


Este texto não é apenas mais um artigo sobre uma causa que muitos acreditam conhecer. Trata-se de uma tentativa de compreender. Compreender como um povo que carregou seu sonho por décadas continua a carregá-lo em uma terra que nunca se calou e não se calará.
Este texto é a introdução de um estudo em várias partes sobre a situação palestina, em suas ramificações históricas, políticas e humanas. Porque o que está acontecendo não admite simplificações. E porque o silêncio também é uma forma de tomar posição.
Quando preparares teu café da manhã, pensa nos outros.
(Não te esqueças do grão para as pombas.)
Quando travares tuas guerras, pensa nos outros.
(Não te esqueças daqueles que pedem paz.)
Quando voltares para casa, tua casa, pensa nos outros.
(Não te esqueças do povo das tendas.)
Foi isso que disse o poeta Mahmoud Darwish no final do século passado, após seu retorno à pátria, em virtude do acordo sobre os princípios fundamentais de uma autonomia limitada nos territórios palestinos ocupados em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, como a chama Israel, ou a guerra da Naksa, como a denominam os árabes.
O poeta, que nunca declarou apoio aos Acordos de Oslo de 1993, tampouco proclamou oposição a eles, limitou-se a renunciar ao seu alto posto no Comitê Executivo da Organização para a Libertação da Palestina, a mais alta autoridade política reconhecida. Era como se quisesse experimentar os acontecimentos à sua maneira, por meio da poesia, em um terreno do qual estivera ausente por muito tempo.
Mas Darwish logo expressou surpresa e admiração diante das celebrações populares contínuas que tomavam Gaza e a Cisjordânia para receber os exilados que retornavam. Havia veneração pelo arquiteto do acordo, o símbolo Yasser Arafat, e uma alegria transbordante diante das profundas transformações que o acordo parecia trazer para a vida cotidiana das pessoas.
Espalhava-se a sensação de que a liberdade estava próxima e de que a paz estava ao alcance, sobretudo quando o exército israelense se retirou inicialmente das grandes cidades e o aperto direto da ocupação começou a afrouxar sobre cinco milhões de palestinos após mais de um quarto de século.
Mas a cena decisiva foi a aprovação esmagadora do povo e seu voto em favor do presidente Arafat nas primeiras eleições já realizadas na terra da Palestina, em 1996.
Se voltarmos ao nosso poeta sensível, que se tornara um dos pilares da nova era e gozava de um consenso entre elites e população que o próprio presidente Arafat jamais conhecera, pode-se arriscar dizer que sua profunda intuição sobre o rumo do processo de paz israelo-palestino, com todos os obstáculos que enfrentava, já apontava sua fragilidade.
Ela nos lembrava da possibilidade de colapso desde o momento em que o extremismo israelense sacou sua arma para assassinar Yitzhak Rabin no auge de sua glória. E as mesmas forças do extremismo também derrubaram, pelas urnas, o experiente Shimon Peres.
Ao mesmo tempo, o extremismo palestino afiava seus punhais e liberava sua energia suicida para explodir o chamado “acordo da traição”, como o denominam os atores do eixo da resistência e da recusa.
Hoje, esses mesmos atores celebram sua “vitória” sobre o processo de paz, sem se preocupar por um instante sequer com o que viveu o povo das tendas em Gaza, nem com os habitantes da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental.
A intuição do poeta revelou-se correta quando convidava cada um a pensar nos outros. Mas os extremistas de ambos os lados parecem pouco dispostos a fazê-lo.
O terrorismo
Quaisquer que sejam as intenções ao pensar no outro, seja um irmão, um amigo, um adversário ou um inimigo, e qualquer que seja o objetivo, coexistência, compromisso, reconciliação ou vida comum, o construtor da paz deve primeiro enfrentar o extremismo dentro do próprio ambiente antes de poder dialogar com o outro.
Nesse contexto, convido a abandonar o termo “terrorismo”. Suas conotações ultrapassaram de longe sua definição técnica e linguística, transformando-se em uma palavra política que os próprios terroristas utilizam como acusação mútua, enquanto Estados e políticos a brandem contra adversários e até contra os mais moderados.
O exemplo mais evidente disso é o próprio presidente palestino Mahmoud Abbas.
Por essa razão, considero que expressões como “arrogância nacional” das grandes potências, “fanatismo religioso” e “extremismo político” são termos muito mais objetivos para descrever aquilo que a humanidade enfrenta do que a palavra terrorismo.
Além disso, sua dimensão ética levanta desafios de natureza completamente diferente, situados no coração das teorias políticas contemporâneas que expressam a ordem internacional surgida após a Segunda Guerra Mundial.
Essa foi uma época em que se conheceu um avanço extraordinário nas ciências, na tecnologia e nas ciências humanas e sociais, além da produção de algumas das legislações mais avançadas em diversas áreas.
Mas também testemunhamos massacres e guerras devastadoras, da guerra do Vietnã até a guerra de genocídio na Faixa de Gaza, segundo a definição da Corte Internacional de Justiça.
Também assistimos a processos de limpeza étnica, dos Bálcãs a Mianmar, passando por Nagorno-Karabakh, sem esquecer os deslocamentos forçados na Síria, no Sudão e em outros países.
