


O número expressivo de foguetes disparados recentemente do território libanês em direção a Israel aponta para várias realidades. A mais imediata e reveladora: ao contrário das autoridades libanesas, o Corpo da Guarda Revolucionária iraniana não desperdiçou um instante desde que foi alcançado o acordo de cessar-fogo entre o Hezbollah e Israel. Isso ocorreu em 23 de novembro de 2024, sob o governo do presidente Najib Mikati. O presidente Nabih Berri desempenhou um papel central na consecução do acordo, que refletia a necessidade premente do Partido de pôr fim aos combates a qualquer custo.
Tornou-se meridianamente claro que Israel explorou o cessar-fogo para consolidar sua liberdade de prosseguir a campanha contra o Hezbollah, ao passo que a Guarda Revolucionária se valeu do mesmo acordo para solidificar sua presença no Líbano e preparar a fase de confrontação entre o Irã, de um lado, e a América e Israel, do outro.
Sim, a Guarda Revolucionária não perdeu tempo. Retomou suas atividades no Líbano por meio do que restava do Hezbollah. Os frutos desse êxito tornaram-se visíveis no período que se seguiu ao assassinato do “Guia” Ali Khamenei, há aproximadamente duas semanas. O resultado do assassinato foi a incorporação total do Líbano à guerra que o Irã trava contra os Estados Unidos e Israel. Como o Líbano entrou nessa guerra? Qual é a responsabilidade do Estado libanês nisso? Esta é a grande questão que se impõe neste momento, em que assistimos a uma expansão da ocupação israelense e a uma intensificação dos ataques aéreos, cada vez mais focados em alvos precisos no Líbano… chegando ao interior de Beirute.
O mais surpreendente é que o Hezbollah, enquanto entidade autônoma, deixou praticamente de existir no Líbano. Com uma ressalva: o Partido existe sempre que as necessidades da Guarda Revolucionária iraniana assim o exigirem. Pessoas com conhecimento de causa relatam que um oficial da Guarda ordenou a combatentes do Partido que disparassem foguetes a partir do solo libanês em direção a Israel. Com isso, o oficial iraniano proclamou a reabertura da frente do sul do Líbano. Tudo isso ocorreu contrariando a vontade do Estado libanês — incluindo o presidente da República Joseph Aoun e o primeiro-ministro Nawaf Salam — e a da maioria dos libaneses.
Naim Kassem não estava a par dos detalhes do ocorrido. Soube do lançamento dos foguetes pela televisão, da mesma forma que Mojtaba Khamenei ficou sabendo, pelo mesmo meio, que a Guarda o havia escolhido como “Guia”. Mojtaba aproveitou o seu primeiro discurso desde a nomeação para declarar que havia soubido de sua designação pela televisão. A ironia é que foi preciso encontrar alguém para ler o discurso na ausência do próprio “Guia” — que parece sofrer de ferimentos recebidos… e talvez de algo ainda mais grave.
Tudo o que aconteceu, tanto no Líbano quanto no próprio Irã, parece apontar para uma conclusão dupla: a Guarda detém o poder de decisão em ambos os países e não encontrou melhor vitrine no Líbano do que o Hezbollah. Já não resta dúvida de que o Partido — que nunca foi outra coisa senão uma brigada da Guarda Revolucionária com efetivos libaneses — tornou-se uma milícia sectária libanesa sob o comando de oficiais iranianos.
Entre a ignorância das autoridades libanesas, em todos os níveis, sobre o que se trama em solo libanês e na região — em especial sobre o significado profundo da transformação ocorrida na Síria —, e os acontecimentos mais recentes representados pela nova ofensiva militar israelense, é impossível ignorar que o Líbano atravessa uma fase de consequências históricas. O problema é que o Líbano oficial não compreendeu que o tempo não trabalhava a seu favor. O tempo alcançou o Líbano. É evidente que as oportunidades abertas desde o acordo de 23 de novembro de 2024 não se repetirão.
Ninguém parece assimilar a realidade elementar de que Joseph Aoun jamais teria chegado à presidência da República sem a derrota do Hezbollah na “guerra de apoio a Gaza.” Se o Partido ainda estivesse de pé — ele e seu ex-secretário-geral Hassan Nasrallah —, teria se aferrado ao seu candidato Sleiman Frangieh, que deveria ser o presidente. O Partido insistira em que seu candidato ocupasse a presidência, exatamente como havia imposto Michel Aoun em outubro de 2016, conduzindo-o junto ao seu genro Gebran Bassil ao palácio de Baabda. Levou-os à presidência para que a instituição servisse ao Irã e ao seu projeto expansionista — hostil a tudo o que é árabe na região — nada mais.
O que passou, passou. O que pode o Líbano fazer agora, depois que a “República Islâmica” conseguiu, por meio da Guarda Revolucionária, reabrir a frente do sul do Líbano? É possível evitar os erros do passado recente — um passado de apenas um ano e alguns meses? A resposta é que não há outra alternativa senão encarar a realidade: o país tornou-se, à semelhança do Irã, sujeito à autoridade da Guarda Revolucionária. Como enfrentar essa autoridade que expressa, sob uma forma diferente mas igualmente absoluta, a hegemonia iraniana total sobre o Líbano?
Uma resposta libanesa é necessária. E nenhuma resposta que tenha valor será possível sem romper o muro do medo diante do Hezbollah — um Partido que mal existe, salvo como instrumento inteiramente controlado pela Guarda Revolucionária.
Mais uma vez: a Guarda não perdeu tempo desde o outono de 2024, quando o Líbano concluiu seu cessar-fogo com Israel. Reforçou sua posição no país — fato confirmado pelo volume de foguetes disparados em direção a Israel. O Líbano pagará um preço alto por esses disparos, e ainda mais caro por não ter compreendido que o tempo não jogava a seu favor, que todo discurso sobre o desarmamento do Hezbollah não vale nada sem ações concretas no terreno. Era preciso agir — independentemente do custo, e sem temer as invocações de guerra civil ou ameaças semelhantes, que, no fundo, não têm nenhuma correspondência com a realidade.