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A ilusão dos “túneis fortificados” e a cegueira dos dados

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Por Mona Fayad
Publicado ago 4, 2026 - 12:26

Como compreender que, apesar da existência desse outro Líbano sob a terra, o Hezbollah tenha sofrido uma derrota de tamanha magnitude, perdido fileiras inteiras de combatentes e provocado a morte e o deslocamento dos habitantes do sul do Líbano? Chegou, inclusive, a alterar e fragmentar a própria geografia do país.

Um discurso de Hassan Nasrallah, no qual afirmou que procurava o soldado israelense “com uma lamparina e um pavio”, revelou-me não apenas um exagero político passageiro, mas toda uma arquitetura da ilusão do poder.

Não estamos apenas diante de um descompasso entre o discurso e a realidade, mas de uma falha mais profunda: uma percepção irreal da própria capacidade. O poder que o Hezbollah projetou por meio de sua rede de túneis e de seu vasto arsenal de mísseis não conseguiu “capturar um único soldado” nem alterar as regras do confronto. O resultado é a realidade que vivemos hoje.

Essa contradição não pode ser explicada apenas por erros de cálculo político. Ela revela algo mais profundo: o poder acabou se transformando em discurso, mais do que em um instrumento efetivo de ação. As armas existem, mas a capacidade de empregá-las tornou-se severamente limitada. O paradoxo é evidente: quanto mais o discurso se eleva, mais se revelam os limites da capacidade real.

Mais importante ainda, as decisões do Hezbollah sobre guerra e paz não decorrem exclusivamente do Líbano nem de seus interesses nacionais. Elas estão vinculadas a um eixo regional liderado pelo Irã. Isso explica as hesitações, as contradições em seus comunicados e sua incapacidade de adotar uma posição coerente ou tomar decisões de forma autônoma.

Durante anos, o Hezbollah viveu sob a influência de sua própria narrativa midiática, construída em torno da ilusão do “poder absoluto” e de uma “dissuasão inquebrável”. Essa narrativa foi alimentada pelos sucessos obtidos em conflitos assimétricos anteriores, especialmente na Síria.

Por sua vez, Israel também passou anos exagerando a ameaça representada pelo Hezbollah, por sua rede de túneis e pela dimensão de sua infraestrutura subterrânea, tanto para justificar enormes orçamentos militares quanto para preparar sua opinião pública para a guerra. No entanto, quando o confronto efetivamente começou, os exageros de ambos os lados rapidamente se dissiparam.

O Hezbollah descobriu que suas fortificações e cidades escavadas na rocha não eram as fortalezas lendárias que imaginava. Na realidade, tratava-se de estruturas fixas que poderiam facilmente transformar-se em um fardo, ou mesmo em um túmulo para aqueles que estivessem em seu interior, uma vez isoladas por operações de engenharia e privadas de suas comunicações.

Israel, por sua vez, constatou que desmantelar essas “cidades de pedra” exigia um enorme esforço de engenharia e ampla destruição. Ainda assim, a tarefa era perfeitamente viável enquanto mantivesse superioridade aérea absoluta e operasse sobre um território amplamente esvaziado de sua população civil.

A conclusão é clara: fortificações e redes de túneis são apenas ferramentas materiais. Se não forem sustentadas por um Estado forte, um verdadeiro consenso nacional, uma profundidade estratégica regional disposta a assumir o custo de suas próprias escolhas e uma capacidade tecnológica capaz de rivalizar com a do adversário, essas cidades enterradas sob a rocha deixam rapidamente de ser instrumentos de ataque e surpresa. Transformam-se em posições defensivas isoladas, condenadas a cair no momento em que entram em colapso as linhas de comunicação e a estrutura política que lhes dá sustentação na superfície.

O Hezbollah caiu, assim, na armadilha de seus sucessos anteriores. Partiu do pressuposto de que as táticas que lhe haviam proporcionado um certo grau de dissuasão durante a guerra de 2006 poderiam ser reproduzidas nas condições atuais, ignorando o extraordinário salto tecnológico ocorrido desde então, sobretudo nos campos da inteligência artificial, das capacidades cibernéticas e da tecnologia militar de que Israel passou a dispor.

As redes de túneis e as fortificações subterrâneas já foram verdadeiros santuários. Elas protegiam os combatentes do Hezbollah e suas plataformas de lançamento de mísseis contra os bombardeios aéreos convencionais. Na atual era digital, porém, transformaram-se em verdadeiras armadilhas mortais.

Israel empregou algoritmos de inteligência artificial, drones de reconhecimento equipados com sensores térmicos e avançadas tecnologias de prospecção geológica para produzir mapas tridimensionais extremamente precisos da rede de túneis. Monitorou os movimentos de entrada e saída, ao mesmo tempo em que atacava os sistemas de ventilação e as rotas de abastecimento. Como resultado, as fortificações ficaram completamente expostas e isoladas antes mesmo do início da ofensiva terrestre.

