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Janela para o desastre

Fazer fila na linguagem

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Por Rita Barotta
Publicado abr 20, 2026 - 17:54

— O que aconteceu?

— Vai acontecer alguma coisa.

— Dizem que vai acontecer alguma coisa.

— Quem é esse “dizem”?

— Não sei. Mas é certo, alguma coisa vai acontecer.

Esse diálogo, em sua brevidade quase banal, não para de se reproduzir, de se difratar, de se reformular ao infinito nas dobras do cotidiano, até ganhar espessura e assumir a consistência de uma verdadeira condição de existência, em que o acontecimento já não circula como fato, mas como possibilidade constantemente relançada, renovada, reenunciada, numa temporalidade que se alimenta de sua própria suspensão.

A fala já não vem dizer o que ocorreu; ela trabalha para manter a iminência, prolongá-la, torná-la habitável, como se sua função já não fosse remeter ao real, mas produzir um espaço no qual o real pode ser adiado sem desaparecer, aproximado sem ser alcançado, nomeado sem jamais se fixar.

É nesse uso da linguagem, nessa insistência rítmica, circular, quase obsessiva, que se inscreve o gesto literário de A Fila, de Vladimir Sorokin (versão árabe, Dar Al-Rafidain, 2023), texto que recusa qualquer centralidade narrativa, qualquer autoridade de enunciação, para dar lugar a uma proliferação de vozes justapostas, entrelaçadas, errantes.

O romance se desdobra como uma camada de falas, uma superfície sonora em que os diálogos, fragmentados e descontínuos, capturam instantes de espera dentro de uma fila interminável, sem jamais revelar nem o objeto dessa espera nem o que se passa à frente. O sentido, então, não se entrega; ele se dispersa, se difrata, se suspende no intervalo entre frases que se roçam sem convergir.

Inscrito no contexto soviético da escassez e das filas de espera, o texto de Sorokin ultrapassa, no entanto, qualquer leitura estritamente referencial. Ele radicaliza a situação a ponto de desprendê-la de seu ancoramento histórico imediato, para transformá-la numa experiência da própria linguagem, numa prova da leitura como resistência.

Ler passa então a ser uma maneira de habitar a fila, de se expor à repetição, ao acúmulo, ao esgotamento progressivo de um texto que não promete nenhuma resolução, nenhum limiar a atravessar, nenhuma chegada a alcançar. O que está em jogo não é tanto a compreensão de uma narrativa, mas a experiência sensível de um tempo que não se abre.

No contexto libanês, a figura da fila não remete a uma simples analogia literária, mas a uma memória densa, estratificada, quase inscrita nos corpos, que remonta aos anos da guerra civil, quando fazer fila diante das padarias constituía uma cena comum, uma maneira de estar preso num tempo incerto, suspenso entre a esperança de conseguir e a possibilidade de faltar.

Ali o tempo se dilatava, escapava de qualquer medida estável, transformando a espera numa prova em que se misturavam tensão, cansaço e cálculos constantemente reajustados diante da imprevisibilidade.

Essa memória não desapareceu; ela foi reativada, transposta, durante o colapso econômico, nas longas filas nos postos de gasolina, onde os corpos, agora fechados dentro dos carros, se alinham e imobilizam, submetidos à mesma incerteza quanto à disponibilidade do recurso, à mesma indeterminação quanto à duração da espera.

Sob o calor ou na escuridão, o tempo volta a se esticar e, com ele, a fala prolifera: entre motoristas, através das telas, na circulação incessante de informações, rumores e suposições, que compõem uma textura linguística densa, saturada, destinada a preencher o vazio deixado pela ausência de certeza.

A partir dessa dupla ancoragem, histórica e vivida, o presente libanês pode ser lido como uma imersão coletiva numa temporalidade da suspensão, em que o presente deixa de ser um ponto de passagem para se tornar uma extensão renovada, reproduzida, trabalhada pela linguagem e pela circulação contínua das expectativas.

Os discursos já não se limitam a acompanhar os acontecimentos; tornam-se seu lugar privilegiado, quase exclusivo, de acesso, de modo que o próprio acontecimento só aparece através de camadas sobrepostas de enunciações que o deformam, deslocam e adiam.

Nesse espaço, as frases que anunciam a iminência se multiplicam sem jamais se resolver, as notícias prometem viradas sem nunca se fixarem, e o futuro se esgota de tanto ser antecipado, consumido em sua forma hipotética, sem conseguir se atualizar.

Disso resulta um regime temporal em que a espera já não conduz ao acontecimento, mas se reconduz a si mesma, se regenera a partir de seus próprios sinais.

Presos nesse fluxo, os indivíduos participam da produção dessa temporalidade por meio do comentário, da análise, da reformulação, de tantos gestos que prolongam a circulação do sentido e contribuem para manter a estrutura que os contém.

As redes sociais, em sua saturação verbal, tornam visível esse envolvimento contínuo, em que tomar a palavra se converte numa maneira de existir dentro do próprio acontecimento, ao mesmo tempo em que o mantém à distância.

A guerra vai continuar? Quem negocia e em nome de quê? A quem pertence a decisão? O Estado ainda se sustenta? E, no fundo, o que significa continuar vivendo?

Essas perguntas não buscam tanto respostas quanto alimentam o próprio movimento de sua retomada, inscrevendo os sujeitos numa dinâmica em que a fala sustenta o real ao mesmo tempo em que revela a impossibilidade de agarrá-lo.

Paralelamente, aquilo que se designa como “a frente” ou aquilo que alguns ainda continuam imaginando como tal permanece inapreensível, dissolvido na multiplicidade das mediações que pretendem oferecer acesso a ele.

Discursos políticos, narrativas midiáticas, comentários incessantes: tantas camadas em que a enunciação oscila entre informação e tagarelice, sem jamais estabilizar um ponto de vista capaz de fixar o real.

Dessa mediação proliferante nasce uma distância entre aqueles que vivem os acontecimentos em sua materialidade imediata e aqueles que os apreendem por meio de sua circulação discursiva, produzindo experiências paralelas, irredutíveis uma à outra, embora se cruzem na linguagem.

A espera, então, já não pode ser pensada como um simples intervalo entre dois momentos, mas como uma forma de organização do presente, uma maneira de absorver a incerteza redistribuindo-a numa série de antecipações sucessivas, tornando o tempo habitável apesar de sua indeterminação.

Ela se torna a própria condição de um equilíbrio frágil, fundado na capacidade de permanecer no adiamento, de persistir no aplazamento.

A questão já não se coloca em termos de duração ou de desfecho, mas em termos de estrutura: que tempo é esse que se reproduz sem cessar, que não para, que tampouco avança, mas se dobra sobre si mesmo, reconduzindo a espera pela repetição de seus próprios sinais?

Nesse espaço saturado de vozes, em que a tagarelice não é um excesso, mas um componente do dispositivo, a pergunta permanece suspensa, circulando de frase em frase sem jamais se fixar.

Ela trata da possibilidade de um tempo em que algo poderia acontecer, não como projeção, mas como ruptura efetiva.

E num horizonte em que essa possibilidade já não pode ser tomada como garantida, o simples fato de pensá-la constitui por si só um gesto de deslocamento, uma tentativa, por mais frágil que seja, de sair da fila, ainda que apenas na e pela linguagem.

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