

Entre 1984, de George Orwell, e O Estrangeiro, de Albert Camus, existe um fio comum em sua descrição do instrumento de controle, ou melhor, da estrutura geral de dominação, e do que vem acontecendo no Líbano, especialmente nos últimos anos, desde que o poder se consolidou nas mãos do Hezbollah e sob seu comando.
Há uma estranha convergência entre o universo de Orwell e o de Camus, embora à primeira vista pareçam tão diferentes um do outro: o mundo da opressão externa em Orwell e o mundo do absurdo e do distanciamento existencial em Camus.
Em Orwell, o indivíduo está submetido a uma vigilância externa absoluta. O Grande Irmão não vigia apenas os comportamentos; ele tenta se apropriar da própria consciência. O objetivo não se limita à obediência, mas chega ao ponto de eliminar qualquer possibilidade de dissidência interior. A liberdade é ameaçada de fora para dentro, e o indivíduo, Winston, busca recuperar sua própria identidade por meio da rebelião.
Em Camus, a situação é quase inversa. Nenhuma autoridade totalitária visível vigia o protagonista Meursault. O problema não é uma vigilância externa, mas um vazio interior. Meursault não “se rebela” porque simplesmente não vê nada que mereça oposição. Ainda assim, a sociedade não tolera essa neutralidade: ela o julga não apenas por seu crime, mas por sua falta de conformidade emocional, por não ter chorado no funeral de sua mãe.
Em 1984, a sociedade impõe uma vigilância total e o indivíduo tenta escapar dela para recuperar sua humanidade. Em O Estrangeiro, o indivíduo não se submete espontaneamente às normas estabelecidas, e a sociedade exerce sobre ele uma vigilância retroativa para trazê-lo de volta ao “comportamento adequado”.
Em outras palavras, Orwell descreve uma sociedade que previne a dissidência antes que ela aconteça, enquanto Camus descreve uma sociedade que a pune depois que ela se manifesta. A opressão em Orwell é política e institucional; em Camus, é moral e social.
No universo de Orwell, o indivíduo não pode se afastar da norma, porque a vigilância é ao mesmo tempo preventiva e total. E, se ainda assim se afasta, como faz Winston, será integralmente reformatado, obrigado a amar o próprio poder. Essa “restauração” é ainda mais aterradora porque não consiste em um retorno ao comportamento comum, mas em uma recriação do ser humano por dentro.
Nas duas obras, a sociedade não suporta o afastamento do “modelo” e, por isso, exerce uma vigilância cuja finalidade última é trazer o indivíduo de volta à norma, seja por meio da persuasão coercitiva, em Camus, seja por meio de uma reprogramação completa, em Orwell.
Em Camus, a norma é moral e social, e o que se exige é sentir da maneira correta. Em Orwell, a norma é política e ideológica, e o que se exige é pensar da maneira correta. Os dois universos formulam algo profundamente inquietante: o problema não está apenas no comportamento, mas no fato de que a sociedade aspira a unificar a própria interioridade humana, os sentimentos ou os pensamentos. Meursault é condenado porque não sente como deveria; Winston é destruído porque não pensa como deveria.
Se substituirmos agora a palavra “sociedade” por “Hezbollah”, não descobrimos que esse partido realizou a forma de opressão descrita por Orwell em 1984, ao mesmo tempo em que trata seus partidários e defensores da maneira como a “sociedade” trata Meursault no romance de Camus?
Aplicada ao Hezbollah, essa chave de leitura revela que o partido promoveu uma recomposição da consciência coletiva, por meio da persuasão, da identidade e da narrativa, em um registro próximo do “Orwell simbólico”, ao mesmo tempo em que recorre à punição direta diante da recusa, algo mais próximo do “Camus concreto”. Ele chegou a acrescentar à vigilância uma dimensão religiosa, a da acusação de apostasia e de ruptura com a fé. E sua vigilância dos comportamentos sociomorais se assemelha ao que encontramos em Camus: ela chega a proibir a expressão de certas formas de luto, já que “o mártir ascendeu aos céus com alegria”.
O que é mais temível do que a morte é ser reformatado a ponto de deixar de se perceber como distinto do poder ou da comunidade.
É precisamente nesse ponto que Orwell e Camus se encontram no método praticado pelo Hezbollah: o primeiro ao expressar a destruição da interioridade, o segundo ao expressar a punição daqueles que se recusam a se enquadrar no “modelo traçado”, por meio da cultura do sahsouh (N.T.: punição infligida a qualquer pessoa que se atreva a expressar uma opinião contrária às forças dominantes).
Compreende-se então que a dominação do Hezbollah sobre uma grande parte da comunidade xiita e sobre alavancas essenciais do Estado libanês não foi resultado de um único fator simples, nem pode ser explicada apenas pela força militar ou pela legitimidade popular. O que ocorreu foi fruto de uma acumulação histórica complexa, que combinou violência, enquadramento identitário e recomposição interna da sociedade.
Para compreender esse percurso, é preciso analisar três mecanismos solidamente articulados entre si.
