


Enquanto prosseguiam os confrontos em Ormuz, constituíram-se, com o pleno conhecimento de Washington, dois eixos militares que materializavam duas lógicas geoestratégicas destinadas a rivalizar entre si! E, ainda por cima, numa zona que se estende do mar da Arábia ao Mediterrâneo Oriental, sempre considerada o quintal dos Estados Unidos, ou até mesmo o seu domínio exclusivo. Com efeito, o acordo de defesa antimíssil e antidrones celebrado em 2 de setembro entre Israel e a Grécia parece ser uma réplica da aliança de defesa conjunta de Meca, assinada em 7 de agosto entre a Turquia, a Arábia Saudita e o Paquistão. Estamos, portanto, pelo menos em teoria, perante «dois polos de segurança frente a frente, sem que, no entanto, constituam dois blocos perfeitamente estanques».
Significará isto que as potências regionais acima referidas, que historicamente se desenvolveram sob o guarda-chuva americano, devem agora pensar em garantir a sua própria segurança? Por outras palavras, estarão os Estados Unidos a retirar-se da região? É difícil acreditar nisso quando os porta-aviões americanos continuam a patrulhar as águas quentes e o bloqueio marítimo do Golfo Pérsico prossegue, pontuado por ataques cirúrgicos!
Os equilíbrios geoestratégicos e o «refluxo» americano
Desde a queda do Muro de Berlim até 2001, vivemos num mundo unipolar, no qual os Estados Unidos reinavam como uma hiperpotência. Mas, a partir de 2008, com a crise financeira e os reveses no Afeganistão e no Iraque, o cenário começou a mudar e a equação americana até então dominante foi revista em baixa.
Começou então uma fase de refluxo americano. Um refluxo ainda mais significativo por já ser necessário contar com a ascensão fulgurante da China, bem como com o regresso em força de Moscovo, que iniciava uma política agressiva nas suas fronteiras ocidentais.
Foi neste contexto de competição entre grandes potências que Washington, já sem a sua antiga omnipotência, tentou promover os Acordos de Abraão (2020-2021), destinados a normalizar as relações entre Israel e os Estados árabes dispostos a participar. O objetivo, ou mesmo a lógica estratégica, era consolidar um equilíbrio regional face ao Irão.
Mas quem estaria disposto a correr o risco de pôr em prática esses Acordos, que alguns consideravam contrários à natureza, quando Washington perdia o seu esplendor e tinha dificuldades em restabelecer a sua ordem imperial no Golfo Pérsico e, mais recentemente, no golfo de Áden?
É de deixar qualquer um perplexo!
É conhecida a regra segundo a qual não se muda de comandante-chefe no auge da batalha. Ora, em pleno conflito de Ormuz, a política externa dos Estados Unidos muda de rumo e a Pax Americana que patrocina passa «de uma ordem assente na preeminência americana para uma arquitetura americana de equilíbrio de poderes». Não é que os Estados Unidos queiram renunciar ao primeiro lugar, mas já não querem ser os únicos a suportar os respetivos custos. Noutro teatro de operações, o europeu, Donald Trump explicou-o claramente aos seus parceiros, os países membros da NATO: se quisessem beneficiar da sua proteção, teriam de passar a abrir os cordões à bolsa (1).
Mais ainda, Washington deixaria de exigir que todos os seus parceiros fossem aliados entre si. Se Israel e a Grécia ficassem de um lado, e a Turquia, a Arábia Saudita e o Paquistão do outro, isso não seria motivo de preocupação.
Mas, uma vez mais, o que levou Donald Trump a enveredar por este caminho perigoso, quando enfrenta uma situação desconfortável no Golfo Pérsico e está atolado numa guerra em que uma vitória decisiva continua fora do seu alcance? E isto apesar dos meios gigantescos mobilizados.
O eixo judaico-cristão e a NATO sunita
Os americanos deixaram que a aliança de Meca se constituísse, mas será que a aprovavam? Os três países signatários demonstraram alguma independência em relação a Washington; contudo, essa «reação» poderá sair-lhes cara. Assim, quando os houthis iniciaram a sua marcha triunfal em Bab el-Mandeb, Mohammed bin Salman pediu ajuda a Donald Trump. Este, porém, deu-lhe a entender que as forças dos EUA não interviriam para o tirar de apuros, embora continuassem a fornecer-lhe informações de inteligência. O ocupante da Casa Branca, querendo preservar a sua margem de manobra, não iria mobilizar as suas tropas numa segunda frente. Além disso, com essa atitude negativa, os americanos fariam o príncipe herdeiro pagar pelo seu desejo de emancipação estratégica. Em suma, que os sauditas assumam a responsabilidade pela sua própria segurança! Caso contrário, para que serviria esta aliança de Meca, concebida segundo o modelo de uma OTAN sunita?
Mas, na realidade, os dados estavam viciados: não era possível estabelecer uma «nova arquitetura estratégica do Médio Oriente e do Mediterrâneo Oriental» ignorando o Egito e… Israel. Por isso, talvez não seja demasiado cedo para dizer que Riade se virará para Telavive (2), sobretudo porque os Emirados Árabes Unidos acabam de se sair bem e de «virar a página da sua guerra» com o Irão.
Questão recorrente: terá chegado o momento de revitalizar os Acordos de Abraão?
No entanto, nada está decidido, mas uma coisa é certa: a estrutura da OTAN sunita não parece ser tão operacional como a do eixo judaico-cristão (3). Resta apenas retirar daí as devidas conclusões!
1-A Ucrânia foi, na Europa, a revelação brutal de uma nova ordem estratégica posta em marcha por Washington.
2-Na semana passada, foi registado na Alemanha um contacto por intermédio do CENTCOM norte-americano, tendo sido inclusivamente noticiada uma reunião entre responsáveis norte-americanos, israelitas e sauditas para definir os meios a mobilizar em apoio a Riade.
3-A saber, a aliança entre Israel e a Grécia e, certamente, a República de Chipre.