


A ruptura parece consumada, ao menos no estágio atual, entre o presidente da República, Joseph Aoun, e o Hezbollah. Em resposta à campanha conduzida contra ele por setores do partido pró-iraniano, que praticamente o classificam como “traidor” por causa das negociações diretas iniciadas com Israel, o chefe de Estado respondeu na segunda-feira, sem rodeios, diante de uma delegação de Arkoub e Hasbaya. Ele afirmou, de forma oportuna e franca, em clara alusão ao Hezbollah, que “a verdadeira traição é a cometida por aqueles que arrastam o país para a guerra para servir interesses estrangeiros”.
É a primeira vez em muitos anos que um presidente da República ataca de forma tão direta a linha de conduta do Hezbollah. A tensão entre o poder e o partido pró-iraniano surgiu abertamente quando o Executivo pediu expressamente ao Hezbollah que não se envolvesse em uma eventual guerra que pudesse ser desencadeada contra o Irã, afirmando que reagiria de maneira muito firme caso a organização seguisse esse caminho. O Hezb ignorou o alerta do governo e, na madrugada de 2 de março, ou seja, 48 horas após o início do ataque americano-israelense contra o regime dos aiatolás, em 28 de fevereiro, tomou a iniciativa de abrir a frente do sul do Líbano ao lançar seis foguetes contra o norte de Israel, muito provavelmente por instigação da Guarda Revolucionária iraniana.
No dia seguinte ao início das hostilidades por parte do partido xiita, o Conselho de Ministros decidiu considerar ilegal a estrutura miliciana e de segurança do Hezbollah. Desde então, a tensão não parou de crescer entre o governo e o aliado dos Pasdaran, especialmente após a decisão do presidente Aoun de iniciar negociações diretas com Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Essas conversas diretas foram duramente condenadas pelo Hezbollah e, ainda nesta segunda-feira, 27 de abril, o secretário-geral do partido pró-iraniano, xeque Naïm Kassem, pediu ao governo que interrompesse as negociações diretas com o Estado hebreu. Ele aproveitou a ocasião para reiterar sua recusa em entregar as armas de seu partido ao Estado, reafirmando que “a resistência continua”.
Nas redes sociais, apoiadores do Hezbollah praticamente se descontrolaram contra o presidente Aoun, chegando inclusive a fazer ameaças contra ele e acusando-o de conivência com Israel por causa das negociações diretas.
Foi nesse contexto tenso que a aviação israelense prosseguiu na segunda-feira com seus bombardeios contra a infraestrutura e posições do Hezb no sul do Líbano. Nesse sentido, a emissora pan-árabe El-Hadath informou na segunda-feira que o partido xiita pediu aos moradores da região de Nabatiyeh que deixassem suas casas, pois pretende transformar a área em campo de batalha contra Israel.
O braço de ferro com o Irã
Na frente do conflito no Irã, o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, viajou a Moscou para consultas com os dirigentes russos. Essas articulações diplomáticas, no entanto, não se refletem em uma distensão nas negociações diretas entre americanos e iranianos, que pareciam na segunda-feira em impasse total, devido ao fato de que a parte iraniana, orientada pelos Pasdaran, impõe novas condições ao diálogo. Entre elas, o pagamento de compensações financeiras ao fim da guerra, o reconhecimento do direito do Irã de enriquecer urânio, o fim do bloqueio marítimo imposto pelos Estados Unidos e o adiamento para uma etapa posterior de qualquer discussão sobre o programa nuclear. Condições que refletem, ao que tudo indica, a posição radical dos Pasdaran, que teriam conseguido assumir o controle do centro de decisão em Teerã.
Essa posição dura é denunciada abertamente pelos países europeus. O presidente Emmanuel Macron convidou o regime iraniano a fazer concessões, enquanto o Quai d’Orsay destacou que o Irã “ultrapassou todas as linhas vermelhas” no conflito atual. Ao mesmo tempo, um ministro de Estado britânico ressaltou na segunda-feira que o tráfego marítimo no estreito de Ormuz deve ocorrer “sem entraves e sem imposição de pedágio”, como exige o regime iraniano, em violação das convenções internacionais, segundo as quais o estreito de Ormuz não pode ser objeto de cobrança por se tratar de uma via natural de passagem, não uma obra humana e que, portanto, deve permanecer aberta a todos os navios, sem restrições. Vale registrar, nesse contexto, que o secretário de Estado Marco Rubio declarou na noite de segunda-feira que o Irã quer negociar para “sair do caos em que está mergulhado”.