

Em abril de 2003, Mohammed Saeed al-Sahhaf proporcionou ao mundo uma das maiores performances políticas na arte da negação.
Em 7 de abril, tanques americanos haviam entrado no coração de Bagdá, e suas imagens corriam pelas telas de televisão do mundo inteiro. Ainda assim, o ministro da Informação de Saddam Hussein apresentou-se diante dos jornalistas e declarou, com a segurança de um homem que dispunha de informações inacessíveis ao olho humano, que não havia americanos em Bagdá e que as forças invasoras estavam sendo esmagadas e aniquiladas.
Dois dias depois, em 9 de abril, Bagdá caiu.
Al-Sahhaf não estava simplesmente mentindo. Prestava um serviço psicológico a um público que já não era capaz de encarar a verdade. É precisamente isso que o torna tão contemporâneo no Líbano.
Se estivesse hoje entre nós, al-Sahhaf provavelmente encontraria um excelente emprego junto aos porta-vozes do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã e do Hezbollah em sua imprensa marrom. Talvez até descobrisse que sua imaginação era bastante limitada diante dos extraordinários avanços realizados pelo Eixo da Resistência na fabricação da vitória.
Os israelenses entram em uma posição? Não a tomaram por completo.
Tomam a entrada de um túnel? O túnel tem outras entradas.
Chegam a uma instalação? Existem outras instalações.
Ocupam uma colina? A colina não é a montanha inteira.
E, se ocuparem a montanha, não se preocupem: o Líbano é um país montanhoso.
Isso não é análise militar. É uma dose de copium.
“Copium”, na linguagem da internet, combina cope e opium: um narcótico psicológico consumido para amortecer a dor de uma derrota que se recusa a reconhecer. Não recupera território nem vence batalhas. Sua função é muito mais simples: fazer você se sentir vitorioso enquanto explica por que sua derrota não foi realmente uma derrota.
Mas o problema do Líbano hoje vai além do próprio Hezbollah. Tratar o Hezbollah como uma simples organização libanesa que cometeu uma série de erros estratégicos é ignorar a essência da questão.
Há um dono do projeto e há uma franquia libanesa ligada a ele.
O dono é o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. A franquia libanesa é o Hezbollah.
Essa não é uma descrição inventada pelos adversários libaneses do Hezbollah. Em março, a Reuters informou que a Guarda Revolucionária havia desempenhado um papel direto na reconstrução da liderança militar do Hezbollah após os golpes sofridos durante a guerra de 2024. Cerca de cem oficiais iranianos teriam sido enviados ao Líbano para participar do treinamento, da reestruturação e do rearmamento. Mais importante ainda, o resultado foi descrito claramente: o Hezbollah havia sido preparado para entrar na guerra de 2026 ao lado de Teerã.
O Irã não se limita a “apoiar” o Hezbollah, como dizem tão educadamente os comunicados diplomáticos.
O Irã o criou, treinou, armou e depois reconstruiu sua estrutura militar. Em seguida, chegou o momento de colher os dividendos de seu investimento.
Mas quem pagou o preço?
Certamente não apenas os oficiais da Guarda Revolucionária instalados em segurança em Teerã.
A maior parte da conta libanesa foi paga pelos habitantes do sul do Líbano, do Vale do Bekaa e do subúrbio sul de Beirute, sobretudo pelas centenas de milhares de xiitas libaneses que o Hezbollah afirma ter a missão de proteger.
É aí que reside a ironia mais amarga da chamada resistência.
A Guarda Revolucionária quer uma alavanca de poder no Mediterrâneo, então os xiitas libaneses pagam com seus filhos, suas casas e suas aldeias.
Teerã quer lembrar Washington e Tel Aviv de que comanda várias frentes, então Nabatieh, Bint Jbeil, o subúrbio sul e o Bekaa são transformados em caixas de correio para os mísseis dos outros.
A liderança iraniana trava uma luta regional por influência. Mas, na frente libanesa, a maior parte do sangue derramado não é iraniano. As aldeias destruídas não ficam em Isfahan. As famílias deslocadas não procuram abrigo nas escolas de Teerã.
Desde março de 2026, mais de 4.300 pessoas foram mortas no Líbano, segundo números do governo libanês citados pela Reuters. No início de setembro, mais de 340 mil pessoas continuavam deslocadas no sul. Mais de 250 crianças haviam sido mortas e mais de mil, feridas.
E, ainda assim, espera-se que os libaneses comemorem porque talvez os israelenses não tenham alcançado o último metro de um túnel sob Ali al-Tahir.
Essa é a genialidade do sistema.
A casa desapareceu, mas o túnel é longo.
A aldeia está vazia, mas a “equação” sobrevive.
A terra está sendo engolida, mas a resistência vai bem.
Centenas de milhares de pessoas estão deslocadas, mas o inimigo ainda não descobriu onde termina a passagem número três.
E, se alguém ousa perguntar para que serve esse imenso aparato militar quando as pessoas que ele supostamente protege dormem em escolas sobre colchões de espuma, a imprensa marrom já tem sua resposta pronta: vocês não entendem a natureza da guerra.
Talvez.
Ou talvez os libaneses estejam começando a entendê-la bem demais.
Talvez agora entendam que a tão celebrada “unidade das frentes” significa algo dolorosamente simples: o Irã escolhe a frente e os libaneses pagam o preço.
Mais grave ainda, a conta é imposta, repetidas vezes, à própria comunidade xiita do Líbano.
Durante décadas, essa comunidade ofereceu seus filhos sob a bandeira da libertação da terra e da defesa do Líbano. Mas a pergunta que agora se torna cada vez mais urgente é esta: quando o sacrifício pelo Líbano se transformou no sacrifício do Líbano a serviço dos interesses da Guarda Revolucionária?
Não há nada de antixiita nessa pergunta. Muito pelo contrário.
A coisa mais perigosa que o Hezbollah fez foi reivindicar o direito exclusivo de representar os xiitas do Líbano e, em seguida, vincular sua segurança, suas casas e o futuro de seus filhos à estratégia de outro Estado. Como se o xiita libanês não tivesse o direito de exigir um Estado que o proteja, em vez de ser tratado como munição dentro de um arsenal estratégico iraniano.
Então chega a maquinaria da negação para acrescentar insulto à perda.
Não basta que as pessoas entreguem seu sangue, suas casas e seus meios de subsistência. Elas também precisam chamar o resultado de vitória.
E assim Mohammed Saeed al-Sahhaf retorna.
Em abril de 2003, ele olhava os tanques com os próprios olhos e declarava que eles não existiam.
Seus sucessores libaneses são mais sofisticados. Reconhecem que o tanque existe, mas explicam que sua presença é prova de sua derrota.
Admitem que uma posição caiu, mas insistem que sua queda faz parte da firmeza.
Reconhecem que centenas de milhares de pessoas foram deslocadas, mas exigem que os deslocados sintam orgulho porque “o projeto” sobreviveu.
Que projeto? E projeto de quem?
Por que o xiita libanês precisa morrer para que a Guarda Revolucionária melhore sua posição nas negociações?
Essas são as perguntas às quais o copium não consegue responder.
O ópio da negação pode amortecer por algum tempo a dor da derrota, mas não pode alterar seu desfecho.
No fim, como al-Sahhaf descobriu em abril de 2003, chega um momento em que as palavras já não conseguem esconder o tanque.
Especialmente quando esse tanque está em sua terra.