


A obscenidade tornou-se o motor da História?
Um observador atento, acompanhando de perto o curso dos acontecimentos, poderia bem chegar a essa conclusão.
Há, de fato, algo de obsceno na maneira como o mundo contemporâneo continua a celebrar seus simulacros de ordem, ao mesmo tempo em que todas as barragens, sem exceção, cedem por todos os lados. É verdade: a verborragia persiste, as instituições se multiplicam. Os grandes discursos nunca foram tão abundantes. Mas hoje flutuam em um vazio inquietante e soam irremediavelmente ocos, quando não se perdem na massa informe da desinformação e dos tropos nauseantes do populismo e do identitarismo.
Continuamos, assim, a falar de direito, soberania, legitimidade, segurança coletiva, como se fossem vocábulos desgastados de uma ladainha profana e niilista… enquanto aceitamos, quase fatalisticamente, que a violência volte a se tornar uma variável aceitável da história.
As arquiteturas nascidas das ruínas do século XX, aquelas que pretendiam conter a força, discipliná-la e inscrevê-la em um mínimo de regras comuns, estão hoje sendo metodicamente desmontadas. Não tanto por ignorância, mas por uma vontade mefistofélica, predatória e destrutiva. São consideradas lentas demais, morais demais, restritivas demais para um mundo que volta a reivindicar a exceção permanente, o poder sem freios, a identidade como justificativa última. O sistema oriundo de San Francisco e de Bretton Woods é deliberada e sistematicamente esvaziado de sua substância, reduzido a um cenário diplomático de fachada.
Libertos de toda inibição, os apelos ao império se multiplicam, sob formas diversas, porém convergentes. Pouco importa se se apresentam sob os trajes da nação, da civilização, da segurança ou da fé: a lógica é a mesma. A de um mundo fragmentado em zonas de influência, onde a regra vale para os outros; onde a força se torna linguagem política; onde o ser humano é relegado à condição de dano colateral. As diferenças ideológicas se apagam diante de uma brutalidade comum. Nesse contexto, a escalada aos extremos torna-se uma profecia autorrealizável, legitimando a conduta de cada ator. A serpente morde a própria cauda, até que nada mais reste: nem da serpente, nem do restante.
Em tal paisagem, é forçoso constatar que os povos contam cada vez menos. Para além das pesquisas de opinião, são invocados, instrumentalizados, sacrificados em nome de desígnios que os ultrapassam. Alguns de forma mais visível que outros. O Irã, hoje, cristaliza esse colapso moral. Uma sociedade inteira, consciente, corajosa, culturalmente densa, enfrenta uma repressão de violência fria, repetitiva, quase industrial. E diante disso, o mundo observa, indigna-se de forma intermitente, e depois se acomoda, em silêncio. A prudência diplomática de uns serve de álibi; os cálculos estratégicos de outros suplantam qualquer exigência ética. Como se a liberdade pudesse esperar. Como se certas vidas valessem menos que equilíbrios regionais ou interesses energéticos.
No entanto, o que se desenrola em Teerã, assim como na Ucrânia ou em Gaza, ultrapassa um regime, uma crise, um país. Coloca novamente em questão o próprio sentido da ordem internacional. De que vale um sistema que já não protege os que mais precisam? O que significa o Estado de direito quando ele se dissolve assim que se torna oneroso? Em que momento o universalismo deixa de ser um princípio para se tornar um discurso condicional, submetido às relações de força e aos humores dos poderosos? Como restaurar a ordem do humano, a liberdade constitutiva da pessoa, sem quebrar ainda mais aquilo que já está quebrado?
São perguntas tão antigas quanto o mundo. Mas em um sistema desprovido de qualquer salvaguarda, tornam-se lancinantes.
Talvez tenhamos entrado naquele momento temido em que a cultura continua a produzir formas, imagens e discursos, enquanto a civilização deixa de acreditar no que proclama. Um fim da cultura que, embora ainda não seja espetacular — o mal frequentemente se manifesta pela banalidade —, é profundamente difuso. O cansaço moral se aprofunda; os referenciais se embaralham; os critérios desmoronam; a linguagem se esvazia em um fluxo contínuo de imagens, slogans e indignações seletivas. A razão vacila. Foi derrotada ou simplesmente se retirou por falta de defensores? Pouco importa. O resultado é o mesmo.
Nesse vazio habitado por monstros — e como se alongou esta longa noite do vazio —, as identidades se endurecem, a violência se legitima, o medo torna-se o fundamento e a matriz da política. O mundo redescobre, com horror ou com lassidão, antigos reflexos que julgava enterrados: o retraimento, o ódio, a fascinação pelos homens fortes, o desprezo pelas liberdades em nome da segurança. A globalização não produziu a universalidade esperada; frequentemente acelerou a fragmentação, a atomização, a perda do vínculo. Em toda parte, as sociedades lutam para produzir referências comuns, sem as quais não há cultura viva nem coexistência possível. Se a nuclearização das relações de poder voltou a estar em voga, a nuclearização das relações humanas e das consciências já se consumou. Não houve aqui qualquer equilíbrio de dissuasão. De Washington a Moscou, passando por Tel Aviv, Teerã e Ancara, a corrida rumo à atomização da humanidade parece consensual.
Diante dessa falência dos Estados — em grande medida fruto de coletividades cada vez mais narcisistas e paranoicas —, impõe-se uma nova responsabilidade, queiramos ou não: a de uma opinião pública mundial transversal. Não uma multidão emotiva, certamente. Nem uma moral de adereços. Mas uma consciência capaz de atravessar fronteiras, rejeitar hierarquias implícitas da compaixão, nomear o inaceitável onde quer que ele ocorra. Uma opinião que não se limite a comentar, mas que restitua a noção de responsabilidade, de realidade, de ética das relações internacionais. Que lembre que nem tudo é equivalente. Que nem tudo é negociável. Que ainda existe uma escala de valores que preside o destino deste planeta, ainda que lute para se afirmar. Ou então que os seres humanos decidiram, hoje, que não desejam mais viver juntos em paz em um mesmo espaço, e que precisam destruir os princípios que os unem em nome de pequenas diferenças e ansiedades.
Isso pode parecer ingenuidade. Contudo, não é utopia. E, de qualquer forma, o que resta a perder antes que o mundo inteiro se transforme, como no início do século XX, em um vasto campo de ruínas, uma gigantesca vala comum?
Inventar uma nova ordem não significa sonhar com um mundo pacificado ou reconciliado. Significa reintroduzir limites, devolver um custo à violência, reafirmar que a dignidade humana não é uma opção, mas uma exigência vital. Isso exige um despertar civilizacional, frágil, conflituoso, imperfeito, mas necessário.
Não para prometer o paraíso, mas para evitar a banalização do inferno.
Caso contrário, o custo moral do silêncio e da inação será alto demais, para todos.
A queda na violência nunca é uma fatalidade histórica.
Ela é sempre uma escolha.
A renovação também.