

A sobrevivência do Museu Nacional Libanês é um milagre. Situado na linha de demarcação que dividia a capital entre as partes beligerantes, o edifício foi alvo de tiros e projéteis. Mas o principal museu arqueológico do país, que abriga coleções excepcionais que vão da pré-história ao período mameluco, conseguiu renascer logo após a guerra.
A construção do museu
A ideia do museu surgiu no início do século 20, quando se planejou reunir em um único espaço a coleção de Raymond Weill, um oficial francês destacado no Líbano. O edifício foi construído entre 1930 e 1937, durante o Mandato Francês, graças aos esforços do Comitê de Amigos do Museu, liderado por Bechara El Khoury, então primeiro-ministro e ministro da Educação. A inauguração oficial ocorreu em 27 de maio de 1942, seguindo os projetos dos arquitetos Antoine Nahas e Pierre Leprince Ringuet, em um estilo monumental de pedra ocre inspirado na Antiguidade.
O museu durante a guerra
O Museu Nacional de Beirute ficava em uma área que se tornou linha de frente durante a guerra civil libanesa, devastada por combates intensos. Proteger as coleções contra saques e bombardeios tornou-se uma questão urgente. A tarefa coube ao emir Maurice Chehab, então diretor do museu. Em primeiro lugar, ele garantiu que os artefatos transportáveis fossem guardados em cofres reforçados. As peças monumentais, por sua vez, foram protegidas com sacos de areia; algumas salas foram muradas e esculturas de grandes dimensões, envolvidas em concreto armado. O episódio remete à história de Jacques Jaujard, que salvou os tesouros do Museu do Louvre durante a Segunda Guerra Mundial, lembrando que, às vezes, a boa vontade e a determinação de uma única pessoa podem alterar o curso do que parecia inevitável.
Após a guerra, a partir de 1993, foi lançada uma ampla campanha de restauração, que permitiu a reabertura do museu em 1997, graças ao apoio de patronos dedicados como Mona Hraoui, então primeira-dama e presidente da Fundação do Patrimônio Nacional. Desde então, a modernização das exposições e da infraestrutura do museu segue de forma contínua.
Coleções e peças de destaque
O museu abriga cerca de 100 mil artefatos, dos quais 1.300 estão em exibição, organizados em ordem cronológica, do período Paleolítico ao mameluco. Entre as peças mais emblemáticas está o sarcófago de Ahiram, rei de Biblos, uma obra-prima da arte e da epigrafia que traz uma das mais antigas inscrições conhecidas no alfabeto fenício. Outro conjunto notável reúne 31 sarcófagos antropoides fenícios da chamada Coleção Ford. Alinhados como um “exército de mortos”, esses caixões de pedra se inspiram em modelos egípcios e gregos, preservando, ao mesmo tempo, uma identidade claramente fenícia.
Na entrada do salão central, destacam-se magníficos mosaicos greco-romanos e bizantinos, alguns deles danificados durante a guerra e ainda hoje marcados por cicatrizes. Eles ilustram de forma eloquente o florescimento da arte do mosaico no Líbano durante os períodos romano e bizantino. Os temas vão da mitologia grega e cenas bíblicas a crenças populares e reflexões filosóficas, como o célebre mosaico dos “Sete Sábios”, que representa filósofos como Sócrates; o do “Bom Pastor” ou “Europa raptada por Zeus”; e aquele que celebra “o nascimento de Alexandre, o Grande”.
O solo libanês, de fato, é rico em obras-primas em mosaico. Escavações no centro de Beirute revelaram mais de mil metros quadrados dessas peças, que talvez um dia venham a formar um museu próprio.
O subsolo recentemente renovado do museu é dedicado à arte funerária e a exposições temáticas. Para os fenícios, o túmulo funcionava tanto como morada eterna quanto como suporte físico da memória dinástica e familiar. Os andares superiores dão continuidade a essa narrativa por meio de objetos menores, como estatuetas, joias, moedas e cerâmicas, que ajudam a compreender o cotidiano, a economia e as práticas religiosas ao longo dos séculos. Muitas estatuetas femininas de terracota estão expostas, provenientes de templos dedicados principalmente a Baalat Gebal e Astarté. Essas peças refletem um ideal de beleza associado à fertilidade e ao status social, com atributos femininos, joias e penteados elaborados, evidenciando o papel central das mulheres como encarnações do divino.
Uma ponte entre passado e futuro
Embora o Museu Nacional de Beirute seja um templo do passado, ele também mantém o olhar firmemente voltado para o futuro. Um testemunho dessa visão é o Centro Cultural Nuhad EsSaid, um novo anexo do museu, que será explorado em nosso próximo artigo.