


É um grave erro abordar o expansionismo americano e israelense pela mesma ótica, apesar da aparente convergência de seus projetos em momentos regionais cruciais. Confundi-los não apenas obscurece as diferenças estruturais fundamentais, como também nos leva a uma compreensão equivocada da natureza dos conflitos atuais e das formas de controle exercidas em nome da segurança, da dissuasão ou da “estabilidade”.
A expansão, como conceito político-estratégico, não é singular em seus motivos ou ferramentas, mesmo quando conduz a resultados semelhantes. O que une os Estados Unidos e Israel hoje não é um projeto unificado, mas sim uma sobreposição de interesses e um conjunto compartilhado de ferramentas, em um momento de transição no qual o significado de controle e influência está sendo redefinido.
Primeiro: A Expansão Americana… Um Império Sem Mapas
Historicamente, o expansionismo americano não se refere à expansão geográfica no sentido clássico dos antigos impérios ou do colonialismo europeu. Desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos construíram sua influência global sobre uma base diferente: o domínio econômico e comercial como núcleo do poder, e a força militar como ferramenta para proteger essa influência, não como um fim em si mesma.
Washington não busca anexar territórios, nem hastear bandeiras no mapa. O que deseja é:
• Abrir mercados e integrá-los à economia americana,
• Proteger as rotas de abastecimento e energia,
• Impor as regras do sistema financeiro global,
• E controlar as cadeias de suprimentos e a tecnologia.
Nesse sentido, a expansão americana é uma expansão do espaço econômico, não de mapas. Um país pode ser politicamente “independente”, mas é economicamente subserviente, atrelado ao dólar, dependente de instituições financeiras internacionais ou do mercado americano. Aqui, o controle é alcançado sem ocupação, e a influência sem administração direta.
Mesmo a intervenção militar americana, quando ocorre, é frequentemente apresentada como um meio de garantir esse sistema: proteger aliados, prevenir colapsos de mercado, assegurar rotas marítimas ou conter forças que ameaçam o equilíbrio econômico global. Portanto, nos últimos anos, Washington tem tendido a reduzir o envolvimento militar direto sem abrir mão da influência, numa clara mudança da “guerra dura” para a “gestão inteligente de conflitos”.
Segundo: Expansão Israelense… Terra como Identidade, Não como Ferramenta
Em contraste, o projeto israelense baseia-se numa lógica radicalmente diferente. A expansão israelense é ideológica e histórica, onde a terra constitui o cerne do projeto sionista, e não meramente um meio. Da “Terra Prometida” à doutrina das fronteiras fluidas, a geografia permaneceu um elemento de identidade e sobrevivência, e não simplesmente uma esfera de influência.
Nesse contexto, a expansão não pode ser separada da narrativa fundadora de Israel, na qual a terra é apresentada como:
• um direito histórico,
• uma garantia de segurança,
• uma condição para a existência e continuidade do Estado.
Contudo, essa lógica, apesar de seu enraizamento ideológico, entrou em conflito com as realidades políticas, demográficas e de segurança, que tornaram a ocupação direta mais um fardo do que uma vantagem. O controle prolongado do território tornou-se custoso em múltiplos níveis:
• A resistência constante desgasta o exército;
• Os encargos demográficos ameaçam o "caráter judaico do Estado";
• A crescente pressão internacional aprofunda o isolamento político.
Portanto, o projeto israelense não abandonou a expansão, mas sim a redefiniu.
Terceiro: Da Ocupação ao Controle… A Expansão em sua Nova Forma
Na atual transformação israelense, expansão não é mais sinônimo de anexação ou administração direta de terras. Hoje, expansão significa controlar a terra sem ocupá-la — ou seja, mantê-la dentro da esfera de controle, não dentro das fronteiras do Estado.
Nesse contexto, a superioridade aérea e o domínio tecnológico emergem como ferramentas modernas de expansão. Os céus tornaram-se o substituto da terra, e a tecnologia substituiu a administração civil e militar direta.
Este modelo baseia-se em elementos claros:
• Céus abertos sem dissuasão eficaz,
• Inteligência e superioridade tecnológica que permitem vigilância constante,
• A capacidade de atacar quando e onde quiser,
• Imposição de uma sensação reduzida de soberania aos adversários.
Nesse modelo, o território pode não estar oficialmente ocupado, mas, na prática, carece de plena soberania. Decisões de segurança, liberdade de movimento e até mesmo a estabilidade diária permanecem contingentes à vontade da potência dominante no espaço aéreo.
Quarto: Unidade de ferramentas… não unidade de projeto
Aqui, as lógicas americana e israelense convergem, ao menos temporariamente, não porque os projetos sejam idênticos, mas porque as ferramentas de controle moderno tornaram-se compartilhadas. Os Estados Unidos, que gerenciam sua expansão por meio da economia e dos mercados, encontram nesse modelo israelense um meio de controlar a região sem envolvimento direto.
Washington não se opõe à superioridade aérea israelense, desde que:
• Evite uma grande conflagração regional;
• Mantenha os adversários dentro de certos limites;
• Não arraste os Estados Unidos para uma guerra em grande escala.
Por outro lado, Israel se beneficia dessa cobertura americana para consolidar seu modelo de controle remoto, mantendo sua capacidade de dissuasão sem arcar com os ônus da ocupação direta.
No entanto, essa convergência permanece uma convergência de interesses, não uma fusão de projetos. Quando os cálculos econômicos americanos entram em conflito com os impulsos ideológicos israelenses, as diferenças se tornam claramente aparentes, como se vê nos limites da guerra, no momento da escalada e na gestão de grandes crises.
Quinto: O Líbano como Modelo… Soberania Sob o Céu
Essa transformação é mais evidente no caso libanês. O Líbano hoje não é um Estado ocupado no sentido clássico, mas também não é um Estado totalmente soberano. As violações diárias de seu espaço aéreo e a capacidade de Israel de conduzir operações aéreas e de inteligência sem obstáculos reais colocam o país no centro do novo modelo expansionista.
Aqui, não há necessidade de ocupar a terra:
• Os céus são suficientes,
• A tecnologia é suficiente,
• E a equação distorcida da dissuasão é suficiente para impor as realidades políticas e de segurança.
Esta é a expansão em sua forma contemporânea: sem tanques nas fronteiras, mas com controle acima delas. Sem bandeiras hasteadas, apenas uma decisão soberana suspensa.
Controle a custo mínimo… a forma mais perigosa de expansão.
Em última análise, as transformações regionais não podem ser compreendidas sem reconhecer que a expansão não é mais o que era antes.
É isso. A terra não é mais um pré-requisito para o controle, e a ocupação não é mais a única forma de dominação. Estamos diante de uma fase em que os conflitos são administrados com ferramentas menos ostensivas, porém mais profundas e impactantes.
Os Estados Unidos administram sua expansão por meio da economia e do comércio,
e Israel administra a sua por meio do poder aéreo e da tecnologia,
mas o objetivo comum é o mesmo: controle ao menor custo e com a maior influência.
Aqui reside o perigo da próxima fase, pois esse tipo de expansão é menos evidente, mais difícil de confrontar e mais capaz de persistir… sem ser chamado pelo seu verdadeiro nome.