


Podemos ter com a Síria relações serenas, equilibradas e marcadas pelo respeito mútuo?
É difícil acreditar nisso quando as nossas relações sempre foram pautadas pela hostilidade, a desconfiança e ameaças concretizadas. Ao longo da nossa história comum, nenhuma humilhação nos foi poupada, independentemente do regime no poder em Damasco.
Tomemos como exemplo o que viveu o nosso pequeno país a partir de agosto de 1948, quando Khaled al-Azem*, presidente do conselho de ministros sírio, decidiu instaurar o "controlo das importações e o embargo com destino ao Líbano".
A imagem desse estadista, na memória coletiva da geração dos nossos pais, ficou associada ao encerramento da fronteira sírio-libanesa, decisão motivada por razões políticas e protecionistas.
Era sufocar-nos economicamente e impor-nos os seus ditames. Já nessa época, o Líbano era o bode expiatório das autoridades de Damasco, e isso muito antes de Abdel Hamid Khaddam o usar como alvo das suas investidas!
Os meios damascenos nunca aceitaram de bom grado a exceção libanesa, mesmo que por vezes tenham feito das tripas coração. Os nossos vizinhos, e não obstante irmãos sírios, têm em relação ao Líbano aquilo a que se chama "mixed feelings", um cocktail de admiração e ressentimento. Uma ambivalência que irá continuar a envenenar, repetidamente, os laços tecidos entre nós pela proximidade!
O nosso país, por sua vez, nem sempre foi irrepreensível! A partir do seu território, mais ou menos santuarizado, tramavam-se conspirações contra os regimes no poder na capital dos Omíadas, fossem esses regimes legítimos ou fruto de golpes militares!
Isso levou alguns observadores a concluir que as culpas eram partilhadas!
O peso da história e as limitações da geografia
Vítimas de preconceitos acumulados ao longo de anos, poderíamos ter relações apaziguadas com Damasco? Ghassan Tuéni, que no seu tempo havia flertado com a ideia de uma Grande Síria e dela se afastara, chegou a uma fórmula de compromisso. Segundo ele, se o Líbano não devia ser governado contra a Síria, também não devia ser governado pela Síria!
Assim, quando os responsáveis sírios nos tranquilizam quanto às suas intenções, podemos congratular-nos com isso. No entanto, seria um erro ignorar certas realidades, nomeadamente que a geografia, tanto física como humana, encurralou a Síria e o Líbano numa situação complicada, até mesmo inextricável. Historicamente, não é possível consolidar um poder em Damasco sem que este cobiçe Beirute e queira domesticar a cidade vibrante de atividades económicas e culturais.
O que nos leva a desejar que a Síria se reconcilie com a ideia de que o Líbano não é apenas uma parcela de território que lhe foi arrancada em 1920 pela vontade do general francês Henri Gouraud.
E mesmo que assim tivesse sido, um século se passou desde então, muita água correu sob as pontes e dificilmente se encontrarão libaneses que reclamassem, caso fosse o caso, um Anschluss com o interior sírio.
Não basta já partilharmos a mesma cama?
Desde março de 1950, o "divórcio económico" entre a Síria e nós havia sido declarado. A título de sanção, Damasco instaurou um bloqueio na fronteira. O Líbano recusou a integração económica que lhe era proposta, pois o protecionismo não era compatível com a sua opção ultraliberal. A partir daí, passámos a pertencer a duas ordens de gestão opostas: o socialismo à moda nasseriana e depois baathista, e as vagas de nacionalizações dos anos sessenta aprofundaram a fratura entre os dois países. Deixámos de poder restabelecer as "masalih mushtaraka" (Interesses Comuns), esse legado do Mandato francês.
Isso talvez explique as apreensões de Fares Souaid, que questionou recentemente para que serviria a criação de uma Alta Comissão Mista líbano-síria, uma vez que as nossas relações diplomáticas já são asseguradas por um intercâmbio de embaixadores. Isso não faria mais do que nos remeter ao estabelecimento do Conselho Superior das Relações Líbano-Sírias, ou seja, aos tempos sombrios da sujeição do Líbano ao poder triunfante de Hafez al-Assad.
Se é para fazer tábua rasa do passado e abrir uma nova página com a grande vizinha, seria um contrassenso introduzir o lobo no aprisco sob o pretexto de uma comissão mista, seja ela econômica ou de outra natureza.
*Vale lembrar que esse mesmo Khaled al-Azem ficou muito satisfeito em se subtrair ao regime dos militares que haviam tomado o poder em Damasco e que, refugiado em Beirute, exaltava em suas Memórias a liberdade de que gozavam os libaneses e da qual ele, o fugitivo, podia usufruir. Ele não foi o único dos proscritos sírios que, em seu tempo, haviam criado problemas para o nosso país e para a sua "insuportável independência" e que, no fim das contas, acabaram por se instalar nele; penso em Choukri al-Kouatli, em Ghassan Jadid, em Akram Hourani, em Muhammad Umran, e muitos outros!