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Política

O Levante em turbulência: o Irã preso no turbilhão (3/3)

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Por Jean-Patrick Dayras
Publicado dez 9, 2025 - 10:51

Os dois anos que se seguiram ao ataque do Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, marcaram um ponto de inflexão decisivo não apenas para o Levante, mas para todo o Oriente Médio. Nesse processo de reordenamento regional, o Irã não saiu ileso; pelo contrário, foi profundamente afetado. Diante de turbulências geopolíticas crescentes, a República Islâmica enfrenta hoje um duplo desafio: recuperar o prestígio internacional e, ao mesmo tempo, se reestruturar internamente para se preparar para os diferentes cenários que podem surgir rapidamente no horizonte.

Já não basta recorrer a bravatas na cena internacional. O duplo apoio do Irã aos hutis e ao Hezbollah precisa ser avaliado com cuidado diante dos riscos envolvidos. Entre esses riscos está o que representa o presidente Donald Trump, que, por enquanto, continua sendo a figura mais poderosa no tabuleiro internacional. Se a China, seu principal competidor, o empurrar para uma confrontação direta e feroz, é provável que Trump resolva qualquer disputa de forma a preservar tanto sua reputação quanto sua posição quase inexpugnável. A China, por sua vez, não tem intenção de intervir em um barril de pólvora como o Oriente Médio. Prefere esperar o momento oportuno para tirar proveito da situação.

No plano interno, o Irã precisa adotar medidas preventivas para lidar com qualquer cenário que possa surgir após a morte do Líder Supremo, Ali Khamenei. Três desfechos possíveis estão sobre a mesa.

Primeiro cenário: a hierarquia religiosa designa rapidamente um sucessor e o país segue funcionando como desde 1979. Mas cabe perguntar: os pasdaran, a Guarda Revolucionária, têm realmente outra ambição além de seguir formalmente as diretrizes do Líder Supremo? Não há quem aspire, entre seus quadros, a se tornar o verdadeiro governante do Irã depois de anos atuando como um "Estado dentro do Estado"? E como reagiriam se, diante de um vácuo temporário no topo religioso, a população, especialmente jovens e mulheres, desse um passo adiante rumo a uma revolta ou até mesmo a uma insurreição inicial para reivindicar as aspirações de liberdade do povo iraniano?

Segundo cenário: a autoridade civil assume as rédeas do poder. As decisões e o comportamento do presidente da República Islâmica desde sua chegada ao cargo sugerem que ele aguarda o momento certo. Exemplo disso é a criação recente de um Conselho de Defesa Nacional e o respaldo de alto nível concedido a Ali Larijani, uma figura moderada, dentro do Conselho Supremo de Segurança Nacional. Pode ser uma fórmula transitória destinada a permitir um movimento rápido para assumir o poder. O presidente Massoud Pezeshkian provavelmente espera que a população, sobretudo a juventude e os setores mais ativos, apoie uma intervenção desse tipo. As circunstâncias da morte acidental de seu antecessor, que abriu caminho para sua eleição, despertam inquietações e levantam a suspeita de que possa ter havido um propósito deliberado para promovê-lo e preparar terreno para uma fase de maior moderação.

Terceiro cenário: a população expressa de forma imediata e categórica, se não violenta, seu desejo de mudança na condução do país. O Irã está exausto sob o peso de sanções cada vez mais insuportáveis. O descontentamento se aprofundou devido aos erros do regime em relação às mulheres e aos jovens. Essa frustração se manifesta, entre outras formas, por meio de ações discretas, mas concretas, impulsionadas por iranianos no exterior ou refugiados políticos que atuam nas redes sociais. Um cenário dessa natureza corre o risco de escalar para uma guerra civil. O desfecho seria tão imprevisível quanto inquietante.

O segundo cenário é o mais desejável, embora possa gerar choques entre as autoridades civis e os líderes dos pasdaran. A posição do Exército regular, mais fraco que a Guarda Revolucionária, e das tropas que compõem o núcleo duro dos pasdaran será decisiva. Também será determinante a prudência ou a visão estratégica de longo prazo adotada pelo comando da Guarda.

Quanto ao terceiro cenário, trata-se da possibilidade que ninguém deseja, nem na região, nem no Ocidente, nem na China. Ainda assim, um movimento popular de grande escala poderia ser cooptado rapidamente pelo presidente, o que, na prática, colocaria a situação de volta no segundo cenário. Isso significa que o pior desfecho não é inevitável.

Por enquanto, o Líder Supremo continua firme no comando. Ele tenta fortalecer e consolidar o sentimento nacional sem abrir mão do controle, mas exercendo-o de forma calculada e racional. Resta saber se é possível sustentar uma política de "mão de ferro em luva de veludo" e, ao mesmo tempo, preservar uma nação forte e unida.

Nesse duplo contexto, interno e regional, é pouco provável que as figuras-chave do regime estejam realmente concentradas nos hutis e no Hezbollah enquanto Ali Khamenei enfrenta fragilidade política e pessoal, além de ameaças israelenses. Se estivessem, já teria chegado a hora do Hamas e do Hezbollah.

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