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O fim do Irã, oscilando entre o Estado e a Revolução

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Por Mona Fayad
Publicado mar 4, 2026 - 06:32

Durante muito tempo vivemos à sombra do poder imaginário da propaganda iraniana, ou melhor, da propaganda do chamado eixo da resistência, que transformou o Irã em uma grande potência coesa e intocável. Os acontecimentos demonstraram que existe um abismo entre o poder real e o poder narrativo. Isso já havia ocorrido com o Hezbollah: muitos acreditaram na imagem de sua supremacia absoluta.

 

O Irã nos embalou com ilusões por meio de seus partidários e de seu exército midiático, formado por canais de televisão camuflados, jornalistas remunerados, influenciadores digitais e outros atores, difundindo uma narrativa fictícia sobre uma suposta superioridade tecnológica e sobre aliados poderosos que o apoiariam, como China e Rússia, forjando na opinião pública a imagem de um “eixo inquebrável”.

 

O Irã esqueceu que, no sistema internacional, as alianças não são ideológicas, mas utilitárias. É que China e Rússia agem segundo seus próprios cálculos, não de acordo com os desejos dos dirigentes iranianos, portadores de uma ideologia revolucionária.

 

As políticas iranianas tiveram êxito no passado, quando apostavam em ganhar tempo, adiar prazos, manipular adversários, esquivar-se da responsabilidade pelas ações de seus braços armados e formular promessas e compromissos logo renegados. O Irã esqueceu que não poderia ter persistido nessas políticas se elas não tivessem, de alguma maneira, atendido também aos interesses das estratégias americanas e israelenses.

 

A pergunta que se impõe é direta: o Irã é realmente um Estado?

 

Se adotarmos a definição clássica de Estado, baseada no monopólio da violência, na centralização das decisões e na soberania territorial, o Irã é um Estado plenamente estruturado. Mas se considerarmos a definição de Estado moderno como uma instituição racional-burocrática, dotada de uma autoridade central submetida à prestação de contas e cuja finalidade é garantir os interesses de seus cidadãos, a questão torna-se diferente e mais complexa.

 

À luz da análise de Max Weber sobre o monopólio da violência legítima, constata-se que o Irã, enquanto Estado, monopoliza a força, mas a legitimidade encontra-se dividida entre instituições republicanas e uma estrutura revolucionária e supraconstitucional, representada pelo Guia Supremo, pelos Guardiões da Revolução e pelos Basij. O regime, portanto, carrega duas naturezas: Estado e Revolução. É dessa dualidade que nasce uma tensão permanente.

 

Quando revoluções se transformam em Estados, enfrentam um dilema: permanecer como revolução permanente ou tornar-se um Estado normal.

 

O regime iraniano não resolveu essa questão desde 1979. Emprega o discurso do Estado, mas age como um movimento transnacional. Daí a semelhança entre o comportamento do regime e o de seu partido: não porque o Irã não seja um Estado, mas porque mantém o elemento doutrinário acima da lógica estatal, considerando a proteção do regime como “o mais obrigatório dos deveres”. O Estado afirma ser uma entidade soberana; a Revolução sustenta ser um projeto que transcende fronteiras. Essa duplicidade impede uma estabilidade plena.

 

O que o Irã pratica em suas relações com o entorno regional e com o mundo é uma forma de guerra de guerrilha dotada de mísseis balísticos, conduzida por forças aliadas que mobiliza em diferentes países da região, baseada na lógica da guerra assimétrica. Essa é a racionalidade dos movimentos revolucionários.

 

O Estado clássico responde diretamente por meio de seu exército, dentro de equações claras. Já o modelo de forças por procuração gera uma opacidade deliberada que permite negar responsabilidades. Mas a opacidade é uma arma de dois gumes: quando é desvendada, transforma-se em confusão no comando e em contradição nas mensagens.

 

A tudo isso soma-se o fato do Irã ter se afastado de sua própria realidade interna e de suas necessidades. Muitas análises concentram-se em mísseis e alianças ideológicas, esquecendo o interior do país, suas fraturas sociais, a rebelião das mulheres, as aspirações de uma geração jovem distinta, o desgaste econômico e a legitimidade enfraquecida.

 

Um Estado forte não se mede apenas por seu arsenal, mas por sua capacidade de integrar sua sociedade.

 

A narrativa histórica converteu-se em fardo, passando de recurso a obstáculo no qual o próprio regime se aprisionou.

 

Essa narrativa conferiu sentido ao regime, garantiu sua continuidade e preservou sua identidade religiosa e confessional por meio de mobilização permanente.

 

Com o tempo, porém, tornou-se entrave, ao impedir qualquer reavaliação, ao tratar todo recuo como traição e ao sacralizar símbolos e políticas, elevando-os acima da realidade concreta, em vez de submetê-los ao debate e à revisão conforme as necessidades da sociedade.

 

Assim, a Revolução transformou-se em um peso que a sociedade iraniana já não é capaz de suportar. E decidiu-se prescindir dos serviços desse regime.

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