


Toda vez que o Hezbollah enfrenta uma crise política, militar ou popular, seus líderes voltam ao mesmo léxico: a resistência, a vitória, a soberania, a recusa de qualquer tutela. Palavras carregadas de forte emoção, mas que perdem, a cada dia, mais seu poder de convencimento entre os libaneses, à medida que se alarga o abismo entre o discurso e a realidade.
Em seu mais recente discurso, o secretário-geral do Hezbollah, o xeique Naim Qassem, afirmou que o Partido permanecia fiel ao Acordo de Taif e à Constituição libanesa, que suas armas estavam voltadas contra Israel, e que enfrentava projetos de subordinação e tutela estrangeira. Uma fala que parece coerente à primeira vista, mas que desmorona assim que se confronta com os fatos.
Porque a política não é o que se diz nas tribunas, mas o que se pratica no terreno. E os fatos vividos pelos libaneses ao longo das últimas décadas não se parecem em nada com o relato apresentado por Qassem; são, antes, quase o seu exato oposto.
Se o Hezbollah permanece fiel ao Acordo de Taif, como explicar então a persistência de uma força militar independente do Estado, mais de três décadas depois da assinatura desse acordo?
O Acordo de Taif não foi um simples arranjo político para pôr fim à guerra civil, mas um projeto de construção do Estado. A essência desse projeto pode ser resumida em poucas palavras: um único Estado, um único exército, uma única autoridade detendo o monopólio das armas e da decisão em matéria de segurança e de assuntos militares.
Isso se cumpriu?
A resposta, todos os libaneses já a conhecem.
Ao longo das últimas décadas, surgiu no Líbano uma autoridade paralela ao Estado: uma autoridade que possui as armas, que detém a decisão, e que é capaz de impor fatos políticos e militares à margem das instituições constitucionais. E quando a decisão da guerra e da paz escapa ao Conselho de Ministros, ao Parlamento e à Presidência da República, falar de fidelidade a Taif aproxima-se mais de uma reescrita da história do que de uma descrição da realidade.
O problema não está na existência de um desacordo político sobre o papel da resistência ou sobre o futuro das armas; esse debate é legítimo em si mesmo. O problema está na pretensão de apresentar as coisas como se o Líbano tivesse vivido, durante todos esses anos, sob a aplicação plena de Taif, quando todos sabem que uma das causas principais da crise libanesa foi precisamente essa dualidade de poder e de decisão.
Quanto à afirmação de que as armas visam unicamente Israel, é uma alegação que a memória libanesa dificilmente pode levar a sério.
Os libaneses não esqueceram o sete de maio. Não esqueceram os anos de intimidação política durante os quais o equilíbrio de forças foi imposto pelas armas, ou por sua simples sombra. Não esqueceram que a mera existência de uma força militar fora do quadro do Estado bastava para derrubar os equilíbrios políticos, bloquear os prazos constitucionais, e impor condições aos governos, aos presidentes e aos parlamentos.
Mesmo quando as armas não foram usadas diretamente, sua simples presença permaneceu um fator decisivo na vida política libanesa.
E é aí que está o cerne do problema.
A democracia não pode se estabelecer quando uma única parte tem a capacidade de impor sua vontade pela força, se assim o decidir. E um Estado não merece esse nome a menos que nenhuma força política saiba que existe, acima das instituições constitucionais, uma decisão ainda mais alta.
Vem em seguida o discurso da recusa à tutela estrangeira.
E é aí que o paradoxo atinge seu ápice.
Pois que tutela o Hezbollah realmente rejeitou, durante todos esses anos? E de que autonomia de decisão ele fala?
Há muitos anos, o Partido nunca escondeu seu vínculo estratégico com o Irã. Isso nunca foi uma acusação lançada por seus adversários, mas um elemento assumido de sua própria literatura política. Travou batalhas regionais de grande envergadura, fundadas em cálculos que ultrapassam amplamente o interesse libanês imediato.
