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Política

"A insurreição das particularidades": uma Europa desarmada face à história

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Vista aérea de edifícios residenciais e uma igreja fortemente danificados em Kostyantynivka, uma cidade na linha da frente na região de Donetsk, em plena invasão russa da Ucrânia. (Polícia Nacional da Ucrânia/AFP)
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Por Fady Noun
Publicado jan 20, 2026 - 14:09

Na primeira parte desta análise, começamos a opor as duas visões da Europa tal como vista pelos seus fundadores, no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, em particular Robert Schuman, e tal como ela existe hoje, privada do seu ímpeto fundador e ocultando as suas raízes cristãs e greco-romanas. Aqui está a segunda parte, que se baseia numa análise da filósofa Chantal Delsol, que acaba de publicar uma obra sobre o «Velho Continente».

Em L’Insurrection des particularités (A Insurreição das Particularidades), Chantal Delsol apresenta uma constatação severa de um afastamento progressivo desse espírito fundador. Segundo ela, a Europa contemporânea substituiu a herança por uma ideologia de neutralidade, a cultura por uma administração, e a antropologia cristã por um individualismo abstrato. Ao pretender fundar-se exclusivamente em normas universais desvinculadas de toda a tradição, ela deslegitimou progressivamente as pertenças concretas – nações, culturas, religiões, modos de vida – que, no entanto, estruturavam o espaço europeu.

Desta evolução nasce o que Delsol chama de «insurreição das particularidades». Os povos e as identidades rebelam-se contra uma Europa percebida como distante, normativa e indiferente às particularidades. Onde Schuman via nas nações mediações necessárias para a paz, a Europa contemporânea tende a considerá-las como sobrevivências a serem superadas. Essa rejeição produz um paradoxo: ao querer abolir as diferenças em nome do universal, ela provoca o seu retorno sob a forma de tensões, retraimentos identitários e fraturas.

Esta crise cultural é hoje acompanhada por uma grande crise geopolítica, brutalmente revelada pela guerra na Ucrânia. O retorno de um conflito de alta intensidade em solo europeu age como um revelador: a Europa que se construiu na recusa da guerra descobre que também desaprendeu a pensar sobre poder, defesa e conflitualidade. A ilusão de um continente definitivamente pacificado, regido apenas pelo direito e pelo comércio, desmorona-se diante da realidade da história.

O conflito ucraniano destaca os limites das capacidades militares europeias, há muito negligenciadas em nome de um pacifismo que se tornou estrutural. Dependente da OTAN e, em última instância, dos Estados Unidos para a sua segurança, a Europa tem dificuldade em conceber-se como um ator estratégico autónomo. Esta fraqueza militar não é apenas técnica: é o sintoma de um desarmamento mais profundo, cultural e político. Um continente que já não sabe o que é, nem o que quer defender, tem logicamente dificuldade em aceitar a ideia da força.

Esta fragilidade também é evidente noutros dossiers geopolíticos, como os debates suscitados pelas ambições americanas em relação à Gronelândia. O «Velho Continente», outrora centro de gravidade do mundo, parece por vezes voltar a ser um objeto de cobiça em vez de um sujeito soberano da história. Mais uma vez, o enfraquecimento estratégico reflete a erosão da consciência civilizacional.

Para Chantal Delsol, a Europa esqueceu o que a tornava singular: a capacidade de articular o universal e o particular. Ao romper com o cristianismo como base cultural — não como religião de Estado, mas como visão do homem e do mundo — perdeu o seu princípio de unidade interna. A insurreição das particularidades não é, portanto, um desvio acidental, mas a consequência lógica desta amnésia.

O confronto entre Schuman e Delsol revela assim uma alternativa decisiva. Onde a democracia cristã do pós-guerra fazia da memória — do «Nunca Mais» — um motor de construção, a Europa contemporânea parece querer fundar-se no esquecimento. Ora, um continente que já não sabe de onde vem, nem o que queria evitar, torna-se vulnerável, tanto a nível interno como face às relações de poder externas. Talvez a guerra na Ucrânia convide, tragicamente, a redescobrir a intuição fundadora de Schuman: uma Europa consciente dos seus limites, fiel às suas heranças, capaz de unir sem apagar, de se defender sem renegar a alma que a fez nascer e a história que a moldou.

Artigo anterior:

O "Velho Continente" entre memória fundadora e desarmamento civilizacional

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