A dependência do Hezbollah de métodos operacionais repetitivos também acabou se tornando uma vulnerabilidade. Seus padrões de comunicação e deslocamento seguiam rotinas previsíveis, exatamente o tipo de comportamento que os sistemas israelenses de inteligência artificial são projetados para identificar. Ao analisar hábitos cotidianos, assinaturas vocais, movimentações logísticas e até os turnos de revezamento dos combatentes, algoritmos preditivos teriam conseguido antecipar seus movimentos. Essa profunda penetração de inteligência tornou qualquer tentativa de emboscada convencional detectável e suscetível de ser neutralizada por ataques preventivos de alta precisão, antes mesmo de as forças israelenses estabelecerem contato direto no terreno.

A isso somou-se uma ampla campanha de infiltração cibernética. Segundo diversas análises, as tecnologias israelenses de inteligência conseguiram penetrar servidores digitais, os smartphones de combatentes e de seus familiares, bem como as câmeras instaladas ao redor de instalações estratégicas, culminando no que pode ser descrito como um verdadeiro “assassinato tecnológico sistemático”, ilustrado pelas explosões dos pagers e dos dispositivos de comunicação sem fio. O impacto dessas operações desorganizou gravemente a estrutura de comando e controle do Hezbollah, além de provocar uma profunda desconfiança em relação a qualquer equipamento eletrônico.

Ao mesmo tempo, o Hezbollah continuava dependente de depósitos fixos de armas e de rotas logísticas tradicionais através da fronteira, enquanto Israel conduzia a guerra por meio de uma verdadeira “nuvem militar digital”, capaz de conectar, em questão de segundos, drones em voo, oficiais de inteligência diante de suas telas e unidades blindadas em combate. Esse nível de integração privou o Hezbollah do fator surpresa que havia sido uma de suas maiores vantagens durante a guerra de 2006.

O resultado militar foi a quase completa paralisação do Hezbollah. A organização não compreendeu que fortificações e redes de túneis não se protegem sozinhas. Sua eficácia depende inteiramente da qualidade do sistema de comando, controle e comunicações, bem como da capacidade de preservar o fator surpresa.

Outra das ilusões do Hezbollah era acreditar que suas fortificações permaneceriam secretas e continuariam surpreendendo o inimigo. No entanto, tudo indica que a penetração da inteligência israelense foi muito mais profunda do que se imaginava. Antes mesmo do início da ofensiva terrestre, o Exército israelense aparentemente já dispunha de mapas detalhados dessas redes subterrâneas, de sua configuração estrutural e de seus principais pontos de vulnerabilidade.

Em última análise, tanto as fortificações quanto os exércitos necessitam de uma retaguarda nacional sólida e coesa. Durante a Guerra de Julho de 2006, o Hezbollah contava com amplo apoio político e popular que transcendia as divisões confessionais. Esse cenário mudou profundamente. O Líbano entrou nesta guerra profundamente dividido, mergulhado em um colapso econômico sem precedentes e com instituições estatais gravemente enfraquecidas.

Uma parcela muito expressiva da sociedade libanesa, pertencente às mais diversas comunidades, considerou que a decisão de entrar na guerra havia sido tomada de forma unilateral, em função de uma agenda regional iraniana, sem consulta ao Estado nem aos demais componentes políticos e sociais do país.

Ao mesmo tempo, a própria base social do Hezbollah, deslocada aos milhares, viu-se diante de uma grave crise humanitária, econômica e social, agravada por um crescente isolamento.

A ausência de um amplo respaldo nacional transformou aquilo que poderia ser apresentado como uma causa de defesa nacional em um conflito percebido como setorial, politicamente isolado e socialmente restrito dentro do próprio Líbano. Essa evolução impôs uma enorme pressão moral sobre os combatentes envolvidos no campo de batalha.

No entanto, o discurso do Hezbollah continua marcado pela mesma arrogância e pela mesma recusa em reconhecer a realidade. Seu problema já não reside apenas na distância entre as palavras e os fatos, mas no fato de que o próprio discurso passou a se desvincular da realidade. Já não há contato direto com o inimigo, nem capacidade de impor o tipo de confronto que continua a proclamar, tampouco qualquer mudança efetiva nas regras do jogo.

Isso deixa claro que aquilo que é apresentado como um poder decisivo não passa da exploração de um capital simbólico inflado, alimentado pela repetição de uma imagem que já não corresponde à realidade. Os sucessos de ontem transformaram-se em mito; o mito tornou-se convicção; a convicção converteu-se em discurso; e o discurso acabou substituindo a própria realidade.

Nesse momento, o próprio arsenal passa a fazer parte do problema. Ele existe, mas já não pode ser empregado da maneira anunciada, porque seu uso efetivo leva imediatamente à sua exposição e rápida destruição. Estamos, assim, diante de uma força que só preserva seu valor enquanto permanece sem ser utilizada, uma contradição profundamente destrutiva.

A isso se soma o fato de que esse discurso está inserido na lógica de um eixo regional liderado pelo Irã, o que acrescenta mais uma camada de distanciamento em relação à realidade libanesa.

No cerne da questão está uma estrutura mental que produz a ilusão e a reproduz continuamente, mesmo quando os fatos em campo a desmentem.

Uma ilusão organizada, administrada, alimentada e imposta como substituta da verdade, até que volte a ruir, mais uma vez, às custas da terra e de seu povo… “até que Deus cumpra um desígnio que já estava decretado.”

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