
EPISÓDIO 2 — Venezuela: um “narco-Estado”?

Bem-vindos a Trovões no Caribe, uma série do Levant Time em cinco episódios curtos para entender, junto com vocês, as diferentes razões do atual intervencionismo dos Estados Unidos no Caribe.
Esta série foi concluída 48 horas antes do ataque americano à Venezuela.
Marco Rubio, Secretário de Estado dos Estados Unidos, Quito, Equador, 5 de setembro de 2025:
“Nicolás Maduro é um narcotraficante acusado nos Estados Unidos e foragido da justiça americana.”
Essa acusação, repetida insistentemente por Washington há vários anos, é atualmente a principal justificativa de Donald Trump para as operações conduzidas no mar do Caribe. O presidente venezuelano Nicolás Maduro também está sob sanções de Washington, acusado, em especial, de chefiar uma organização recentemente classificada como terrorista pelos Estados Unidos: o Cartel dos Sóis.
Um nome que pode evocar, no imaginário coletivo, a mesma realidade de outras organizações, como o Cartel de Medellín, liderado por Pablo Escobar nas décadas de 1980 e 1990 na Colômbia, ou o Cartel de Sinaloa e o Cartel Jalisco Nueva Generación no México. No entanto, o caráter estruturado e hierárquico do Cartel dos Sóis nunca foi comprovado. Trata-se sobretudo de uma expressão jornalística surgida no início da década de 1990 para designar o sistema de corrupção e clientelismo endêmico na Venezuela, que se fortaleceu sob a República Bolivariana a partir de 1999.
Vale lembrar que a Venezuela é governada desde 1999 por um governo oriundo do movimento chavista fundado por Hugo Chávez, que se reivindica socialista e nacionalizou alguns setores estratégicos, como o petróleo. Desde a chegada de Nicolás Maduro ao poder, em 2013, o regime mantém essa linha ideológica enquanto enfrenta uma grave crise econômica, política e social, agravada por sanções internacionais e tensões internas.
Mas voltemos às acusações de narcotráfico contra a Venezuela, rotulada de narco-Estado pelos Estados Unidos:
Desde setembro de 2025, os Estados Unidos conduzem uma campanha militar no Caribe e no Pacífico contra embarcações classificadas como “narco-lanchas”, com pelo menos 30 barcos atacados e mais de 100 pessoas mortas, incluindo ao menos um caso de ataque duplo para matar sobreviventes. Washington afirma que se trata de navios ligados ao tráfico de drogas, mas nenhuma prova pública foi apresentada para confirmar essas acusações: nem coordenadas de geolocalização nem listas com os nomes das vítimas.
Especialistas em direito internacional e alguns representantes americanos denunciam essas operações como possíveis execuções extrajudiciais, apontando a falta de transparência e a possível violação do direito internacional, enquanto alguns governos aliados expressaram preocupação com a ausência de provas concretas.
A classificação da Venezuela como narco-Estado é, por si só, problemática: dados internacionais relativizam fortemente essa narrativa. Segundo o Relatório Mundial sobre Drogas da ONU, a Venezuela não figura como um produtor significativo de cocaína em escala global, ao contrário da Colômbia, que concentra a maior parte da produção e do tráfico mundial. A acusação de “narco-Estado” baseia-se sobretudo em alegações de uso do território venezuelano como rota de trânsito, mas esse corredor representaria menos de 5% dos fluxos totais de cocaína em direção aos Estados Unidos, segundo as mesmas fontes da ONU.
Analistas independentes destacam que a maioria das cargas destinadas aos Estados Unidos passa primeiro pela Colômbia e depois pelo México, e que a rota do Pacífico é, de fato, a mais utilizada — algo que relatórios internacionais confirmam há anos.