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O Médio Oriente como sociedade anónima: quem assumirá a sua direção?

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Por Nawaf Kabbara
Publicado set 16, 2026 - 19:58

Em 1998, meus alunos me fizeram uma pergunta que, na época, parecia ampla demais para receber uma resposta clara: qual é o futuro do Oriente Médio?

 

Respondi-lhes que acreditava que o Oriente Médio se transformaria em algo semelhante a uma grande empresa, cujo conselho de administração seriam os Estados Unidos, e que o conflito fundamental do futuro não se limitaria mais àquele entre os árabes e Israel, mas também giraria em torno de quem assumiria a direção executiva dessa empresa regional. Acrescentei que os principais candidatos nesse conflito seriam, essencialmente, Israel, o Irã e a Turquia.

 

Quase três décadas depois, parece que estamos no centro desse conflito.

 

A questão central no Oriente Médio já não é apenas quem ocupa um território, quem vence uma guerra ou mesmo quem dispõe do maior poder militar. A questão mais profunda agora é: quem estabelecerá as regras da ordem regional? Quem definirá os limites da influência dos Estados? Quem decidirá o futuro da Síria, do Iraque, do Líbano, do Golfo e do Mediterrâneo Oriental? E quem tem a capacidade de influenciar a tomada de decisões árabe?

 

A região passou gradualmente de uma fase em que o mundo árabe, apesar de sua fraqueza e de suas divisões, figurava entre os atores que moldavam a ordem regional para uma fase em que grande parte desse mundo árabe se tornou palco da disputa por essa ordem regional.

 

É aí que reside a verdadeira tragédia.

 

Do conflito árabe-israelense à disputa pelo mundo árabe

 

Durante a segunda metade do século XX, o principal conflito na região era definido como o conflito árabe-israelense. Vários projetos árabes concorrentes — nasserista, baathista, monárquico e islamista — estavam em curso. Os próprios Estados árabes, quaisquer que fossem as ressalvas a suas políticas, eram atores importantes na definição do futuro da região.

 

Hoje, o mapa mudou.

 

Estamos diante de três grandes projetos regionais: o israelense, o turco e o iraniano, cada um com sua própria visão de seu lugar, de seu papel e dos limites de sua influência. Entre esses diferentes projetos, os Estados árabes atuam individualmente, ora de acordo com seus interesses nacionais, ora em função dos interesses de seus regimes e de suas preocupações de segurança.

 

Portanto, já não existe, propriamente falando, um único «eixo árabe» diante dos outros eixos. Alguns Estados árabes se aproximam dos Estados Unidos, enquanto outros se coordenam com a Turquia. Outros ainda construíram relações estratégicas com Israel, ao passo que alguns mantêm vínculos com o Irã. Por fim, há os que tentam manter relações equilibradas com todos.

 

Nem mesmo os países do Golfo agem mais como um bloco político unificado: cada um deles agora tem seus próprios cálculos, suas próprias relações e suas próprias alianças. Os acontecimentos em curso em 2026 mostram que alguns países da região já estão em busca de novos arranjos de segurança e novas alianças, depois que a confiança na capacidade da ordem regional tradicional de garantir a estabilidade foi abalada.

 

O projeto israelense: do controle do território ao controle do sistema

 

Ao se falar de «Grande Israel», seria equivocado reduzir necessariamente essa ideia a um mapa geográfico preciso, que se estende de um ponto a outro. Certas correntes religiosas e nacionalistas israelenses têm, de fato, visões de expansão territorial, mas o conceito de maior importância estratégica é o de Grande Israel como a principal potência hegemônica no Oriente Médio.

 

Em outras palavras, Israel talvez não precise ocupar todos os territórios para concretizar seu projeto. A forma mais eficaz de dominação poderia consistir em se tornar a potência militar, tecnológica e de inteligência que nenhuma grande decisão regional poderia ignorar.

 

Israel dispõe de considerável superioridade militar e tecnológica, de uma profunda aliança estratégica com os Estados Unidos e de uma capacidade de inteligência e ação militar desproporcional à sua área territorial e população.

 

Nessa perspectiva, enfraquecer as potências regionais rivais e impedir o surgimento de uma potência militar capaz de contrabalançar Israel tornam-se elementos essenciais de sua visão de segurança.

 

Nas últimas décadas, o Irã representou o principal desafio regional a essa visão. Mas o enfraquecimento do Irã não significa necessariamente o fim da disputa pela ordem regional. Pelo contrário, pode revelar o próximo concorrente.

