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Um Olho sobre el suceso

A situação palestiniana… Gaza

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O povo de Gaza não foi apenas apagado da imagem: também não obteve um cessar-fogo. (Foto SAEED M. M. T. JARAS / ANADOLU / Anadolu via AFP)
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Por Hisham Dibsi
Publicado mar 15, 2026 - 13:49

Gaza é o futuro

A imagem gerada por inteligência artificial para o projeto “Riviera de Gaza” traduz, em toda a sua sedução, o imaginário imobiliário do presidente Trump e de seu genro Kushner. Ela se estende por 365 km² de areias douradas, acariciadas pelas ondas mornas do Mediterrâneo, sob um clima com que sonham os ricos dos países frios.

Nessa imagem, apenas uma coisa está ausente: os proprietários da terra, que não têm lugar na cena que se anuncia, nem mesmo como trabalhadores da manutenção ou da construção civil. É um quadro que lembra os escravos libertos de pele escura que contribuíram, com sua força e seu suor, para construir e manter Washington em seus primeiros anos, e que ainda hoje formam grande parte da população da cidade.

O povo de Gaza, no entanto, não foi apenas apagado da imagem. Também não obteve um cessar-fogo. Os mortos e feridos agora são contados em dezenas por dia, um nível considerado aceitável quando comparado às guerras de extermínio. Assim, do ponto de vista do presidente Trump, a guerra já estaria terminada, e o que o governo Netanyahu conduz não passaria de uma resposta à situação tal como ela se apresenta, sem outra qualificação além de “operações de limpeza”.

Os pais fundadores de Washington merecem, nesse sentido, algum reconhecimento como libertadores de escravos e empregadores de pobres na construção da capital das decisões do mundo. Acabaram se revelando, afinal, mais humanos e mais civilizados que muitos de seus herdeiros contemporâneos.

Mas se deixarmos Washington e voltarmos o olhar para “Jerusalém-Al-Quds”, talvez surja outra imagem, desta vez gerada a partir dos textos da Torá. Uma ampla faixa de políticos e ministros, à frente dos quais estão rabinos radicais, exige do governo Netanyahu a expulsão da população de Gaza para qualquer destino, aceitando a permanência de apenas cerca de cem mil pessoas “selecionadas”, escolhidas a dedo para prestar serviços. Não como escravos de pele escura, mas como “bestas de carga”, segundo a terminologia do texto da Torá, criaturas que o Senhor teria destinado ao serviço dos Filhos de Israel que retornam da errância à Terra Prometida.

Em verdade vos digo: como palestinos, ignorávamos que Deus nos havia criado para essa finalidade e que nossa missão na Terra era servi-los. Se soubéssemos disso… teríamos recusado Sua vontade.

A história de “Gaza é o futuro” não é nova. Ela surgiu no primeiro mandato do presidente Trump, quando seu genro Kushner, segundo ele próprio, examinou todos os planos fracassados para resolver o conflito palestino-israelense, guardados nas gavetas da Casa Branca. Ele acreditou ser capaz de extrair dali um plano viável, que rapidamente anunciou sob o nome de “acordo do século”, uma abordagem baseada na economia que prometia prosperidade aos palestinos, afastando-os do quebra-cabeça político.

O plano propunha que a Faixa de Gaza servisse como base geográfica da solução, à qual se ligariam todas as cidades da Cisjordânia, com exceção de Jerusalém Oriental, que Trump havia anexado a Israel, satisfazendo Netanyahu e seu entorno. O objetivo era livrar os colonos do atrito cotidiano com os não-judeus, os “goim”, e conceder a eles dois terços da Cisjordânia como recompensa por sua paciência diante da população local.

Mas o projeto tinha outra dimensão, que Kushner descobriu em planos elaborados durante o segundo mandato do presidente Obama. Na época, a proposta era chamada de “Estado da Palestina Islâmica” e havia sido negociada com a direção internacional da Irmandade Muçulmana, com o Hamas e com o presidente islamista eleito no Egito, Mohamed Morsi.

