
O Primeiro-ministro húngaro perde o seu cargo após 16 anos de reinado


No poder na Hungria com autoridade incontestada desde 2010, o primeiro-ministro Viktor Orbán acaba de ser derrotado nas urnas, afastado do cargo pelo desgaste público diante da corrupção e das percepções de ataques ao Estado de direito. Aos 62 anos, ele se afirmou no cenário internacional por meio de confrontos repetidos com Bruxelas e de seus vínculos assumidos com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente russo, Vladimir Putin. Orbán também chocou ao demonstrar complacência com o ecossistema da extrema direita e com uma rede autocrática mais ampla na Europa e no mundo.

Viktor Orbán recebido por Tony Blair em Downing Street, número 10, em janeiro de 2002, um ano antes da malfadada invasão do Iraque, baseada em argumentos falaciosos. Segundo Voltaire, "Política é a arte de mentir sobre o que é certo." (Gerry Penny/AFP)
Na cúpula da OTAN em Washington, em 1999, Orbán, então um jovem primeiro-ministro de uma Hungria recém-integrada à Aliança, foi confundido com um intérprete por agentes de segurança. “Não, senhor”, teria respondido ao oficial, “sou o primeiro-ministro da Hungria, mas ficarei feliz em interpretar se desejar.”
A anedota, ilustrativa de seu relativo anonimato à época, revela a posição ainda marginal ocupada pelas novas democracias da Europa Central no final dos anos 1990 dentro da ordem euro-atlântica. A Hungria, recém-saída da esfera soviética, ainda não era vista como um ator político de peso, muito menos seu líder.
Campeão do “iliberalismo”
O homem outrora confundido com um intérprete tornou-se, gradualmente, uma figura central do “iliberalismo”. Popularizado pelo próprio Orbán, o conceito designa um sistema no qual o poder é exercido contornando liberdades individuais, o Estado de direito e a separação de poderes, ao mesmo tempo em que se preserva a aparência institucional da democracia.
Na prática, eleições continuam a ocorrer, mas a imprensa e a oposição são pressionadas, o Judiciário perde independência e os mecanismos de freios e contrapesos se enfraquecem. No caso húngaro, isso se combina com um nacionalismo acentuado e uma visão social conservadora ancorada em outra época: qualquer semelhança com o populismo está longe de ser casual.
No entanto, o próprio Orbán jovem viveu a realidade da ditadura comunista, quando a Hungria ainda integrava a órbita soviética. Ele se destacou inicialmente como um liberal convicto, cofundando a “Aliança dos Jovens Democratas”, futura espinha dorsal do partido Fidesz, e desafiando o regime em 1989 com um discurso apaixonado em favor da democracia.
A mudança ocorreu de forma gradual. Orbán adotou um discurso mais autoritário, visando a independência do Judiciário, da mídia e de instituições-chave. Ao retornar ao poder em 2010, em um país fragilizado pela crise econômica, passou a consolidar metodicamente o controle de seu partido sobre o aparelho de Estado, as universidades e a imprensa, em nome da defesa da “nação húngara”.
Suas restrições às liberdades, especialmente aquelas que afetam a comunidade LGBTQ+, provocaram tensões com a União Europeia, que decidiu congelar vários bilhões de euros destinados ao país.
Defender valores familiares, rurais ou cristãos não é, em si, problemático. O que se torna questionável, no entanto, é o uso de uma estratégia bem calibrada: instrumentalizar medos para conquistar poder, difundir xenofobia e alimentar a eurofobia sob o disfarce do patriotismo.
Pós-comunismo
A Europa outrora comunista passou por uma transição dolorosa. As sociedades do Leste enfrentaram um verdadeiro choque ao migrar para a democracia liberal. O antigo sistema, apesar de suas restrições, oferecia uma forma de estabilidade, uma zona de conforto. Foi necessário aprender a se governar sem a experiência acumulada pelas sociedades ocidentais.
Ainda hoje, as diferenças entre as duas metades do antigo continente permanecem visíveis, como se o muro desaparecido continuasse a existir de forma imaterial.