 

E esse concorrente é a Turquia.

 

O projeto turco: influência sem ocupação

 

A Turquia não precisa restaurar o Império Otomano para se afirmar como a potência mais influente de seu espaço geográfico.

 

O projeto turco moderno é muito mais complexo e pragmático.

 

Ancara quer ser o Estado cujos interesses devem ser considerados antes de qualquer decisão relativa à Síria, ao Iraque, ao Mediterrâneo Oriental, ao Cáucaso e, talvez, a grande parte do mundo árabe.

 

Para construir uma ampla zona de influência, apoia-se na economia, no comércio, na energia, na indústria de defesa, no poder militar, na diplomacia e nas relações culturais, bem como em sua posição na OTAN.

 

Seria errado classificar isso, de forma simplista, como «neo-otomanismo». Estudos recentes mostram que a atual política turca está mais relacionada a uma tentativa de construir uma ordem regional a serviço da segurança e dos interesses da Turquia, ao mesmo tempo em que impede seus adversários de moldar o ambiente ao seu redor, do que a uma vontade de reproduzir um império histórico.

 

Mas essa ascensão da Turquia coloca Ancara cada vez mais em confronto com o projeto israelense.

 

Os espaços vitais dos dois projetos se sobrepõem na Síria e no Mediterrâneo Oriental, ao mesmo tempo que se estendem ao mar Vermelho, às rotas comerciais e energéticas, bem como aos instrumentos de influência dentro do sistema político regional. É por isso que as relações turco-israelenses começam a passar de divergências políticas recorrentes para uma rivalidade estratégica cada vez mais estrutural.

 

O projeto iraniano: defender uma esfera de influência em retração

 

O Irã, por sua vez, desde a Revolução Islâmica de 1979, construiu seu projeto regional segundo uma lógica totalmente diferente.

 

Teerã não se limitou a apostar no poder militar convencional, mas também estabeleceu uma vasta rede de alianças políticas, militares e não estatais que se estendia do Iraque e da Síria ao Líbano e ao Iêmen.

 

O componente xiita desempenhou um papel central em muitas dessas redes. No entanto, reduzir o projeto iraniano a um simples «projeto xiita» não explica toda a sua lógica. Trata-se, antes de tudo, do projeto de um Estado que busca constituir uma profundidade estratégica capaz de impedir que seus adversários o cerquem e de lhe proporcionar instrumentos de poder além de suas fronteiras.

 

Esse projeto, contudo, sofreu graves reveses nos últimos anos, enquanto o ambiente regional que lhe permitira se expandir mudou.

 

Hoje, o Irã parece envolvido em uma batalha diferente daquela que travou nas últimas duas décadas. Seu objetivo já não é apenas expandir sua esfera de influência, mas preservar, na medida do possível, o que resta dela.

 

Com os confrontos diretos que marcaram 2026, o conflito entre os Estados Unidos e Israel, de um lado, e o Irã, de outro, atingiu um novo patamar. A crise no estreito de Ormuz, por sua vez, mostrou que o Irã, mesmo sob pressão militar e econômica, ainda dispõe de meios para influenciar a economia e a segurança globais.

 

Depois do Irã, a Turquia será o principal rival de Israel?

 

Chegamos aqui à questão que, a meu ver, será central na próxima fase.

 

Se a capacidade do Irã de competir em escala regional viesse a enfraquecer significativamente, isso não levaria necessariamente a um Oriente Médio estável, dominado por Israel sem um rival real.

 

Muito pelo contrário.

 

Isso poderia levar a um deslocamento gradual do centro da rivalidade regional, de um confronto entre Israel e o Irã para uma disputa entre Israel e a Turquia.

 

A Turquia possui o que o Irã não possuía: uma economia maior e mais diversificada, uma base industrial avançada, uma indústria militar em plena expansão, um exército convencional considerável, a condição de membro da OTAN, uma posição geográfica que lhe permite controlar as portas de entrada da Europa, da Ásia e do Oriente Médio, além de amplas relações econômicas e políticas com o mundo árabe.

 

Israel, por sua vez, poderia enxergar na ascensão de uma Turquia que exerce ampla influência regional um desafio de longo prazo ao seu monopólio da superioridade estratégica na região.

 

O principal obstáculo a uma dominação israelense quase absoluta, uma vez neutralizado o Irã, poderia passar a ser a Turquia, assim como o principal obstáculo a um projeto turco de construir uma vasta esfera de influência regional poderia ser Israel.

