


É preciso dizê-lo claramente: uma das cegueiras recorrentes das democracias ocidentais reside na sua relação com o tempo.
O tempo democrático — o da alternância, da urgência eleitoral, dos mandatos limitados e da necessidade permanente de produzir resultados visíveis num horizonte curto — é um tempo fragmentado, entrecortado, estilhaçado… e, por isso mesmo, frágil. Por natureza, é impaciente, constantemente à procura de saídas, compromissos e estabilizações provisórias. Acredita, numa concepção teleológica e quase gnóstica da História, que esta pode ser desviada pela boa vontade, pela negociação e por uma racionalidade partilhada. Que avança inevitavelmente no sentido certo.
O tempo totalitário, por sua vez, nunca toca a mesma partitura. Não tem pressa, não é linear nem está sujeito à prova do sufrágio. Pelo contrário, está liberto de todas essas restrições que considera fúteis. É um tempo longo, obsessivo, telúrico. Um tempo dedicado à conservação do poder a qualquer preço.
O regime iraniano é uma das suas encarnações mais acabadas. Vive fora do calendário democrático, a léguas da sanção popular, e até fora da temporalidade moral ordinária. Pode esperar, recuar, fingir e protelar indefinidamente. Sabe que o essencial não é convencer, mas durar. Por todos os meios.
É esta assimetria que as hesitações actuais da administração Trump face a Teerão voltam a revelar, apesar de si próprias. Não que Trump deva “atacar” o Irão, nem procurar um confronto militar directo. Isso seria oferecer ao regime dos aiatolás aquilo que sempre esperou: a postura de vítima, a mobilização nacionalista e a sacralização do poder através do inimigo externo. O “Grande Satã” sempre foi um álibi conveniente. Seria também prosseguir na lógica do bullying internacional e abrir a caixa de Pandora, arriscando uma escalada generalizada. Esse tipo de força nunca resolveu nada a longo prazo.
O perigo está noutro lugar. Na ilusão de que um regime fundado na duplicidade, na repressão estrutural e na exportação ideológica da violência possa transformar-se através do diálogo, da integração progressiva ou da promessa de reconhecimento internacional. Desde pelo menos 2008, e de forma ainda mais evidente após a repressão sangrenta das últimas semanas, tornou-se claro que este regime só negocia para ganhar tempo. Tempo para reconstituir as suas forças. Tempo para prosseguir os seus programas nuclear e balístico. Tempo para continuar a financiar, armar e instrumentalizar milícias numa lógica imperial que nunca mudou.
O tempo obscuro e imóvel do despotismo é o seu aliado; o tempo democrático, a sua presa.
Aqui, toda a ambiguidade moral deve ser dissipada. Tal como Benjamin Netanyahu terá de responder, mais cedo ou mais tarde, pelos crimes cometidos em Gaza, o directório iraniano deve ser responsabilizado pela repressão metódica, contínua e massiva infligida ao seu próprio povo. Não se trata de uma comparação fácil ou preguiçosa, mas de um princípio: nenhum regime pode eximir-se indefinidamente ao direito e à justiça invocando a soberania ou a complexidade geopolítica. Mesmo num mundo desorganizado, reduzido a esferas de influência abandonadas a megalómanos de toda a espécie, renunciar a este princípio é legitimar definitivamente o caos como pilar fundador da ordem internacional. Mesmo num mundo marcado por uma regressão geral para formas pré- ou antidemocráticas, indiferentes ao tempo do direito internacional e às suas exigências.
O regime dos aiatolás está fora do tempo em todos os sentidos. Fora do tempo democrático, que despreza; fora do tempo moral, que esmaga; fora do próprio tempo histórico, pois o seu projecto assenta numa teologia política rígida, monolítica e esclerosada, incapaz de produzir outra coisa que não seja violência e morte para se manter.
