


A posição unificada dos membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) em relação aos ataques iranianos contra os seis Estados membros sugere uma forma de renascimento para este bloco, pelo menos em aparência. É preciso reconhecer que o Conselho experimentou profundas turbulências internas desde o final de 2025, na sequência das divergências saudita-emiradenses no Iémen, divergências que já tinham vindo a público no Sudão. Alguns estimam que a faísca inicial se encontrava na Líbia. Estes desacordos paralisaram o Conselho, chegando a provocar uma crise interna sem precedentes em 45 anos de história deste bloco regional.
A ameaça iraniana era precisamente a razão de ser do Conselho de Cooperação do Golfo. O nome dado a este conselho de seis membros foi cuidadosamente escolhido. O objetivo aparente era evitar provocar o Irão, abstendo-se de usar a expressão «Golfo Arabico», considerada tabu no Irão. Os Estados do Golfo, sob o impulso do o falecido xeque Zayed bin Sultan, esforçavam-se para conter a ameaça representada pelo slogan de «exportação da revolução», lançado pelo aiatolá Khomeini, fundador da República Islâmica, em 1979, após a queda do regime do Xá.
O xeque Zayed acolheu a primeira cimeira do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) no hotel Intercontinental de Abu Dhabi. Este evento abriu caminho para um longo processo que visava criar uma barreira contra a agressão iraniana, que se manifestava pela recusa do Irão em pôr fim à guerra contra o Iraque, independentemente da origem do conflito. O Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), criado em Abu Dhabi em maio de 1981, constituiu assim uma barreira para os seus seis Estados membros na sequência do início da guerra Irão-Iraque em setembro de 1980. O Conselho conseguiu, em grande parte, evitar a escalada do conflito, apesar dos seus oito anos de guerra e da vontade do Irão de retaliar contra os Estados do CCG, em particular a Arábia Saudita e o Kuwait.
O Conselho conseguiu, em grande parte, conter a extensão do conflito. É notório que os Estados membros do CCG apoiaram o Iraque durante toda a guerra. A queda do Iraque, porta de entrada oriental do Golfo, teria levado à queda de toda a região do Golfo, independentemente dos erros cometidos por Saddam Hussein, então presidente iraquiano. Os erros iraquianos podem ser reconhecidos se considerarmos que Saddam, com a sua experiência política limitada e a sua imprudência, não compreendeu desde o início que iniciar uma guerra contra a República Islâmica era cair na armadilha de Khomeini, procurando um inimigo externo para atiçar o nacionalismo iraniano e o chauvinismo persa. É também notório que o Irão procurou vingar-se da Arábia Saudita, tentando politizar a peregrinação do Hajj e provocar distúrbios enquanto centenas de milhares de peregrinos se encontravam em Meca durante esse período.
O Irão também atacou o Kuwait, tentando assassinar o emir, Xeque Jaber Al-Ahmad, e provocando incidentes de segurança por diversas vezes. A Arábia Saudita conseguiu defender-se contra a agressão iraniana. Da mesma forma, o Kuwait conseguiu proteger-se e assegurar a continuidade das suas exportações de petróleo. Em resposta aos ataques iranianos contra os seus navios, içou, nomeadamente, as bandeiras americana e soviética nos seus petroleiros. Cada Estado membro do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) sofreu a agressão iraniana. A República Islâmica não poupou nem o Bahrein nem os Emirados Árabes Unidos, tendo estes últimos desempenhado um papel determinante na elaboração de uma posição comum do Golfo para pôr fim à guerra, dadas as potenciais consequências de uma invasão iraniana do Iraque nessa altura.
O Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) resistiu aos choques sofridos, nomeadamente a invasão do Kuwait pelo Iraque em 1990. Trabalhou para a libertação do Kuwait e a sua restituição à sua população. Mais tarde, em 2003, o CCG suportou as repercussões do sismo iraquiano – a retrocessão do Iraque à República Islâmica pela administração de George W. Bush – com todo o desequilíbrio estratégico que isso gerou para toda a região. Este desequilíbrio coincidiu com a queda total da Síria e do Líbano nas mãos do Irão.
Durante a Primavera Árabe, o CCG desempenhou um papel essencial na proteção do Bahrein, onde o Irão explorou as tensões sectárias. A intervenção direta dos Estados membros do CCG foi determinante para contrariar uma flagrante tentativa iraniana de derrubar o regime deste país pacífico. Quer se queira ou não, o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) viveu, desde a sua criação, sob a sombra da crise iraniana, ou mesmo da ameaça iraniana. Um novo Médio Oriente, um Golfo diferente e um Irão diferente nascerão da guerra israelo-americana contra o Irão. Um novo Conselho de Cooperação do Golfo também verá a luz do dia? Que papel desempenharão o CCG e os seus Estados membros face aos novos desafios impostos pelas profundas transformações no Irão, nomeadamente tendo em conta os receios de desintegração deste país que procura dominar o Golfo desde antes mesmo da instauração da «República Islâmica»?
O CCG será confrontado com um Irão diferente, cuja forma e natureza do regime são difíceis de prever nesta fase. A única certeza é que o regime atual, a «República Islâmica», está condenado a desaparecer. Nada o demonstra melhor do que os ataques lançados pelos «Guardas da Revolução» contra os países do CCG por razões falaciosas, revelando assim o verdadeiro rosto do regime. Estes ataques visaram até o Sultanato de Omã, que sempre manteve relações amigáveis com o Irão. O Sultanato adotou uma escola política fundada no princípio de que relações amigáveis com o Irão, país vizinho, são inevitáveis, independentemente da natureza do regime em Teerão… Abstraindo-se do Irão, a questão permanece: e o Iraque, país que deve mudar e que, desde a criação do Conselho de Cooperação do Golfo, tem sido uma fonte de preocupação para cada Estado membro, seja sob Saddam Hussein ou após a sua queda?