Setembro de 1989: Alemães orientais atravessando a fronteira húngara a caminho da Alemanha Ocidental em seu agora lendário Trabant, um símbolo do colapso das economias comunistas. (Christophe Simon/AFP)
Na Alemanha, por exemplo, “Wessis” ainda por vezes zombam dos “Ossis”, mais de três décadas após a reunificação. Como os antigos Trabant da Alemanha Oriental, feitos de resina reforçada com algodão, contrastando com os BMW da Alemanha Ocidental.
Essa divisão não se limita à economia ou à tecnologia; também envolve mentalidades. Não surpreende, portanto, que partidos de extrema direita hoje tenham melhor desempenho nas regiões ex-comunistas.
A virada nacionalista
Após consolidar sua base conservadora, Viktor Orbán passou a mobilizar um nacionalismo profundamente enraizado na sociedade húngara, moldado por um sentimento histórico de isolamento e insegurança em uma nação cercada por três grandes esferas culturais: eslava, latina e germânica.
Esse reflexo não é exclusivo da Hungria. Na Polônia, Sérvia, República Tcheca e Eslováquia, a desconfiança em relação ao “estrangeiro” continua sendo um poderoso motor político.
Nesse contexto, Orbán adotou uma postura firme contra as políticas migratórias europeias, chegando a mandar construir, em 2015, cerca de centenas de quilômetros para impedir a entrada de migrantes no país.
Sua estratégia baseia-se na designação de um inimigo externo. Como observou a cientista política e deputada húngara Zsuzsanna Szelényi, essa lógica lhe permitiu obter vitórias decisivas nas eleições de 2014, 2018 e 2022.
Laços perigosos com a Rússia
Em sua campanha mais recente, depois dos comunistas e dos migrantes, a Ucrânia tornou-se o principal alvo. Acusada de tentar arrastar a Hungria para uma guerra com a Rússia, foi transformada em bode expiatório em um discurso cada vez mais polarizado.
A campanha baseou-se, em particular, na desinformação e no uso de conteúdos gerados por inteligência artificial. Tabloides próximos ao governo divulgaram imagens manipuladas, amplificadas por redes de contas falsas.
Especialistas também apontam para operações de influência russas, incluindo vídeos deepfake e conteúdos apresentados como artigos jornalísticos.
Cartazes financiados com recursos públicos retratam Volodymyr Zelensky de forma negativa, por vezes ao lado de figuras europeias, em encenações deliberadamente provocativas. Orbán não hesitou em declarar em um comício: “Devemos escolher quem formará o governo: eu ou Zelensky!”