O Hamas, que governa a Faixa de Gaza desde o golpe de força contra a legitimidade palestina em 2007, deveria promover esse “Estado da Palestina Islâmica”, que reconheceria o “caráter judaico” do Estado de Israel, um leitmotiv caro a Netanyahu naquele período. Isso abriria caminho para a eventual expulsão de todos os não-judeus portadores da nacionalidade israelense.

O ponto fraco do plano, porém, estava na proposta de ampliar o território da Faixa de Gaza à custa do deserto do Sinai, como compensação pela anexação de dois terços da Cisjordânia. Foi isso que mobilizou o chamado Estado profundo egípcio em seu confronto com o presidente eleito, até culminar em sua destituição.

Foi provavelmente nesse contexto que Kushner tratou de retirar de sua proposta qualquer dimensão ideológica, mantendo apenas o conteúdo econômico e rebatizando o projeto como “acordo do século”, apresentado como promessa de prosperidade para todo o Oriente Médio.

Diante disso, é preciso responder a algumas perguntas que parecem simples, quase ingênuas. Como ignorar o direito à propriedade privada e eliminar sua proteção, justamente ela que constitui um dos pilares da Constituição dos Estados Unidos? Como ignorar o direito de autodeterminação política de um povo que hoje soma quinze milhões de pessoas, metade vivendo em sua terra e metade na diáspora? O que resta das grandes conquistas fundadoras dos Estados Unidos no momento da criação das Nações Unidas? Sobretudo quando o secretário-geral e suas equipes se tornaram alvo diário de Trump e Netanyahu. E qual dos dois mereceria o Prêmio da Paz: Donald Trump ou António Guterres?

O Conselho de Paz

Esse organismo foi criado pela resolução 2803 do Conselho de Segurança com o objetivo de pôr fim à guerra de extermínio em Gaza e administrar a Faixa durante um período de transição cuja duração permanece indefinida, já que isso depende apenas de um acordo entre Washington e Tel Aviv.

O Conselho anunciou suas missões: supervisionar o acordo de cessar-fogo, apoiar a paz e a segurança na Faixa por meio de uma força internacional provisória e mobilizar compromissos financeiros para a reconstrução e a ajuda humanitária.

Como o Conselho não incluía nenhuma personalidade palestina, as negociações para superar esse impasse previram a criação de um comitê administrativo composto por tecnocratas palestinos, dotado de poder executivo sob autoridade do Conselho, a fim de estabelecer uma ligação com a população de Gaza. A Autoridade Palestina legítima havia sido afastada de seu papel natural por causa do veto israelense.

Quando o presidente americano tentou ampliar as prerrogativas do Conselho de Paz além do previsto na resolução da ONU, transformando-o em um mecanismo mais amplo de paz para a região e para o mundo, fora do marco das Nações Unidas e de suas normas, a União Europeia e vários países árabes e islâmicos manifestaram oposição. Eles insistiram na necessidade de respeitar o direito internacional, a representação palestina e a vinculação de qualquer plano a uma solução política global voltada à criação de um Estado palestino.

Pequim também expressou reservas, enquanto Moscou destacou a necessidade de preservar o equilíbrio, defender a legitimidade das Nações Unidas e garantir um papel ativo dos palestinos na gestão do período de transição.

Tudo isso levou ao retorno da Autoridade Palestina à gestão da passagem de Rafah, conforme o acordo de parceria firmado com a União Europeia em 2005. O Conselho de Paz também não encontrou outra solução para assegurar uma força policial interna na Faixa além de recorrer ao aparelho policial palestino reconhecido internacionalmente.

Foi nesse contexto, aceito pelo governo Netanyahu apenas sob pressão americana, árabe e internacional, que o Conselho de Paz realizou sua primeira reunião em Washington em meados de fevereiro passado. Dela resultou a mobilização de cerca de 17 bilhões de dólares, a preparação de um plano de reconstrução para a Faixa, a confirmação do papel do comitê administrativo palestino no plano de recuperação, a consolidação do cessar-fogo e o início da passagem para a segunda fase do plano Trump, dividido em vinte etapas.

