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O Novo Mundo

Trump recupera o Iraque do Irã

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Por Khairallah Khairallah
Publicado fev 3, 2026 - 12:59

Quando se aprofunda a análise da evolução da situação iraquiana desde a primavera de 2003, data da queda do regime baathista e familiar de Saddam Hussein em consequência de uma guerra norte-americana conduzida pelos Estados Unidos, torna-se possível compreender uma posição específica adotada pelo presidente Donald Trump. Trata-se de uma posição negativa em relação ao retorno de Nouri Maliki ao cargo de primeiro-ministro, função da qual foi forçado a abdicar em 2014. A questão não diz respeito tanto a um político iraquiano em si, mas, por um lado, ao simbolismo representado por Nouri Maliki e, por outro, a uma decisão norte-americana de recuperar o Iraque do Irã.

 

A posição dos Estados Unidos deve ser compreendida à luz do recuo iraniano na região. Há uma realidade incontornável: a “República Islâmica” perdeu todas as guerras que travou à margem da guerra de Gaza, incluindo a guerra no sul do Líbano e a destinada a preservar o regime alauíta na Síria. Se deixarmos de lado os houthis no Iêmen e o seu controle sobre a maior parte do norte do país, incluindo Sanaá e o porto de Hodeidah, o Irã não dispõe de nenhuma carta de pressão real além do Iraque. O que impediria, então, os Estados Unidos de recuperar o Iraque do Irã, depois de tê-lo entregue em bandeja de prata há vinte e três anos?

 

Tudo indica que Trump procura vingar-se do fracasso norte-americano pelo qual foi responsável a administração de George W. Bush. Um fracasso retumbante, resultado de uma administração que decidiu invadir o Iraque sem planejar a fase posterior à queda de Saddam Hussein e as consequências daí decorrentes. A administração Bush não compreendeu que os partidos e milícias confessionais leais ao Irã eram incapazes de construir sistemas democráticos que servissem de modelo para os países da região. Em última instância, o sistema iraquiano instaurado após 2003 apenas levou uma parcela significativa dos iraquianos a lamentar o regime sangrento e retrógrado de Saddam Hussein. Desde que monopolizou o poder no verão de 1979, Saddam não deixou erro algum por cometer, ao eliminar seu predecessor Ahmad Hassan Bakr e todos aqueles cuja lealdade pessoal ele sequer minimamente questionava.

 

Apesar disso, há hoje quem lamente Saddam Hussein, que não se limitou a travar a guerra de oito anos contra o Irã, o qual acreditava que ele seria uma presa fácil. Na realidade, ao declarar guerra à “República Islâmica”, Saddam caiu numa armadilha iraniana, já que o aiatolá Khomeini buscava em 1980 um inimigo externo capaz de mobilizar os iranianos em torno de uma solidariedade nacional. O tempo passou e Saddam cometeu outro erro fatal ao invadir o Kuwait no verão de 1990. Ainda assim, isso não bastava para que George W. Bush decidisse entregar o Iraque ao Irã, invocando os atentados de 11 de setembro de 2001 perpetrados pela Al Qaeda, liderada por Osama bin Laden. Contudo, a lógica do ilógico adotada pela administração Bush levou-a ao Iraque, apesar da inexistência de qualquer ligação entre Saddam Hussein e Osama bin Laden.

 

Era lógico que os Estados Unidos perseguissem a Al Qaeda no Afeganistão, onde bin Laden se encontrava. Em contrapartida, foi ilógico dirigir-se ao Iraque, numa aposta que custou muito caro aos Estados Unidos. Pretenderá Trump, em 2026, corrigir o rumo equivocado seguido no período posterior ao 11 de setembro de 2001?

 

É a partir dessa invasão do Iraque, uma guerra cujo único vencedor foi o Irã, que Donald Trump decide pôr fim ao projeto expansionista iraniano. A invasão norte-americana do Iraque foi o novo ponto de partida desse projeto. Por isso, Trump não tem outra alternativa senão recuperar o Iraque do Irã para alcançar o seu objetivo. Esse é o significado de sua oposição ao retorno de Nouri Maliki ao cargo de primeiro-ministro, o homem mais poderoso do Iraque à luz do sistema que governa o país desde o terremoto de 2003 e da Constituição que dele resultou. Com Donald Trump não há espaço para brincadeiras desde que ele rasgou o acordo sobre o programa nuclear iraniano durante seu primeiro mandato presidencial, em 2018, seguido do assassinato de Qassem Soleimani, comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária iraniana, em Bagdá no início de 2020. Soleimani não era uma figura marginal, mas o verdadeiro governante do Iraque, cujas ordens não admitiam contestação.

 

Torna-se cada vez mais evidente que Donald Trump não é Barack Obama, que em 2010 firmou um acordo com o Irã mantendo Nouri Maliki no cargo de primeiro-ministro, apesar de o maior bloco parlamentar resultante das eleições daquele ano ter sido o de Iyad Allawi, amplamente aceito no mundo árabe. O Irã afastou Iyad Allawi, embora ele tivesse então o direito constitucional de se tornar primeiro-ministro.

 

Em 2026, é natural que o Iraque procure um novo primeiro-ministro que reflita a nova realidade regional. É ainda mais natural que esse primeiro-ministro seja de um perfil completamente diferente, distante de Nouri Maliki e de seu sectarismo confessional, ou de Mohammed Shia Sudani. Sudani jamais conseguiu ser um primeiro-ministro equidistante de todos os iraquianos, independentemente de sua confissão, comunidade ou etnia. Em outras palavras, as transformações regionais impõem a saída do Iraque da hegemonia iraniana, tal como a Síria dela saiu no final de 2024.

 

É demasiado pedir que o Iraque tenha um primeiro-ministro para todos os iraquianos, árabes, curdos, turcomanos, xiitas, sunitas e o que resta de cristãos e yazidis? Tornou-se a existência de um primeiro-ministro desse nível um sonho iraquiano?

 

Talvez esse sonho não esteja tão distante, sobretudo se Donald Trump concluir a missão de pôr fim ao controle iraniano sobre o Iraque e se lembrar de que aqueles que hoje governam o país jamais teriam chegado onde estão não fosse o tanque norte-americano.

 

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