» contra Netanyahu, que chama Erdogan de «ditador antissemita»


A relação entre a Turquia e Israel está em frangalhos: três dias após o ataque aéreo israelense contra uma base abandonada no noroeste da Síria — que Israel suspeita que Ancara pretende utilizar —, duas novas ofensivas, desta vez verbais, aceleraram a deterioração das relações entre as duas potências do Mediterrâneo Oriental.
O gabinete do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu qualificou o presidente turco Recep Tayyip Erdogan de «ditador antissemita» na sexta-feira, afirmando que Israel agiria contra «as tentativas da Turquia de desestabilizar a região».
«Não toleraremos um enraizamento militar turco que avance para o sul, pois isso nos ameaça», declarou Netanyahu na quarta-feira, enquanto a Turquia nega qualquer presença no local sírio bombardeado.
«Faz muito tempo que Israel deixou de se impressionar com a hipocrisia da Turquia. Erdogan é um ditador antissemita que massacrou os curdos, apoiou o massacre cometido pela organização terrorista Hamas e oprimiu o seu próprio povo», destacou o gabinete de Netanyahu em comunicado.
Em outro comunicado divulgado na sexta-feira, o gabinete de Netanyahu acusou o presidente turco de tentar «estender sua agressão contra Israel até a Síria».
Ancara avisou na quinta-feira que continuará a proteger «resolutamente» a integridade e a soberania da Síria.
Por outro lado, a presidência turca fez questão de esclarecer que não pretende retaliar e que Ancara não cairá «na armadilha» tendida pelo primeiro-ministro israelense.
Mas a Turquia foi mais longe na sexta-feira ao emitir um «mandado de prisão» internacional contra o primeiro-ministro israelense, no âmbito de uma investigação sobre a interceção brutal e humilhante da «Flotilha para Gaza» e a detenção dos ativistas que se encontravam a bordo.
Alertas vermelhos
O ministro turco da Justiça declarou querer «emitir alertas vermelhos para a prisão internacional» de Netanyahu por «crimes contra a humanidade, genocídio, privação agravada de liberdade, ofensas corporais dolosas, tortura, destruição de bens, pilhagem agravada e desvio de veículos de transporte», conforme especificou o ministério.
Os cerca de 430 membros da tripulação dos aproximadamente cinquenta navios abordados pelo exército israelense no Mediterrâneo, a oeste do Chipre, foram levados à força para Israel, detidos e posteriormente expulsos em maio.
O ministro israelense da Segurança Nacional (de extrema-direita), Itamar Ben Gvir, partilhou imagens mostrando dezenas de participantes da flotilha ajoelhados, com as mãos atadas. Foram forçados a andar de quatro e obrigados a dizer «Viva Israel» diante das câmeras, enquanto os alto-falantes tocavam o hino nacional israelense.
A divulgação do vídeo gerou uma onda de protestos diplomáticos internacionais e provocou a condenação de vários governos estrangeiros, além de críticas dentro do próprio governo israelense.
Outrora aliada fiel do Estado hebreu, a Turquia tornou-se um dos principais adversários de Israel desde a chegada ao poder do partido islamo-conservador de Recep Tayyip Erdogan. Para além da animosidade pessoal entre os dois líderes, Erdogan posiciona-se simultaneamente como protetor da nova administração sunita síria e como porta-estandarte do islão face ao inimigo sionista.
Recentemente, o presidente turco anunciou a participação do seu país na «Aliança de Meca», um pacto de defesa mútua entre a Turquia, a Arábia Saudita e o Paquistão.
Pezeshkian quer «uma saída com dignidade»
Na frente iraniana, o presidente Massoud Pezeshkian afirmou na sexta-feira que é chegada a hora de pôr fim à guerra com os Estados Unidos, considerando que Teerã se encontra «numa posição de força e com dignidade» perante Washington, que pretende impor uma nova «guerra econômica».
«O mundo inteiro reconhece a nossa vitória e destaca que os Estados Unidos atacaram as nossas escolas, os nossos hospitais e as nossas infraestruturas, violando todas as regras», acrescentou. «São odiados em todo o mundo.»
O presidente iraniano também defendeu a celebração, em junho, de um memorando de entendimento com os Estados Unidos com o objetivo de encontrar uma saída para o conflito, criticando aqueles que querem ver nisso um sinal de fraqueza iraniana. «Não encontrarão uma única cláusula neste acordo que indique uma capitulação; todos os compromissos dizem respeito à outra parte», garantiu.
As declarações de Pezeshkian, que ocupa teoricamente o cargo mais elevado dentro da estrutura oficial do Estado, surgem na sequência de vários outros indícios que revelam a luta pelo poder que o opõe ao campo «duro» do regime, encarnado pelo Guia Supremo, Mojtaba Khamenei, que comanda o exército ideológico dos Guardas da Revolução. Khamenei tinha deixado transparecer reservas em relação ao acordo. «Tinha uma opinião diferente, mas dei a minha autorização», declarara.