Logotipo da Levant Time
Voltar ao artigo
Analisar

Quando a resistência se torna uma pergunta proibida

Os mecanismos de defesa psicológica

Imagem de notícia
Retrato do autor
Por Mona Fayad
Publicado mai 19, 2026 - 15:16

Existem certas palavras-chave cuja simples menção basta para colocar o interlocutor do campo da Momana’a em estado de alerta: no momento em que alguém pronuncia “Palestina”, “resistência”, “América” ou “Israel”, algo é acionado dentro dele, uma espécie de interruptor mental, e ele se fecha a tal ponto que qualquer discussão calma e objetiva se torna impossível.

O problema no Líbano de hoje já não é mais o das divergências de opinião, mas sim a ausência do próprio processo de pensamento. Posições prontas são mobilizadas instantaneamente, discursos repetidos sem mudança, escolhas mantidas apesar de tudo o que muda ao redor. Como se nunca nos questionássemos, nunca reavaliássemos nada, nunca perguntássemos: ainda estamos realmente pensando sobre o que fazemos ou apenas repetimos aquilo a que nos acostumamos, simplesmente porque isso passou a fazer parte da nossa identidade? É precisamente aí que começa o perigo, quando a repetição substitui o pensamento.

O que ocorre na mente do partidário da Momana’a está mais próximo de um mecanismo programado de defesa psicológica do que de uma simples opinião política. Quando se pronuncia qualquer uma das seguintes palavras — “Palestina”, “resistência”, “América”, “Israel” — algo acontece dentro dele que se assemelha à ativação de um programa pré-configurado, como um modelo prêt-à-porter, e isso opera em vários níveis.

Primeiro: a exclusividade da identidade e sua redução. A causa — Palestina — deixou de ser uma questão política aberta ao debate, em que se poderia ponderar qual posição a serviria melhor; ela se tornou um componente da identidade pessoal. Qualquer debate sobre o tema é, portanto, recebido como um ataque ao próprio eu, e não como uma análise política.

Segundo: a resposta condicionada. Segundo o que a psicologia designa como estímulo, ao ouvir a palavra “Israel”, a resposta imediata é “inimigo absoluto”, um inimigo que teria nos atacado antes que nós o atacássemos — sem análise, sem exame das possibilidades, sem reflexão sobre a melhor forma de enfrentá-lo ou sobre os resultados desse confronto até hoje.

Terceiro: a dissonância cognitiva. Quando os fatos contradizem a convicção — por exemplo, os efeitos das políticas do eixo sobre o Líbano — instala-se uma tensão interna, uma ambivalência, cuja resolução se dá pela adoção da solução mais conveniente: negar a realidade reinterpretando-a ou atacar diretamente quem a expressa.

Quarto: o fechamento coletivo e o conformismo. O alinhamento com o grupo prevalece: em um ambiente como o do Hezbollah, a opinião não é individual, mas coletiva, e qualquer desvio da linha é tratado como traição. O pensamento crítico torna-se uma ameaça à coesão.

O que às vezes nos parece rigidez ou recusa ao debate não pode, portanto, ser reduzido a uma simples postura política radical; trata-se do resultado de uma estrutura discursiva e psicológica coerente, construída com cuidado, repetida e reformulada com insistência, até transformar-se em um reflexo automático do pensamento.

Essa estrutura parte de um ponto decisivo: a definição prévia da realidade. Todos os termos fundamentais — “o inimigo”, “a resistência” — não são apresentados como temas de debate, mas como verdades definitivas. Dentro dessa lógica, América e Israel são apresentados como inimigos absolutos, enquanto “a resistência” recebe legitimidade absoluta. O debate já não diz respeito às escolhas, mas se move dentro de limites traçados previamente e que não podem ser ultrapassados.

Uma vez instalado esse quadro, vem a segunda etapa: carregar a linguagem de afetos. Palavras como “sacrifícios”, “firmeza”, “dignidade” e “agressão” são empregadas não para descrever a realidade, mas para provocar uma resposta emocional intensa. Quando a emoção assume a liderança, a análise recua, e a objeção deixa de ser uma diferença de opinião para tornar-se uma forma de traição moral.

Sobre essas bases constrói-se uma “dualidade fechada” que não tolera gradações: ou se está com a resistência ou com o inimigo. A zona cinzenta desaparece, a complexidade natural de qualquer realidade política é apagada, e já não existe espaço para pensar em compromissos, arranjos provisórios ou até mesmo em um interesse nacional independente dessa divisão rígida.

Para que o círculo se feche, toda alternativa é desacreditada antecipadamente. Qualquer proposta divergente é imediatamente rotulada como “desvio”, “conspiração” ou “traição à história e aos sacrifícios”. A ideia não é discutida em seus próprios termos, mas distorcida preventivamente, de modo que o simples ato de refletir sobre ela já carregue um risco moral.

Paralelamente, a noção de “comunidade” é invocada como referência suprema. Fala-se em nome “do povo”, “das constantes nacionais”, “dos honrados” — como no discurso do Hezbollah — implicando que quem discorda não está apenas divergindo em opinião, mas se colocando fora da própria comunidade. É aí que entra o medo: o medo da exclusão, da acusação de traição ou da perda do pertencimento.

Mas o mais perigoso nessa estrutura é a articulação entre o interno e o externo. Quando a dissidência interna é apresentada como um perigo maior do que a ameaça externa — como se percebe nas declarações de certos deputados do Hezbollah —, o opositor interno transforma-se em uma ameaça existencial, e não em um parceiro de debate. Nesse ponto, a escalada interna passa a ser justificada preventivamente.

Ao final desse percurso, uma única escolha é apresentada como a única solução possível: não existe alternativa à “resistência” em sua forma atual, sejam quais forem as circunstâncias, a correlação de forças ou as contradições com os interesses do país. El círculo se fecha completamente.

À medida que essa estrutura se repete ao longo do tempo, ela passa a se parecer com um “botão” pressionado na mente: uma única palavra basta para desencadear toda uma cadeia de julgamentos pré-fabricados. Pensar já não é necessário, porque a conclusão é conhecida de antemão. O debate deixa então de ser um confronto de ideias para tornar-se um choque de identidades. E é precisamente nesse nível que a mente deixa de funcionar, não porque seja incapaz de fazê-lo, mas porque nunca foi treinada para sair desse quadro fechado.

Artigos relacionados
Ver tudo
Vídeos relacionados
Ver tudo
Podcasts relacionados
Ver tudo