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Sociedade

Estudar em modo degradado: quando a instabilidade vira sistema

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Por Nanette Ziadé-Ritter
Publicado mai 12, 2026 - 11:15

Existem a guerra e o terror que ela impõe. E depois existe o entremeio. Esse estado que não é nem guerra nem paz, menos espetacular, mas mais insidioso, que instala uma tensão contínua e impede qualquer projeção para o futuro. É aí que o desgaste se instala: a motivação se corrói, os recursos se esgotam, o sentido vacila. E o aprendizado não escapa disso. Formatos híbridos impostos, continuidade pedagógica instável, engajamento flutuante: em um Líbano atravessado por turbulências, a universidade parece resistir, mas ao preço de um enfraquecimento silencioso.

O que antes era exceção, passar de um formato a outro, acabou se impondo como norma. Essa é a primeira virada: quando o imprevisível se torna estrutural, ele não apenas desorganiza os estudos, mas redefine suas regras. A continuidade pedagógica, então, se fragmenta. As aulas oscilam entre o presencial e o remoto, às vezes suspensas, quase sempre ditadas pelas circunstâncias mais do que por uma escolha acadêmica. Mas aprender pressupõe uma estabilidade mínima, uma progressão construída ao longo do tempo. Quando isso se desfaz, o conhecimento não é interrompido: ele se dissolve. A universidade deixa de apenas transmitir conhecimento e passa a administrar a instabilidade.

A isso se soma um fator agravante: cada episódio de guerra aprofunda a crise econômica. Para alguns estudantes, isso significa o abandono puro e simples dos estudos; para outros, um recuo forçado para instituições mais baratas, muitas vezes menos exigentes. O percurso acadêmico passa então a ser menos uma escolha e mais um ajuste.

Mas o efeito mais profundo está em outro lugar. Ele é mental. Estudar em um ambiente instável impõe uma vigilância difusa e permanente. Nunca se entra plenamente em um espaço quando se sabe que ele pode desmoronar a qualquer momento. Essa instabilidade captura uma parte considerável dos recursos cognitivos: é preciso se adaptar o tempo todo aos formatos, às ferramentas, aos ritmos. O espírito passa então de uma lógica de aprendizado para uma lógica de gestão. A concentração se fragmenta, e o conhecimento se torna secundário.

Dessa tensão surge uma erosão progressiva da motivação. Estudar pressupõe acreditar em uma continuidade: a dos esforços, dos conhecimentos adquiridos, de um percurso coerente. Quando ela é constantemente reconfigurada, o investimento perde sua clareza. A repetição da passagem de um modelo para outro impede qualquer ancoragem duradoura. O desengajamento que resulta disso muitas vezes é uma resposta racional a um ambiente que se tornou ilegível.

Os efeitos sobre o nível acadêmico são concretos. Um formato híbrido imposto introduz rupturas na atenção, na interação e até mesmo na recepção dos conteúdos. Alguns desistem com mais facilidade à distância; outros têm dificuldade para se readaptar ao presencial. Esse desequilíbrio revela outra fratura: o agravamento das desigualdades. Nem todos dispõem das mesmas condições para navegar entre esses formatos, seja conexão, espaço de trabalho ou autonomia.

É nessa fissura que se instala uma zona mais ambígua. Porque, embora as restrições sejam reais, elas também podem virar justificativa. A nebulosidade do sistema torna mais difícil avaliar o engajamento. Alguns estudantes se apoiam nisso para justificar ausências ou insuficiências. Mas esse desvio não é apenas oportunista: ele também reflete um afastamento progressivo, tornado possível, e até facilitado, por um ambiente que também é instável.

As instituições, por sua vez, caminham sobre uma linha estreita. A hibridização é apresentada como solução; aqui, ela funciona como paliativo. De tanto se adaptar, o sistema corre o risco de corroer suas próprias exigências. E ninguém ignora que a base de qualquer Estado-nação é a educação.

Fala-se em resiliência. Mas de tanto ser invocada, ela acaba escondendo outra realidade: a de uma redução progressiva dos padrões. A questão se torna então mais radical: o que resta do aprendizado quando as condições já não permitem mais se inscrever nele de forma duradoura?

O problema, portanto, não está apenas no acesso às aulas, mas em sua forma e no investimento que elas ainda conseguem despertar. Estudar na incerteza é navegar permanentemente entre formatos instáveis, manter uma atenção dispersa, reconstruir sem cessar um quadro que já não se sustenta sozinho. E, em segundo plano, surge uma pergunta mais brutal: para quê, quando as vidas estão ameaçadas tanto quanto o futuro que elas deveriam abrir?

Nesse contexto, talvez o risco mais profundo não seja o fracasso. Mas a instalação duradoura em um modo degradado, em um nível rebaixado que, com o tempo, acaba se tornando a norma.

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