Entrou na guerra da Síria. Envolveu-se nos conflitos da região. Atou o destino do Líbano a todo um eixo regional. E transformou o país, quisessem ou não os libaneses, em um elemento das equações do conflito entre o Irã e seus adversários.
Hoje, enquanto Qassem fala em enfrentar as tutelas, negociações entre Estados Unidos e Irã se desenrolam sobre os dossês da região, entre eles o Líbano. E esse único fato basta para revelar a dimensão da contradição entre o slogan e a realidade.
Se a decisão tivesse sido puramente libanesa, o futuro das armas e do papel de segurança e político do Líbano não figuraria nas mesas de negociações regionais e internacionais.
E se a soberania de que falam existisse realmente, os libaneses não se veriam à espera, para conhecer o destino de seu próprio país, do resultado de arranjos concluídos fora de suas fronteiras.
Mas talvez o que mais mereça uma pausa seja a noção de “vitória” que o Hezbollah oferece aos libaneses.
No discurso de Qassem, como nos anteriores, resistir se torna vitória, perdurar se torna vitória, e não desabar por completo se torna vitória.
Com essa equação, torna-se possível declarar vitória em qualquer circunstância.
Mas os povos não medem as vitórias dessa maneira.
Os povos medem a vitória pelo seu padrão de vida, pela sua segurança, pela sua estabilidade, pela capacidade de seus filhos permanecerem em seu próprio país, e pela capacidade de seu Estado de proteger seus interesses.
Então, qual foi o resultado, depois de tantos anos dessas políticas?
Uma economia em colapso.
Uma moeda que perdeu a maior parte de seu valor.
Um Estado falido.
Instituições paralisadas.
Um êxodo massivo de jovens e talentos.
Um isolamento árabe e internacional cada vez maior.
E regiões destruídas que precisarão de anos para serem reconstruídas.
São esses os sinais de uma vitória?
Ou são, antes, os sinais de uma crise nacional profunda que alguns tentam envolver em slogans?
O doloroso é que os libaneses que pagaram o preço mais alto já não procuram discursos. Os habitantes do Líbano do Sul não precisam tanto de novas teorias sobre a vitória quanto precisam reconstruir suas casas. As famílias que perderam seus filhos não buscam eloquência política, mas uma explicação racional para a dimensão do que perderam.
E os jovens que deixam o Líbano aos milhares não perguntam sobre discursos ideológicos, mas sobre um futuro que já não existe em seu próprio país.
Por isso a linguagem das vitórias repetidas soa, a cada dia, mais desconectada da realidade que as pessoas vivem.
O Hezbollah se acostumou a vencer na narrativa mesmo quando perde nos fatos. Mas hoje enfrenta um dilema diferente. Pois os fatos se tornaram vastos demais para serem ocultados, os custos pesados demais para serem justificados, e as perguntas prementes demais para serem silenciadas com slogans.
No fim, os libaneses não precisam que ninguém os convença de que o que viveram foi vitória ou derrota. Já o sabem, pelos detalhes de sua vida cotidiana.
Sabem disso quando se veem diante de seus bancos falidos.
Sabem disso quando procuram trabalho e não o encontram.
Sabem disso quando despedem seus filhos nos aeroportos.
Sabem disso quando esperam que decisões tomadas fora do Líbano determinem o futuro de seu país.
Por isso a verdadeira pergunta já não é: o Hezbollah venceu ou não venceu?
A pergunta que se impõe hoje é mais dura ainda, e mais essencial:
Se tudo o que aconteceu nas últimas décadas foi vitória, como afirma Naim Qassem, como teria sido então a derrota?
Essa é precisamente a pergunta que os donos dos slogans temem, pois é a pergunta que os discursos não podem responder, que as bandeiras não podem cobrir, e que as celebrações não podem esconder.
É a pergunta dos fatos.
E os fatos, ao contrário dos discursos, não mentem.