


Na Síria, a questão já não é mais se o regime de Bashar al-Assad poderia sobreviver. Esse capítulo está encerrado. O verdadeiro debate se deslocou para outro ponto: o país conseguirá, após o colapso do antigo regime, reconstruir um Estado unificado e viável ou o risco de desintegração e partição ainda persiste, apenas assumindo novas formas?
A queda do regime de Assad no fim de 2024, seguida da ascensão de Ahmad al-Chareh durante o período de transição, marcou uma virada decisiva no cenário sírio. Embora essa ruptura não tenha, por si só, encerrado a crise, ela redesenhou profundamente seus contornos políticos. A discussão deixou de girar em torno do destino de um regime e passou a tratar do próprio futuro do Estado.
Primeiro: o que realmente mudou desde Assad?
O colapso do antigo regime não significou apenas uma troca de liderança. Representou a queda de um sistema inteiro, baseado em:
uma estrutura de partido único,
amplos aparatos de segurança,
forte centralização,
e alianças externas sólidas, sobretudo com Irã e Rússia.
A fase de transição, conduzida por Ahmad al-Chareh, tem sido marcada por uma mensagem radicalmente distinta: o objetivo não é restaurar um regime, mas reconstruir o Estado. Nesse sentido, a antiga Constituição foi revogada, o Partido Baath dissolvido, os antigos aparatos de segurança desmantelados e iniciou-se a reconstrução das instituições estatais sobre novas bases, ainda frágeis.
Mais significativo ainda foi o fato de a nova liderança deixar claro, desde o início, que a unidade da Síria não é negociável. Mais do que um slogan, houve a rejeição explícita a qualquer debate sobre partição ou sobre a criação de uma federação baseada em comunidades. Trata-se de uma escolha política concreta.
Segundo: o risco de partição foi eliminado?
A resposta precisa é que o risco diminuiu, mas não desapareceu.
No auge da guerra, especialmente entre 2012 e 2016, a partição era uma possibilidade real. A ideia de uma “Síria útil”, os mapas de mini-Estados e as divisões claras entre zonas de influência transformaram o desmembramento do país em um projeto seriamente considerado no plano internacional.
Hoje, o cenário é diferente por vários motivos.
A existência de uma nova autoridade central com legitimidade transitória
Ahmad al-Chareh não herda o antigo regime. Ele busca construir uma nova legitimidade, sustentada por um engajamento cauteloso dos Estados Unidos e de países árabes, além de um apoio internacional condicionado.
A ausência de consenso internacional em favor da partição
Atualmente, Estados Unidos, Rússia e potências regionais não veem vantagens em dividir a Síria. Os custos seriam elevados e os riscos superariam amplamente qualquer benefício potencial.
O fracasso da ideia de mini-Estados comunitários
Diante da rejeição da Turquia e do recuo dos Estados Unidos, tornou-se inviável a criação de um mini-Estado alauíta, de uma entidade sunita unificada, de um projeto separatista druso ou mesmo de um Estado curdo independente.
Assim, a partição da Síria deixou de ser vista como uma solução viável e passou a ser encarada como um cenário de colapso, caso o novo Estado fracasse.
Terceiro: a guinada americana e o abandono dos curdos
Uma das mudanças mais significativas no período pós-Assad foi a clara inflexão da política dos Estados Unidos. Washington, que durante anos apoiou os curdos como força de fato no nordeste da Síria, redefiniu suas prioridades.
A mensagem americana foi inequívoca:
não haverá apoio a um projeto curdo separatista;
não será garantida proteção permanente a uma administração autônoma independente;
a prioridade é a estabilidade de um Estado sírio unificado.
Essa mudança empurrou a liderança curda para uma opção antes pouco considerada: a negociação com o novo regime. Foram firmados acordos para a integração gradual das Forças Democráticas Sírias (SDF) às instituições do Estado, a gestão conjunta de recursos e passagens fronteiriças, em troca de garantias sobre direitos culturais e de cidadania.
Isso não significa que a questão curda esteja resolvida, mas ela migrou de uma lógica de separação para uma de integração frágil e incerta.
Quarto: do desmembramento ao retorno da centralização, mas a que custo?
A Síria está passando de uma fase de desmembramento efetivo para uma tentativa de restaurar um Estado central. Essa nova centralização é diferente, ou ao menos deveria ser, daquela que prevaleceu sob o antigo regime.
O principal desafio de Ahmad al-Chareh não é apenas militar, mas também político e social:
como construir um Estado forte sem retornar ao despotismo?
como administrar a diversidade sem implodir o centro?
como afirmar a autoridade estatal sem reproduzir a repressão?
Até agora, os sinais são ambíguos:
houve avanços na retomada do controle territorial,
mas a economia segue frágil,
comunidades minoritárias demonstram apreensão,
e antigas forças, que desfrutavam de ampla autonomia, permanecem desconfiadas.
Em outras palavras, o risco já não é a partição da Síria em mini-Estados, mas o fracasso do novo Estado central em administrar sua diversidade.
Quinto: a Síria está realmente fora de perigo?
A Síria evitou um cenário de partição rápida e caótica, mas ainda não entrou em uma fase de estabilidade duradoura.
A situação pode ser resumida da seguinte forma:
o país escapou do colapso total,
evitou planos de partição comunitária,
e impediu que o desmembramento se tornasse uma realidade permanente.
No entanto, ainda não superou:
o colapso econômico,
a fragilidade da paz civil,
o risco de retorno da violência sob novas formas,
e o teste da legitimidade popular do novo governo.
O Estado sírio existe hoje, mas segue em julgamento.
Sexto: o cenário mais plausível
No curto e médio prazo, o cenário mais provável é o de:
um Estado unificado,
clara centralização política e de segurança,
descentralização administrativa limitada,
integração gradual das forças locais,
e apoio internacional condicionado a reformas e estabilidade.
Esse modelo não se assemelha à Síria anterior a 2011, nem aos cenários de partição. Trata-se, antes, de um Estado que emerge de uma longa guerra e busca se redefinir.
O sucesso desse cenário depende de um fator crucial: a nova autoridade de transição se tornará um Estado unificador ou será apenas mais uma forma de poder forte, desprovida de um contrato social?
A queda do regime de Assad encerrou um capítulo, mas abriu outro ainda mais difícil. A Síria enfrenta agora uma rara oportunidade histórica: superar a lógica do antigo regime sem cair na armadilha do desmembramento. O perigo da partição já não é iminente, mas tampouco foi completamente eliminado. Ele reside no fracasso político, não na geografia.
Em última instância, a questão já não é se a Síria será dividida, mas se conseguirá se tornar um Estado unificado após a queda do regime que, em nome da unidade, governou o país por décadas.