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O Novo Mundo

Por que a Jordânia confia no futuro?

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Por Khairallah Khairallah
Publicado mai 31, 2026 - 02:37

O discurso que o rei Abdullah II dirigiu aos jordanianos por ocasião do octogésimo aniversário da independência foi, acima de tudo, uma expressão de confiança no futuro e na capacidade de enfrentar os desafios de uma região que, para dizer o mínimo, está à deriva em meio a ventos turbulentos.

Mais importante do que qualquer outra coisa, o soberano jordaniano traçou a imagem do futuro ao qual a Jordânia aspira como Estado moderno: um país que dispõe de poucos recursos naturais, mas que conseguiu desenvolver sua própria riqueza distintiva, a riqueza do ser humano.

O discurso de Abdullah II foi breve, mas trouxe coragem suficiente para afirmar que a Jordânia pratica de fato a tolerância em uma região marcada por contradições e extremismos de todas as partes. Não é algo comum que o monarca jordaniano fale sobre a natureza de seu país dirigindo-se tanto aos “filhos” quanto às “filhas” da Jordânia, declarando:

“A Jordânia jamais foi uma margem na narrativa da humanidade, mas sim uma pátria de povos e uma terra de harmonia. Às margens de seu rio, Cristo foi batizado; dentro de suas fronteiras viveram os Companheiros e os Seguidores. Civilizações floresceram em seu solo e ofereceram ao mundo lições de resiliência e firmeza, ensinando-nos a perseverar e a transformar dificuldades em oportunidades. O presente é a melhor prova disso. Apesar de todas as circunstâncias, a Jordânia preservou suas fronteiras e sua segurança, manteve seu caminho democrático e protegeu sua economia dos efeitos das crises.”

Entre as passagens mais significativas do discurso está a afirmação de Abdullah II: “Hoje celebramos não apenas o que alcançamos, mas também o destino e as capacidades que possuímos. O orgulho não é nosso objetivo; o que buscamos é consolidar nossa confiança nesta pátria.”

A Jordânia conhece a si mesma, conhece sua direção e conhece suas escolhas. Isso significa que o Reino compreende plenamente a natureza dos acontecimentos que se desenrolam na região e sabe como lidar com eles, apoiando-se em uma longa experiência nesse campo. Se os acontecimentos dos últimos oitenta anos demonstraram alguma coisa, é que a Jordânia é uma das constantes do Oriente Médio. A Síria mudou, o Iraque mudou, mas a Jordânia permaneceu o que é: um reino hachemita que não precisa receber lições de patriotismo de ninguém, incluindo as organizações palestinas que um dia acreditaram que “o caminho para Jerusalém passa por Amã”.

A Jordânia sempre enfrentou as transformações e turbulências iraquianas e sírias com uma combinação de flexibilidade e firmeza. Fez isso mesmo quando foi alvo de pressões em diversas ocasiões, especialmente durante o período da união entre Egito e Síria, entre 1958 e 1961, e durante a ascensão de Hafez al-Assad ao poder após 1970.

Naquele momento, o rei Hussein soube conter Assad pai, que buscava trazer a Jordânia para sua esfera de influência, assim como havia feito com o Líbano, e formar uma frente sob seu comando que se estenderia de Ácaba até Naqoura, no sul do Líbano.

Quanto aos países do Golfo, a relação da Jordânia com eles evoluiu consideravelmente. Desde o surgimento do regime da “República Islâmica” em 1979 e desde que esse regime travou guerra contra o Iraque entre 1980 e 1988, a Jordânia, que desde o início assumiu uma posição clara contra ele, tornou-se parte integrante da segurança do Golfo.

É importante destacar a referência à frase “às margens de seu rio, Cristo foi batizado”. Essa expressão confirma a importância histórica e civilizacional da Jordânia e demonstra até que ponto o trono hachemita assimilou esse significado e essa profundidade histórica de um país que surgiu da interação entre seus habitantes nativos, os jordanianos da margem oriental do rio Jordão, e os hachemitas. Isso remonta ao início da década de 1920, quando a entidade política era o Emirado da Transjordânia, que mais tarde se transformaria no Reino Hachemita da Jordânia, em 1946.

Ao longo de toda a sua história, a Jordânia preservou certos valores fundamentados no reconhecimento de todas as comunidades que compõem sua sociedade, sem distinção entre cidadãos por motivos religiosos ou de origem nacional. Isso explica a integração plena entre as tribos jordanianas, incluindo as tribos cristãs, e o trono hachemita, assim como entre o trono e os circassianos, drusos, chechenos e pessoas de origem levantina.

A interação entre todas essas comunidades acrescentou imunidade, força e estabilidade à Jordânia. Ela fortaleceu o papel positivo do país na causa palestina e sustentou a resistência palestina na Cisjordânia, transformando o Reino em uma linha de apoio vital que permite aos palestinos alcançar o mundo e retornar à Palestina por meio da Ponte Rei Hussein.

Abdullah II afirmou em diversas ocasiões que a questão não é tanto a tolerância, mas sim o reconhecimento do outro. Portanto, não é coincidência que a Jordânia detenha a custódia dos locais sagrados cristãos e islâmicos em Jerusalém. Existe um vínculo histórico entre os hachemitas e os lugares santos de Jerusalém, especialmente a Mesquita de Al-Aqsa.

Por fim, não se pode ignorar a relação entre a Jordânia e os palestinos. Essa relação transformou-se ao longo do tempo e, moldada por experiências sucessivas, tornou-se mais do que positiva. Em 1970, a Jordânia salvou os palestinos de si mesmos graças às suas instituições, sobretudo ao seu exército, e à profunda coesão entre a instituição monárquica e as tribos.

A Jordânia foi ainda mais longe ao fechar a porta para a direita israelense, que em determinado momento sonhou em transformar o país em uma “pátria alternativa”.

Hoje, os palestinos se tornaram um fator positivo nos assuntos internos e a serviço da estabilidade. Já não são apenas uma força econômica de peso dentro do Reino. A importância da Jordânia revelou-se a eles, especialmente depois que compreenderam o valor da estabilidade jordaniana e o significado de viver em um Estado com instituições sólidas, que rejeita todas as formas de extremismo e se afasta de slogans vazios sem efeito prático.

Tudo o que a Jordânia fez, incluindo a decisão de desvincular-se da Cisjordânia em 1988 e a assinatura do acordo de Wadi Araba com Israel em 1994, representa uma afirmação do compromisso com a futura criação de um Estado palestino independente.

O discurso de Abdullah II aos jordanianos foi uma mensagem vinda do coração. Foi uma expressão da capacidade de confiar em si mesmo e de continuar construindo um Estado forte, profundamente ligado à sua história e às suas raízes, e que, acima de tudo, sabe o que quer.

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