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Mil Platôs

O que deve ser salvo

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Por Michel Hajji Georgiou
Publicado mar 6, 2026 - 11:08

Carta aberta a Joseph Aoun, Nawaf Salam e Nabih Berry

Na verdade, nada sabemos, pois a verdade jaz no fundo do abismo

— Demócrito de Abdera

Senhores presidentes,

Dizer que o Líbano se encontra hoje diante de uma nova e grave crise existencial, resultado de um estreptococo maligno, o Hezbollah, que não foi ou não pôde ser tratado a tempo, chega a ser um truísmo.

O que está em jogo agora vai muito além da mecânica habitual das crises libanesas.

Não se trata mais de um novo rearranjo dos equilíbrios confessionais, nem sequer de mais um capítulo da interminável guerra por procuração que outros travaram em nosso território. O que vacila desta vez, mais do que nunca, no estrondo da invasão israelense e no colapso do projeto hegemônico iraniano, é o próprio substrato do Grande Líbano, essa ideia frágil, muitas vezes traída, mas insubstituível, que permitiu a comunidades antagonistas coexistirem, entrarem em conflitos violentos e, por vezes, reconhecerem-se mutuamente. Em última instância, é o que caracteriza qualquer relação que aprende a viver em conjunto.

Em sua corrida descontrolada, o Hezbollah agora termina de se destruir e, ao fazê-lo, arrasta também o Líbano. Seu suicídio estratégico, gnóstico em sua lógica de imolação, imperial em suas ambições e sectário em sua vertigem, revela menos uma derrota militar do que uma ruptura ontológica profunda. Durante muito tempo, o Hezbollah afirmou encarnar uma resistência, e seus partidários acreditaram nisso. No fim das contas, porém, encarnou apenas uma servidão ao Irã, aos seus sonhos de supremacia regional e ao seu projeto teocrático, exportado para as veias de um Líbano que ele sangrou até os ossos. Esse supremacismo pró-iraniano, cuja principal vítima acabou sendo a própria comunidade xiita do país, decidiu consumir-se. E ninguém pode salvá-lo.

Mas o Hezbollah não metastatizou sozinho. É preciso dizê-lo sem rodeios: todo o corpo político, social e comunitário libanês participou disso à sua maneira, sobretudo durante os longos anos do mandato de Michel Aoun, marcados por suas intermináveis turpitudes e por sua vassalagem assumida a Teerã e à lógica da aliança das minorias.

Senhores,

Olhem para o estado das comunidades que os senhores representam de fato dentro das instituições, em razão de seus respectivos cargos.

Os cristãos, inclusive os mais soberanistas, aqueles que durante décadas sustentaram a ideia de um Líbano pluralista e independente na linha do patriarca Nasrallah Sfeir, hoje se recolhem a um particularismo defensivo. A ideia federalista, por muito tempo marginal, ganha força, como se, no limite do desespero, a partilha do país passasse a parecer a única possibilidade de sobrevivência. Trata-se de uma regressão trágica por parte daqueles que foram os pioneiros do Grande Líbano, os arquitetos da própria ideia de uma vida comum institucionalizada em um Estado compartilhado. Que agora abandonem essa visão constitui uma derrota cultural tanto quanto política.

A comunidade xiita atravessa, por sua vez, uma aflição cuja profundidade os discursos triunfalistas de outro tempo já não conseguem esconder. Ter acreditado na resistência, ter-lhe dado tudo, filhos, aldeias, décadas inteiras, para vê-la transformar-se em uma máquina de dominação regional a serviço de uma potência estrangeira: trata-se de um luto imenso, cuja dimensão poucos observadores externos medem com a empatia necessária. Os xiitas do Líbano merecem infinitamente mais do que aquilo que o Hezbollah lhes ofereceu: uma martiropatia. Merecem sobreviver a esse pesadelo que já durou tempo demais, sem se sentirem esmagados.

Os sunitas, por sua vez, navegam em um doloroso vazio político. Não porque tenham renunciado ao Líbano, muito pelo contrário. Mas na ausência de figuras de referência e de um projeto agregador, alguns voltam a olhar para a Síria de Ahmad al-Chareh e, mais além, para a Turquia de Erdoğan. Essa tentação é compreensível em sua origem, mas seria devastadora em seus efeitos. Diluir novamente a soberania libanesa em um espaço regional que não lhe corresponde, em nome de uma solidariedade civilizacional mal definida, significaria repetir o erro árabe de 1958, com outras bandeiras, mas com a mesma renúncia de si. O sangue de Hassan Khaled e Rafic Hariri não foi derramado em vão.

Quanto aos drusos, componente visceralmente ligado à ideia do Grande Líbano e aquele que pagou por ela com mais constância em sangue, encontram-se hoje diante de uma rivalidade de liderança cujos desdobramentos, no vizinho Hauran, começam a flertar com alianças que seriam inimagináveis há apenas dez anos. Não, a vertigem da proximidade sionista não é uma abstração.

Senhores,

Este retrato não é o de um país que morre de uma vez. É o de um país que se desintegra lentamente, comunidade após comunidade, reflexo após reflexo, retração após retração, sem que os mapas do Levante sejam redesenhados e sem que sequer imploda em um paroxismo visível. Basta que o Líbano perca sua unidade nacional para desaparecer por si mesmo, sem função própria, devorado por interesses que o ultrapassam, Israel, Síria, Turquia, e que não terão motivo algum para poupá-lo se ele já não souber defender-se pela coerência de seu projeto. Quase sempre contamos com os outros para nos livrar de nossas próprias responsabilidades. Era mais confortável, mais fácil. O resultado, calamitoso, está à vista de todos, pois o país hoje exala o cheiro da carniça.