 

Essa hipótese já não tem nada de mero exercício teórico. Análises publicadas ao longo de 2026 já mencionam uma transformação das tensões turco-israelenses em uma rivalidade estratégica que se estende da Síria ao Mediterrâneo Oriental e aos corredores do mar Vermelho.

 

E os árabes, em meio a tudo isso?

 

Neste ponto, é preciso fazer a pergunta dolorosa.

 

Onde está o projeto árabe em tudo isso?

 

É verdade que há Estados árabes poderosos nos planos econômico, financeiro e militar, e alguns deles já conduzem uma política externa mais independente e mais ousada. Portanto, seria errado considerar os árabes meros fantoches manipulados por potências estrangeiras.

 

O verdadeiro problema está em outro lugar. Ele reside na ausência de um projeto árabe coletivo para a ordem regional.

 

Há uma política saudita, uma política egípcia, uma política emiradense, uma política catariana, uma política iraquiana e as políticas de cada um dos demais países. Mas onde está a visão árabe comum sobre como deveria ser o Oriente Médio daqui a dez ou vinte anos?

 

Quais são os limites aceitáveis da ingerência estrangeira?

 

Que concepção temos da segurança regional?

 

Como proteger os pequenos Estados árabes para que não se transformem em meras zonas de influência?

 

Qual será o futuro da causa palestina?

 

Que tipo de relação deve ser mantida com o Irã, a Turquia e Israel?

 

E que relação os próprios árabes desejam ter com os Estados Unidos, a China, a Rússia e a Europa?

 

É precisamente a ausência de respostas comuns a essas questões que permite que outros respondam por elas no lugar dos árabes.

 

O presidente do conselho de administração americano

 

Resta o papel dos Estados Unidos.

 

Quando usei, em 1998, a imagem da «sociedade anônima», eu havia dito que os Estados Unidos seriam o presidente de seu conselho de administração.

 

Três décadas depois, a comparação continua válida, mas com uma nuance importante.

 

Washington já não consegue gerir cada detalhe do Médio Oriente como fazia após o colapso da União Soviética. A China afirmou-se como uma grande potência económica na região, a Rússia procurou construir ali influência militar e política, e as potências regionais ganharam autonomia.

 

Mas os Estados Unidos mantêm uma vantagem que nenhum outro ator possui: uma rede de bases, alianças e relações militares e económicas, bem como uma capacidade sem precedentes para influenciar o equilíbrio de forças na região.

 

Os acontecimentos militares entre os Estados Unidos e o Irão em 2026 confirmam-no: apesar dos reiterados discursos sobre a sua retirada do Médio Oriente, Washington continua a ser um interveniente direto na segurança e nas guerras da região.

 

Talvez a «empresa» de hoje seja simplesmente menos disciplinada do que aquela que eu tinha imaginado em 1998. O presidente do conselho de administração continua lá, mas já não consegue manter sob controlo todos os membros do conselho, enquanto cada diretor regional procura aumentar a sua participação e influência.

 

O verdadeiro perigo

 

O maior perigo para o mundo árabe não é que o Irão, Israel ou a Turquia prevaleçam.

 

O verdadeiro perigo é que o mundo árabe continue a aceitar ser o campo de jogo dos outros, em vez de recuperar o seu papel de ator.

 

Pois, quando falta uma força árabe coletiva, cada Estado escolherá a aliança que considera capaz de o proteger: um com os Estados Unidos, outro com a Turquia, um terceiro com Israel, um quarto com o Irão, e um quinto tentará manter-se equidistante de todos.

 

Mas a soma dessas políticas individuais não constitui uma ordem árabe.

 

Cria um vazio.

 

E a política, tal como a natureza, abomina o vazio. Se os árabes não definirem a sua própria visão para o futuro da sua região, outros a definirão no seu lugar.

 

Assim, a pergunta que os meus estudantes me fizeram em 1998 regressa hoje com ainda mais insistência:

 

Quem governará o Médio Oriente?

 

Mas talvez a pergunta que nós, árabes, deveríamos fazer a nós próprios seja ainda mais importante:

 

Queremos continuar a ser pequenos acionistas numa empresa que outros dirigem em nosso lugar, ou queremos recuperar a capacidade de moldar uma ordem regional na qual sejamos verdadeiros parceiros na definição das regras e do futuro?

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