

Uma opinião amplamente difundida no Líbano sustenta que o desacordo dos libaneses com o Hezbollah está ligado à sua doutrina e à sua adesão à wilayat al-faqih, tal como foi teorizada por Khomeini. Mas a questão merece ser formulada de outra maneira: o problema está realmente na própria doutrina, independentemente de compartilhá-la ou rejeitá-la, ou na imposição dessa doutrina e das práticas que dela derivam a toda a sociedade e ao Estado?
Não temos qualquer direito de contestar aquilo em que os outros acreditam, nem de colocar em dúvida o direito pleno que têm de abraçar as ideias e convicções de sua escolha, sejam elas quais forem. Todo indivíduo, toda comunidade, pode construir livremente sua própria visão de mundo, seja ela religiosa ou política. Essa é uma dimensão da liberdade de consciência, liberdade consagrada pela Constituição libanesa e que, em seu próprio princípio, não deveria ser objeto de discussão.
Cada pessoa, indivíduo ou coletividade, é livre para perceber o mundo à sua maneira e construir sua própria arquitetura intelectual e espiritual sem tutela de qualquer tipo. Mas aquilo que se torna motivo de objeção, rejeição e até de profunda inquietação é o momento em que a doutrina deixa de ser uma escolha livremente assumida, pessoal ou coletiva, para se transformar em uma força que impõe sua lei aos outros e em um projeto que busca conduzir uma sociedade inteira por caminhos que ela não escolheu. A dificuldade se agrava quando a doutrina se converte em uma autoridade superior à do Estado ou em um instrumento destinado a impor suas escolhas a uma sociedade plural e diversa, pois, nesse momento, já não estamos mais no campo da “crença”, mas no da coerção. A objeção, portanto, não diz respeito a “no que você acredita”, mas a “como e por que você pretende vincular os outros a essas crenças”.
Nesse ponto, já não se trata de uma divergência de opiniões ou de uma diversidade de convicções, mas de um perigoso deslizamento do espaço da liberdade para o do autoritarismo e da dominação. Se considero princípio que as crenças dos outros não me dizem respeito, o mesmo não ocorre quando essas crenças se tornam pretexto para me arrastar para uma guerra, modificar meu modo de vida ou impor uma realidade política contra minha vontade. Essa posição não decorre de qualquer hostilidade contra uma comunidade ou corrente de pensamento específica: ela é uma defesa do pluralismo, do direito à diferença e do respeito aos limites de toda autoridade.
O problema, portanto, não está em “aquilo em que acreditamos”, mas em “como traduzimos essa crença na prática”. Porque quando a convicção se torna pretexto para impor decisões cruciais a uma sociedade plural, monopolizar as armas e utilizá-las como instrumento de ameaça, e depois decidir soberanamente questões de guerra e paz fora do marco do Estado e de suas instituições, então os limites da liberdade foram ultrapassados para entrar na lógica do despotismo e da dominação. Isso se manifestou recentemente nas declarações de alguns dirigentes e apoiadores do Hezbollah, afirmando que suas armas permanecerão até a chegada do Mahdi. Nesse estágio, ultrapassam-se os limites da razão e se roça o delírio coletivo.
Em uma sociedade como a do Líbano, fundada por natureza no pluralismo e em um equilíbrio delicado, qualquer tentativa de impor um modelo único, seja ele ideológico ou religioso, só pode gerar um profundo desequilíbrio, não porque esse modelo seja necessariamente equivocado em si mesmo, mas porque é imposto fora de qualquer consenso e em violação das regras de convivência.
Torna-se então necessário recolocar as coisas em seu devido lugar: defender a liberdade de crença não significa aceitar que ela seja imposta aos outros, e o pluralismo de modo algum implica que um grupo se erga como tutor das escolhas de todos.
O que precisamos hoje não é de um debate doutrinário que apenas aprofundaria as divisões enquanto ignora o essencial, mas de um acordo claro sobre os limites da prática: a liberdade do indivíduo ou do grupo termina onde começa a dos outros, e nenhuma ideia, seja qual for, pode legitimamente se transformar em uma autoridade que se imponha à sociedade e ao Estado.
Essa problemática, no entanto, não pode ser plenamente compreendida se nos limitarmos apenas ao nível dos comportamentos ou das decisões políticas aparentes da corrente ligada ao Hezbollah. É aqui que aparece toda a importância da abordagem desenvolvida por Waddah Charara, que não observou o fenômeno como um simples conjunto de práticas, mas como uma estrutura coerente que produz um modo particular de engajamento, disciplina e lealdade. Em L'État du Hezbollah, o Partido se revela como um espaço que ultrapassa a organização política para constituir uma “sociedade dentro da sociedade”, dotada de sua própria lógica para definir legitimidade, pertencimento e dever.
Sob essa perspectiva, o engajamento dos indivíduos pertencentes a essa corrente, ou sua conformidade com suas injunções, deixa de ser uma simples escolha pessoal para se tornar parte integrante de um espírito coletivo que remodela sua percepção do mundo e de seu lugar nele. Esse espírito coletivo não se baseia apenas na convicção, mas em um sistema simbólico e de significados de grande profundidade, articulado em torno do martírio, do sacrifício, do sagrado e do pertencimento a uma causa que transcende as fronteiras nacionais. É precisamente aí que reside a dificuldade do debate, pois já não estamos diante de uma simples decisão política suscetível de ser discutida e contestada, mas diante de uma estrutura mental e ética de notável coesão.
Mas, mesmo compreendendo essa estrutura, a questão fundamental permanece: essa coesão interna justifica que ela seja convertida em uma força que se impõe externamente? E um espírito coletivo, por mais coerente e convencido de si mesmo que seja, pode pretender reduzir uma sociedade diversa às suas próprias categorias e impor-lhe sua trajetória?
O verdadeiro desafio, portanto, não consiste em desconstruir a crença em si mesma nem em se engajar em uma controvérsia doutrinária que correria o risco de ser estéril, mas em traçar a fronteira entre o domínio em que esse espírito coletivo tem o direito de viver e se expressar livremente e aquele que não pode ultrapassar quando se trata do destino de uma sociedade inteira.
Nesse sentido, o debate mais rigoroso revela-se não como um confronto entre crenças, mas como uma luta pelos limites da autoridade e pela definição de quem detém o direito de decidir o destino comum. E aí, compreender o fenômeno já não basta: é preciso reafirmar um princípio simples e decisivo, segundo o qual nenhuma força é legítima quando pretende se elevar acima da sociedade à qual supostamente pertence, e nenhuma ideia pode se transformar em uma fatalidade imposta aos outros.