

O saque, em 2003, do Museu Nacional do Iraque resultou na perda de objetos inestimáveis, com um efeito dominó que se manifestou no saque maciço de sítios arqueológicos iraquianos em todo o país. Isso alimentou o tráfico internacional de antiguidades e dificultou fortemente a pesquisa científica nessa área.
Este saque tornou-se um caso emblemático da responsabilidade política das forças de ocupação em tempos de guerra, da estruturação de uma economia focada no tráfico de antiguidades a serviço do crime organizado e do terrorismo, paralelamente a uma “diplomacia de caça” e da colaboração internacional para restituir os objetos roubados.
O Museu Nacional do Iraque é uma das instituições arqueológicas mais importantes do mundo. Abriga o essencial do patrimônio da Mesopotâmia, descrita como o “berço da humanidade”.
O museu foi fundado nos anos 1920, com o nascimento do Estado iraquiano moderno, por Gertrude Bell, escritora e arqueóloga inglesa. Ela queria evitar que os tesouros da Mesopotâmia fossem retirados do país.
O edifício principal, de aproximadamente 45.000 m², abrange 5.000 a 7.000 anos de história e abriga a coleção mais completa de objetos da Mesopotâmia, com coleções das civilizações suméria, acadiana, babilônica, assíria, caldeia, bem como dos períodos pré-islâmico e islâmico.
Lá são encontradas peças importantes (tabuinhas cuneiformes, selos-cilindros, estátuas reais, objetos funerários, etc.) que constituem testemunhos essenciais para a história da escrita, do Estado, do direito e da religião no Oriente Próximo.
Entre esses objetos estão o tesouro de ouro de Nimrud (joias e objetos do século IX a.C.) e as esculturas, relevos e tabuinhas cuneiformes provenientes de Uruk e outros grandes sítios mesopotâmicos. O museu simboliza a unidade nacional do país e a continuidade entre Suméria, Acádia, Babilônia, a era islâmica e o Iraque contemporâneo.
Ele também serve como centro de pesquisa e documentação para arqueólogos, com arquivos essenciais sobre as escavações realizadas em Ur, Uruk, Nínive, Nimrud.
O saque de 2003: desafios geopolíticos
A única palavra que descreve o saque do museu em 2003 é “desperdício” (gâchis).
De fato, as tropas americanas tinham ordem de proteger o museu prioritariamente. No entanto, a proteção só foi garantida uma semana após a entrada das tropas em Bagdá. A semana demais, durante a qual o saque ocorreu.
Entre 10 e 12 de abril de 2003, antes da segurança do local pelas forças americanas e após a retirada do pessoal do Museu, cerca de 15.000 objetos desapareceram: vasos rituais, marfins assírios, cabeças de estátuas, amuletos e mais de 5.000 cilindros-selos…etc.
Este saque chocou a opinião mundial. Constitui um caso emblemático de destruição do patrimônio em tempos de guerra.
Mobilização internacional
Este episódio desencadeou uma mobilização internacional (Interpol, universidades, Unesco, missões especializadas…) para recuperar as obras de arte e reforçar a proteção do patrimônio iraquiano.
Quinze anos após os fatos, as estimativas eram de cerca de 7.000 objetos recuperados dos 15.000 roubados.
Esses objetos foram restituídos através de programas de anistia internos, apreensões alfandegárias e operações policiais em todo o mundo.
Peças emblemáticas recuperadas
Peças importantes como o Vaso e a máscara de Warka, a estátua de cobre de Bassetki ou ainda objetos do tesouro de Nimrud foram encontrados, muitas vezes enterrados ou escondidos por saqueadores que não conseguiram vendê-los.
Algumas estátuas reais sumérias e objetos de culto emblemáticos foram localizados no exterior e, em seguida, repatriados graças à cooperação entre a Interpol, os serviços americanos, museus e pesquisadores.
Apesar da reabertura do museu em 2015 e dos contínuos esforços de restituição, milhares de objetos permanecem no mercado negro ou estão definitivamente perdidos. Isso reduz a compreensão de vastos segmentos da história mesopotâmica.
Este saque de 2003 é agora um caso de estudo nos debates sobre a proteção do patrimônio em tempos de guerra, influenciando as normas militares, o direito internacional e as políticas de proveniência dos museus ocidentais.
É importante notar que existem muitos quadros jurídicos para a proteção do patrimônio em tempos de guerra, incluindo, entre outros, a Convenção de Haia de 1954 e seus protocolos adicionais de 1999, bem como a Convenção da Unesco de 1970.
Por outro lado, a colaboração internacional permitiu estabelecer uma cartografia dos fluxos de saques arqueológicos (rotas, centros regionais, mercados finais…etc.), bem como o papel dos atores econômicos (intermediários, casas de leilão, colecionadores) e suas ligações com a economia criminosa e terrorista.
Essa colaboração internacional desempenha um papel essencial na globalização e proteção do patrimônio, de forma a facilitar a recuperação dos objetos roubados.