Mas onde estamos agora?

No estrondo da guerra com o Irã, quase ninguém presta atenção ao que ocorre na Faixa de Gaza, onde Netanyahu conseguiu bloquear a passagem para a segunda fase do plano de paz, alegando que primeiro seria necessário obter a entrega das armas do Hamas. Isso sem revelar o acordo firmado em Doha e anunciado pelo presidente Trump, segundo o qual o Hamas teria sido autorizado a continuar governando Gaza e a manter seu armamento até a chegada da força internacional.

Enquanto isso, o exército de ocupação amplia sua presença na zona tampão amarela, que agora cobre mais da metade da superfície da Faixa. Também conduz operações militares diárias que empurram os palestinos em direção ao mar, dividindo o território verticalmente de norte a sul ao longo do eixo da rua Salah ad-Din, com menor densidade populacional a leste e muito maior a oeste.

Enquanto a força internacional de manutenção da paz enfrenta dificuldades jurídicas para definir seu estatuto e suas atribuições, e sua formação ainda não se concretizou no momento em que estas linhas são escritas, o governo israelense mantém o ritmo de suas operações militares para remodelar o teatro da Faixa de Gaza de acordo com seus interesses de segurança no longo prazo.

Essa situação reduziu os membros do comitê administrativo palestino a simplesmente permanecerem em seus escritórios pensando em renunciar. O comitê tem sede provisória na cidade egípcia de El-Arish, e Israel proibiu seus integrantes, assim como seu principal responsável, o engenheiro Ali Shaath, de entrar na Faixa de Gaza.

Israel também condicionou a entrada de caminhões de ajuda humanitária à redução de seu número e à limitação de seu conteúdo, exercendo pressão contínua que resulta em escassez de alimentos distribuídos gratuitamente e na proibição de qualquer tenda nova, apesar de 90% das utilizadas já estarem completamente desgastadas.

Além disso, é proibida a entrada de máquinas pesadas para remover os escombros das ruas, o que dificulta deliberadamente a busca pelos corpos de mais de dez mil pessoas desaparecidas sob as ruínas.

Até hoje, nenhum calendário de retirada israelense da Faixa foi anunciado. Pelo contrário, o que se observa é o esforço do exército de ocupação para cortar qualquer ligação entre o comitê administrativo e a população de Gaza, como afirmaram várias personalidades envolvidas no processo.

Na prática, o que ocorre é a transformação da Faixa de Gaza em uma zona tampão israelense, onde a vida dos habitantes de Gaza em “tempo de paz” se mostra ainda mais dura e humilhante do que durante a guerra de extermínio.

Enquanto isso, ocorre uma tentativa de domesticar o Hamas e estabelecer um acordo com seus dirigentes sobre seu papel na próxima fase. Isso permitiria que seu aparato militar, de segurança e administrativo continuasse governando a parte ocidental da Faixa, onde vivem cerca de três quartos da população de Gaza, enquanto se aguardam futuros compromissos cujo conteúdo ninguém conhece se tudo ficar nas mãos de Washington e Tel Aviv.

Ao mesmo tempo, o governo Netanyahu reafirma sua exigência de expulsar os habitantes de Gaza para o deserto do Sinai e sua recusa em permitir que a Faixa recupere sua densidade demográfica, tratando o palestino como uma massa humana sem identidade, sem vontade e sem direito de decisão.

O simples fato do palestino permanecer em sua terra tornou-se uma obsessão existencial para o Estado de Israel. Assim, a operação de 7 de outubro fez explodir as angústias mais profundas, aquelas que levam à eliminação do outro em vez da busca pela paz com ele.

O ódio entre os dois povos nunca atingiu a intensidade que apresenta hoje. Ele assumiu uma dimensão patológica da qual será difícil se recuperar em um futuro próximo.

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