


No Líbano, a política já não é medida por resultados nem pelo grau de proteção dos interesses nacionais, mas pelo volume da voz, pela intensidade da retórica e pela capacidade de um funcionário público de satisfazer os instintos de uma opinião pública dividida e exausta. Nesse ambiente, qualquer ministro que opte pela serenidade, pelo raciocínio lúcido e por trabalhar sem espetáculo se transforma em alvo permanente de acusações. É exatamente isso que o ministro das Relações Exteriores, Youssef Raji, enfrenta hoje, ao ser submetido a uma campanha de críticas inseparável de uma crise mais profunda que atinge o próprio conceito de Estado.
Desde que assumiu a pasta, Raji não se comportou como um ministro “populista”, nem tentou transformar seu cargo em uma tribuna retórica ou em um instrumento para acumular pontos na política interna. Ele tratou o Ministério das Relações Exteriores como o que ele deve ser: um ministério soberano, encarregado de proteger a posição do Líbano em um momento regional extremamente perigoso, e não um palco para encenações políticas. Essa escolha, que deveria ser evidente, tornou-se motivo de acusação no Líbano, onde a cultura política dominante passou a considerar o grito como posição, a imprudência como coragem e a diplomacia como sinal de fraqueza ou cumplicidade.
Os ataques a Youssef Raji não decorrem de uma avaliação precisa de seu desempenho, mas de uma comparação injusta entre o que ele faz e o que seus detratores gostariam que ele fizesse. Ele é criticado por não emitir declarações incendiárias, por não alimentar expectativas que sabe serem inalcançáveis e por se recusar a envolver o Líbano em conflitos que o país não tem condições de suportar. O que é apresentado como “fraqueza” nada mais é do que uma compreensão realista do verdadeiro peso do Líbano e do equilíbrio de forças que rege a região.
O Líbano de hoje é um Estado à beira do colapso: uma economia devastada, instituições frágeis, divisões políticas profundas e armas fora do controle estatal que limitam a tomada de decisões soberanas. Nesse contexto, a política externa torna-se a última linha de defesa do que ainda resta do Estado. Qualquer erro de cálculo, qualquer declaração impensada, pode abrir as portas para um isolamento internacional ainda maior ou lançar o país em um confronto para o qual não possui nem os instrumentos, nem os meios para resistir. Youssef Raji compreende essa realidade e lida com ela com habilidade diplomática, não com apelos populistas.
É injusto responsabilizar o ministro das Relações Exteriores por trinta anos de políticas fracassadas. Raji não herdou um Estado estável nem uma rede sólida de relações internacionais. Herdou, ao contrário, a imagem de um país sem credibilidade, visto com desconfiança pela comunidade internacional, que hesita antes de se engajar com ele. Dentro dessa margem estreita, ele tenta reparar o que ainda pode ser salvo, manter um nível mínimo de comunicação com o exterior e evitar uma ruptura total das relações, cujo custo seria catastrófico para o Líbano.
Mais importante ainda, Youssef Raji não utilizou seu cargo para ajustar contas internas nem transformou o Ministério das Relações Exteriores em extensão de disputas políticas locais. Ele não adotou a linguagem dos eixos nem apresentou o Líbano como instrumento de um conflito regional. Buscou, ao contrário, estabelecer um discurso que reflita a ideia de Estado, ainda que esse Estado seja frágil e fragmentado. Esse comportamento, que deveria ser o padrão de qualquer chanceler, é recebido com suspeita e acusações em um país onde os adeptos da lógica da dominação não se sentem confortáveis com a lógica do equilíbrio.
Defender Youssef Raji não significa afirmar que ele seja infalível ou que sua atuação esteja acima de críticas. A crítica é um direito, e a prestação de contas, um dever. O que ocorre hoje, porém, vai além da crítica e se transforma em um julgamento de intenções, em uma tentativa de desmontar qualquer modelo de autoridade que não se renda à retórica populista. Espera-se que o ministro seja um eco da rua enfurecida, e não um guardião do interesse nacional, disposto a agradar um humor passageiro mesmo ao custo do futuro do país.
Em um momento tão sombrio para o Líbano, a calma torna-se um ato de resistência, e a diplomacia, uma escolha corajosa, não um sinal de fraqueza. Defender Youssef Raji é defender a ideia de que o Líbano ainda é capaz, apesar de tudo, de produzir autoridades que atuem com a racionalidade do Estado, e não com a lógica do sectarismo, guiadas pelo cálculo do interesse nacional, e não pela linguagem do instinto.
Essa escolha pode não ser popular nem render aplausos imediatos, mas é a única capaz de proteger o Líbano de um colapso ainda maior. E em um país acostumado a punir a razão e recompensar a loucura, defender a diplomacia torna-se, por si só, uma batalha.