I - A coerção: fundação do poder e imposição de fatos consumados
Nos anos 1980, no contexto da guerra civil libanesa, o confronto não era apenas político: tratava-se de uma luta pela existência e pela hegemonia dentro da própria comunidade. Esse período foi marcado pela eliminação ou marginalização de correntes intelectuais e militantes, como Hassan Hamdane, Hussein Mroué e outros, inclusive entre os resistentes de orientação comunista, de esquerda ou liberal. Também ocorreram confrontos entre o Hezbollah e outras forças xiitas, especialmente o movimento Amal, no que ficou conhecido como a “guerra entre irmãos”. O Hezb recorreu à violência, aos sequestros e à dissuasão direta tanto contra o ambiente libanês quanto contra estrangeiros, incluindo atentados contra embaixadas, tomadas de reféns e outros atos semelhantes. Além disso, impôs determinados comportamentos pela força ou pela ameaça em diferentes comunidades.
Isso significa que o Hezbollah não surgiu em um ambiente de “adesão livre”, mas em um ambiente parcialmente reconfigurado pela coerção. Estamos diante do que poderíamos chamar de fase orwelliana fundadora, na qual as fronteiras são primeiro impostas antes que a legitimidade seja construída.
II - O controle social, ou a transformação da coerção em “comportamento natural”
Após a consolidação da hegemonia, ocorreu a transformação mais decisiva: já não se tratava apenas de controlar, mas de recompor a sociedade por dentro.
Esse processo aconteceu por meio da imposição de normas de comportamento religioso, social e cultural, por tentativas de impor o véu mediante ameaças de desfiguração com ácido e, posteriormente, por incentivos materiais, com pagamentos em dinheiro para quem o utilizasse. Em seguida, construiu-se uma divisão rígida entre “resistente” e “traidor”, entre “conforme” e “desviante”, enquanto uma intensa pressão social recaía sobre os dissidentes, variando de ataques à reputação a isolamento e à acusação de traição.
Nesse estágio, a opressão já não era necessariamente direta; ela havia se tornado difusa, integrada ao próprio tecido social. A sociedade começava a vigiar seus próprios membros. É aqui que reencontramos a lógica camusiana: o indivíduo não é punido apenas pelo que faz, mas por sua recusa em se conformar ao modelo coletivo.
III - A construção da estrutura que produz convicção e identidade
A etapa mais decisiva para o sucesso desse modelo foi a construção de uma narrativa poderosa, capaz de dar sentido a tudo o que veio antes.
Essa narrativa baseava-se na ideia de resistência e dignidade, na proteção da comunidade contra ameaças externas, na valorização do sacrifício, do sofrimento e do martírio, e na fusão entre o religioso, o político e o identitário. Paralelamente, foram criadas redes de serviços sociais, instituições educacionais, de saúde e culturais, além de uma arquitetura de solidariedade interna, visível na multiplicação de ocasiões religiosas e na criação de ritos e costumes amplamente importados do Irã.
Foi então que ocorreu a transformação decisiva: a passagem de uma sociedade submetida para uma sociedade convencida, ao menos em parte. É em Erich Fromm que encontramos a explicação para esse comportamento: o ser humano não foge apenas da opressão; às vezes escolhe a conformidade porque ela lhe proporciona um sentimento de segurança e pertencimento.
IV - O recurso à coerção e à repressão política
Apesar do sucesso do controle social e da construção de um conjunto de convicções, a coerção política permaneceu presente nos momentos de crise. Ela se manifestou por meio de acontecimentos internos decisivos, como os de 2008, através de um ambiente de assassinatos e intimidação política que vai do martírio de Rafic Hariri ao de Lokman Slim, e pelo fortalecimento de linhas vermelhas intransponíveis, como os Acordos de Doha, o chamado terço de bloqueio e as camisas negras.
Esses momentos cumprem uma função fundamental: recordar permanentemente que a força continua presente. O equilíbrio é mantido, assim, entre a convicção de um lado e o medo do outro.
V - Como se constituiu o “consentimento aparente”?
O que parece ser um “consentimento” dentro desse ambiente não pode ser simplificado: trata-se do resultado de um entrelaçamento de fatores complexos. Convicção genuína em uma parte da população, adaptação em outra, medo ou silêncio em outros segmentos, além da ausência de alternativas críveis que completem esse quadro. O “consentimento” é, na realidade, uma estrutura composta, e não uma posição única e homogênea.
Ao final desse longo percurso, chegamos a uma situação em que o partido já não domina apenas pela força, mas por meio da identidade e da estrutura através da qual o indivíduo compreende a si mesmo, seu sofrimento e suas escolhas, percebendo-os como lógicos, legítimos e dotados de sentido. A sociedade passa então a participar parcialmente da reprodução dessa hegemonia por conta própria. A partir desse momento, o controle deixa de ser apenas externo para tornar-se também interno.
O que se passa hoje?
As transformações recentes, sob a pressão dos acontecimentos regionais e da violência externa, fizeram surgir uma distância entre a narrativa e a realidade, questionamentos internos que permanecem em sua maioria silenciosos e reavaliações não declaradas. Em contrapartida, o perigo externo continua reforçando a coesão, enquanto a pressão social impede uma ruptura aberta.
Vivemos, portanto, uma fase de abalo silencioso, sem que uma transformação clara e definitiva se desenhe no horizonte.