


Assolado por quase uma década de guerra civil, opondo o governo internacionalmente reconhecido aos rebeldes houthis apoiados pelo Irã, o Iêmen enfrenta agora uma nova linha de fratura. Um confronto com os separatistas do Sul veio perturbar o equilíbrio do conflito e opor dois aliados regionais de longa data: a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos.

As tensões aumentaram no início de dezembro, quando o Conselho de Transição do Sul (CTS), movimento separatista apoiado pelos Emirados Árabes Unidos, mas oficialmente membro da coalizão anti-houthis, apoderou-se de vastos territórios no leste do Iêmen, garantindo o controle da província de Hadramout, bem como de grande parte da província vizinha de Mahra.
Na terça-feira, a Arábia Saudita realizou um ataque aéreo visando o porto de Mukalla, no leste do país. Riad acusou publicamente Abu Dhabi de adotar um comportamento « extremamente perigoso » ao apoiar os separatistas, lembrando que sua segurança nacional constituía « uma linha vermelha ». As forças emiradenses subsequentemente se retiraram do Iêmen após um ultimato saudita.
O CTS quer restabelecer um Estado independente no sul do Iêmen, região que havia formado a República Democrática Popular do Iêmen entre 1967 e 1990, antes de sua unificação com o Norte.
Hadramout, a província mais vasta do país, cobrindo quase um terço do território nacional, concentra a maior parte dos jazigos petrolíferos iemenitas, um recurso chave para as finanças públicas.
O avanço do CTS permitiu ao movimento alcançar a fronteira saudita, numa região de importância histórica e simbólica, de onde são originárias várias grandes famílias sauditas influentes. Os Bin Laden, Bakhachab, Al-Jafali, Al-Amoudi ou ainda Al-Zamel têm todos origens « hadramis » e possuem empresas homônimas com um papel importante na economia saudita.

Veículos militares danificados, que teriam sido enviados pelos Emirados Árabes Unidos para apoiar as forças separatistas do Conselho de Transição do Sul (CTS), após um ataque aéreo conduzido pela coalizão liderada pela Arábia Saudita no porto de Mukalla, no sul do Iêmen, em 30 de dezembro de 2025. (Foto AFP)
Embora Riad afirme privilegiar um Iêmen estável e não hostil à sua fronteira sul, Abu Dhabi insere sua ação numa estratégia regional mais ampla. Os Emirados Árabes Unidos buscam reforçar sua influência no Mar Vermelho e no Chifre da África, apoiando-se numa rede de aliados no sul iemenita.
Além disso, Abu Dhabi tem conduzido, há cerca de uma década, uma política externa ativa no Oriente Médio e na África, notadamente para combater os movimentos ligados à Irmandade Muçulmana, considerados pelas autoridades emiradenses como uma ameaça à estabilidade regional.
Os Emirados Árabes Unidos tornaram-se notadamente o principal apoio financeiro do Egito desde a derrubada em 2013 do presidente islamista Mohamed Morsi. No Sudão, o seu apoio às Forças de Apoio Rápido (FSR), envolvidas numa guerra contra o exército regular, é um segredo de Polichinelle. Na Líbia, Abu Dhabi apoia o marechal Khalifa Haftar, oposto ao Governo de Unidade Nacional reconhecido pela comunidade internacional.
Em 2020, os Emirados Árabes Unidos normalizaram suas relações com Israel no âmbito dos acordos de Abraão, uma iniciativa à qual a Arábia Saudita se recusa a aderir enquanto não houver perspectivas para a criação de um Estado palestino. Essa normalização se insere numa convergência estratégica diante de adversários comuns, nomeadamente o Irã e alguns grupos islamistas.
Abu Dhabi também fortaleceu seus laços econômicos e de segurança com a Somalilândia, território autoproclamado independente da Somália. O grupo Dubai Ports World investiu 442 milhões de dólares no porto de Berbera, localizado no golfo de Aden. Na semana passada, Israel tornou-se o primeiro Estado a reconhecer oficialmente a independência da Somalilândia, uma decisão que o site Axios atribui, citando autoridades israelenses, a uma mediação dos Emirados Árabes Unidos…