


No último Conselho de Ministros, na quinta-feira passada, bastou que Nawaf Salam evocasse a desmilitarização da capital para que os ministros da Saúde e do Trabalho (representando o Hezbollah) reagissem e se opusessem.
Ironia e aberração.
A ironia é que as pastas ministeriais concedidas ao Hezbollah são aquelas que estão diretamente preocupadas com as consequências dramáticas de uma guerra: os ataques de fato provocam a estagnação do mercado e a multiplicação de feridos e mortos.
A aberração é que ministros de um governo se recusem a que o Estado tenha plena soberania, no mínimo, em sua capital, e prefiram o reinado do caos e dos grupos paramilitares ao das instituições públicas.
Não há nada de surpreendente nessa atitude, a partir do momento em que esses ministros pertencem a um movimento político-miliciano que nega a própria ideia de nação libanesa.
O exemplo mais marcante é o desse «professor» que explica a crianças pequenas que fugiram do Sul, na calçada de Beirute, os símbolos da bandeira do Hezbollah, enquanto suas casas ainda ardem.
A ausência de civismo, a divisão cultural, a adesão a uma doutrina religiosa… todos esses elementos levam hoje uma parte dos libaneses a se alinhar com os preceitos de um país estrangeiro, no caso a República Islâmica do Irã.
O pior é que essa atitude que consiste em querer desestruturar as instituições de direito e erradicar a noção de Estado soberano não é exclusiva de uma comunidade religiosa: se é verdade que a maioria dos xiitas ainda está filiada ao Hezbollah, também há sunitas, cristãos e drusos que pensam da mesma forma, por covardia ou por interesse, ou ainda por convicção. E é aí que a ferida dói.
E devido à incapacidade da mais alta hierarquia do Estado de realmente implementar as decisões prometidas e promulgadas, seja por complacência (ou mesmo medo) em relação ao presidente, por cumplicidade com o presidente do Parlamento, ou por falta de meios no caso do primeiro-ministro, o cisma entre os libaneses se acentua.
É assim que a triste constatação se impõe: nosso país não é uma mensagem de coexistência, mas, no máximo, um mosaico, onde todas as peças se insultam e se vigiam, sustentadas por um verniz rachado. A partir daí, evocar hoje uma possível paz com Israel é uma utopia, pois, além das fraturas internas, é preciso nomear claramente as forças que as alimentam. O Hezbollah e seus aliados políticos, ao se agarrarem a uma lógica de milícia e de alinhamento regional, impõem ao Líbano uma agenda que extrapola o interesse nacional e impede qualquer consolidação de um Estado soberano.
Ao manter uma dualidade no nível do poder, entre instituições oficiais e força paralela, bem como ao manter uma esquizofrenia no exercício do poder, devido à concorrência entre seus vértices, eles tornam ilusória qualquer estabilidade duradoura e, por extensão, qualquer paz crível.
Nenhum acordo com o exterior pode subsistir quando, internamente, alguns atores continuam a privilegiar o confronto, não como um direito à oposição, mas um confronto armado que é o próprio fundamento de sua existência política….