

Nestes tempos em que amplas franjas da sociedade libanesa mergulham nos escolhos odiosos da clivagem amigo-inimigo, nunca foi tão necessário reler Michel Seurat. O Estado de barbárie — a sua coletânea póstuma de artigos dedicados à desconstrução da Síria assadiana — permanece o referencial analítico mais rigoroso para quem queira compreender a estrutura profunda do político árabe, o libanês incluído.
Retomando Ibn Khaldun — recolocado aqui numa tradição deleuziana —, Seurat evoca o Estado-zaamat (o Estado dos chefes) e o Estado-jamaat (o Estado das comunidades) como construções intrínsecas ao modelo estato-nacional sírio.
Nos antípodas, porém, do modelo tirânico de Assad, o Líbano é também a sobreposição de ambos: o Estado das chefaturas e o Estado dos corpos comunitários, organizados contudo em entidades autónomas e rivais — o que o torna simultaneamente… demasiado Estado e Estado aquém do necessário…
«O Estado-douweylat»
A isso é preciso acrescentar uma terceira camada herdada da Questão do Oriente e do sistema dos millet e das capitulações: o oxímoro absurdo do Estado-douweylat — o Estado dos micro-Estados com ramificações internacionais, estruturas paraestatais que só reconhecem no Estado central aquilo que ele lhes pode oferecer, contestando-lhe entretanto o monopólio da violência legítima, que é, desde Max Weber, um dos elementos da própria definição do Estado.
E é aí que a luta se trava. O Líbano é o território do diálogo sob constrangimento — como em Genebra, Lausana, Taif, Doha — que só produz «acordo» sob a pressão do colapso ou da tutela estrangeira, e que recai na desconfiança assim que esse constrangimento se afrouxa, como testemunha o fracasso da conferência de diálogo nacional de 2006, menos de um ano após a retirada síria.
É também o terreno da rivalidade mimética pelo poder enquanto sinal de superioridade comunitária, e da consciência de casta das chefaturas perante qualquer questionamento. As revoluções só aí acontecem na violência e no interior de cada comunidade, separadamente — quando acontecem. Os levantamentos populares conseguem coligar-se contra um opressor estrangeiro comum, mas debatem-se depois para produzir um contrato político, porque a multiplicação das lealdades e a persistência das legitimidades residuais impedem qualquer centralização duradoura.
A guerra contra Weber
A modernidade política assenta em princípio sobre uma proposição weberiana simples e revolucionária que o Líbano nunca verdadeiramente atravessou. Produziu Constituições, instituições, ministérios e embaixadas, mantendo porém sob a superfície — num estado de preservação quase orgânica — legitimidades residuais pré-estatais: chefaturas carismáticas, feudalidades históricas, milícias, que reivindicaram e obtiveram uma existência paralela à legitimidade constitucional. A reivindicação de uma política dos campos e das montanhas contra a urbanização, do particularismo contra a construção estato-nacional, antecipou em meio século o movimento identitário mundial que hoje presenciamos — conferindo ao seu destino um alcance que o ultrapassa.
Enquanto o Estado não for investido por uma comunidade através do seu partido-força, permanece um objeto de desconfiança. A rivalidade pelo poder obedece a uma mecânica mimética: cobiça-se porque o outro o detém, e torna-se por isso muito mais um sinal de superioridade comunitária do que um programa de governação… A hainamoration lacaniana em todo o seu esplendor…
14 de março de 2005, ou o aborto real
Houve, porém, um instante singular na história contemporânea do Líbano… 14 de março de 2005. Uma sobreposição do novo e do velho, do moderno e do arcaico, de um impulso soberanista autêntico e dos aparelhos comunitários que, ameaçados pelo emergir de uma dinâmica cidadã transversal, se empenharam imediatamente em recuperá-lo para o esvaziar de qualquer substância reformista e recomunitarizá-lo. Um milhão e meio de pessoas nas ruas de Beirute, movidas por uma exigência de soberania, que não respondiam a uma convocatória de zaim mas a algo mais estranho e mais frágil — era ao mesmo tempo fascinante e inquietante. Os zaamats tinham recuado, e o movimento funcionava em piloto automático — ou quase, dado que era conduzido essencialmente por intelectuais, quadros da sociedade civil e estudantes. Quanto à jamaat, transbordava o seu próprio enquadramento. Por um momento, a aspiração a uma legitimidade racional e nacional atravessara as comunidades em vez de nelas se fechar. Só o Hezbollah, fiel a Assad e muito satisfeito por herdar o seu legado, se colocara abertamente em confrontação com o movimento. Via nele também, na construção estato-nacional que se tornara possível, uma ameaça para as suas armas e a sua hegemonia sobre a sua comunidade.
O instante foi assim rapidamente sufocado pelos seus próprios portadores. A incapacidade do 14 de Março em decidir entre a sua passagem para o Estado e a existência de ilhas no Estado prende-se com a própria natureza do movimento — simultaneamente desejo de um Estado soberano, convertido depois numa reunião de comunidades que não queriam o Estado do outro.
Embora real e exaltante, a graça — a da última oportunidade? — foi breve. Fugaz. Um sonho.
E é sobre as ruínas dessa singular aventura — desconstruída tanto pelos golpes de aríete do eixo Assad-Hezbollah como pelos pequenos jogos de poder dos seus próprios líderes — que se desenrola agora a tragédia actual do Líbano.