
Armas a serviço da ocupação


O Líbano assiste hoje a uma farsa que, na prática, transformou-se em tragédia. No centro dessa farsa está a obstinação de uma facção libanesa organicamente ligada à “República Islâmica” do Irã em apresentar a negociação com Israel como uma “humilhação”, quando a verdadeira humilhação reside em tudo aquilo que pode ser feito para consolidar e servir a ocupação israelense. Tudo o que as autoridades legítimas do Líbano, representadas pelo presidente da República, Joseph Aoun, e pelo primeiro-ministro Nawaf Salam, quiseram expressar é que a “humilhação” das negociações, na realidade, pertence ao campo da honra e do patriotismo, enquanto a “humilhação” da ocupação não passa de um serviço prestado a Israel, em benefício exclusivo de seu projeto ocupacionista.
Qualquer um que denuncie a “humilhação” de uma negociação direta com Israel, como faz o Hezbollah, foge de qualquer questão relacionada à realidade e ao que vive um país cujo destino hoje está entregue aos ventos. O Líbano encontra-se à mercê desses ventos desde que uma bomba-relógio se instalou em seu interior: mais de um milhão e duzentos mil deslocados do sul do Líbano, espalhados por diferentes regiões do país, tendo Beirute como principal centro de concentração.
Fora das negociações, não existe caminho capaz de desarmar essa bomba-relógio, cujo único antídoto é o retorno dos deslocados às suas aldeias e cidades, de uma forma ou de outra. Esse retorno a localidades em grande parte devastadas permanece como o único meio de preservar o Líbano do destino de um Estado falido. Não há outra saída além da negociação direta para alcançar esse objetivo, em vez de glorificar a “resistência” e suas armas, justamente aquelas que trouxeram de volta a ocupação.
É importante distinguir entre a verdadeira humilhação, por um lado, e a tentativa de apagar a “humilhação” da qual fala o Hezbollah, por outro. Porque a humilhação está em servir à ocupação israelense, e não em se livrar dela. É preciso lembrar todos os dias, se necessário, que a ocupação israelense da faixa fronteiriça no sul do Líbano terminou nesta mesma época, no ano 2000. Israel decidiu então retirar-se em aplicação da Resolução 425, considerando que tal retirada, confirmada pelo Conselho de Segurança, não contrariava seus interesses.
Desde essa retirada israelense até a Linha Azul, o antigo regime sírio, apoiado pelo Irã, trabalhou para manter o sul do Líbano como uma conveniente caixa de correio para a troca de mensagens com Israel. O Estado hebraico não viu nisso qualquer problema, sobretudo porque seu objetivo permanente consistia em concentrar esforços na Cisjordânia. A prova disso foi o fracasso de Yasser Arafat em reproduzir naquele território a experiência da retirada israelense do sul do Líbano.
Abu Ammar pagou caro, naquela época, o preço da “militarização” da Intifada. O líder histórico do povo palestino não compreendeu que Israel estava disposto a sacrificar centenas de seus soldados para conservar partes da Cisjordânia, enquanto aceitava retirar-se do sul do Líbano em troca de garantias de segurança. Essas garantias foram efetivamente obtidas, antes que o Irã as violasse imediatamente, preocupado em demonstrar que a carta do Hezbollah continuava em jogo e que o retorno do Exército libanês ao sul do Líbano não estava na pauta.
Até a guerra de “apoio a Gaza”, iniciada pelo Hezbollah a pedido do Irã em 8 de outubro de 2023, não existia ocupação israelense. Depois dessa guerra, a ocupação limitou-se a cinco pontos. Foi a guerra de “apoio ao Irã”, iniciada em março deste ano, que forneceu o pretexto para uma ampliação da ocupação israelense, mais destruição e novos deslocamentos.
O Hezbollah defende sua posição argumentando que Israel o teria atacado de qualquer maneira, independentemente do disparo dos seis foguetes lançados poucos dias após o assassinato do “Guia” Ali Khamenei em Teerã, em 28 de fevereiro de 2026. Essas declarações poderiam ter fundamento se não revelassem um profundo desconhecimento da política e da correlação de forças em jogo, por um lado, e se o Hezbollah não alimentasse, por outro, o desejo de conservar suas armas como instrumento de intimidação dos libaneses.
As armas confessionais e milicianas jamais foram outra coisa além de um flagelo para o Líbano e para os libaneses, especialmente para os xiitas do país, na medida em que nunca foram capazes de desempenhar qualquer papel na proteção nacional. Sua única função foi servir à ocupação. Quando o Estado hebraico, no ano 2000, concluiu que era de seu interesse retirar-se do sul do Líbano, assim o fez, tendo a Alemanha como mediadora. O Hezbollah não soube compreender que Israel mudou à luz do “Dilúvio de Al Aqsa”, o ataque lançado pelo Hamas a partir de Gaza, nem entender que suas armas, agora a serviço da ocupação, já não poderiam continuar existindo como antes.
As armas continuam sendo a origem do problema e a fonte de todos os males no Líbano. Simplesmente, Israel já não precisa mais delas hoje, enquanto no passado demonstrava indiferença em relação a quem controlava o sul do Líbano, assim como era indiferente a quem controlava Gaza, disposto inclusive a permitir a transferência de recursos do Catar ao Hamas desde que o movimento contribuísse para consolidar a divisão palestina.
Uma única fórmula resume agora a situação libanesa. As armas que o Hezbollah possui representam, por si sós, a própria humilhação, na medida em que desempenham o papel que lhes foi atribuído na legitimação da expansão israelense da ocupação e do deslocamento contínuo da população. Essa população é composta pelos cidadãos xiitas do sul do Líbano, transformados nessa bomba-relógio que ameaça qualquer tentativa de reconstrução do país.
As armas fracassaram diante de Israel, mas conseguiram minar o Líbano por dentro. Essa sempre foi a função das armas do Hezbollah desde o seu surgimento, armas às quais cabe a responsabilidade por todas as guerras das quais o Líbano poderia ter prescindido: começando pela guerra do verão de 2006 até a guerra de “apoio ao Irã” e a catástrofe que ela deixou em seu rastro, uma catástrofe que, em todos os sentidos, tornou-se agora uma ameaça à própria existência do Líbano.