
Memórias ou relato do poder?
Minha relação com a literatura memorialística geralmente foi pouco satisfatória, e isso vale particularmente para o primeiro volume das memórias do ex-ministro das Relações Exteriores da Síria, Farouk el-Chareh, intitulado A Narrativa Perdida (Centro Árabe de Pesquisas e Estudos Políticos, 2015). Desde sua abertura poética, subjetiva e impressionista, o livro parece prometer ao leitor um texto de reflexão pessoal, antes de conduzi-lo à leitura de uma história política escrita com total parcialidade em favor do regime dos Assad e da figura do presidente sírio Hafez el-Assad.
Assad entre a mitologia política e a fabricação da imagem
Nas páginas de Chareh, Hafez el-Assad aparece como um herói superpoderoso, um “Frankenstein de Damasco”: um homem capaz de desligar o telefone na cara do presidente americano Ronald Reagan, de impor ao secretário de Estado James Baker a transferência da conferência de paz de Amsterdã para Madri, enquanto o próprio Chareh se apresenta como o mais próximo e favorito do líder sírio, em detrimento do ex-vice-presidente sírio Abdel Halim Khaddam. Essa construção narrativa não oferece nenhuma leitura crítica do poder; limita-se a reproduzir a versão oficial.
Os grandes ausentes: eventos decisivos fora do texto
Grandes sequências históricas, decisivas para a história síria e libanesa, estão completamente ausentes das memórias, entre elas:
· o desaparecimento do imã Moussa Sadr e de seus dois companheiros;
· os acontecimentos de Hama em 1982;
· o assassinato do líder libanês Kamal Joumblatt;
· a política de “ruralização da cidade” por meio do inchaço burocrático do setor público, fenômeno analisado em detalhe pelo acadêmico Ziad Majed em sua obra Síria, a revolução órfã.
Essas omissões dificilmente parecem simples esquecimentos; revelam, antes, uma escolha deliberada de silenciar os episódios mais problemáticos.
O ministro obediente em vez do homem de experiência
Nessas páginas, Chareh não se atribui outro papel além do de “ministro obediente” ao presidente: um ministro que executa as transações políticas de Assad, mostra-se conciliador com Yasser Arafat e atua como negociador diante de Saddam Hussein, sem jamais construir uma narrativa pessoal autônoma nem submeter sua própria trajetória política a qualquer forma de exame interior.
Folhas políticas mais do que memórias
O que Chareh escreveu se aproxima mais de um dossiê político circunstanciado do que de memórias no sentido literário ou humano do termo. Aqui, é inevitável lembrar o que fez o ex-presidente libanês Amine Gemayel ao expor suas posições em uma obra documental, sem, no entanto, oferecer ao leitor a encenação da experiência vivida.
Um confronto com as tradições da memória política
Ao contrário das memórias de grandes figuras políticas mundiais, como Henry Kissinger, que combinam o documento com a construção da experiência interior, Chareh pratica deliberadamente o salto sobre os acontecimentos e o desvio narrativo, produzindo, ao final, uma história política subjetiva mais do que uma biografia viva de seu autor.
Para concluir: por que a “narrativa” continua perdida?
Em suma, A Narrativa Perdida se parece menos com memórias do que com uma defesa política tardia de uma época e de um regime. O primeiro volume merece plenamente seu título: uma narrativa efetivamente perdida, e que provavelmente continuará assim, o que pouco incentiva a continuar a leitura do segundo tomo enquanto prevalecer a mesma abordagem, aquela que consiste em ocultar as questões difíceis em vez de enfrentá-las.