Logotipo da Levant Time
Voltar ao artigo
Sociedade

Abalo no ensino privado: o emblemático Collège de Nazareth ameaçado de desaparecer

Imagem de notícia
Retrato do autor
Por Michel Touma
Publicado set 18, 2026 - 03:20

A profunda crise do ensino privado no Líbano vem se agravando há vários anos a um ritmo exponencial. A situação piorou ainda mais com o colapso econômico e financeiro de 2019, cujos efeitos ainda não foram superados.

Essa crise abala perigosamente tanto os proprietários dos estabelecimentos de ensino como os professores e, por consequência, os pais. No entanto, as escolas católicas, sobretudo as vinculadas a congregações estrangeiras, enfrentam outro problema de grande dimensão e de natureza completamente diferente: a ausência, cada vez mais acentuada, de novas vocações nas várias congregações, não apenas no Líbano, mas principalmente nos países ocidentais, o que tem repercussões alarmantes sobre as instituições presentes no Líbano, em alguns casos, há mais de um século.

Nesse contexto, surgiu há poucos dias um acontecimento estarrecedor, que deveria ser visto como um sério sinal de alerta e que provocou medo e consternação no meio do ensino católico: o Levant Time apurou, junto de várias fontes seguras e concordantes, que o emblemático Colégio Notre-Dame de Nazareth, em Achrafieh, corre o risco de desaparecer — com tudo o que representa — ou, pelo menos, de ser «descaracterizado» devido a um projeto de transferência para uma congregação libanesa.

Segundo as informações obtidas pelo Levant Time, a decisão de vender o colégio de Achrafieh foi tomada pela alta direção internacional das Irmãs de Nazaré, sediada em Roma. A justificativa apresentada é que a Congregação de Nazaré conta atualmente com menos de 25 religiosas em todo o mundo e, segundo a prática habitual, quando uma congregação tem menos de 25 religiosos ou religiosas em nível internacional, deve associar-se a outra congregação. Por esse motivo, de acordo com informações ainda não confirmadas, estaria sendo seriamente considerada a compra do colégio pelos monges antoninos.

Esse projeto de transferência é contestado pelas seis Irmãs de Nazaré estabelecidas no Líbano. As reações mais veementes surgiram rapidamente entre professores, pais e ex-alunos, que convocaram uma grande manifestação de protesto para sábado, 19 de setembro, às 11 horas, no colégio de Achrafieh. Antes da manifestação, as comissões de professores, pais e ex-alunos enviaram à Madre Superiora da congregação internacional, que reside entre Paris e Roma, uma carta conjunta na qual reafirmam o seu firme compromisso com o Colégio, a sua continuidade, identidade, história e valores pedagógicos.

A congregação está presente no Líbano desde 1868

A forte oposição à venda do Colégio de Achrafieh não é, evidentemente, dirigida de modo algum contra os potenciais compradores. Ela reflete, antes, o apego a uma instituição emblemática, cuja história, tradições, patrimônio e qualidade de ensino remontam a nada menos que 153 anos. As Irmãs de Nazaré estabeleceram-se no Líbano em 1868 — a congregação internacional nasceu na França em 1822.

Em Beirute, assim que chegaram ao Líbano, em 1868, as irmãs foram acolhidas pela família de Freige. O colégio de Achrafieh iniciou o seu primeiro ano letivo em 1873. A instituição, essencialmente francófona, é reconhecida pelo Ministério da Educação francês e oferece há 153 anos um ensino de elevado nível acadêmico, fundamentado em valores cristãos e humanistas que consolidaram a reputação do Colégio e marcaram a juventude do país durante mais de um século e meio. São essa história e essas tradições, esses valores, essa educação singular e essa missão pedagógica pouco comum que estão hoje em jogo.

Qual é a posição do Vaticano e do Estado?

Paralelamente a este apego ao caráter emblemático e histórico do Colégio de Nazaré de Achrafieh, surgem, a vários níveis, diversas questões cruciais que continuam hoje sem resposta. Que destino estará reservado ao colégio de Kfarzeina, na região de Zghorta, que também pertence às Irmãs de Nazaré? E quanto ao convento de Feytroun e à casa de repouso de Aïn Alak, que pertencem à congregação? Estarão estes estabelecimentos incluídos numa vasta operação de alienação, caso esta venha efetivamente a ser concluída em definitivo?

Mais importante, de imediato, é a posição do Vaticano e do Estado libanês. Aceitará a Santa Sé que uma instituição de ensino católica, com 153 anos de história na área pedagógica e escolar, desapareça num momento em que a presença cristã no Líbano enfrenta numerosos desafios a vários níveis? E, sobretudo, qual é a posição do Estado libanês? Até quando continuará a fazer vista grossa perante a profunda crise que o ensino privado no Líbano enfrenta há muitos anos?

A dura provação que a congregação das Irmãs de Nazaré enfrenta hoje no Líbano deveria constituir um sério sinal de alerta tanto para o Vaticano como para o Estado libanês. Está em causa, em grande medida, a especificidade e o pluralismo que distinguem o Líbano nesta parte do mundo…

Artigos relacionados
Ver tudo
Vídeos relacionados
Ver tudo
Podcasts relacionados
Ver tudo