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Política

O “Velho Continente” entre a memória fundadora e o desarmamento civilizacional

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O cardeal Angelo Roncalli (futuro papa João XXIII) durante uma conversa com Robert Schuman, em 5 de fevereiro de 1953. (Roger-Viollet via AFP)
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Por Fady Noun
Publicado jan 19, 2026 - 11:54

A noção de “Velho Continente” remete a uma Europa moldada por uma longa história, pela pluralidade de povos e por uma profundidade espiritual singular. Essa Europa, no entanto, não é uma realidade estática. Ela foi pensada, reconstruída e reinterpretada ao longo do tempo. Duas visões ajudam a medir sua evolução e as tensões atuais: a que surgiu no pós-Segunda Guerra Mundial com Robert Schuman e os democratas-cristãos, e a que hoje é descrita por Chantal Delsol em A Insurreição das Particularidades. Entre esses dois momentos, a Europa passou de um projeto civilizacional baseado na reconciliação para uma crise de identidade marcada pela fragmentação e pela impotência estratégica.

No imediato pós-guerra, o pensamento de Robert Schuman estava enraizado em uma experiência histórica traumática. A Europa saiu sangrada e exausta de duas guerras mundiais que nasceram em seu próprio território. O grito de ordem implícito que então atravessava os espíritos era simples, radical, quase existencial: “Nunca mais”. Nunca mais guerra fratricida, nunca mais nacionalismos assassinos, nunca mais a negação da dignidade humana. Essa recusa absoluta de retornar à barbárie constituiu o fundamento moral do projeto europeu tal como concebido por Schuman, Adenauer e De Gasperi, todos oriundos da tradição democrata-cristã.

Para Schuman, a Europa não era antes de tudo um espaço econômico ou tecnocrático, mas uma comunidade de destino compartilhado, fundada em uma determinada ideia de humanidade. Essa antropologia tinha origem no cristianismo, não como um dogma imposto, mas como uma matriz cultural que moldou a concepção europeia da pessoa, do direito e do poder. É nesse sentido que ele afirmou de forma célebre: “A democracia será cristã ou não será” (1). Longe de confundir fé e política, a frase expressa a convicção de que a democracia não pode sobreviver sem um fundamento moral que reconheça a dignidade da pessoa humana, a responsabilidade, a solidariedade e os limites do poder.

A Declaração de 9 de maio de 1950 encarna concretamente essa visão. A Europa não seria construída por decreto, mas por meio de realizações concretas capazes de criar solidariedades de fato. Não se tratava de abolir as nações, mas de inseri-las em um quadro superior, capaz de neutralizar seus impulsos destrutivos. O “Velho Continente” é assim concebido como uma civilização consciente de suas raízes greco-romanas, cristãs e humanistas, e determinada a transformar sua memória trágica em um princípio de paz duradoura. A democracia cristã oferece, portanto, uma síntese original: unidade sem uniformidade, pluralidade sem confronto, memória sem ressentimento.

Próximo artigo: A Insurreição das Particularidades. Uma Europa desarmada diante da história

(1) René Lejeune, Robert Schuman, Pai da Europa, Fayard, p. 169.


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