No entanto, e é isso que queremos lhes dizer aqui, ao contrário de ideias preconcebidas que durante muito tempo envenenaram o debate público, o Grande Líbano não é um fardo herdado do colonialismo francês nem um artifício dhimmi. Ele foi concebido por seus fundadores, de todas as confissões, como um refúgio, uma garantia, um espaço de pluralismo em um Oriente Médio que pouco oferecia disso. Para os cristãos, certamente. Mas também para os drusos, para os xiitas que a geografia e a história haviam marginalizado no espaço otomano, e para os sunitas que apostaram na modernidade liberal contra as tentações dissolventes do pan-arabismo. O Grande Líbano foi, em sua vocação original, uma necessidade para todos.

Erros de gestão, injustiças na representação, ambições regionais incompatíveis com seu tamanho e sua natureza, ideologias delirantes importadas do exterior ou produzidas internamente, além de fantasias pessoais grandiloquentes, abalaram seriamente esse edifício. Mas um edifício abalado não é um edifício condenado, desde que haja coragem para repará-lo em vez de disputar seus escombros.

A batalha que se desenrola hoje, diante da arrogância de um Hezbollah em colapso e do belicismo sem fim do invasor israelense, vai além da questão do monopólio da violência legítima ou do fim de uma ofensiva militar devastadora. Esses temas são reais e urgentes. Mas a pergunta fundamental é outra: quem somos nós, juntos? O que o Líbano quer continuar sendo, para si mesmo e para seus filhos?

Mais uma vez, o Hezbollah termina de assassinar o Líbano ao autodestruir-se.

Mas o Líbano em geral e seus xiitas em particular merecem sobreviver a esse pesadelo que já durou tempo demais.

Os senhores são três homens que a história colocou, neste momento preciso, à frente de três instituições para responder a essa pergunta. Não para contorná-la nem adiá-la para depois da crise, pois não haverá depois sem o trabalho do agora.

Dito isso, se essa responsabilidade pertence a todos sem exceção, já que o problema não é estritamente xiita, e se o Executivo libanês pecou por falta de firmeza diante do Hezbollah desde o fim da catástrofe de 2024, sua responsabilidade, senhor Berry, permanece a maior. O senhor sempre foi ambivalente, levando longe a arte do equilíbrio para sair bem do jogo e satisfazer a todos, inclusive a si próprio. Mas agora não há mais espaço para astúcias. Há três décadas, o Líbano espera uma posição histórica de sua parte que afirme, sem ambiguidades, o libanismo e o sentido de Estado diante do Hezbollah.

Até agora, essa aposta se mostrou completamente inútil. Termine sua carreira política de forma digna. O senhor não trairá sua comunidade; irá salvá-la, justamente quando a seita escatológica a está sangrando até o esgotamento. E, com ela, o Líbano.

Senhores,

Não lhes pedimos que concordem com tudo. A democracia libanesa, em seus melhores momentos, sempre se alimentou de um desacordo vivo.

O que lhes pedimos é que falem com uma só voz sobre o essencial: o Grande Líbano realmente vale a pena ser salvo. E sua sobrevivência exige, de todos, uma renúncia parcial a seus cálculos particulares em favor de um projeto comum, o único que vale a pena, o único que perdura, o único que faz sentido. Sejam claros. Sejam firmes. Sejam responsáveis.

Que o Estado já não tenha medo é muito positivo. Mas ele não pode limitar-se a dissociar-se e a provar que existe independentemente do para-Estado. Ele deve agir com firmeza, inclusive fazendo uso da força, para enterrar de uma vez por todas os fantasmas de 1969 e impedir que a metástase se transforme, por sua vez, em disputas generalizadas entre regiões e bairros. Ao contrário do que parece, uma explosão interna só será evitada se o Estado passar a existir de fato, sem aceitar indefinidamente o fato consumado. Não será a ação do Estado que colocará fogo no barril de pólvora, mas, ao contrário, sua inação.

O secretário-geral do partido os desafia abertamente e os demoniza? Essa sinistra palhaçada já durou tempo demais. As armas destruíram tudo. O Código Penal e, acima dele, a Constituição lhes conferem o poder de agir com firmeza, sem hesitação, antes que essa loucura leve ainda mais inocentes. Caso contrário, o preço de um inevitável acordo de paz será ainda mais alto se Israel desta vez aceitar não anexar de fato uma parte do território libanês. Evitemos, portanto, a rendição, a humilhação e uma nova ocupação permanente para a qual o Hezbollah nos empurra.

A única via de salvação é restaurar de uma vez por todas a autoridade e o prestígio do Estado. E isso é dito em tom de medida e moderação, talvez até com uma voz cansada, certamente não com entusiasmo ou exaltação.

Senhores,

A ideia libanesa é bela. Talvez seja mesmo a única ideia verdadeiramente original que este canto do Levante ofereceu à modernidade política: viver juntos sem ser iguais, reconhecer-se sem dissolver-se. Não passemos, portanto, mais meio século lamentando aquilo que não soubemos preservar por nós mesmos, por não termos honrado nossas responsabilidades políticas.

Queiram aceitar, senhores presidentes, a expressão de meus mais respeitosos cumprimentos.


Michel HAJJI GEORGIOU

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