Exigir algo que não seja a sua saída e a dissolução do seu aparelho repressivo e militar em todas as suas ramificações constituiria um erro estratégico grave, quando não um acto de cumplicidade. A experiência demonstrou-o de forma cruel com o acordo de 2015 sob Barack Obama: a ideia de um regresso do Irão à comunidade internacional sob este mesmo regime — promovida por uma elite iraniana sediada em Washington, crédula até à má-fé — não foi apenas uma ilusão, mas, pior ainda, uma utopia destrutiva. Reforçou os sectores duros, enfraqueceu as forças internas de transformação e forneceu ao regime os meios financeiros e políticos para prosseguir a sua empresa imperial. Quanto sangue foi derramado ao longo de uma década por causa destas utopias ingénuas, persistentemente alimentadas por alguns mitómanos ou cínicos desprovidos de qualquer moralidade!
Mais grave ainda, tal negociação constituiria uma falha moral profunda. Uma traição silenciosa a todo o sangue derramado; àqueles que, há anos, saem às ruas do Irão sabendo que o preço da sua coragem pode ser a morte, a tortura ou o apagamento puro e simples. Uma falha que recairá inevitavelmente sobre aqueles, nos Estados Unidos ou na Europa, que ainda afirmam defender valores humanistas e democráticos, mas que tantas vezes desviaram o olhar no passado perante o sofrimento dos povos subjugados.
Se um regime já não é capaz de governar o seu povo senão esmagando-o, então não possui qualquer legitimidade. Por que razão reinjectá-la? Em nome do realismo? Ao manejar desta forma a cenoura e o pau, sem referências fixas — neste caso, a primazia da vida humana e a liberdade dos povos — Trump envia mais uma mensagem paradoxal sobre o poder americano: a de uma não-potência cujas intervenções oscilam, sem valores, entre a força bruta (o sequestro de Maduro, a gestão do caso da Gronelândia), o silêncio cúmplice (Gaza), a tibieza (Ucrânia) e, agora, o compromisso pantanoso (Irão).
É certo, e esta é uma falha estrutural do sistema internacional pós-1945, que a “máquina” das Nações Unidas está mais do que nunca confinada ao papel de espectadora estupefacta perante conflitos e massacres, indefinidamente bloqueada pelos interesses rivais das potências. O famoso “dever de ingerência” de Bernard Kouchner, supostamente destinado a operacionalizá-lo? Segundo que normas, que mecanismos, que instrumentos? Mistério. O unilateralismo americano, com os seus dois pesos e duas medidas e agendas parciais? O multilateralismo europeu, que esperou até 2026 para incluir timidamente os Guardas da Revolução nas listas de sanções? A própria pergunta é fonte de profunda confusão… e de ainda mais caos.
Ainda assim, e para permanecermos no plano do concreto, a única “discussão” possível, a única à altura da realidade, deveria incidir sobre a saída de Khamenei e do seu vasto aparelho repressivo, mortífero e martirólatra, bem como sobre a abolição do vilayat-e faqih, matriz ideológica e institucional deste totalitarismo.
A dignidade das vítimas das últimas semanas não exige menos do que isso.
Tudo o que fique aquém não será senão mais um episódio do mesmo ciclo de cegueira, uma repetição da história sob o disfarce do realismo.
Pior ainda, será a oportunidade para os aiatolás e os seus satélites regionais obterem uma nova vitória delirante à Pirro… à custa dos seus próprios concidadãos, como de costume.
Trump e companhia fariam bem em lembrar-se disso.
O tempo que o Irão finge pedir nunca é um tempo de reforma; é sempre um tempo de predação, sempre o de uma bomba-relógio.
De Riade a Washington, é legítimo perguntar se os estrategas cínicos conhecem a história do Capuchinho Vermelho e a sua fascinação fatal pelos diálogos com lobos disfarçados de avós.
E se alguma vez ouviram o refrão terrível da canção-testamento de Leonard Cohen, You Want It Darker:
Um milhão de velas a arder pela ajuda que nunca chegou / Queres mais escuridão; nós apagamos a chama.