Orbán nunca rompeu relações com Putin, mesmo após a invasão da Ucrânia e o isolamento da Rússia. (Alexander Nemenov/AFP)
Apesar de seus excessos, essa retórica se ancora em um temor real: o de que a Hungria seja arrastada para um conflito.
“O Fidesz apela à necessidade mais profunda de segurança existencial”, afirmou Zsuzsanna Szelényi à AFP. “A mensagem deles é: quando o mundo desmorona, confie no que você já tem.”
Tropismo identitário e conexões libanesas
Nos últimos anos, Viktor Orbán construiu metodicamente uma rede transnacional baseada em uma leitura identitária e política do cristianismo, concebido tanto como um quadro civilizacional quanto como um instrumento de influência.
Essa estratégia se materializou em numerosas conferências e fóruns realizados em Budapeste, reunindo atores conservadores e cristãos da Europa e do Oriente Médio em uma lógica assumida de convergência ideológica. Já em 2019, Gebran Bassil, líder do Movimento Patriótico Livre, participou de uma conferência sobre a “perseguição dos cristãos” na Hungria, onde obteve apoio financeiro para projetos eclesiásticos.
Budapeste também lançou, no mesmo espírito, um fundo para a “reconstrução de igrejas” no Líbano. Essa orientação foi reforçada em 2025 com uma conferência intitulada “O futuro do Líbano sob uma perspectiva cristã”, organizada e apoiada pelo governo húngaro, reunindo diversos partidos cristãos libaneses. A iniciativa se insere em uma política mais ampla da Hungria de se posicionar como protetora dos cristãos no Oriente Médio, ao mesmo tempo em que constrói alianças políticas com seus representantes.
Nesse quadro, partidos cristãos do Oriente Médio, e em particular o Movimento Patriótico Livre, surgem como parceiros periféricos, mas simbolicamente valiosos, permitindo a Orbán ancorar seu projeto de uma “Europa dos nacionalismos cristãos” em uma dimensão geopolítica e civilizacional mais ampla.
Essa retórica de “proteção dos cristãos do Oriente Médio” também foi mobilizada por Vladimir Putin ao intervir na Síria. Além disso, desde meados da década de 2010 e os primeiros anos da guerra síria, Budapeste adotou uma linha particular dentro da União Europeia ao se recusar a romper completamente com Damasco.
Sem reconhecer oficialmente o regime, o governo húngaro manteve canais de comunicação abertos e se opôs a qualquer política de mudança de regime na Síria. Essa posição se insere em uma visão geopolítica mais ampla, na qual Orbán considera que a queda de Bashar al-Assad abriria caminho para forças islamistas radicais e novas ondas migratórias rumo à Europa. Nessa perspectiva, Assad deixa de ser apenas um autocrata problemático e passa a ser, no discurso implícito de Budapeste, um baluarte funcional.
Essa aproximação indireta também se refletiu na política dita de “proteção dos cristãos” da Hungria, especialmente por meio do programa Hungary Helps. A iniciativa financiou projetos de reconstrução na Síria, frequentemente em áreas sob controle do regime, o que suscitou críticas dentro da União Europeia, com alguns vendo nisso uma forma de normalização progressiva de Damasco.
Sem jamais abraçar explicitamente Assad, Orbán contribuiu assim para enfraquecer o consenso europeu de isolamento, introduzindo uma lógica alternativa: a de um pragmatismo civilizacional em que a sobrevivência das comunidades cristãs justificaria a manutenção de relações, ainda que indiretas, com o poder vigente.
Eurofobia
Paradoxalmente, apesar da Hungria ser uma grande beneficiária de fundos europeus, o governo Orbán demonstrou hostilidade aberta em relação à União Europeia.
Durante anos, Bruxelas teve de lidar com um líder que mantinha relações estreitas tanto com Moscou quanto com Washington, bloqueando repetidamente decisões-chave, especialmente sobre ajuda à Ucrânia e sanções contra a Rússia.
Orbán utilizou com frequência seu poder de veto para travar iniciativas europeias, contribuindo para a paralisia de vários dossiês importantes.
Mais grave ainda, revelações do The Washington Post apontaram para um possível vazamento de informações sensíveis para a Rússia. Segundo essas reportagens, o ministro das Relações Exteriores da Hungria teria mantido Moscou informada em tempo real sobre discussões internas da União Europeia.
Diante dessas acusações, as reações oficiais em Budapeste oscilaram entre a negação e o desafio.
Corrupção flagrante
Mas foi sobretudo a corrupção que precipitou a queda de Orbán.
Apesar de uma campanha cuidadosamente calibrada, os eleitores puniram um sistema marcado pelo enriquecimento espetacular do entorno do primeiro-ministro e pela deterioração dos serviços públicos.
Oficialmente, Orbán declara um patrimônio pessoal modesto. Mas, em um país classificado entre os mais corruptos da União Europeia, essa imagem de frugalidade convence pouco.
Os húngaros denunciam um sistema quase feudal, no qual os próximos ao poder acumulam riqueza e influência.
Seu pai, seu genro e seus aliados empresariais viram suas fortunas crescer exponencialmente, frequentemente por meio de contratos públicos financiados pela União Europeia.
Segundo a Transparency International, bilhões de euros são perdidos a cada ano devido a práticas corruptas, enquanto Bruxelas mantém o congelamento de fundos significativos.
E o sucessor?

Péter Magyar, o vencedor das eleições parlamentares, vestindo o tradicional casaco húngaro, o bocskai, num comício eleitoral em Março passado. (Balint Szentgallay/NurPhoto via AFP)
O vencedor das eleições de domingo, Péter Magyar, herda uma tarefa imensa: desmontar a arquitetura política construída por Orbán, restaurar as instituições e reconstruir os laços com a União Europeia.
Ex-integrante do sistema, ele mantém algumas posições firmes de seu antecessor, especialmente em imigração e questões sociais, mas promete restaurar o Estado de direito e combater a corrupção.
Para muitos europeus, ele encarna um “Orbán sem corrupção e sem eurofobia” – uma fórmula que ainda precisa ser testada.
Para além da Hungria, o que está em jogo é global. Orbán havia se tornado uma referência para numerosos movimentos nacionalistas. Sua derrota representa um revés simbólico para a extrema direita, sem, no entanto, sinalizar seu desaparecimento.
Na Europa Central, assim como nos Estados Unidos com o campo “MAGA” ou na Rússia, as dinâmicas que impulsionaram Orbán permanecem ativas.
A página pode estar virando em Budapeste. Mas o modelo, este, ainda não disse sua última palavra.