E, se mencionamos particularmente as guerras travadas no Afeganistão, no Iraque e na Somália, é porque elas foram conduzidas com um único objetivo declarado: erradicar o terrorismo e eliminar os terroristas.
O resultado, no entanto, foi a negociação com esses mesmos terroristas, enquanto o único saldo concreto foi a destruição de estados, nações e povos.
A guerra de genocídio contra os habitantes de Gaza acabou sendo interrompida por decisão do ocupante da Casa Branca. No entanto, os disparos não cessaram um único momento até hoje, e as operações destinadas a deslocar milhões de palestinos de sua terra continuam avançando.
Essa realidade exige uma nova abordagem, que pode ser resumida em três pontos.
A geografia da Palestina histórica e seu povo constituem até hoje um exemplo vivo da incapacidade do direito internacional e de suas convenções de garantir os direitos mais elementares à vida: água, comida e medicamentos, sem falar de algo tão básico quanto uma tenda. Quem pode acreditar que isso acontece na era da civilização e dos valores humanos?
O que se desenrola diante de nossos olhos, um genocídio lento, sem artilharia pesada, representa na verdade um teste completo para a credibilidade dos conceitos que os governos ocidentais exportaram ao mundo com uma dose de condescendência e outra de desprezo.
A função do decreto de cessar-fogo emitido pela Casa Branca é proteger a ordem política internacional e seus mecanismos de funcionamento segundo a visão americana, além de impedir a erosão do status do Estado de Israel, segundo as próprias declarações de Donald Trump. Para proteger o governo israelense, concedeu-se aos palestinos o fim da guerra genocida, ao mesmo tempo em que se permitiu a continuidade de uma guerra de desgaste.
Assim, a modernidade, em suas manifestações mais impressionantes, inclusive por meio da inteligência artificial, tornou possível a produção do genocídio cujos efeitos continuam. O governo israelense não renunciou a seus objetivos declarados de limpeza étnica, anexação de terras e esmagamento político da entidade palestina e de seu tecido social histórico.
Tudo isso parte de um Estado moderno, patrocinado pela maior democracia secular do planeta. E, ainda assim, com surpreendente simplicidade, abandona-se a modernidade para retornar ao mito bíblico e afirmar que o que está acontecendo cumpre a “promessa divina”, como declarou o embaixador americano em Israel.
Mas ele não nos disse se essa promessa bíblica foi escrita antes do Big Bang, depois dele ou exatamente no momento em que ocorreu.
O ataque de 7 de outubro
O ataque suicida de 7 de outubro provocou um estado de histeria coletiva em Israel. Do topo da pirâmide política ao exército e aos colonos, o espírito israelense não conseguiu assimilar a queda súbita das barreiras militares e de segurança erguidas ao longo da fronteira da Faixa de Gaza.
Especialmente chocante foi o fracasso da ultramoderna barreira eletrônica em disparar o alerta precoce.
É amplamente reconhecido que esse evento marcou uma mudança profunda e qualitativa na natureza das relações israelo-palestinas em todos os níveis.
Nada permaneceu como antes. A raiva, o ódio e a vontade direta de destruir o outro explodiram. Essa passou a ser a equação entre as duas partes, algo que o mundo inteiro viu, filmou e documentou nas telas.
Do lado palestino, apenas uma pequena parcela das elites condenou o ataque do Hamas. A grande maioria das pessoas o viu como um ato de retaliação natural diante da brutalidade e dos abusos do exército de ocupação israelense.
Outros o interpretaram como um confronto entre o fanatismo religioso judaico representado pelo governo israelense e o fanatismo religioso islâmico representado pelo movimento Hamas.
Nesse debate, é útil recordar a visita do secretário de Estado americano Antony Blinken, durante o governo do presidente Joe Biden, a Ramallah e seu encontro com o presidente Mahmoud Abbas.
Blinken apressou-se em pedir que Abbas condenasse o ataque e o classificasse como terrorismo.
Mas o presidente palestino respondeu com voz firme:
“Vocês criaram o movimento Hamas. Vocês o levaram ao poder na Faixa de Gaza. A responsabilidade é de vocês. Não me peçam nada.”
Após esse episódio, os meios de comunicação americanos e israelenses começaram a falar da corrupção da Autoridade Palestina, da necessidade de mudança e da velhice e incapacidade de sua administração, chegando até a questionar sua legitimidade política.
Pouco se mencionou, porém, a realidade de que a construção da paz entre israelenses e palestinos havia sido interrompida desde que a equipe de Benjamin Netanyahu assumiu o poder em Israel sobre as ruínas do governo Rabin-Peres no final do século passado.
E como as administrações americanas, após os ataques de 11 de setembro contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, não conseguiram fazer mais do que ampliar o uso da violência que elimina a justiça e consagra a dominação pela força, enquanto chamavam isso de “processo de paz”, hoje colhemos os frutos das políticas de convivência e instrumentalização do islamismo político em suas vertentes sunita e xiita.
O resultado é essa nova onda de violência que observamos sob títulos antigos e novos, anunciando o redesenho do mapa do Grande Oriente Médio.
E não sabemos quando a guerra finalmente terminará após a liquidação da elite dirigente no Irã, porque a questão já não é quem governa o Irã, mas quem segura as rédeas do mundo na Casa Branca.