


O reconhecimento oficial da Somalilândia por Israel, anunciado na última sexta-feira por Benjamin Netanyahu, oferece uma nova perspectiva sobre a segurança do Mar Vermelho, a estabilidade do Corno de África e os equilíbrios geopolíticos globais. Embora o governo israelita pretenda explorar os resultados positivos da sua diplomacia, as opiniões divergem no Estado hebraico e em todo o mundo.

O território da Somalilândia, localizado no noroeste da Somália, estende-se por 175.000 km² e é habitado por cerca de cinco milhões de pessoas. Corresponde à antiga colónia da Somália Britânica, enquanto a Itália ocupava o resto do país.
O território declarou a sua independência em 1991, enquanto a República da Somália mergulhava no caos após a queda do regime militar do autocrata Siad Barre.
A Somalilândia controla uma faixa costeira estratégica no Golfo de Áden, nas imediações do Estreito de Bab el-Mandeb, uma passagem crucial que liga o Oceano Índico ao Mar Vermelho e ao Canal de Suez. Cerca de 10% do comércio marítimo global transita por esta zona.
Ponto estratégico importante
Há vários anos, esta rota tem sido fragilizada pelos ataques dos Houthis iemenitas, apoiados pelo Irão, contra navios comerciais, num contexto de conflito regional alargado desde a guerra de Gaza.

Para os defensores do reconhecimento, este fator geográfico é central. Israel, envolvido em várias frentes de segurança, vê na Somalilândia uma plataforma potencial de cooperação em inteligência, vigilância marítima e combate a ameaças assimétricas, nomeadamente drones e mísseis. A cerca de 300 a 500 km das zonas controladas pelos Houthis, o território ofereceria uma profundidade estratégica semelhante à que Israel desenvolveu com o Azerbaijão face ao Irão.
Uma análise do Atlantic Council revelou que o tráfego em Bab el-Mandeb caiu durante a crise israelo-palestiniana, e o Fundo Monetário Internacional estimou que o volume de trocas em Suez diminuiu cerca de 50% no início de 2024.
Estabilidade política
Para além da sua localização, a Somalilândia é apresentada pelos seus apoiantes como uma exceção regional. Há mais de três décadas, dispõe das suas próprias instituições: Parlamento eleito, moeda, exército, polícia e administrações civis. Organizou várias eleições pluralistas, garantiu transições pacíficas de poder e manteve uma estabilidade relativa, contrastando fortemente com a vizinha Somália, atormentada pela insurreição islamista dos Shabab e por uma fragmentação política crónica.
Alinhamento com o Ocidente
Israel também destaca o alinhamento político da Somalilândia. As autoridades de Hargeisa, capital da região secessionista, multiplicaram os sinais em direção às potências ocidentais, aos Emirados Árabes Unidos, a Taiwan e agora a Israel, ao mesmo tempo que demonstram a sua hostilidade à influência chinesa, turca e islamista na região. Num contexto de crescente rivalidade entre grandes potências em torno das rotas marítimas estratégicas, ignorar um ator relativamente estável e cooperativo seria, segundo esta leitura, uma negligência estratégica.
Este reconhecimento é também percebido como uma mensagem dirigida a Washington. Vários responsáveis e analistas israelitas acreditam que os Estados Unidos deveriam seguir o exemplo de Telavive. Sublinham que o apego americano ao princípio de uma «Somália unificada» já não reflete as realidades no terreno, e que a estabilidade da Somalilândia assenta precisamente na sua separação do sistema político disfuncional de Mogadíscio. Responsáveis da Somalilândia propuseram mesmo aos Estados Unidos o acesso a um porto estratégico e a uma pista de aterragem herdada da Guerra Fria, em troca de um reconhecimento oficial.
Sistema tribal
No entanto, esta leitura otimista é contestada por alguns. Muitos especialistas consideram que a decisão israelita comporta riscos importantes e pode revelar-se contraproducente. A primeira crítica diz respeito à fragilidade interna da Somalilândia. Apesar da sua imagem de estabilidade, o território é atravessado por divisões profundas. A pertença a clãs desempenha um papel central na política, na propriedade da terra e na representação.
Guerra híbrida
No plano estritamente militar, os críticos consideram ilusória a ideia de que a Somalilândia possa modificar o equilíbrio estratégico face aos Houthis. Estes resistiram a anos de ataques aéreos sauditas e americanos e continuam a perturbar a navegação com meios de baixo custo. Segundo esta análise, apenas uma campanha terrestre conduzida por atores com exércitos estruturados e uma real vontade política poderia derrotá-los, capacidades que a Somalilândia não possui.
Território de acolhimento para os Palestinianos?
Este ano, artigos de imprensa noticiaram que os Estados Unidos e Israel tinham abordado a Somalilândia, entre outros países, sobre o acolhimento de Palestinianos de Gaza. Nem a Somalilândia, que na altura afirmou que não houve qualquer discussão deste tipo, nem Israel abordaram esta questão nas suas respetivas declarações de sexta-feira.
Risco terrorista
Outro risco importante diz respeito ao extremismo. Al-Shabab, grupo afiliado à Al-Qaeda, condenou imediatamente o reconhecimento e ameaçou combater qualquer tentativa israelita de «utilizar» a Somalilândia. Os analistas receiam que o forte sentimento anti-israelita presente em parte da sociedade somali seja instrumentalizado pelos islamitas para reforçar o seu recrutamento e a sua legitimidade, apresentando o governo de Hargeisa como um aliado do «sionismo» e um traidor à causa palestiniana.
Condenações generalizadas
Diplomaticamente, o reconhecimento provocou uma onda de condenações. A União Africana, a Liga Árabe, o Conselho de Cooperação do Golfo, a Organização para a Cooperação Islâmica, a União Europeia, bem como países chave como o Egito, a Turquia e a China, reafirmaram o seu apego à integridade territorial da Somália. Muitos Estados africanos, eles próprios confrontados com reivindicações secessionistas, receiam a criação de um precedente.
Mesmo os Estados Unidos, cortejados por Hargeisa, recusaram seguir Israel. Donald Trump descartou publicamente um reconhecimento imediato, sublinhando o potencial isolamento diplomático de tal iniciativa. A Arábia Saudita, por seu lado, expressou a sua oposição, reduzindo o impacto desta iniciativa numa eventual extensão dos acordos de Abraão.
No sábado, Teerão denunciou uma "manobra maliciosa do regime sionista" e um "complô visando desintegrar" a Somália.
Questionado pelo New York Post sobre um eventual reconhecimento por Washington, o presidente americano respondeu "não", recusando assim seguir o seu aliado israelita. Ele acrescentou: "vamos estudar isso", antes de se perguntar: "Será que há realmente pessoas que sabem o que é a Somalilândia?"…
Entre oportunidade geoestratégica e fator de desestabilização, os efeitos reais desta decisão só poderão ser medidos com o tempo e as dinâmicas regionais.