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Mil Platôs

Reancorar os xiitas no projeto libanês

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Por Michel Hajji Georgiou
Publicado dez 19, 2025 - 21:57

A história do xiismo libanês é frequentemente contada de forma invertida ou, pior ainda, achatada por uma leitura teleológica que faz do Hezbollah o desfecho natural de um longo continuum religioso e político. Nada é mais falso. Os estudos sobre os ulemas de Jabal Amel permitem, ao contrário, reconstruir uma genealogia muito diferente, marcada pelo pluralismo doutrinário, por uma relação assumida com o Estado e por uma concepção não teocrática da autoridade religiosa. É precisamente essa tradição que foi rompida.

 

Historicamente, o xiismo ameli inscreveu-se na lógica da wilayat al-umma: uma comunidade de fiéis dotada de autonomia moral e espiritual, mas sem um projeto de dominação política. A escolha da marja‘iyya era livre e plural, frequentemente orientada para Najaf, dentro de uma relação deliberadamente distanciada entre o clero e o poder. Essa tradição reconhecia a diversidade das autoridades religiosas, rejeitava a centralização doutrinária e, sobretudo, não pretendia governar a sociedade em nome do sagrado.

 

A ruptura ocorre com a invenção, por Khomeini, da wilayat al-faqih: uma construção radicalmente nova que não se reduz a um debate teológico, mas representa uma viragem política maior. Ao substituir a pluralidade das marja‘iyyat pela autoridade exclusiva de um Guia Supremo, ao transformar o clérigo em soberano e a religião em ideologia de Estado, o Irã revolucionário rompe com Najaf e impõe Qom como centro imperial. O xiismo deixa então de ser uma tradição religiosa diversa para tornar-se um instrumento de projeção geopolítica.

 

No Líbano, essa implantação não se deu sobre terreno virgem. Os xiitas libaneses sempre aderiram ao projeto do Estado, de acordo com a lógica ameli de inscrição num espaço nacional determinado. Contudo, desde a independência — e mesmo antes — foram marginalizados social e economicamente, mantidos à periferia do desenvolvimento e submetidos a senhorios locais que falavam em seu nome sem jamais emancipá-los. Essa marginalização estrutural explica em parte por que, já nas décadas de 1950 e 1960, uma parcela da comunidade se voltou para partidos laicos hostis ao sistema confessional, como o Partido Comunista Libanês e suas ramificações sindicais e intelectuais.

 

A irrupção do imã Musa al-Sadr marca uma ruptura decisiva. Ele encarnou uma revolta contra a injustiça social e a marginalização sem romper com o Estado como horizonte último. Seu projeto era profundamente libanês — no sentido amplo e não ideológico do termo — mesmo quando se abria às dinâmicas regionais. Não buscava islamizar o Líbano nem arrancá-lo de seu pluralismo, mas integrar plenamente os xiitas como cidadãos de pleno direito. É precisamente essa posição — nem submissa nem instrumentalizável — que explica seu desaparecimento, no momento em que emergia outro projeto, radicalmente antagonista: o da aliança das minorias, ancorado em lógicas autoritárias regionais.

 

Após ele, o movimento Amal deslizou progressivamente, sob Nabih Berri, para a órbita alauíta por meio de seu alinhamento com o regime Assad. O Hezbollah foi ainda mais longe: desde o início dos anos 1980, conduziu os xiitas libaneses em sentido oposto à sua herança ameli, arrancando-os da lógica do Estado e do território e inserindo-os na da wilayat al-faqih, transformando o Líbano em um simples espaço funcional a serviço de um projeto iraniano. A comunidade foi assim satelizada, e não representada.

 

Os xiitas laicos, liberais ou simplesmente libanistas foram então sistematicamente marginalizados: por leis eleitorais feitas sob medida, pela intimidação, pelo exílio forçado ou pelo assassinato — de Mahdi Amel a Lokman Slim. Essa dominação exerceu-se sob as ocupações síria e depois iraniana e foi aceita, por realpolitik, pela comunidade internacional, que desde os anos 1990 conviveu sem dificuldade com o Hezbollah, apesar de seu passado, de suas atividades e de sua verdadeira natureza.

 

Diante dessa hegemonia, o projeto xiita libanista sobreviveu apenas de forma isolada, sustentado por algumas grandes figuras intelectuais e religiosas como Mohammad Mahdi Chamseddine, Hani Fahs e Mohammad Hassan al-Amin, entre outros. Todos defenderam uma visão clara: o Líbano como pátria definitiva, o Estado como finalidade, a convivência como horizonte e a rejeição de qualquer fixação identitária baseada na maioria ou na comunidade privilegiada.

 

Essa escola foi marginalizada por tempo demais. É hora de parar de tentar poupar ou salvar o Hezbollah. O desafio já não é tático, mas estratégico. É preciso permitir a emergência de uma nova elite xiita, moderna, não tradicional, livre de tutelas externas, que tenha feito lealdade ao Líbano — e somente ao Líbano — e que tenha renunciado a qualquer lógica de dominação sobre as demais comunidades. Mas essa exigência não pode ser unilateral. Não se pode pedir aos xiitas que deixem de se comportar como uma tribo em busca de garantias e privilégios se as outras comunidades não fizerem também a sua própria limpeza.

 

A questão xiita não é exclusivamente xiita. No Líbano, os assuntos de cada comunidade são assuntos de todos. Não existem zonas exclusivas nem perímetros de segurança parciais. Existe apenas um perímetro de segurança nacional: o Líbano, dentro de suas fronteiras, de seu projeto e de sua vocação. A solução para a questão xiita é libanesa. Ela passa por partidos e movimentos transversais capazes de romper o perímetro comunitário, sectário e tribal, sem obediência externa. Ainda é preciso aceitar pensar em termos estratégicos, e não em termos de ganhos eleitorais imediatos, num país obcecado por prazos e equilíbrios de poder, em detrimento de seu futuro.

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